Vinho Novo, em Odres Velhos | Reflexão sobre Mt 9,14-17

Por Hermes Fernandes

Hoje, Sábado da 13ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos apresenta o Evangelho de Mt 9,14-17. Mais uma vez, os interlocutores confrontam Jesus, no desejo de deslegitimar sua ação messiânica. Desta feita, temos os discípulos de João Batista. A questão agora é o jejum. Eles afirmam que jejuam regularmente, enquanto os discípulos de Jesus não o fazem (Mt 9,14). Jesus responde: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão. Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica maior ainda. Também não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os dois se conservam” (Mt 9,15-17).

No paralelo sinótico em Lucas (Lc 5,33-38), há um dado em acréscimo. O texto Lucano diz: “os discípulos de João, assim como os discípulos dos Fariseus, jejuam com frequência e fazem orações, mas os teus discípulos comem e bebem” (Lc 5,33). Lendo paralelamente as duas tradições evangélicas, podemos apurar que o cerne da questão é a fidelidade à religião. A observância dos preceitos. Não os sentimentos religiosos em si. Fato é que as religiões tendem a esvaziar-se da intuição, pelo bem da instituição. Não é raro ver na Bíblia, e em nossa vida, situações em que a observância dos preceitos, isto é, o legalismo; assassina o sentido das ações e espiritualidades. O problema apresentado pelos ouvintes de Jesus não é se jejuam ou não. E, sim, se obedecem a Lei, ou não. O legalismo, como prova externa do sentido religioso interior.

O Pentateuco, ou seja, a Torá – ensinava que o jejum era prescrito apenas para o Dia da Expiação dos pecados (Lv 16,30). Porém, os Fariseus também jejuavam todas as segundas e quintas feiras. Aqui percebemos que o texto de Mateus aproxima o sentimento legalista dos Fariseus ao dos discípulos de João Batista. Uma fidelidade rubricista que se envaidece dos costumes religiosos. Quando nos colocamos na condição de fiéis, e comparamos os outros com as nossas ações, desejando apontar a infidelidade deles; o sentido de nossas ações piedosas perde totalmente o valor. Reveste-se da hipocrisia daqueles que rezam e jejuam para se envaidecer e receber o aplausos dos outros. Neste caso, o texto de Mateus e Lucas se aproxima em uma ordem de sentido. Tanto os discípulos de João Batista, quanto os Fariseus e seus neófitos, perderam o essencial da inter-relação com Deus por meio da oração e da ascese. É nesta perspectivava, da hipocrisia religiosa, que deve ser entendida a resposta de Jesus. Não poderia ser melhor a analogia usada por ele para esclarecer bem a questão. A festa de casamento e o noivo encaixam-se perfeitamente como alegoria à catequese que Jesus desejou fazer.

Na Palestina, a festa de casamento durava uma semana. Durante esse tempo, as obrigações religiosas, como o jejum, eram interrompidas pelos convidados. Como fazer sacrifícios ascéticos enquanto se vive momento de festa? Como poderiam os discípulos jejuar enquanto Jesus – o noivo – está com eles? Eles hão de jejuar quando o Mestre for tirado deles, após a morte de Cruz.

As duas parábolas apresentadas por Jesus em seguida, a da roupa e do vinho, trazem uma conclusão inquestionável às argumentações de Jesus. Os preceitos instaurados pelo Primeiro Testamento, são resultados da Primeira Aliança de Javé com seu Povo. Serviam para aprofundar a relação entre o Povo de Deus e seu Libertador, Javé. Outrossim, em Jesus, a própria Libertação se fez carne. Este Javé Libertador se fez Emmanuel, Deus com a gente, em Jesus: o Verbo. Por isso, para viver a novidade em Jesus, é preciso uma nova relação com o divino nele. Os sacrifícios expiatórios se tornarão obsoletos, pois o próprio Filho de Deus se dará em Sacrifício. Por que jejuar, implorando a salvação, se a salvação está ao nosso lado? Humanamente presente, encarnada no Nazareno? Jesus, e a radicalidade do Reino de amor que chega até nós por ele, não se encaixa nos velhos sistemas de coisas. Por que estragar uma roupa nova, para consertar uma roupa velha? Por que perder o vinho novo, colocando-o em barris velhos? Jesus provoca contraste e ruptura: a novidade do Evangelho não condiz com as coisas velhas, nem mesmo com as coisas religiosas antigas.

No caminhar da Igreja de Jesus em que participamos, somos confrontados com o mesmo problema. Muitos de nossos irmãos e irmãs vivem a reclamar das atualizações da teologia e da práxis da Igreja. Há quem queira uma Igreja hoje, com as vestes puídas do passado. Uma pastoral tão arcaica, que nem pode ser comparada ao bom vinho, remete-se mais ao vinagre. Enchendo a vida do Povo de Deus de azedume. Por isso, devemos estar atentos aos discursos em prol do tradicionalismo. Uma busca vazia de se preservar o passado, com gestos e pensamentos destoantes ao nosso presente. As rendas, os dourados, o apego excessivo ao ritualismo antigo. Tudo isso significa barril velho, tentando abrigar a Novidade do Reino de Deus. Estes barris estão condenados à ruptura, perdendo a doçura do Evangelho. Amor à história, não pode significar parar no tempo, parar na história. A Igreja não é um museu de costumes milenares, mas a Barca de Pedro a navegar por milênios. É preciso entender que nesse navegar há sempre o sentido do movimento. É para frente que se anda.

No caminhar da Igreja, devemos estar atentos ao ensinamento de Jesus. Ele é a Novidade que sempre se atualiza. Sua Igreja será sempre mais enraizada no Evangelho, quanto mais atender às demandas do Tempo e as realidades do Lugar. Uma Igreja encarnada e comprometida com a transformação da História.

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