“Em vosso caminho, anunciai: O Reino dos Céus está próximo” | Reflexão sobre Mt 10,1-7

Por Hermes Fernandes

Estamos na Quarta Feira, da 14ª Semana do tempo Comum. O Evangelho que a Liturgia de hoje nos oferece é Mateus 10,1-7.

A seção do Evangelho de Mateus, a partir do capítulo 10, traz orientações de Jesus aos seus discípulos sobre a missão. Mt 10,1 diz: “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos maus e de curar todo tipo de doença e enfermidade”. O poder concedido aos discípulos para expulsar demônios e curar enfermidades traz a mesma dimensão dos sinais operados por Jesus. São sinais de sua messianidade. Das propostas do Reino de Deus por uma vida melhor para todos e todas. Não são manifestações exibicionistas. Nem os discípulos, ou mesmo Jesus, buscavam aplausos para si. A catequese de Mateus deseja iluminar nossos corações com a esperança e a certeza de que, em Jesus, novos céus e nova terra são possíveis. Alegria e paz, face a tanto sofrimento e tribulação. Expulsar os demônios não pode ser entendido literalmente como exorcismo. Curas, como sanar doenças. Vai muito além! Os demônios a serem expulsos são todos os males que afligem a humanidade. Tudo que aliena os homens e as mulheres de uma vida digna. As doenças a serem curadas são todos os motivos, pelos quais, homens e mulheres são relegados ao sofrimento e exclusão, como bem o vimos em reflexões anteriores.

Dos versículos 2 a 4, Mateus enumera os nomes dos discípulos de Jesus. Por que? Como quase toda lista de nomes ou genealogia na literatura bíblica, essa lista dos nomes dos apóstolos, vem nos significar a íntima relação dos homens e mulheres com Deus. O coração amoroso de Deus, e de seu Filho, nos conhece pelo nome (cf. Rm 8,28-30). Jesus mesmo disse, em certo momento, que seus discípulos e discípulas teriam seus nomes inscritos no céu (cf. Lc 10,20b). Portanto, ao enumerar os nomes dos discípulos, Mateus atesta a importância de todos e todas que atendem ao chamado de Jesus e se põem ao caminho, como evangelizadores.

Por fim, não podemos deixar de registrar o último versículo da perícope do Evangelho de hoje (v. 7): “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’!”. Anunciar o Reino é Evangelizar.

Em grego, (εὐάγγελος) a partir do Koiné, é uma palavra utilizada para resumir a expressão “quem anuncia boas notícias”: alguém ou aquilo que é “evangelizado” é, basicamente, alguém a quem ou o que “foi dado a conhecer”. Pode ser usado para anunciar um nascimento, o fim do sofrimento etc. Não tem, por si só, um significado religioso. No entanto, e apesar de ser quase um lugar-comum, foi esta a palavra escolhida pelos cristãos e cristãs para descrever o aspecto mais precioso da sua fé: o anúncio da ressurreição de Cristo. O que é interessante é que, gradualmente, a palavra perdeu o seu complemento. Não se dizia “dar a conhecer a alguém a ressurreição de Cristo” mas, simplesmente, “evangelizar alguém”. Além de ser para poupar tempo, o desaparecimento do complemento tem também um significado mais profundo.

Para os cristãos, proclamar a Boa Nova da ressurreição de Cristo não é falar de uma doutrina que deve ser decorada ou de qualquer aspecto sapiencial para ser meditado. Acima de qualquer outra coisa, evangelizar significa ser testemunha de uma transformação que ocorre dentro do ser humano: pela ressurreição de Cristo já se iniciou a nossa própria ressurreição. Ao mostrar um respeito infinito por todos aqueles com quem encontrou, ao assumir o lugar mais baixo para que, desse modo, ninguém pudesse estar abaixo dele (este é o significado do batismo de Jesus), ele devolveu valor e dignidade a cada pessoa. Mais do que isso, Jesus esteve conosco na morte para que nós possamos estar perto dele na sua comunhão com o Pai. Com esta “admirável permuta de dons” (conforme podemos verificar na Liturgia da Páscoa), descobrimos que somos plenamente aceitos em Deus, plenamente acolhidos por ele, tal como somos. Os cristãos dos primeiros séculos resumiram tudo isto dizendo: “Deus tornou-se homem para que o homem pudesse se tornar Deus!” (Didaké). É neste mistério que mergulhamos quando nos é anunciado o Reino de Deus e, de nossa parte, também nós, tomamos o compromisso de anunciá-lo. O Reino é o fim dos sofrimentos humanos, conforme os temos, e a inauguração de uma nova realidade, uma Boa Notícia, onde cada homem e cada mulher participa do sonho de Deus, isto é, a plenitude da Vida.

Com o anuncio do Reino de Deus, somos anunciados e anunciamos que nenhum sofrimento é infinito. Que a Casa de Deus nos abriga a todos. Onde a Justiça e a Paz deixam de ser utopia distante e se tornam realidade histórica. Ao enviar seus discípulos para anunciar o Reino de Deus, Jesus fez conhecer que se realizou a promessa de Javé, anunciada pelo Profeta Isaías:

“Ele julgará os fracos com justiça, dará sentenças retas aos pobres da terra. (…)  A justiça é a correia de sua cintura, é a fidelidade que lhe aperta os rins.

O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os guiará; pastarão juntos o urso e a vaca, e suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente. Ninguém agirá mal nem provocará destruição em meu monte santo, pois a terra estará cheia do conhecimento de Javé, como as águas enchem o mar.”
(Is, 11,4-9)

Neste sentido, evangelizar é mais do que contar os feitos de Jesus, ou repetir sua mensagem. É anunciar um novo tempo, uma nova proposta para a humanidade. Todo magistério de Jesus corrobora o Mistério Pascal inerente nele. O Reino de Deus que deve ser anunciado é uma mudança de paradigmas. Onde o amor seja mais forte que o ódio, a tristeza seja derrotada pela alegria, o desespero dê lugar à esperança, a Verdade supere toda mentira, a Vida vença a morte, assim como o Cristo a derrotou pela ressurreição. As periferias humanas serão todas convertidas em Casa de Deus, onde a dignidade, a inclusão e relações fraternas sejam vias sanativas pelo fim de toda pobreza, marginalização e exclusão.

Anunciemos, a plenos pulmões, que chegou um novo dia, o Reno de Deus! Em nossas vidas, em nossas comunidades, a Justiça e a Paz se abraçarão. Amém!

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