“Eis que eu vos envio como Ovelhas em meio aos Lobos” | Reflexão sobre Mt 10,16-23

Por Hermes Fernandes

Estamos na Sexta Feira da 14ª Semana do Tempo Comum. O Evangelho que a Liturgia de hoje nos oferece é Mt 10,16-23.

Continuamos com as orientações de Jesus para a missão. Nesta perícope, ficou bem gravada em nosso coração sua frase: “Eis que vos envio como ovelhas em meio aos lobos” (Mt 10,16). É perceptível o antagonismo proposto por Jesus. Ele, o Bom Pastor, e os lobos. O mundo, campo onde a semente do Evangelho deve ser plantada, pode ser cruel para com os evangelizadores e evangelizadoras. Os lobos são todos aqueles que perseguem quem anuncia o Reino de Deus. Os paradigmas propostos por Jesus são contrários aos propostos pelo mundo. Não entendamos o mundo de uma forma puritana, ou alienada. É a partir de um entendimento encarnado na realidade que as advertências de Jesus fazem real sentido. Enquanto o Messias é o Bom Pastor, os lobos são os vorazes devoradores da dignidade humana. Jesus propõe a vida plena para todos e todas, enquanto os lobos vorazes disseminam suas políticas e projetos de morte. Em Jesus temos acolhida, inclusão; enquanto os lobos vorazes devoram a integridade humana e o sonho por vida digna. Estes lobos são os que incentivam a busca incansável pelo lucro, produzindo exclusão e marginalização. São estes que, também, destroem a Casa Comum, nossa amada Mãe Terra, com os mais nefastos crimes ecológicos. Pelo bem do lucro, pela ambição; destroem a perspectiva de vida digna humana e do planeta Terra. Os lobos são inimigos de Deus, pois destroem seus filhos e filhas. Jesus, o Bom Pastor, é aquele que cuida das ovelhas. Que propõe novos paradigmas, nos quais, o amor, a dignidade, a justiça e a paz são pressupostos imprescindíveis. Os discípulos, enviados a anunciar o Reino de Deus, declaram-se inimigos do reino dos lobos vorazes. E, por isso, serão perseguidos.

A missão é perigosa e urgente. Os discípulos, agora enviados em nome de Jesus, correrão perigos. Para libertar o povo, Jesus teve que enfrentar todos aqueles que mantêm o povo dominado, explorado, enfraquecido e enganado. Por isso Jesus foi perseguido. Também foram os discípulos do primeiro século. Em nossos tempos, não poderá ser diferente. Ainda hoje, estamos diante dos mesmos desafios que tiveram Jesus e seus discípulos e discípulas. Os privilegiados de hoje, assim como os de antes, não querem que o povo seja liberto. Aos discípulos de antes e de hoje, fica a missão de anunciar a Palavra Libertadora de Jesus.

Até mesmo no meio religioso, há quem queira o Povo de Deus com os pés bem longe da realidade. Pregando um evangelho que entorpece tal qual ópio. São aqueles que insistem que a pregação da Igreja deve se preocupar com as coisas do céu e não com as questões da sociedade. Não são poucos os que disseminam uma religião abstraída da vida. Estes estão ao serviço dos lobos vorazes. Flertam com as políticas de morte. Participam como cúmplices das pedagogias de poder. São falsos profetas. A estes devemos ignorar, pois o Evangelho de Jesus é o anúncio da vida plena. Contrapõe-se às pedagogias de ódio, poder e exploração. Se a Igreja não se compromete com os pobres, com os problemas sociais e ecológicos, não está no caminho certo. O papa Francisco, em seu discurso na Bolívia em 2015, disse: “A casa comum está sendo saqueada e devastada impunemente. A covardia em defendê-la é pecado grave… Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra”. Também não podemos esquecer do célebre testemunho e martírio de Santo Oscar Romero. Antes de sua morte, por assassínio, disse: “Em um país de injustiças, se a Igreja não é perseguida, é porque é conivente”.

Por isso Jesus enviou seus discípulos, e também nos envia, como ovelhas em meio aos lobos. Porque esses ferem e matam. Pela injustiça, exploração e marginalização. E se a Igreja se cala diante de tais fatos, é cúmplice e não está ao serviço do Evangelho.

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