A boa-nova universal da salvação: estudo bíblico-catequético a partir de At 10,1–11,18

Por Solange Maria do Carmo

O episódio de Cornélio ocupa lugar de destaque no livro dos Atos dos Apóstolos. O redator lhe deu significado ímpar, singular. Isso não é difícil de perceber, uma vez que o texto está propositalmente colocado numa posição de destaque, praticamente no meio do conjunto da obra.

Está claro que, aos olhos de Lucas, a conversão do centurião Cornélio, dado o realce com que o conta (10,1–11,18), não é um fato isolado, mas sim um fato de alcance universal, intimamente ligado à entrada dos gentios na Igreja, como se afirmará de modo explícito no Concílio de Jerusalém (cf. 15,7.14)[1].

Não é difícil perceber que esse texto é um divisor de águas do livro dos Atos dos Apóstolos: prepara para a grande missão de Paulo na reunião de Jerusalém. Fica nítida essa intenção lucana: antes da reunião, atos de Pedro; depois, atos de Paulo. Lucas mostra que Pedro abriu as portas para Paulo e legitimou sua evangelização junto aos gentios. Paulo tem razão na fundação de comunidades mistas. Nelas, judeus e pagãos comem juntos o mesmo pão e partilham a mesma fé em Cristo. Pedro e Paulo estão de acordo na obra missionária. Não há divisão entre eles. A Palavra de Deus, que age por meio de ambos, prossegue firme sua trajetória, conquistando os corações para o Ressuscitado.

Além da quase-centralidade do texto (que prepara At 13–15), a extensão da perícope fala muito. São dedicados a este episódio sessenta e seis versículos (setenta e três se forem contadas também as referências no discurso de Jerusalém em At 15,7-9.14-18): um número bem maior que o dedicado ao relato de Pentecostes (quarenta e um versículos) e ao da conversão de Paulo (cinquenta e oito versículos). Do ponto de vista da extensão da narrativa, este relato ultrapassa em relevância todos os outros descritos em Atos, lembrando ainda outro dado fundamental: “A importância da história de Cornélio na economia do livro dos Atos (10,1–11,18) se revela pela extensão que Lucas lhe concede e pela relação estreita a uni-la ao Concílio de Jerusalém”[2].

Tamanha é a importância que Lucas dá ao texto que ele consegue, deliberadamente, fazer de Cornélio o primeiro gentio recebido na comunidade. Sacrificou, com isso, o eunuco, batizado por Felipe (cf. At 8,26-40). Este não recebe realce. Tem características mais de prosélito que de pagão: vai a Jerusalém adorar, lê o profeta Isaías. De qualquer modo, Lucas deixa a abertura aos pagãos para Pedro. É em Pedro que recai a responsabilidade da iniciativa de introduzir os pagãos na Igreja. E isto se dá no episódio de Cornélio. É bem verdade que esta abertura já havia sido sinalizada também em Samaria (cf. At 8,4-25), mas os samaritanos, ainda que inimigos dos judeus, têm laços estreitos com eles devido às suas origens, e, além disso, vangloriam-se de serem seguidores de Moisés. Neste relato da conversão de Cornélio, porém; abre-se “uma nova fase na história da Igreja, de amplitude muito mais universal. Judeus e gentios, sem necessidade da circuncisão, podem sentar-se na mesma mesa e participar juntos das bênçãos messiânicas. Cornélio será o ponto de partida”[3].

Composição do texto

O relato de Pedro na casa de Cornélio é uma obra tecida com extremo cuidado. Mostra a habilidade literária de Lucas, que é exímio narrador, apresentando Jesus de acordo com as necessidades de sua comunidade.

O relato lucano encontrado em At 10,1–11,18 traz uma marca de seu autor: a alternância de relatos e discursos.

Os discursos constituem um artifício literário por meio do qual o autor manifesta suas ideias, desenvolve seu ensinamento, fortalece a fé do leitor. Distribuídos harmonicamente no texto, representam um momento de pausa e de reflexão no desenvolvimento dos acontecimentos, ajudando o leitor a aprofundar o conteúdo das partes narrativas[4] .

O texto é um relato com quadros vivos que facilmente se fixam na memória do leitor. Uma narrativa é magistralmente montada com epifanias – em que um anjo do Senhor, uma voz vinda do céu e o Espírito atuam abundantemente, mostrando que Deus irrompe na história, tomando a iniciativa do processo de acolhida dos pagãos –, com encontros inusitados – em que pagãos e gentios vão ao encontro um do outro –, com relatos de acontecimentos – em que os expositores sintetizam a ação de Deus –, e com discursos teológicos elaborados. Cada parte tem sua função e seu lugar no conjunto da narrativa.

Não há indícios de historicidade. Tudo indica que o texto foi literariamente construído por Lucas com a intenção de legitimar a ação evangelizadora de Paulo entre os gentios (a recepção dos pagãos na Igreja e a convivência com eles: participação na mesma mesa), que vai ser tema da reunião de Jerusalém (At 15). É notável a semelhança entre o discurso presente em At 10,34-43 e os demais discursos de Atos, o que confirma ainda mais a tese de que o texto é uma elaboração caprichosa de Lucas. O traço redacional do autor transparece claramente em toda a narrativa.

A origem do texto vem, provavelmente, de duas tradições separadas. No começo, pode ter havido uma lenda sobre a conversão de um centurião romano qualquer, chamado Cornélio, pagão piedoso, provavelmente um temente a Deus, que é aceito na comunidade por força do Espírito. Um caso isolado, sem maiores consequências. Esta narrativa não incluía obrigatoriamente a visão dos animais impuros.

Paralelamente, havia a convicção de que a conversão e a recepção dos pagãos na Igreja eram obra do Espírito (cf. Felipe com o eunuco), mas estes temas ainda não estavam atrelados à questão dos animais impuros. Mais tarde, a problemática dos animais impuros é incorporada à tradição para justificar a convivência de judeus e gentios na mesma mesa.

A origem das duas narrativas seria uma coleção de ditos e fatos sobre Pedro. Passa-se daí para uma etiologia atribuída a Pedro, até chegar ao texto final, com traços claramente lucanos.

Dos relatos iniciais, Lucas compõe sua obra, mostrando seu interesse teológico. Assim, a forma atual do relato é vista como legítima, inteira, completa, sem necessidade de maiores preocupações com as diversas camadas que o compõem.

Quando sabemos que o texto não é um mosaico casual, mas provém das mãos de Lucas que lhe deu o seu léxico, lhe imprimiu seu estilo e a expressão de suas ideias, a riqueza da coerência literária e temática da forma atual se torna legítima[5].

Lucas, com seu trabalho redacional, costurou textos e informações com seu estilo próprio, a tal ponto que estes textos parecem ser notas redigidas por ele com sua linguagem característica. Esse modo lucano de escrever pode ser visto também no seu Evangelho, que tem pelo menos duas fontes – Marcos e Q. Lucas se mostra, mais uma vez, um historiador ao modo de seu tempo. Segundo Luciano de Samósata – escritor do século II – um bom historiador deve reunir a documentação e tomar notas, mas sem grandes preocupações com a maneira de ordenar este material. Esta preocupação é posterior, quando se vai zelar pela unidade da narrativa e pela qualidade de seu estilo.

Tecendo a trama de sua literatura, Lucas revestiu de adornos relatos antigos sobre a conversão de um gentio e sobre a convicção da entrada dos pagãos na comunidade, tornando esse episódio uma obra do Espírito, com significado inovador. Assim,

o relato serve agora para ilustrar uma tese teológica, isto é, em consequência de uma manifestação expressa da vontade divina, e não por iniciativa humana, os gentios foram recebidos na Igreja sem serem submetidos às prescrições da lei judaica. O caso de Cornélio, puramente individual, adquire assim um alcance universal[6].

Deste modo, unindo, com fins teológicos, dois relatos distintos, Lucas provoca uma revolução religiosa: por meio de atos de Pedro, “legitimou a recepção de pagãos na Igreja nascente e impôs a convivência com eles e a participação de todos na mesma mesa, sobretudo na Eucaristia”[7].

Recursos literários

Para melhor compreensão de sua mensagem, Lucas usa diversos recursos interessantes. Estes estão presentes em seus escritos, ou em um deles, de forma macro visível. Nas perícopes, eles são minimizados, mas continuam ali, anunciando a presença do escritor.

primeiro recurso não é estranho a Lucas. Vez por outra, ele aparece em seus escritos. Lucas faz um relato ordenado e sucessivo em fase distinta. É a “assincronia de episódios sincrônicos”[8]. Os fatos estão acontecendo ao mesmo tempo, mas Lucas relata-os um após o outro, dando a cada um deles um tempo especial. É o caso da atividade missionária de Pedro e Paulo, que se desenvolve nos mesmos anos, mas a de Paulo só é narrada depois de Pedro sair de cena. Quem conhece minimamente o Evangelho lucano percebe isso no relato da missão de João Batista e de Jesus. Lá também, Jesus só entra em cena depois que João foi decapitado e saiu definitivamente do cenário da pregação.

Na narrativa de Cornélio e Pedro, essa técnica pode ser percebida, mas com uma particularidade. Lucas intercala relatos que envolvem Cornélio ou Pedro, cada um por sua vez, mas entrelaçando-os com um fio narrativo sincrônico, que dá ao episódio uma tessitura bem confeccionada, revelada definitivamente na trama final.

segundo recurso é a alternância de relatos e discursos. Todo o livro dos Atos está marcado por essa alternância. São duas formas literárias distintas, mas bem conhecidas das composições históricas. Por meio dos relatos, Lucas apresenta o fio condutor do seu livro; com os discursos, faz entender seu pensamento teológico. Casalegno afirma que “os discursos constituem um artifício literário por meio do qual o autor manifesta suas ideias, desenvolve seu ensinamento, fortalece a fé do leitor”[9]. Lucas conta um episódio e, logo em seguida, reforça o tema central com o discurso que põe na boca do personagem principal.

No caso da perícope estudada, esta alternância não se dá necessariamente só com discursos, mas também com pequenos resumos do episódio relatado anteriormente. Cada cena é de novo recontada pelos personagens: Pedro, Cornélio, seus enviados, etc. São mini-discursos narrativos[10], usados para “amarrar a história”, concatenar os dados, fixar o conteúdo. É importante perceber que Lucas não acumula cenas soltas: concatena-as de forma lógica, interpreta-as, dando-lhes novos significados, compondo, ao final, uma história ordenada e coesa, sem entraves que pudessem impedir sua fluidez.

terceiro recurso são as interrupções intencionais, que deixam sempre algo em suspense, motivando o leitor a ir um pouco mais além, no desejo de ver solucionada a questão que ficou pendente. “Uma cena fica suspensa ou põe um problema que só será resolvido na cena seguinte[11]”. Isto pode ser observado quando, em At 8,4, Lucas afirma que os cristãos se dispersaram, exceto os apóstolos. Mais à frente, ele retoma o texto (cf. At 11,19) dizendo que aqueles que haviam se dispersado avançaram até diversas cidades, uma delas Antioquia, onde vai ser fundada uma importante comunidade. Este recurso é percebido também no episódio de Cornélio, que fica em suspenso ao seu final. O evento será retomado no Concílio de Jerusalém (cf. At 15,8).

Na perícope estudada, este recurso reaparece. O que era macro no conjunto do livro torna-se um micro recurso, um detalhe – um zoom em menor escala – que pode ser percebido no texto. Cada cena que se desenrola parece um capítulo de novela. Deixa algo para o próximo capítulo. Estimula a curiosidade do leitor, intriga-o com uma cena incompleta que pede necessariamente outra. É a arte do bom escritor que não deixa que o leitor lhe escape por falta de interesse em sua obra.

O discurso de Pedro na casa de Cornélio: At 10,34-43

A perícope de Pedro na casa de Cornélio tem duplo objetivo: descrever a evangelização dos primeiros pagãos, na dinâmica da difusão universal da Palavra, por meio do testemunho de Pedro, e demonstrar que os obstáculos que estavam no caminho da missão dos gentios e de sua integração plena na Igreja foram eliminados; logo, nada mais impede o sadio convívio entre os cristãos de origem judaica e os de origem gentílica.

Por causa deste duplo objetivo, o discurso de Pedro na casa de Cornélio aparece no conjunto da perícope como o foco das atenções. Não é à toa que ele é a parte mais estudada do texto. É por meio dele que Lucas pretende convencer o leitor. Por isso, já começa nos versículos 34-35 afirmando que Deus não faz acepção de pessoas, ao contrário, a salvação que ele oferece é para todos, qualquer que seja a nação a que pertençam.

É bom observar a posição do discurso no todo da perícope.

a) Visão de Cornélio em Cesareia: At 10,1-8

Logo de começo, um fato surpreende o leitor. Deus aparece primeiro a Cornélio, só depois a Pedro. Cornélio – um pagão – é o personagem principal da cena, “o primeiro destinatário da revelação divina”[12].

Alguns códigos importantes são apresentados sobre ele: Quem era esse homem? Onde vivia? Quais suas relações sociais, políticas, etc? Quais os seus laços com o judaísmo? Como era sua relação e de sua casa com Deus?

É uma característica lucana introduzir seus personagens, dando algumas informações importantes sobre eles. Isto está presente no seu Evangelho e continua em Atos (cf. Lc 19,2; At 13,6; 19,24; 27,1 – ocupação; At 9,33 – estado físico; At 16,1; 18,2 – origem, localização: Lc 2,25; At 18,7 – piedade). Apesar de esta ser uma característica de Lucas, nenhum dos personagens citados acima é descrito com a riqueza dos elementos presentes na apresentação de Cornélio, conforme segue abaixo:

  • Cesareia: este é o lugar onde ele reside. É a segunda cidade mais importante da Palestina para Lucas (aparece 15 vezes nos Atos); considerada “cidade dos gentios”, logo, um ambiente “geograficamente” e etnicamente estranho ao judaísmo.
  • Cornélio: este é seu nome. Dois outros centuriões foram lembrados no Evangelho de Lucas, mas seus nomes não são referidos (cf. Lc 7, 1-10; 23,47). Em Atos, Lucas se lembrou do “tribuno” Cláudio Lísias (cf. At 23,26; 24,22). Nomear é tirar do anonimato, criar familiaridade, tornar próximo.
  • Piedade de Cornélio: ele é religioso e temente a Deus. Ao contrário da impiedade dos pagãos, Cornélio é reto diante de Deus e dos homens, contradizendo a primeira ideia que se tinha dos gentios.
  • Sua casa: mulher, filhos, escravos, livres. Sua fé é difusiva: estende-se a todos os da sua casa, que também seguem sua devoção e piedade. A comunidade doméstica de Cornélio mostra que o que se dá com ele não é história de um homem só, mas de um grupo.

Características religiosas: piedoso, temente a Deus, dava esmolas, fazia orações. Cornélio é apresentado de forma positiva, com palavras elogiosas, ressaltando sua fisionomia espiritual, por meio de quatro características morais e religiosas. “Era um gentio que simpatizava com a religião judaica, mas que não aceita a circuncisão e a conseqüente obrigação da lei”[13]. Temia a Deus, fazia orações, dava esmolas, etc.

Deus escolhe Cornélio para indicar-lhe o caminho da salvação e, por isso, quando este orava, o anjo do Senhor lhe aparece. Lucas segue o esquema de aparições: entrada do mensageiro de Deus, saudação-convite-resposta-mensagem, desaparecimento da visão. É importante notar que, antes mesmo que Pedro se meta em casa de incircuncisos, o anjo de Deus já se pôs no meio deles, quando veio até Cornélio. Isso já indica que para Deus não existe esta separação entre judeus e pagãos. O anjo de Deus entra em contato com um pagão, contrariando o costume separatista. Deus viola a lei judaica.

No diálogo do anjo com Cornélio, este é chamado pelo nome próprio, assim como Saulo (cf. At 9,4) e o judeu-cristão Ananias (cf. At 9,10). Deus conhece Cornélio. O centurião reage com surpresa, afinal é inaudito que o anjo do Senhor venha até um pagão, mas, em 10,4, ele reconhece logo que é o Senhor (kúrie).

O ponto central é a mensagem ou ordem divina. Cornélio deve enviar mensageiros para trazer Pedro à sua casa, ainda que nenhuma explicação lhe tenha sido dada sobre o objetivo desta visita. Mesmo ignorando esse detalhe fundamental, Cornélio obedece prontamente a Deus e envia mensageiros atrás de Pedro.

Já na primeira cena, fica eliminada a imagem negativa que os judeus tinham dos pagãos. Nem todos os incircuncisos são idólatras e perversos. Lucas quer equiparar circuncisos e incircuncisos.

b) Visão de Pedro em Jope: At 10,9-16

Uma nova intervenção divina se dá. Agora, o destinatário da mensagem de Deus é Pedro, que está em Jope, mais ou menos a cinquenta quilômetros de Cesareia. Lucas amarra uma cena à outra com traços cronológicos e espaciais: no dia seguinte… enquanto se aproximavam da cidade. A hora, o lugar da visão, o motivo de subir ao terraço (oração) fazem a ambientação da visão (que, num primeiro momento, é chamada de êxtase). Pedro também estava rezando, por volta do meio-dia, quando Deus se manifesta. Não fora um sonho. Era dia pleno: hora da clareza total.

Pedro sobe ao terraço para rezar[14] e tem fome. O texto realça que ele quis comer e, enquanto preparavam o alimento, teve um êxtase. Tudo ajuda a criar a cena, no intuito de mostrar que a ordem que Pedro recebe de matar e comer era bem oportuna.

Pedro vê o céu aberto e a toalha com animais puros e impuros. Este é o pano de fundo da mensagem de Deus. O céu aberto indica revelação divina (cf. Lc 3,21 – batismo de Jesus; At 7,56 – martírio de Estevão). Vale lembrar que a visão de Pedro tem muitos elementos em comum com o batismo de Jesus: a oração, o céu aberto, um elemento visível, a voz. Cada um destes eventos indica o início de uma nova atividade. No batismo, tem início a vida pública de Jesus: Deus anuncia que Jesus é seu filho amado, em quem põe todo seu agrado. Na visão de Pedro, tem início a missão universal: Deus declara a superação da lei puro-impuro, que impedia a missão aos pagãos.

Quanto aos animais da toalha, a lista lembra a tradição legal. Assemelha-se a Gn 1,24 (sexto dia da criação: quadrúpedes, répteis, feras), complementado por Gn 1,20-22 (segundo dia da criação: aves)[15]. Lembra também a tradição narrativa da arca de Noé que abrigou animais puros e impuros (cf. Gn 6–9). O relato da arca, porém, não traz listas, o que faz pensar um conhecimento prévio de Lv 11 e Dt 14. Esta semelhança com a narrativa da arca apresenta dados interessantes: a toalha (que é um hapax do NT) era também a vela dos navios; a ordem dada a Pedro lembra a frase dita a Noé sobre seus alimentos em Gn 9,3; e, além disso, a aliança universal de Deus com Noé, abrigado na arca, faz pensar a humanidade nova (judeus e pagãos), abrigada na toalha da Igreja nascente.

À ordem divina, Pedro reage bem diferente de Cornélio. Não obedece; ao contrário, protesta veementemente. “Pedro recusa-se a comer tais alimentos, como se não conhecesse a tradição de Jesus conservada em Mc 7,17-23, que declara puros todos os alimentos. Pedro reage como um judeu de estrita observância”[16]. A docilidade de Cornélio fica realçada diante da obstinação de Pedro. Não é Cornélio quem deve se converter, mas Pedro, que tem dificuldades para obedecer ao Senhor.

O protesto de Pedro faz pensar um conhecimento prévio das leis mosaicas descritas em Lv 11 e Dt 14. Todo judeu conhecia essas prescrições e abominava a ideia de se tornar impuro. Gesto louvável e conhecido por todos era o de Eleazar e dos sete irmãos Macabeus, que preferiram morrer a desobedecer a lei mosaica (cf. 2Mc 6,18–7,42). Além do problema da impureza, outra questão se impõe: para comer a carne, Pedro devia matar os animais como mandava o ritual judaico. Porém, em caso de fome, uma exceção era prevista (cf. Dt 12,15-27). Lucas parece ter em mente este texto, o que coloca seu relato em comunhão com a tradição religiosa e com o costume do povo.

À reação de recusa de Pedro – que lembra o protesto de Ezequiel (cf. Ez 4,14) –, a voz lembra que ele não deve chamar de impuro o que Deus já purificou. Deus é a última instância; ele é o argumento mais forte. Objetivamente, não há puro e impuro; subjetivamente, Pedro ainda faz um juízo. Pedro é convidado a sintonizar a lei judaica à nova situação que se apresenta. O que é proposto a Pedro na visão serve de parábola para convidá-lo a superar algo ainda mais decisivo O tabu alimentar é sinal do tabu social e cultual que impede o judeu de entrar em contato com os pagãos.

c) Encontro de Pedro com os enviados de Cornélio: At 10,17-23a

A chegada da delegação de Cornélio parece se dar enquanto Pedro ainda está matutando o significado da visão que acabara de ter. Com detalhes como este, Lucas mostra a sincronia dos fatos, que tem Deus como único mentor. Mas, se para Cornélio a visão é clara, apesar de a manifestação ser à noite, para Pedro a visão é obscura, mesmo sua manifestação tendo sido em pleno dia. Pedro fica embaraçado, desconcertado diante de ordem tão inusitada, e se põe a perguntar o que significava o acontecido.

Os mensageiros de Cornélio já chegaram e estão à porta. Não ousam ultrapassá-la. Não são dignos de entrar na morada de um judeu. Mas um novo agente entra em cena para eliminar os temores de Pedro e anular o abismo que separava mentalidades tão distintas. O Espírito – que é mencionado sete vezes na perícope – tem sua primeira atuação: tirar o temor de Pedro para que vá com os representantes de Cornélio. Pedro ainda não sabe o que vai fazer lá. Por ação do Espírito, ele só obedece. Mais tarde lhe será dito qual a finalidade de sua viagem a Cesareia.

No resumo feito pelos enviados de Cornélio, Lucas realça mais uma vez as virtudes do centurião, afinal Pedro deve ser persuadido a ir com eles. Só agora é revelado o que ele vai fazer: irá à casa de Cornélio para anunciar a Palavra de Deus aos pagãos. Este elemento novo que aparece na ordem do anjo, já sinaliza que Lucas quer chamar a atenção sobre o discurso de Pedro. A compreensão desta missão, porém, é gradativa. Lucas não desvela tudo de uma vez. Cada coisa a seu tempo. Pedro já sabe o suficiente. Mais à frente saberá que os gentios devem ser batizados e acolhidos na comunidade cristã.

Como sinal de acolhida da ordem divina, Pedro hospeda os enviados pagãos na casa onde estava.

É natural, pois, que ante a ordem do Espírito Santo, Pedro não somente receba os mensageiros, mas também que se atreva a hospedá-los na mesma casa (v. 23), não obstante tratasse de incircuncisos, com os quais não era lícito a nenhum judeu estabelecer convivência[17].

É a primeira aproximação entre judeus e pagãos. Pedro toma a iniciativa de hospedar incircuncisos. Inicia-se uma conversão social. Abrem-se as portas para a comensalidade entre judeus e pagãos, que será efetivada na casa de Cornélio. A ordem do Espírito para que Pedro fosse com eles sem hesitar parece tê-lo convencido também a acolher seus visitantes. O medo desapareceu. A superação de um temor levou à superação de outros. Daqui pra frente, Pedro se mostra resoluto e convencido de suas atitudes.

d) Encontro de Pedro com Cornélio: At 10,23b-33

O encontro dos dois personagens principais é a cena-chave da perícope. Entrecruzam-se dois caminhos distintos por iniciativa de Deus, que elimina distâncias espirituais, sociais e geográficas. Nada é dito sobre a viagem. Percorrer o caminho juntos durante todo um dia é mais que percorrer espaços geográficos entre Jope e Cesareia: é eliminar distâncias interpessoais entre judeus e gentios.

Pedro não vai sozinho. Leva uma delegação judeu-cristã que servirá de testemunha dos acontecimentos, “em previsão das censuras que seu modo de proceder poderia provocar, como de fato sucederá (cf. 11,1-3)”[18]. Pedro e os seus caminham juntos com a delegação de Cornélio. Está prefigurada a comunidade mista, composta por cristãos de origem judaica e gentílica, que de ora em diante será uma constante na vida da Igreja nascente.

Cornélio não estava só à espera de Pedro. Com ele, sua família, parentes e amigos mais próximos – Lucas prefere a dimensão pessoal das relações mais íntimas que a dimensão espacial de vizinhança – estavam na expectativa da chegada daquele que lhes anunciaria a Palavra do Senhor (10,33 – kuri,ou).

Cornélio corre ao encontro de Pedro. Lucas demonstra ter pressa de aproximar os dois grupos. Cornélio se prostra[19] diante de Pedro, revelando admiração e encantamento, pois vê nele mais que um homem: um mensageiro de Deus, um enviado para trazer a Palavra tão esperada.

Pedro não quer saber de prostração a seus pés. Sabe que é um ser falível como os outros. Mostra que já sabe que o fato de ser judeu não lhe garante proximidade maior de Deus. E vai entrando pela casa de um gentio. Agora tem motivos para fazê-lo. Encontrou aqueles a quem deve anunciar a boa-nova. Parece já familiarizado com o público. Vai logo conversando com Cornélio e dirigindo a palavra ao público pagão.

Pedro começa logo se justificando. Percebe-se a passagem do que ele viu para o que ele concluiu. Mesmo sabendo que a um judeu é proibido relacionar-se com um estrangeiro, ele obedeceu, pois compreendeu que foi Deus (10,28 – ’o qeo.j) quem lhe mostrou por meio da imagem dos animais que a separação de povo puro e impuro estava superada. A iniciativa da superação é de Deus. Ele eliminou as barreiras; só resta obedecer ao Senhor. A partir desse momento, não é possível mais distinguir entre as pessoas presentes: todos são apenas ouvintes da Palavra. Colocando na boca de Pedro tal declaração, Lucas faz ver à comunidade judaica que “o que era antigo passou, agora tudo é novo” (2Cor 5,17).

e) Discurso de Pedro em Cesareia: At 10,34-43

O discurso é introduzido mostrando a importância daquele momento. Pedro abre a boca e anuncia. Faz, finalmente, o que foi fazer: anunciar a Palavra de Deus àqueles que a esperam sedentos.

O começo da pregação de Pedro já diz o tema central da pregação. Pedro reconhece que não há mais separação entre judeus e pagãos, pois Deus mesmo eliminou essa distinção. Deus não faz acepção de pessoas como Pedro pensava antes. Mas essa declaração de que todos são aceitáveis para Deus ainda não significa que todos são salvos. A salvação vem por meio de Jesus Cristo, a quem Cornélio e sua família vão abraçar, depois de acolher o querigma que Pedro lhes anuncia. À afirmação da imparcialidade universal de Deus[20], segue-se necessariamente a oferta universal da salvação em Jesus Cristo.

Pedro compreendeu não só que Deus é imparcial, mas que ele anunciou sua imparcialidade por meio da boa-nova da paz que Jesus veio trazer para todos. Essa paz entre os homens e Deus, e entre um povo e outro, foi selada na morte e ressurreição de Jesus, que é Senhor de todos. Fica aberto o caminho para o querigma[21], um mini-evangelho que está dividido em quatro partes: batismo na Judeia, ministério na Galileia, subida a Jerusalém, mistério pascal.

Pedro cativa seu público envolvendo-o na pregação: “vocês sabem…”. Esta não é uma novidade lucana. Em outras ocasiões, o evangelista também usa este recurso de envolver os ouvintes (cf. At 2,22; 26,26; Lc 24,18). Certamente os gentios tinham contato com os judeus e a notícia sobre a vida, morte e – quem sabe! – até a ressurreição era já conhecida por eles. Pedro parte do pressuposto de que seu público já ouviu falar de Jesus, de que ele não é de todo um desconhecido dos gentios. Eles já conhecem a Palavra, pois ela se difundiu na região, mas, provavelmente, ainda não a aceitaram como Palavra que Deus pronunciou desde o princípio. É preciso, no entanto, deixar claro que esta Palavra é Jesus, o ungido de Deus. Prova disto é que Deus esteve com ele durante toda sua vida pública e, depois de sua morte, tomou seu partido, ressuscitando-o dentre os mortos e exaltando-o como juiz universal. Logo, toda a vida de Jesus é obra de Deus. Jesus de Nazaré foi ungido pelo Espírito Santo, por isso ele andou fazendo o bem e curando a todos. Funda-se uma nova economia da salvação – totalmente cristocêntrica –, cuja exigência agora é aceitar o senhorio de Jesus. Cornélio e os seus são chamados a crer no Deus de Jesus Cristo, não só no Deus monoteísta dos judeus. O Deus dos judeus que Cornélio já temia e adorava se apresenta com nova face: Jesus Cristo, o Nazareno ungido por Deus, a Palavra dantes desconhecida. Nota-se aqui uma passagem fundamental da fé monoteísta de Cornélio para a novidade cristã, que é Jesus Cristo. Afinal, é ele quem elimina o obstáculo entre judeus e gentios. “Ele fez de dois povos um só” (Ef 2,14). Assim, “não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

Pedro passa da narrativa da vida de Jesus para a proclamação de seu senhorio, como juiz de vivos e mortos, e para a afirmação de que, por meio da fé, é que se recebe o perdão dos pecados (cf. 10,42-43). Explicitamente está ausente o apelo à conversão, mas o contexto leva a crer que a afirmação tem esse tom de convite, já que a fé e a conversão andam juntas na Escritura, especialmente em Atos (cf. 2,37-41). Os discursos são anúncio do perdão. Terminam sempre com o apelo à conversão e a oferta do dom do Espírito Santo. Não obstante Cornélio e os demais ouvintes serem tementes a Deus, piedosos, e praticarem a justiça, a conversão continua sendo uma necessidade para todos. Mas a ausência explícita do apelo pode significar que este passo já foi dado. Resta agora aderir a Jesus por meio da acolhida do seu Espírito. É o próximo passo.

f) Descida do Espírito Santo e batismo dos pagãos: At 10,44-48

Nem bem Pedro terminara de falar aquelas palavras, o Espírito, causando espanto geral nos judeus-cristãos que acompanhavam Pedro, desceu sobre todos os que acolheram a Palavra anunciada.

Alguns estudiosos vão entender essa descida do Espírito como uma interrupção do discurso petrino[22]. Ao analisar o discurso, esta idéia, no entanto, não prevalece, uma vez que – como já foi visto – Lucas dá começo e fim à mensagem que queria por na boca de Pedro. Uma coisa, porém, é certa: “Foi perdendo a palavra de verdade que Pedro encontra a verdade da palavra”[23]. Ao perceber a descida do Espírito sobre os pagãos, Pedro, de fato, compreende a verdade da mensagem que ele próprio acabara de anunciar: “Deus não apresenta parcialidade”. A vida de Jesus entregue por todos é prova disto.

A presença do Espírito, derramado em Cornélio e nos seus, é um argumento irrefutável. Todo o grupo de Cornélio foi impregnado pelo Espírito. O grupo que acompanhava Pedro percebe a profundidade deste acontecimento. A primeira reação é de espanto, susto. Aos pagãos, sem necessidade de passar antes por Moisés, é concedido o dom de Deus: eles falam linhas estranhas – como os discípulos no dia de Pentecostes (cf. 10,44; 11,15) – e glorificam a Deus.

Pedro não sabe mais o que fazer a não ser admitir que o Espírito é superior a ele e às normas que ele segue. “Não há dúvidas de que esta nova intervenção do Espírito foi também para Pedro um claro sinal de qual era a vontade divina, obrigando-o mais e mais a dar o grande passo em relação aos gentios”[24]. Pedro não está disposto a ser atrevido. Ao contrário, prefere a submissão da fé. Então manda batizar os que já haviam sido plenificados pelo Espírito, como sinal da pertença destes à comunidade cristã. “Cornélio não é praticamente mais que um objeto que Deus toma para convencer Pedro da idéia fundamental… o convertido não é Cornélio, mas Pedro”[25] .

A partir dessa mudança, Pedro é convidado a se hospedar com os pagãos. Agora, todos são irmãos, batizados em Cristo Jesus, selados por seu Espírito. Não há mais nada que os separa. Nada é mais forte que o laço fraterno que o próprio Deus criou entre eles. Com a ação decisiva de Deus na história, Lucas atinge seu objetivo: a introdução oficial dos pagãos na Igreja, eliminando todo obstáculo que separava judeus e gentios.

g) Encontro e discurso de Pedro em Jerusalém: At 11,1-18

Mais um encontro no episódio de Cornélio. Já é o terceiro que Lucas narra. Este, porém, tem um teor diferente. Quer mostrar que o conflito entre judeus e pagãos achou uma solução definitiva em Jerusalém.

Os problemas e as interrogações surgidas nas cenas precedentes são resumidos e resolvidos de forma oficial. Isso só poderia acontecer em Jerusalém, na Igreja central, de onde partiu a missão de Pedro, onde residem os apóstolos, isto é, os representantes autorizados e o núcleo histórico originário da comunidade cristã[26].

O capítulo 11 começa dando pistas de que, depois do evento na casa de Cornélio, a Palavra de Deus (11,1) se difunde entre os pagãos. Mas a notícia chega a Jerusalém e, quando Pedro vai até lá, os cristãos de origem judaica se põem a questioná-lo a respeito do evento acontecido na casa de Cornélio, especialmente acerca de sua entrada na casa dos pagãos e do fato de Pedro ter comido com eles (cf. Lc 15, 2). É natural essa reação da comunidade cristã de Jerusalém (v. 1-3). O que fora realizado por Pedro era algo totalmente diferente da prática evangélica assumida até então. Explicitamente, o que se reprova é a entrada na casa de incircuncisos e o fato de comer com eles. Mas, nesta objeção colocada pelos irmãos de Jerusalém, está implícita a evangelização dos pagãos e seu batismo[27]. Afinal, a entrada de Pedro na casa de Cornélio não teve outro fim a não ser o de anunciar para aqueles que o aguardavam a boa-nova que Deus lhe ordenara. E, como consequência desse anúncio, só se podia esperar a conversão, a fé e o batismo, que é o sinal da adesão a Cristo.

Pedro começa sua defesa com a recordação de sua visão dos animais puros e impuros, e não com a visão de Cornélio. Logo no início introduz o tema da pureza legal no intento de quebrar as barreiras que se impõem sobre o tema no judaísmo. A visão é recordada com detalhes. Nada pode ficar esquecido. Tudo deve ser dito minuciosamente para que seus opositores percebam que esta foi uma iniciativa de Deus e que ele fora mero instrumento do Espírito neste processo da acolhida dos pagãos. Afinal, “Pedro havia sido guiado a cada passo por Deus, e não ter batizado Cornélio e os seus teria sido desobedecer a Deus”[28]. Era preciso deixar isso bem claro para seus ouvintes. Uma vez narrado o episódio, Pedro evoca o testemunho dos seus companheiros de viagem. Ele tem álibis a seu favor. Não estava sozinho nesta aventura de acreditar na ordem do Espírito que o impulsionava a acolher os pagãos.

Só depois de expor todo o acontecido em Jope e do seu encontro com o centurião, ele se reporta à visão de Cornélio que também recebera um enviado divino – um anjo.

Narradas as visões, Pedro parte para o acontecimento apoteótico que se deu em Cesareia: a descida do Espírito sobre os pagãos, logo após eles terem acolhido o querigma. E de novo a pergunta retórica acerca da oposição possível à ação de Deus. Lucas quer reafirmar que, uma vez que Deus decidiu acolher os pagãos e dar-lhes o dom do Espírito, nada mais resta a fazer a não ser aceitar a decisão divina.

Ao ouvirem a argumentação de Pedro, os irmãos se aquietam: sossegam seus corações, apaziguam seus temores, deixam Deus conduzir a história. E são até capazes de se alegrar porque “Deus concedeu também aos pagãos a conversão que leva à vida” (11,18). Cornélio e os seus são “primícias” dos gentios (cf. Rm 16,5; 1Cor 16,15). Estão definitivamente abertas as portas da Igreja para os pagãos. Está justificada a prática paulina de evangelizar e acolher os pagãos, formando com eles uma comunidade fraterna, sem distinções baseadas numa antiga lei, que, por obra de Deus, já foi superada.

Temas principais

De um exame preliminar, saltam aos olhos alguns temas relevantes que terminam desembocando no mais importante e central deles: Jesus Cristo[29].

a) Deus não apresenta parcialidade

Desde o começo, ênfase especial é dada a esse tema. Ao descrever o transe de Pedro, Lucas afirma que ele ouviu uma voz – identificada imediatamente em At 10,14 como voz de Deus (ku,rie) – que lhe dá uma ordem de matar e comer os animais que ele vê em êxtase. Imediatamente, Pedro responde mostrando que ele reconhece a imparcialidade de Deus, pois, em qualquer nação, qualquer um que o teme e faz o que é reto é aceitável para ele (10,34-35). Mais à frente, no versículo 36, Jesus é dito como Senhor de todos e, no versículo 42b, Pedro declara que ele foi nomeado por Deus como juiz de vivos e mortos. A universalidade da salvação é mais uma vez enfocada no versículo 43b, na afirmação contundente de que todo aquele que crê em Jesus recebe o perdão dos pecados por meio de seu nome. No versículo 45, nova alusão à imparcialidade de Deus: ele derramou o dom do Espírito Santo também sobre os gentios.

b) Deus tem a total iniciativa

Em todo o texto, salta aos olhos a iniciativa de Deus, especialmente nas duas teofanias iniciais. Na visão de Pedro, essa iniciativa divina é ressaltada no versículo 20, com o perfeito do verbo enviar (avpe,stalka), que não deixa dúvida alguma quanto à definitividade da decisão. Deus mesmo enviou aqueles homens a Jope para levar Pedro até Cesaréia. No v. 33, o perfeito volta dando de novo o mesmo sentido. Desta vez, com o verbo ordenar (prostetagme,na). Pedro deve proclamar a todos que o aguardavam na casa de Cornélio tudo aquilo que o Senhor ordenou que ele dissesse. Não há dúvidas de que se trata de uma ordem de Deus. Algo definitivamente decidido e que não tem volta. Resta a Pedro obedecer ao Senhor, que vai à sua frente tomando a iniciativa.

No discurso, isso também fica claro. Deus toma a iniciativa sempre: ele enviou a mensagem ao povo de Israel, ele ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, ele esteve sempre com Jesus, ele ressuscitou Jesus ao terceiro dia, ele permitiu que Jesus aparecesse aos apóstolos, e – quem sabe! – foi ele quem ordenou aos apóstolos que pregassem ao povo e dessem testemunho de Jesus Cristo.

No evento da descida do Espírito, um novo perfeito vem realçar a iniciativa divina. No versículo 45, os fiéis circuncidados ficam admirados, pois Deus derramou o Espírito sobre os gentios. Um belo indicativo perfeito passivo do verbo derramar (’ekke,cutai)mostra que a descida do Espírito Santo é iniciativa de Deus e não esforço dos pagãos ou merecimento deles por sua piedade. Algo que não tem mais volta foi realizado. Pedro não tem como discutir com Deus. Não tem como voltar ao passado. Afinal, “agindo Deus, quem impedirá?” (Is 43,10). Iniciado o processo da parte do Senhor, ele realizará tudo que pertence ao roteiro de acolhida dos pagãos. Os pagãos já foram ungidos, escolhidos. Agora, é só aderir ao projeto divino.

Por meio desses três perfeitos, é possível traçar uma linha definitiva de ação divina:

Deusenvioua delegação de Cornélioaté Pedro
Deusordenoua Pedroanunciar a Palavra para Cornélio e os seus
Deusderramouo Espíritosobre os pagãos

Deus age no tempo presente: nos pagãos, em Pedro, na Igreja que acolhe seu Espírito. Sim, Deus transcende o tempo. No passado, inspirou Isaías e os profetas, escolhendo antecipadamente os apóstolos para serem testemunhas. No presente, continua agindo na Igreja. E, para o futuro, designou Cristo como juiz de vivos e mortos no final dos tempos. Passado, presente e futuro são colocados no mesmo nível sob a tutela de Deus, que toma sempre a iniciativa.

c) Pedro e os apóstolos são testemunhas

Nem todos recebem a aparição do Senhor ressuscitado, mas somente aqueles que Deus escolheu de antemão como testemunhas. Essa escolha de Deus é realçada com a expressão prokeceirotonhme,vnoij: um particípio perfeito passivo que não deixa dúvidas sobre quem escolhe e, muito menos, sobre o fato de que esta escolha é plena de radicalidade. Quem são estes escolhidos? Que status lhes é conferido? Os escolhidos são aqueles que comeram e beberam com Jesus, e receberam a função de testemunhar tudo o que ele fez. E, sendo duplamente testemunhas – do Jesus terrestre (10,39a) e do Cristo ressuscitado (10,41a) –, agora, são eles que atestam: O enviado de Deus é juiz de vivos e mortos (10,42a). Este é o status dos escolhidos: são designados para anunciar o que viveram, de forma que a boa-nova chegue a todos.

d) Jesus Cristo é a boa-nova universal de Deus

Sem dúvida alguma, Jesus Cristo é o foco principal do discurso de Pedro. Isto é tão notório que Lambrecht[30] chega a dizer que a centralidade de Jesus no discurso afeta a linguagem, a sintaxe e o estilo do texto.

No começo do discurso, logo após Pedro declarar a imparcialidade de Deus (10,34: Em verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas. Ao contrário, em todas as nações, aquele que o teme e pratica [a] justiça é aceitável para ele), Jesus Cristo é mencionado. Poderia parecer atrevido, mas é possível pensar que até mesmo esta declaração só acontece por causa do que vem em seguida no versículo 36: “[Deus] enviou a palavra aos filhos de Israel, anunciando uma boa notícia de paz por meio de Jesus Cristo, este [que] é Senhor de todos”. A imparcialidade de Deus se revela em Jesus Cristo, Palavra de Deus[31], que é Senhor de todos. Nesta Palavra, Deus não faz distinção entre as nações. Estando sob o senhorio de Jesus – Palavra de Deus –, não há mais espaço para divisões e separações: todos são um em Cristo. Por ele é que vem a boa-nova da paz, pois ele é a paz (cf. Ef 2,14).

Esta Palavra de Deus é o divisor de águas. Só há dois povos: aqueles que a conhecem e a aceitam, e aqueles que ainda não a conhecem, pois não lhes foi anunciada. Para fazer esta Palavra conhecida é que os filhos de Israel foram escolhidos. Para isso é que Deus escolheu antecipadamente suas testemunhas.

A Palavra de Deus não é completamente ignorada pelos pagãos. Ela se divulgou por toda a Judéia. A vida pública de Jesus – seus feitos – não ficou no anonimato. Esta palavra, que a princípio desponta apenas como uma notícia da qual se ouviu falar, é personificada no versículo 37. A partir daí, fala-se dela como alguém concreto. Ela tem um nome: Jesus de Nazaré.

Jesus começou sua vida pública na Galiléia, depois do batismo de João. Uma vez ungido por Deus no batismo, realizou grandes obras e sua vida mostrava que o Senhor estava com ele. Disso, Pedro e os demais apóstolos são testemunhas. Eles viveram com Jesus pela terra dos judeus e experimentaram essa unção em seu ministério. Mas não foi só isso: eles também foram com ele a Jerusalém e, assim, são testemunhas de sua morte de cruz. Eles atestam que Deus tomou o partido de Jesus e não deixou que seu ungido fosse aniquilado pela morte. Deus o ressuscitou e o fez aparecer depois de sua ressurreição aos seus, que conviveram com o Ressuscitado e fizeram a experiência da ressurreição.

Tendo presenciado tudo isso, os apóstolos foram enviados a pregar e a testemunhar que ele é juiz de vivos e mortos[32]. Todos estão sob seu senhorio. Até mesmo os profetas, que o antecederam, dão testemunho dele, pois era ele o esperado. Assim, todos que nele crêem – vivos e mortos, pessoas do passado, do presente e do futuro, pessoas de todas as nações – recebem nele, e por ele, o perdão dos pecados que vem de Deus. Ele é o penhor de toda redenção.

Conclusão

O texto de At 10,1–11,18 está em conformidade com a linha geral traçada por Lucas, no conjunto de sua obra. Depois de ter mostrado que Jesus é o evangelizador esperado desde os tempos mais antigos e que ele faz o efetivo anúncio do reino de Deus com sua própria vida doada, Lucas inverte os fatos: o evangelizador será o evangelho anunciado. Ele é o próprio reino de Deus por ele anunciado e, para participar desse reino, a condição fundamental é acolher a ele, Palavra viva do Pai.

Essa Palavra sai da Galileia dos pagãos e vai para Jerusalém, o centro da fé e da piedade judaica (Evangelho). De lá, ela vai voltar aos pagãos, por meio da missão de Paulo, o apóstolo dos gentios (Atos). Mas Paulo não está autorizado a anunciar essa Palavra, sem que antes essa prática seja legitimada pelo líder da comunidade cristã: Pedro. É a ele que deve ser atribuída a iniciativa de se abrir aos pagãos.

O episódio na casa de Cornélio mostra como a Igreja se abre aos gentios, precisando rever sua prática evangelizadora. Baseando-se em Jesus, boa-nova universal de Deus, toda superação é possível. Por isso, o querigma cristão é o centro da pregação de Pedro. Em Jesus, o velho e o novo encontram outro sentido. O Filho é o ponto de unidade entre todos os homens[33] e o motivo da superação de todo costume para se acolher com firmeza a universalidade dos povos, já anunciada desde tempos mais antigos pelos profetas.

Assim, ao descrever uma série de eventos concatenados que se sucedem pela iniciativa absoluta de Deus, Lucas possibilita à Igreja nascente compreender que é tempo de ruptura com as antigas leis e de superação de práticas milenares. Afinal, o impedimento que a Palavra encontrava para ir até os gentios era meramente cultural e não tinha causas teológicas. Era baseado em uma interpretação da lei e não na lei em si mesma. Mas, em Jesus, tudo se faz novo: o conteúdo da pregação e as práticas eclesiais. Não só o teor da pregação – cujo foco era a lei judaica e agora coloca as lentes sobre Jesus de Nazaré – deve ser repensado. Uma mudança estrutural é exigida para que a Palavra de Deus continue sendo anunciada. A Igreja nascente terá, a partir de então, de repensar não só sua catequese, seu discurso evangelizador, mas também sua prática pastoral. Essa é a proposta de Lucas.

Referências bibliográficas

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[1] TURRADO, Lorenzo. Biblia comentada: Hechos de los Apóstolos y Epístolas paulinas. Madri: La editorial catolica, 1965. v. 6, p. 94.

[2] DUPONT, Jaques. Estudos sobre os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1974. p. 78.

[3] TURRADO, Biblia comentada, p. 94.

[4] CASALEGNO, Alberto. Ler os Atos dos Apóstolos: estudo da teologia lucana da missão. São Paulo: Loyola, 2005. p. 56.

[5] LUKASZ, Czeslaw. Evangelizzacione e conflito: indagine sulla coerenza letteraria e temática della perícope di Cornélio (Atti 10,1-11,18). Frankfurt: Peter Lang, 1993. p. 28.

[6]DUPONT, Estudos sobre os Atos, p. 79.

[7] COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos. São Paulo: Vozes/Metodista/Sinodal, 1988. v. 1. p. 194.

[8] CASALEGNO,Ler os Atos, p. 49-50.

[9] CASALEGNO, Ler os Atos, p. 56.

[10] Segundo Barthes, o resumo é uma citação sem a letra, ou seja, uma citação de conteúdo (não de forma), um enunciado que remete a outro, mas cuja referência implica em um trabalho de estruturação, já que não é literal. E ainda, multiplicar os resumos quer dizer multiplicar as finalidades da linguagem. Por exemplo: a mesma ordem que foi dada pelo anjo a Cornélio está dita de quatro formas diferentes: enquanto ordem dada, enquanto ordem executada, enquanto relato de sua execução, enquanto resumo do relato de sua execução. Logo, os destinatários são alterados: O Espírito comunica a Pedro e a Cornélio, Pedro comunica a Cornélio, Cornélio comunica a Pedro, Pedro comunica à comunidade de Jerusalém (e a nós leitores). Cf. BARTHES, Roland. El analysis estructural del relato a propósito de Hechos 10-11. In: LEÓN DUFOUR.Exegesis y hermeneutica. Madrid: Cristandad, 1976. p. 143-163.

[11] FABRIS, Rinaldo. Os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Loyola, 1991. p. 205.

[12] FABRIS, Os Atos, p. 208.

[13] RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999. p. 96.

[14] Como era costume entre os judeus. Cf. 2Rs 23,12; Jr 19,13; Sf 1,5.

[15] Esta semelhança poderia ser uma forma lucana de apelar para algo que supera a lei mosaica: a criação que é bem anterior a ela. É preciso voltar ao começo para evocar a novidade e a credibilidade do fato. Essa prática não é estranha à Escritura. Os evangelistas Mateus e Marcos já tinham usado esse argumento quando trataram da questão do divórcio. Cf. Mt 19,3-9; Mc 10,2-12.

[16] RICHARD, O movimento, p. 97.

[17] TURRADO, Biblia comentada, p. 96.

[18] TURRADO, Biblia comentada, p. 97.

[19] O gesto de Cornélio, devido à sua piedade e ao seu temor a Deus, não parece indicar uma atitude idólatra, mas consonância com um costume hebreu, um sinal de veneração e respeito. Cf. Gn 33,3; Est 3,2.

[20] A compreensão de Pedro acerca da imparcialidade de Deus se dá graças à misteriosa visão da toalha com os animais, em Jope (10,11-16), aclarada pelo relato do acontecido a Cornélio (10,20-23). Isso não quer dizer que antes Pedro estivesse convicto de que Deus faz acepção de pessoas, afinal, como bom judeu, ele era conhecedor de Dt 10,17: “O Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, forte e terrível, que não faz acepção de pessoas nem aceita suborno”. Acontece, porém, que, como todos os judeus, Pedro participava da crença de que Deus, Senhor de todos os senhores, preferia a nação judia a todas as outras, pois assim ele havia determinado por meio de uma aliança com este povo (cf. Gn 17,7; Ex 19,4-6; Eclo 36,14).

[21] O termo querigma, que quer dizer anúncio, diz respeito à experiência primeira que as comunidades cristãs fizeram do evento Jesus Cristo, reconhecendo sua presença viva e atuante no meio dos crentes.

[22] Fabris diz: “O relato de Lucas leva a entender que a irrupção do Espírito sobre os pagãos que escutam a Palavra acontece de modo inesperado, truncando até o discurso de Pedro” (FABRIS, Os Atos, p. 215). Saout afirma: “O discurso de Pedro foi interrompido pela ação de Deus” (SAOUT, Y. Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 247). Storniolo escreve: “Pedro é interrompido. Novamente a iniciativa de Deus: o Espírito desce sobre os que ouvem a Palavra” (STORNIOLO, Ivo. Como ler os Atos dos Apóstolos: o caminho do evangelho. São Paulo: Paulus, 1993. p. 101).

[23] MARIN, L. Apud. SAOUT, Y. Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1991. p. 247.

[24] TURRADO, Biblia comentada, p. 101.

[25] DIAS MATEOS, M. Lucas: evangelizar la Iglesia. In ______. Tudo lo hago nuevo: aportes bíblicos a la evangelización. Lima: CEP, 1992. p. 162.

[26] FABRIS, Os Atos, p. 216.

[27] É bom lembrar que nem todo exegeta concorda com esta afirmação. Cf. LUKASZ, Evangelizzacione, p. 186, nota 44.

[28] TURRADO, Biblia comentada, p. 103.

[29] LAMBRECHT, J. Jesus Christ is the lord of all. Acts 10,34-43. In: ______. Understanding what one reads – New Testament Essays. Leuven: Peeters, 2003. p. 133-137.

[30] LAMBRECHT, Jesus Christ, p. 135.

[31] A expressão Palavra de Deus, neste caso, não se refere aqui ao logos pré-existente como é dito em Jo 1, com referência somente a Jesus Cristo. É certamente algo mais amplo: a Palavra de Deus anunciada pelos profetas, visibilizada no Filho, divulgada pelos discípulos. Palavra que em todos os tempos interpela e exige resposta. Mas, mesmo não tendo identificação com o logos joanino, essa Palavra não deixa de ter relação estreita com o logos. Em Cristo, “ela se tornou audível e visível ao mesmo tempo; foi um diá-‘logo’ todo especial” (VOLKMAN, Martin. Hebreus 4,12-13: a palavra de Deus, viva e eficaz. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 34, p. 43, 1992).

[32] Presente também em outros textos da Escritura (cf. 2Tm 4,1; 1Pd 4,5), esta expressão logo passará para o Símbolo dos Apóstolos, expressão da fé cristã, sintetizada nos primeiros Concílios da Igreja.

[33] Melo lembra que “quando este Filho se faz homem, nele o Pai se revela aos homens como Amor (1Jo 4,16) a oferecer um dom destinado a todos, o Reino. [Deus] Demonstra o caráter universal deste dom mediante a ‘parcialidade’ de seu amor preferencial pelos pobres e pecadores” (MELO, Antônio Alves de. A evangelização no BrasilDimensões teológicas e desafios pastorais: o debate teológico e eclesial (1952-1995). Roma: Pontificia Università Gregoriana, 1996. p. 116).

Colaborou: Fique Firme

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