Solenidade de São Pedro e São Paulo | Reflexão sobre Mt 16,13-19

Por Hermes Fernandes


Neste Domingo, a Liturgia nos oferece a oportunidade de celebrar a vida e o ministério de dois pilares da fé cristã: São Pedro e São Paulo. A perícope evangélica proposta na celebração de hoje é Mt 16,13-19.

O Evangelho de hoje nos mostra Jesus atuando nas periferias da Galileia, perto do rio Jordão, em Cesareia de Filipe, cidade construída por Herodes em honra ao imperador César Augusto. O texto nos exorta a seguir Jesus, o Messias, Filho de Deus. Diante dos questionamentos da época acerca de que autoridade seguir, de quem é que daria segurança ao povo, Pedro tem clareza profunda de que somente Jesus pode apontar caminhos de vida. Somente ele tem a capacidade de organizar ao redor de si uma comunidade de fé, formada por discípulos que vivem a fraternidade e a solidariedade e estão abertos para acolher a salvação que Jesus oferece a todos.

A teóloga e biblista Ir. Isabel Patuzzo, em profícua reflexão, nos explica que o texto de Mateus proposto na Liturgia de hoje apresenta duas partes importantes: a primeira situa a atuação de Jesus em determinado contexto histórico e geográfico, centrando-se na sua identidade; a segunda tem um caráter mais eclesial, centrando-se na Igreja, particularmente na figura de Pedro. A passagem une a pergunta de Jesus e a resposta de Pedro, revelando que Jesus é, de fato, o Messias. Ele atravessa a região de Cesareia de Filipe, localizada ao norte da Galileia, uma região pagã. Esse episódio ocupa lugar central no Evangelho segundo Mateus, uma vez que, com ele, o relato começa a indicar que Jesus passará por morte de cruz. A oposição das autoridades judaicas à sua atuação já é cheia de intolerância.

A primeira pergunta de Jesus refere-se ao consenso popular acerca de sua identidade. A resposta dos discípulos indica que há especulações sobre expectativas messiânicas a seu respeito. O próprio Herodes Antipas havia identificado Jesus como novo João Batista. Outros o identificam como um profeta que voltou, como Elias ou Jeremias, pois não entenderam que ele é alguém que, em suas palavras e ensinamentos, supera todas as figuras importantes do Primeiro Testamento.

A segunda pergunta é dirigida ao grupo dos discípulos, e Pedro toma a palavra, confessando que Jesus é mais que um profeta: é o Messias que esperavam. A resposta de Jesus a Pedro é uma bem-aventurança, pois, em meio à confusão popular, o apóstolo não tem dúvidas a respeito da identidade de Jesus. Devido à sua clareza de fé, Jesus constitui Pedro uma autoridade na Igreja. No entanto, a resposta do apóstolo não vem de uma sabedoria pessoal, mas por revelação divina.

Diante da confissão de Pedro, que o proclama Messias em nome da comunidade, Jesus lhe entrega nova missão. Confia-lhe um papel de liderança em relação aos demais: tal responsabilidade consiste em cuidar da Igreja, o que não é privilégio, mas tarefa. Jesus promete que o mal não irá triunfar sobre a comunidade de fé. Segundo o relato de Mateus, Pedro é modelo de discípulo; nele está representada a comunidade que segue Jesus e o proclama Senhor e Messias. Nela Pedro foi figura muito lembrada, pelo seu testemunho de fé cristã. Ele foi aquele que também se pôs à frente nos momentos de hostilidade e perseguição, encorajando os irmãos e irmãs a perseverar.

Também nós somos questionados hoje a responder: quem é Jesus para nós? Quem ele é para a multidão comum? Somos capazes de dar uma resposta diferente da maioria das pessoas que vivem fora da comunidade de fé?

Para muitos de seu tempo, Jesus era apenas um homem bom e generoso que foi sensível aos sofrimentos de seus contemporâneos. Outros o consideravam um mestre que ensinava com sabedoria, mas não conseguiram ver nele o Messias, Filho de Deus. Somos convidados a ir além em nossa resposta de fé. Para nós, seus discípulos e discípulas, ele é o Senhor que transformou nossa vida. O que é ser Igreja? Comunidade do Senhor? Que lugar ele ocupa em nossa caminhada de fé? A comunidade dos discípulos de Jesus é chamada a se organizar e se estruturar para desempenhar um papel de autoridade a serviço da vida, a exemplo de Jesus, o Messias, Filho de Deus. Sobretudo, é uma autoridade que deve procurar discernir, em cada momento, as propostas de Cristo e a interpelação que ele lança aos discípulos e a todas as pessoas.

A profissão de fé de Pedro referencia a nossa de cada dia. Reconhecer com ele que Jesus é o Messias, Filho do Deus Vivo, nos impele a um real compromisso com a messianidade de Jesus e as propostas do Reino de Deus. Optando pelos valores do Messias e de seu Reino, nos tornamos automaticamente opositores dos reinos de morte, pois – sendo Jesus o Filho do Deus Vivo – é pela vida que devemos optar. Sempre.

Neste sentido, em nossa vida cristã, não pode haver posturas ou compromissos que flertem com os que defendem a morte. Não podemos seguir aos falsos messias de nosso tempo, que apregoam pedagogias de ódio e ameaçam a vida. O seguidor e a seguidora de Jesus deve sempre estar comprometido com os valores do Reino. Para tanto, deve optar pela inclusão, pela justiça social, pelos Direitos Humanos, pela preservação da Terra – enquanto casa mãe de todos e todas -, pelo Bem Comum, reflexo do Sumo Bem, Deus – nosso Pai. Ser Igreja, continuadora da caminhada dos Apóstolos, é estar a serviço do amor, que constrói a justiça e a paz.

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