Compadeceu-se das multidões porque eram como Ovelhas sem Pastor | Reflexão sobre Mt 9,32-38

Por Hermes Fernandes

Nesta Terça Feira da 14ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos convida a refletir sobre o Evangelho de Mateus 9,32-38.

O Capítulo 9 de Mateus alterna exortações sobre como bem viver uma relação com Deus e com a comunidade, com a apresentação de sinais da messianidade de Jesus. É sempre na perspectiva de manifestação em atos da ação messiânica que devemos entender seus milagres. Não nos cansamos em dizer que Jesus não é um curandeiro, ou um taumaturgo. É o Messias que, pelo poder com que foi revestido pelo Pai, restaura a saúde e a dignidade dos sofredores. Aqui nos fica uma segunda via pela qual podemos entender os milagres: a restauração da dignidade humana. Os aleijados e doentes, pela teologia judaica, eram excluídos do convívio na religião e na sociedade. Os doentes eram vistos como sinal de maldição, pois o judaísmo entendia que o sofrimento físico era resultado do pecado. Além: ainda temos algumas doenças que relegavam pessoas ao interdito de convivência. O caso da mulher doente por uma hemorragia que já durava 12 anos é um claro exemplo. Neste mesmo grupo de excluídos, podemos encontrar os leprosos. Além do sofrimento físico, essas pessoas, sequer, poderiam conviver socialmente. Eram impuros. Neste sentido, as curas narradas por Mateus no capítulo 9 corroboram a messianidade de Jesus. Ele, o Filho do Pai Misericordioso, emanava de si a misericórdia, a restauração da dignidade e devolvia a paz.

Os versículos de 32 a 38 do capítulo 9 que nos são apresentados hoje, concluem a apresentação da messianidade de Jesus em palavras e atos (Mt 4,25 a 9,34). A narrativa trazida aqui por Mateus será retomada e reproduzida em 12,22-24. Os Fariseus tentam embotar a ação messiânica de Jesus, acusando-o de ter seu poder a partir do próprio maligno. Como fazer o bem usando das forças do mal? Contradição absurda! Não poderia ser diferente vindo daqueles que conspiram em favor dos projetos de morte e das pedagogias de manutenção do poder.

Dando continuidade à sua narrativa, Mateus no v. 35, apresenta um sumário das atividades de Jesus, no desejo de inaugurar uma nova seção em seu relato. No capítulo 10, o Evangelho de Mateus entrará nas instruções missionárias. Por isso, os versículos que tencionam concluir o capítulo 9 apresentam uma espécie de revisão de intenções. À guisa de conclusão deste capítulo, Mateus apresenta a mistagogia do ministério messiânico. Em meio a fatos e ensinamentos, a dimensão da misericórdia inerente ao coração misericordioso do Cristo, recebe trato especial, quase que poético. “Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando todo o tipo de doença e enfermidade. Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,35-36).

Ao leitor do Evangelho de hoje fica a necessidade de deixar fecundar a semente destas palavras. No contexto dos Evangelhos, a figura do Pastor remetia-se à imagem daquele que se dispõe ao cuidado. Tal zelo é compromisso sério. A teologia joanina nos diz que o pastor é capaz de dar sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10,11). É sob essa ótica que precisamos beber da sabedoria evangélica que a Liturgia de hoje nos oferece. O Evangelista Mateus antagoniza as acusações dos Fariseus com os sentimentos e ações de Jesus. Aquele que sente misericórdia face às enfermidades do povo (v. 35), que tem compaixão das multidões, pois eram como que ovelhas sem pastor (v. 36); não pode estar ao serviço do maligno. É com o silêncio verbal de Jesus, mas com atitudes e sentimentos genuinamente soterológicos, que Mateus corrobora – como que em xeque-mate – a única conclusão possível sobre a identidade de Jesus. Ele é o Filho do Deus Vivo, do Pai Misericordioso. Portanto, a missão de Jesus é resgate. Trazer para si, para seu amoroso coração, todos que estavam perdidos, cansados, sofridos, marginalizados, excluídos (cf. Mt 15,26; 10,6; Lc 19,10; Mc 6,34).

A mensagem de Jesus se faz carne na vida e ação de seus discípulos e discípulas. Após sua ascensão, por ação do Espírito Santo que anima a Igreja, a comunidade dos seguidores e seguidoras do Messias de Nazaré, dará continuidade à missão do anúncio da Boa Nova e da restauração da dignidade humana, pelas propostas do Reino de Deus. A continuidade deste mister é um imperativo. O Evangelho deve construir uma nova sociedade. Mais humana e fraterna, conforme o coração de Jesus, Bom Pastor. É neste sentido que Jesus exorta à perseverança e à oração pelos que darão continuidade ao anúncio e à instauração do Reino de Deus. “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” (Mt 9,37-38).

Em nossas vidas, esta palavra de Jesus deve ecoar fundo. Somos esses operários, por quem Jesus clama. Precisamos compreender que somos nós os operários da messe. Jesus conta conosco! Neste sentido, devemos evangelizar, fazendo do sonho de Deus para seus filhos e filhas o nosso. No seguimento de Jesus Cristo e em comunhão fraterna com toda a Igreja, nossa missão é viver e anunciar a Boa Nova do Evangelho com alegria, jeito humilde e paixão: acolhendo o Reino de Deus e contribuindo em sua construção já aqui na Terra, na esperança do Reino Definitivo.

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