Jesus restaura a Vida e a Dignidade | Reflexão sobre Mt 9,18-26

Por Hermes Fernandes

Nesta Segunda Feira da 14ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Mt 9,18-26. Dois acontecimentos se entrelaçam na perícope evangélica de hoje. Nestes, Jesus restaura a dignidade e a vida.

No primeiro versículo (9,18), um chefe – alguém importante conforme nos informa o evangelista – se aproxima de Jesus e pede socorro. Sua família estava profundamente atribulada. A filha do personagem que interpela Jesus acabara de morrer. A fé deste homem é tratada de forma marcante pelo relato evangélico: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe tua mão sobre ela e ela viverá” (9,18b). Aqui cabe marcar em nossos corações a certeza de que a fé deste homem é mais forte que a morte. Por isso, a resposta de Jesus não poderia ser diferente. Não teve palavras, mas atitude. “Jesus levantou-se e o seguiu, junto com os seus discípulos” (9,19)

No versículo 20 em diante, uma outra cena se mostra no cenário do relato de hoje. Uma mulher que sofria de uma hemorragia constante se aproxima de Jesus (Mt 9,20-22). Mesmo comentando o relato sinótico paralelo em Marcos (Mc 5,24-34), Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1], célebre biblista a quem muito estimamos, nos ensina o forte sentido deste acontecimento. Assim disse Frei Jacir: “A caminho de sua casa (da casa do pai da menina morta), ocorre outra cena inusitada: uma mulher enferma de hemorragia, sangue que saía constantemente de seu corpo, encontra a cura ao tocar, com fé, a roupa de Jesus, no meio de muita aglomeração. A perda de sangue estava ligada à morte, fonte de impureza sacerdotal. Sangue menstrual era o sangue da morte.

Portanto, essa mulher era impura duas vezes, por ser mulher e estar doente. Ela conhecia a lei judaica que rezava que a impureza dela passava para quem ela tocasse (Lv 15,27). Jesus estava em perigo e ela podia ser reconhecida e apedrejada por tal atitude.

Jesus, o puro, que havia tocado um impuro leproso (Mc 2,40-45) para curá-lo, agora, corria o risco de ser contaminado. Na visão judaica daquela época, Deus era puríssimo e não suportava impurezas. Deus punia com morte os impuros. Contrário a essa visão, Jesus, por ser Deus, sente que foi tocado e pergunta por quem o fizera. A mulher sem nome não tem medo da aplicação da Lei. Num gesto de fé, ela se dá a conhecer publicamente ao prostrar-se aos pés de Jesus (…). A fé salva e nos devolve a paz.”[2] Claro está que a fé dessa mulher, sofredora de doença e discriminação que resulta em morte, foi um ato de confiança na misericórdia. A atitude de Jesus é duplamente marcante: liberta do mal físico e restaura a dignidade humana. Obrigado, Frei Jacir, por seus ensinamentos!

Em um terceiro bloco (Mt 9,23-26), a narrativa se conclui. Em oposição ao pranto, resultante da constatação de que a menina morrera, diante dos tocadores de flauta, dos que pranteavam a dor e o luto, Jesus instaura a esperança. “Retirai-vos, porque a menina não morreu, mas está dormindo” (Mt 9,24). O resultado não poderia ser diferente. Foi rechaçado. A reposta à messianidade que instaura a vida e restaura a dignidade, é o deboche dos descrentes. Jesus sequer se manifesta diante de tal afronta. Sua misericórdia e amor à humanidade é superior a qualquer mágoa. A menina volta à vida. Com ela, a alegria e a esperança, inerentes ao projeto do Reino de Deus.

A mensagem do Evangelho de hoje instaura em nós duas vias de esperança. Ambas passam pela certeza de que Jesus restaura todas as coisas com a proposta do Reino. No Reino de Deus, nenhuma tristeza é aceita de forma passiva. Jesus é transformação. Transforma em vida, a morte. Em dignidade, a exclusão. A mulher doente de hemorragia nos é o sinal de como pode a dignidade ser restaurada em qualquer situação. Jesus é sinal de esperança e restauração. Há doze anos essa mulher sofria de doença e exclusão social. Jesus devolve a saúde e a dignidade.

Na situação da menina recém falecida, a morte não foi o fim. A esperança vence a morte.

Trazendo os acontecimentos narrados pelo Evangelho de hoje para nossa vida, fica-nos a certeza de que crer em Jesus é vencer a morte e a indignidade. Neste sentido, nós – seguidores e seguidoras de Jesus – devemos sempre optar pela vida. E toda dignidade com a qual esta deve ser revestida. O discípulo e discípula de Jesus, deve sempre ir em direção aos que estão em situação de sofrimento. A disposição de Jesus em restaurar a vida da menina e curar a mulher que sofria de hemorragia e, com isso, restaurar sua dignidade; deve ser a nossa. Nenhuma distância – geográfica ou social – pode ser empecilho para nossa disposição em restaurar vidas. Na atual conjuntura em que vivemos, a vida se faz ameaçada. A sociedade está doente. Contaminada por políticas de morte, pelas pedagogias de ódio. Pelo descaso pela vida, sobretudo, dos pequenos e fracos. Devemos ser instrumentos de cura. Da morte existencial e da dignidade.

***

[1] Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze.
[2] Para ler a reflexão de Frei Jacir de Freitas Faria, OFM na íntegra clique em www.ocaminheirodoreino.com ou www.bibliaeapocrifos.com.br

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