Catequese com jovens: desafios e esperanças

Por Solange Maria do Carmo e
João Ferreira Júnior

Muitos estabelecem uma diferença entre catequese e evangelização. Dizem que evangelização é um processo querigmático, o primeiro anúncio da fé para pessoas que não fizeram ainda a experiência cristã de Deus. E a catequese seria mais doutrinária e significaria o aprofundamento do primeiro anúncio. Mas hoje já se entende que a própria catequese é querigmática, apresentando seus conteúdos de modo a aprofundar não um conhecimento, mas uma experiência de Deus. E que todo anúncio querigmático é também catequético, pois não é possível anunciar Jesus a não ser de forma situada, a partir da fé que professamos. Por isso, as palavras catequese e evangelização já aparecem juntas, com sentido análogo, em quase todos os documentos mais recente da Igreja. Neste artigo, esses termos serão usados como sinônimos. Para nós, é catequese toda a ação evangelizadora da Igreja que se empenha em formar o discípulo para seguir Jesus. Uma tarefa nada fácil, especialmente quando diz respeito aos jovens.

1. Desencontros entre a Igreja e a juventude

Apesar das conquistas observadas, permanece precária e descuidada a catequese católica com jovens. Nossa juventude ficou à margem da Igreja já faz tempo e, ainda que alguns tentem resgatar a pastoral da juventude ou incrementar movimentos para atingir essa faixa etária, basta um pouco de honestidade para concluir que o esforço empreendido não tem dado os resultados desejados. Citemos apenas alguns pontos que mostram como se tornou difícil o diálogo entre a fé cristã católica e o mundo da juventude: a moral sexual da Igreja, as celebrações litúrgicas, a linguagem da fé e o modelo de comunidades eclesiais que prevalece em nossas paróquias.

1.1 A moral sexual

Segundo a opinião de vários especialistas, a moral sexual da Igreja diz muito pouco a nossos jovens, para quem o que nossa Igreja ensina a esse respeito virou motivo de ironia. E, enquanto a moral sexual desagua dos púlpitos e dos documentos do magistério numa lista não-enumerável de pecados ligados à sexualidade – desde a masturbação até a prática homossexual –, nossos jovens descobrem o amore o sexo à revelia do que diz a moral católica. Vivem sua própria moral sexual, tendo sua consciência formada pela mídia – e não pela Igreja – como guia[1]. São poucos os que dão conta de viver a castidade ou os que nela acreditam como valor.

Além do mais, escandaliza nossos jovens a incoerência entre a moral que a Igreja ensina e a que vem a público na mídia envolvendo seus representantes. Dante de tantos escândalos por parte do clero (pedofilia, abusos sexuais, pornografia e prostituição), parece absurdo que a o magistério da Igreja não perceba que endurecer o discurso sobre a sexualidade não resolve os problemas ligados ao assunto – nem os do clero, menos ainda os da juventude. Enquanto a Igreja escreve para uma juventude ideal (fiel, obediente, casta, pura, quase angelical), nossa juventude real (cheia de desejos e libido – que a mídia insiste em despertar precocemente) fica entregue à própria sorte e encontra no campo da moral sexual sua própria maneira de sobreviver ao abandono catequético.

1.2 A liturgia Católica

Apesar dos esforços do Concílio, a liturgia católica permanece engessada e se apresenta aos jovens como maçante e tediosa. Acostumados ao barulho e ao agito dos ambientes juvenis, os jovens ficam estarrecidos diante do ritual silencioso e mimético de nossas celebrações. No geral, as liturgias têm o ritmo de uma assembleia que não aprecia o movimento próprio da juventude, nem o deseja.

É difícil admitir, mas a maioria de nossos jovens tolera os ritos litúrgicos em nome da piedade e da obrigação cristã, mas não os saboreia ou aprecia. Então, quando não criam um caminho alternativo dentro da própria Igreja Católica, por meio de algum movimento que lhes ofereça a fé cristã de modo mais apetecível – ainda que questionável teologicamente –, nossos jovens evadem para igrejas neopentecostais ou escolhem manter a fé cristã a seu modo, mas sem vínculos de pertença a nenhuma instituição.

1.3 A linguagem da fé

            Salta aos olhos a caducidade da linguagem religiosa que prevalece no ambiente católico. Utilizando uma linguagem inacessível, o discurso cotidiano da fé cristã não favorece o encontro com Jesus Cristo. Emilio Alberich, dando voz ao povo, atreve-se a dizer que a catequese “utiliza linguagens que ninguém entende, se dirige a auditórios que já não existem e responde a questões pelas quais ninguém se interessa”[2]. Segundo Yves Congar, “a crise atual vem em grande parte do fato de que a Igreja, tendo criado um maravilhoso conjunto de expressões da fé na cultura latina, se apegou a ela em demasia: inclusive na atividade de sua expressão missionária”[3]. Também Torres Queiruga tem levantado essa bandeira[4] e o assunto não foi ignorado pelo Documento de Aparecida (n. 100d), nem pela CNBB (cf. Est. CNBB 97, n. 107).

Parece que o nó da questão não está no vocabulário adotado, mas no conteúdo que é comunicado. Não basta trocar as palavras, dizer “Deus é dez”, “Jesus é o cara”, confeccionando uma espécie de vocabulário juvenil religioso, repleto de gírias religiosas. Não basta também tatuar o corpo e cantar rock ou funk gospel. A pergunta é: “O que está sendo proposto faz sentido, gera vida nova? O evangelho anunciado é, para os jovens, força para viver?”. Mais que a adequação das palavras, importa saber se o complexo sistema comunicacional da fé acompanha as necessidades dos jovens e os processos de evolução humana pelo quais eles têm passado.

1.4 As comunidades eclesiais

Nossas comunidades correm reconhecido risco de frieza, quando unidas mais por vínculos contratuais que afetivos. Mais que pertença institucional, a juventude quer o direito de peregrinar em busca de um espaço que favoreça sua própria identidade. Muitas vezes, porém, encontram comunidades eclesiais que cumprem obrigações, exigem presença, instituem regras, impõem condições, cobram o dízimo… mas oferecem muito pouco no que se refere ao crescimento humano e ao exercício da liberdade responsável. Quase sempre, os jovens se veem tratados como crianças, para quem as regras decidem, em nome de Deus, o que podem ou não fazer de suas vidas. Há comunidades que ainda difundem a teologia do medo e o puritanismo moral, não sem hipocrisia. É, pois, legítimo que muitos jovens se perguntem: “Ser cristão e pertencer a uma comunidade de fé favorece a minha formação, o meu desabrochar como pessoa humana, ou inibe e veta minhas potencialidades?”.

Diante disso, parece honesto que nós, catequistas e catequetas, nos perguntemos: “A comunidade cristã pode ser uma mediação favorável para a experiência pessoal com Jesus Cristo ou ela se tornou espaço de transmissão automática da fé sem exigência de personalização da mesma?”. Ainda que consigamos responder teologicamente a essas questões, pode ocorrer que nossa prática pastoral desminta nossa teologia. Oferecemos aos nossos jovens – e ao cristão em geral – comunidades que os convençam das vantagens da pertença? O quadro é frequente: nossos jovens, ainda que participem de algum evento na Igreja (como a Jornada Mundial da Juventude), ainda que não tenham abandonado totalmente os ritos católicos, não têm mais laços afetivos e nem efetivos com a comunidade eclesial na qual foram inseridos pelo batismo quando crianças.

Salvo poucas exceções, nossa catequese paroquial foi totalmente pensada para a infância[5]. A constatação de peritos no assunto, como o catequeta espanhol Donaciano Martínez Alvárez, causa preocupação: “Em relação ao processo de iniciação à fé dos adultos, ao catecumenato em seu sentido mais verdadeiro, creio que estamos em situação de inexpertos”[6]. Em geral, entendemos de catequese, mas não de jovens, de seus anseios, de seus sonhos, de sua vida neste novo tempo chamado pós-modernidade. Então, precisamos nos debruçar sobre esse tema.

2 Características da pós-modernidade

Vivemos um momento muito especial. São tantas as mudanças que nem mais falamos de tempo de mudanças, mas de mudança de tempo ou mudança epocal[7]. Diante dessa mudança epocal, nós nos perguntamos: “Como comunicar a fé ao homem pós-moderno, especialmente aos jovens?”. A primeira condição para que retomemos nosso trabalho evangelizador com um mínimo de eficácia é entender um pouquinho o tempo que vivemos.

A multirreferencialidade: Bem diferente da cristandade e da modernidade, a pós-modernidade não dispõe de um único referencial; é plural, multirreferencial. A sociedade atual reage à razão instrumental positiva da modernidade e abre espaço para a razão do coração, “que a própria razão desconhece”, admitindo possibilidades antes impensadas. Uma multiplicidade de significados conquista espaço e, ainda que sejam contraditórios e opostos – segundo a razão moderna –, esses significados não se excluem devido às escolhas do coração.

A relação com o espaço e o tempo: A relação do homem contemporâneo com o tempo e o espaço transformou-se radicalmente. Hoje, tudo anda depressa demais, fica impossível dar tempo ao tempo. Nossa prioridade número um tornou-se gerir a urgência. Exauridos por tantos compromissos urgentes, não temos mais tempo para refletir sobre a construção do futuro. Queremos ser felizes no presente e pronto! Nossa relação com o espaço também já não pode ser descrita como antes. As pequenas aldeias e vilas do passado cederam espaço às aglomerações e teias urbanas. As pessoas se movem de um lugar a outro sem maiores sacrifícios. E mesmo os que não têm acesso à rápida mobilidade física têm sua subjetividade formada pela mobilidade da comunicação e das informações. Uma proximidade comunicacional e imaterial anula distâncias e gera onipresença virtual. Mas a onipresença virtual paga seu preço, pois ao estar em toda parte não se está em lugar nenhum. O espaço foi desmaterializado e agora, como um andarilho errante, nós vagueamos por labirintos sem achar a saída. Nesse nomadismo, restou-nos apenas o próprio corpo como “última morada possível”[8]. Talvez por isso o corpo seja tão cultuado nesse tempo e tão cuidadosamente preservado. É ele a casa na qual habitamos e condição de possibilidade de ser um com os outros, de entrar em relação, de fazer comunhão.

A primazia da tela: Se, no passado, fomos marcados pela cultura da transmissão, da narrativa, as novas gerações são configuradas pela cultura da tela, da imagem. Tudo acontece diante da tela da televisão, do cinema, do computador, do celular ou de tantos outros aparelhos, cada vez mais eficientes. Mais que um instrumento, eles se tornaram uma mediação que muda nossa maneira de pensar, de perceber o mundo e de nos situar, nossa maneira de simbolizar, de imaginar, de criar. Uma mediação comunicacional transforma a mensagem comunicada. Ganha força e conquista espaços, o mundo virtual; a tal ponto de a juventude se tornar totalmente dependente dele, de não saber mais existir fora dele.

A psicologização do social: Na década de 60-80, nós nos sentíamos como um agente social totalmente necessário para a mudança do mundo. Acreditávamos na utopia de um mundo novo, sem dor nem mazelas, construídos sobre as bases da fraternidade que sustenta a fé cristã. Mas o tempo mudou. O reino sonhado não veio; caímos na descrença de que um dia de fato ele será real. Nossa razão foi capaz de coisas horríveis e os desmandos do ser humano nos fizeram entender que não somos tão bons e abertos para Deus como pensávamos. A utopia social perdeu sua força. Nossos projetos são mais modestos e dizem respeito, normalmente, à nossa vida pessoal, nossa realização, nossa família, nossa carreira. Essa mudança de foco do social para o subjetivo coloca a sociedade pós-moderna sob a égide dos indivíduos. O indivíduo atual quer antes de tudo ser um agente livre de tudo, para poder dispor absolutamente soberano de seu tempo. As ideologias sociais do universo foram desmascaradas e o desejo de um mundo melhor foi transportado para mundos bem menores: o da vida privada e da subjetividade.

3 Desafios catequéticos

Diante das características levantadas, apresentamos alguns desafios que a catequese não pode evitar, a não ser ao preço de ver a fé cristã ignorada pelos jovens e pelas gerações futuras.

3.1. Desafio da interioridade

O homem pós-moderno não pode mais fiar-se numa ordem das coisas, como nos tempos de outrora. Vivemos hoje no terreno da incerteza identitária. Nossos jovens se encontram alienados das antigas pertenças familiares, sociais, religiosas ou políticas. Para a maioria dos jovens hoje, o desafio não é o de tornar-se um agente sociotransformador (como na modernidade), mas o de assumir-se inteiramente como sujeito construindo uma identidade confiável para si, numa verdadeira fidelidade a si mesmo”[9]. Trata-se de assumir sua singularidade, sua individualidade, ou ainda, sua unidade, sua integridade e sua diferença, de tornar-se sujeito de si mesmo. Num mundo complexo, onde as pessoas podem ser o que elas quiserem ser, nossos jovens se encontram expostos a todos os ventos, pois seus alicerces axiológicos se apresentam abalados.

A catequese não está sem recursos no trabalho de desenvolvimento da interioridade. A experiência de Deus que a catequese comunica – especialmente por meio da meditação, da oração, da acolhida da Palavra de Deus, do mergulho no mistério – possibilita ao cristão transitar nesse ambiente sem receios. O amor de Deus revelado em seu Filho, que o ato catequético dá a conhecer, mostra-se como grande aliado nessa construção. Deus é intimo ao coração e se revela a nós nas profundezas de nossa interioridade. A catequese não deve, pois, ter receio de trabalhar a dimensão espiritual da relação com Deus, por meio da oração e da contemplação, que permitem perceber sua presença no mais íntimo do ser.

A catequese enfrenta então o desafio de proporcionar aos jovens essa experiência humanizante da fé, que pode ajudá-los na construção de sua identidade. O amor de Deus é energia para viver; é força vivificante. Cada jovem, interpelado por Deus, pode acolher sua palavra no profundo de si mesmo como uma palavra atual e viva que Deus a ele dirige, graças ao seu amor sem medidas. A catequese se faz lugar propício para essa interatividade construtora e desconstrutora. Deus toma a palavra nas palavras humanas e provoca um deslocamento naquele que aceita ser interpelado por ele. A catequese não trabalha com simples transmissão de uma informação sobre Deus ou com a simples comunicação de verdades intangíveis. Ela comunica a Palavra de Deus que “é um acontecimento ao mesmo tempo que faz acontecimento”[10].

3.2 Desafio querigmático

A secularização da sociedade moderna hoje observada interpela a Igreja a dar uma orientação resolutamente mais querigmática à catequese. A crescente secularização fez com que o mistério cristão – a vida, morte e ressurreição de Jesus – fosse exilado do horizonte de compreensão do homem pós-moderno. Para muitos de nossos jovens, a proposta cristã não passa de “lengalengas por longo tempo remoídas, de velhas histórias desgastadas e estéreis”[11]. O caminho de vida que o cristianismo propõe se encontra sob suspeita de impertinência[12].

Uma catequese mais querigmática requer uma volta ao centro da fé cristã, o mistério pascal: Jesus foi crucificado, mas Deus o ressuscitou e, do Ressuscitado, vida nova jorra para os seres humanos. A ressurreição de Jesus não é, pois, um detalhe que se acrescenta ao resto da fé; mas seu núcleo mais fundamental. O paradoxo da vida que vence a morte não pode passar em brancas nuvens. Nossos jovens precisam conhecer Jesus de Nazaré, o Crucificado que se encontra Ressuscitado entre nós e saber por que motivo foi crucificado: sua práxis. No mistério pascal, o distanciamento entre Deus e a humanidade fica anulado, pois Deus se deixa reconhecer na figura de seu Filho que se fez homem e foi fiel até a cruz. É no Crucificado que Deus mostra quem é: puro amor. É na vida entregue de Cristo que ele se deixa conhecer como amor-gratuidade. O conhecimento da verdade cristã não se dá por via natural, mas no escândalo da cruz, pois o Deus totalmente outro é pura gratuidade revelada em Jesus que ele ressuscitou dos mortos. A catequese precisa recuperar seu fôlego e anunciar aos jovens o mistério pascal.

3.3 Desafio pedagógico

Eis que o grande sinal dos tempos hodiernos – a desconstrução da razão clássica – se faz visível: as igrejas que adotam certo estilo espiritualizante estão repletas de fiéis, os movimentos religiosos alternativos atraem numerosos adeptos, grupos religiosos de todo tipo estão abarrotados de gente, as Jornadas Mundiais da Juventude em torno da figura do papa congregam multidões de todos os recantos da terra. Todos querem Deus, ainda que não saibam que Deus é esse. Por meio da busca alucinada de algo que console o ser humano e o arranque de sua própria insignificância, revela-se que a Palavra de Deus quer ser ouvida: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).

Diante dessa sede de Deus, percebemos que um novo desafio se impõe ao ato catequético: proporcionar a experiência cristã de Deus, pois a catequese não pode mais pressupor uma familiaridade das pessoas com o mistério cristão, nem pode se contentar em ensinar a fé como se a adesão a Jesus Cristo se limitasse ao problema do conhecimento. Nosso Deus é um Deus que fala ao coração bem mais que à cabeça. Esse coração se entusiasma, se apaixona e se rejubila, mas não sem razão, é claro. Então, perguntamos: “Que pedagogia é mais apropriada para proporcionar a experiência cristã de Deus?”.

Na cristandade, a pedagogia do ensinamento encontrou seu espaço. Ela deu seus frutos em tempos de controvérsias doutrinárias entre os pensadores da fé, permeada pela ignorância religiosa das multidões. Mas a fé ficou encarcerada na cela da doutrina e da transmissão de um saber. Na modernidade, a pedagogia da aprendizagem alçou vôos na catequese. Fez conquistas no campo da experiência, unindo fé e vida. Mas ela copiava a pedagogia humanista da escola: seus ritmos, seu modo de gerar aprendizagem, sua concepção do conhecimento etc. Mas, ao adotar a pedagogia humanista do mundo escolar ocidental, em que a razão é colocada no centro e o conhecimento é construído em vista da figura do aprendiz, a catequese eliminou do seu dinamismo o mistério.

Na pós-modernidade, porém, a experiência de Deus em Jesus Cristo, que os contemporâneos ainda não fizeram, ultrapassa todo entendimento, apesar de pressupô-lo. A catequese atua no campo da acolhida do mistério e não no campo da racionalização da fé, apesar de todo esforço para dar suas razões. No ato catequético, a categoria de mistério se apresenta inegociável; ela é seu cerne, seu cume. Na humilde atitude de acolhida, o mistério é vivido.        Diante da estranheza das novas gerações com o mistério pascal, insistimos na urgência de uma pedagogia que se distancie da pedagogia escolar e proporcione a experiência do Deus misterioso que ultrapassa todo entendimento: a pedagogia da iniciação. Trata-se de propor o evangelho como força para viver; de apresentar o mistério pascal sem rebaixar o que ele tem de exigente, de abrupto e de desconcertante. E propor não é ensinar, nem impor verdades, nem apenas construir a fé por indução a partir de realidades terrenas. É crer que o homem pós-moderno pode fazer seu encontro pessoal com o Deus de Jesus Cristo e que esse encontro é o começo de um longo discipulado. O jovem contemporâneo é capaz da experiência de Jó que, depois de lutas homéricas com Deus, rende-se a ele exclamando: “Eu te conhecia só por ouvir dizer, agora vejo-te com meus próprios olhos” (Jó 42, 5). É tarefa urgente da catequese, em dias atuais, propor a fé.

3.4. Desafio comunitário

A nova gramática da existência que orienta o homem contemporâneo se apresenta, à primeira vista, como alheia a todo instinto gregário, a todo laço de pertença. Percebe-se hoje, especialmente no meio dos jovens, a tentação de dispensar todo laço de pertença religiosa, de querer viver sem entraves institucionais; cada um construindo para si uma religião à sua imagem e semelhança numa atitude de subjetivação da crença. Para muitos hoje, ser cristão não significa mais necessariamente ter uma pertença estável, recebida em herança dos familiares ou da sociedade; nem mesmo uma pertença alicerçada nas bases do engajamento solidário na missão. A adesão hoje é fortemente personalizada, mas móvel.

Apesar de esta procura ser subjetiva, ela não é solitária, não é isolada: ela se dá no interior de comunidades nas quais o clima de união e de convívio facilitam o consenso. A experiência da transcendência é atingida quando a vida se transforma em momentos de intensidade emocional partilhados com outros irmãos de fé. A pertença depende de uma escolha que diz respeito ao campo de investimento pessoal, do retorno que esse engajamento pode proporcionar. Como lidar com isso? Teria a fé cristã, cuja índole é de natureza comunitária, algo a oferecer a esse mundo pós-moderno, onde os laços fraternos se encontram tão fragilizados?

Para enfrentar esse desafio no meio de nossos jovens, o primeiro passo importante é ajuda-los a resolver o mal-entendido que opõe Igreja e comunidade. Esse mal-entendido indispõe os cristãos com a Igreja institucional e cria a ilusão de que é possível participar de uma comunidade ideal, onde os afetos transbordam e a convivência fraterna é natural. Normalmente, a palavra Igreja remete a instituição, normas, leis, regras, hierarquia, obediência, ritos. A palavra comunidade, ao contrário, quase sempre faz referência a laços de solidariedade, fraternidade, adesão sem contratos e normas que estabeleçam essas relações. São ambientes de oração, de partilha e de diálogo, onde acontece uma solidariedade por afinidade, por comunhão de interesses.

A Igreja não é, entretanto, nem uma sociedade fria organizada hierarquicamente, nem uma comunidade quente sem nenhuma legislação, ao sabor dos afetos. Ela é a família dos filhos de Deus, uma comunidade de irmãos, onde os membros não se escolhem mutuamente; eles são dados uns aos outros como irmãos, filhos de um mesmo Pai. Essa irmandade, que se dá em torno do único Pai, ensina os irmãos a se aceitarem uns aos outros sem que eles tenham se escolhido mutuamente, pois eles têm a mesma filiação. Ela ensina a Igreja a viver relações verdadeiramente fraternas em meio a relações assimétricas e hierárquicas. Ela ordena a vivência do amor sem medidas e do serviço aos mais fracos. Ela, apesar de não eliminar os laços contratuais (a hierarquia, a obediência, as normas etc.), ressignifica esses laços.

O apelo de Deus para que vivamos fraternalmente corre o risco de ser mal-compreendido, como se a fraternidade eliminasse toda diferença e toda especificidade das funções e serviços assumidos. A Igreja pode ser idealizada como uma comunidade quente, de relações afetivas, onde reina a espontaneidade e o desejo de estar juntos. Mas viver fraternalmente não é antes de tudo experimentar relações afetivas e calorosas, apesar da importância dos afetos. “Não é a intensidade ou o calor dos sentimentos que fazem a fraternidade, mesmo que isso contribua fortemente”[13]. A relação fraterna não se estabelece só na esfera da afetividade, mas na esfera da ética[14]. Ela é criada por um terceiro, que é Deus que nos congrega.

Encerrando nossa reflexão, voltemos aos desencontros entre a Igreja e os jovens que foram apresentados no começo deste artigo: a moral sexual da Igreja, as celebrações litúrgicas, a linguagem da fé e o modelo de comunidades eclesiais que prevalece em nossas paróquias. O que esses pontos levantados têm a ver com os desafios catequéticos acima apresentados? Vejamos:

1) A moral sexual: Na sociedade pós-moderna, em que a afirmação não vem mais dos valores dados por outrem, mas da construção laboriosa da interioridade de cada pessoa, parece inútil dar aos jovens a receita pronta acerca dos comportamentos morais, inclusive no campo da sexualidade. Ou a Igreja educa os jovens para a responsabilidade, ajudando-os por meio da boa nova do Evangelho a tomarem decisões éticas e morais compatíveis com a vida cristã, ou ela estará falando para ninguém. Sua moral sexual não será acolhida por meio da força e da teologia do medo, pois estes argumentos não colam mais com os jovens de hoje, libertos da culpa e do medo do castigo eterno. Enfrentar o desafio da interioridade, ajudando os catequizandos a construir para si uma identidade que não seja fútil, será o caminho mais penoso, porém mais eficaz para que a moralidade cristã tenha respaldo entre a juventude.

2) As celebrações litúrgicas: Se nossos jovens não receberam a fé no berço familiar e por isso não conhecem Jesus e não fizeram sua experiência cristã de Deus, é hora de promover esse encontro. A liturgia é o lugar ideal para essa experiência transformadora. Mas, com as celebrações ritualistas e tímidas de nossas Igrejas, não conseguiremos promover esse encontro. Nosso povo católico, mesmo os mais afastados da vida eclesial, gosta de celebrar, de cantar, de rezar, de meditar… As celebrações litúrgicas, a começar pelas missas, precisam ser repensadas. O rubricismo precisa dar lugar ao bom senso, a monotonia à criatividade, a linguagem formal e técnica à linguagem do coração, o cumprimento dos ritos ao mergulho no mistério pascal, a frieza das celebrações ao calor juvenil e à participação alegre dos jovens[15].

3)  A linguagem da fé: Quando falamos que a linguagem da fé diz bem pouco a nossa gente juvenil, lembramos que esta linguagem não se refere apenas ao vocabulário, mas ao mundo de significações dos jovens, ou seja, à gramática existencial deles tão marcada pelo afeto e pela subjetividade enquanto a nossa geração foi marcada pela razão e pela utopia social. Nosso desafio hoje não é ensinar a fé, mas ser iniciado nela. Para atrair os jovens, teremos que vencer preconceitos pedagógicos antigos; haveremos de deixar para trás os caminhos pedagógicos já conhecidos e precisaremos nos aventurar em construir com os próprios jovens uma pedagogia mais ousada.

4)  O modelo eclesial: Participar de comunidades fraternas, com exigências éticas até a radicalidade da vida doada, pode ser uma ótima alternativa para ajudar o sujeito à cata de si mesmo a se encontrar. Mas essa participação não se dá mais por convenção, tradição ou obrigação, mas porque ela é um investimento importante na construção da interioridade. O encontro entre identidade cristã e pertença eclesial se instaura na e pela iniciação à fraternidade, que se dá em comunidades cristãs que procuram viver essa fraternidade. A catequese deveria, pois, ser vivida como um âmbito criador de relações fraternas; fraternidade essa que ultrapassa inclusive o ambiente eclesial. Enquanto nossas comunidades eclesiais não se tornarem esse espaço fraterno que afirma o sujeito, nossos jovens vão se recusar a construir seus laços de pertença.

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Notas

[1] Em recente pesquisa, a Datafolha entrevistou peregrinos católicos, presentes no RJ para a JMJ. Dos entrevistados, 65% defendem o uso de preservativos nas relações sexuais e 53% defendem a pílula anticoncepcional. Já no que diz respeito à “pílula do dia seguinte”, o respaldo é menor, de 32%. É bom observar que essa pesquisa foi feita com jovens freqüentadores da Igreja e admiradores do papa. Entre os jovens não-participantes, a opinião da Igreja simplesmente nem é levada em conta. Cf. http://m.g1.globo.com/mundo/noticia/2013/07/pesquisa-mostra-que-peregrinos-se-mostram-mais-liberais-que-a-igreja-catolica.html. Acesso dia 29 de julho de 2013.

[2] ALBERICH, Emilio. A catequese tem futuro?. Revista de catequese, v. 28, n. 109, 2005, p. 24.

[3] CONGAR, Yves. Cristianesimo come fede e come cultura. Il Regno documenti, n. 21, 1976, p. 41.

[4] Cf. TORRES QUEIRUGA, Andres. Recuperar la criación. Por uma religión humanizadora. Santander: Sal Terrae, 1998.

[5] Cf. MARTÍNEZ ÁLVAREZ, Donaciano et al. Mesa Redonda. Catequética, v. 45, n. 3, 2004, p. 130-154.

[6] Idem. Mesa Redonda, p. 133. Grifos do autor.

[7] Cf. AMADO, Joel Portella. Mudança de época e conversão pastoral: uma leitura das conclusões de Aparecida. Atualidade Teológica, v. 12, n. 30, 2008, p. 301-317). Ou ainda: AMADO, Joel Portella. Uma Igreja em mudança de época: Pontos relevantes para a compreensão da Igreja na segunda década do século XXI. Revista Eclesiástica Brasileira, v. 70, n. 279, 2010,p. 565-579. Explicação clara sobre a mudança de época aparece nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB (DGAE 2011-2015). Cf. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015. São Paulo: Paulinas, 2011. (Documento 94). Ou ainda Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010. São Paulo: Paulinas, 2008. n. 13. (Documento 87).

[8] VILLEPELET, Denis. L’avenir de la catéchèse. Paris: L’atelier/Ouvrières, 2003. p. 19 (Traduzido para o português pela editora Paulinas: VILLEPELET, Dennis. O futuro da catequese. São Paulo: Paulinas, 2007).

[9] VILLEPELET, Denis. La centralité du présent. Cahiers de l’Atelier, n. 523, 2009, p. 64.

[10] LACROIX, Roland; VILLEPELET, Denis. Une question à la foi: la catéchèse, écho d’une parole de vie. Paris: L’atelier, 2008. p. 34.

[11] VILLEPELET, Denis. Catéchèse et crise de la transmission. In: VILLEPELET, Denis; GAGEY, Henri Jérôme (orgs.). Sur la proposition de la foi. Paris: L’Atelier, 2000. p. 83.

[12] Cf. VILLEPELET, Cathéchèse et crise, p. 83.

[13] VILL EPELET, L’avenir, p. 74.

[14] Cf. VILLEPELET, L’avenir, p. 74.

[15] Não estamos defendendo certamente que a missa seja transformada num espetáculo. Hoje há tanta missa alegre que não comunica o mistério… Muitos trouxeram para a missa a lógica do auditório, da festa, do shopping… Não se trata disso, mas de fugir do engessamento litúrgico que não permite que a celebração seja em primeiro lugar expressão da vida e cultivo da amizade com Deus.

Colaborou: Fique Firme

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