“Quero Misericórdia e Não Sacrifício” | Reflexão sobre Mt 9,9-13

Por Hermes Fernandes

O Evangelho de hoje tem como tema a Vocação de Levi, isto é, o Apóstolo e Evangelista Mateus. A narrativa presente na Liturgia está em Mt 9,9-13. O v. 9 nos oferece, de imediato, uma informação sobre o vocacionado Apóstolo. Diz que Mateus estava sentado à coletoria de impostos. O que isso significa?

Jesus nasce e vive no tempo da ocupação romana na Palestina. O termo Império deriva do latim “imperium”. Essa era a palavra que determinava o conceito romano de autoridade. O imperium compreendia o poder de tomar partido mesmo fora de Roma; enviando suas tropas para ocupar todas as pequenas nações; obrigando as nações ocupadas a seguir as ordens romanas; detendo e punindo cidadãos que ousassem rebelar-se à opressão. O que Roma desejava era a centralização sobre o poder absoluto, sustentado pela força, sobre toda a oikoumene, isto é, todo mundo habitado. Para tanto, elegia centros de administração de seu poder, os quais, cobravam os tributos para o Império e mantinham o sistema de sujeição. Uma rede de autoridade e sub-autoridade, construindo uma pirâmide de exploração e opressão, sustentada pelo utópica pax romana. Dominação e alienação. Para tanto, Roma cobrava altos impostos para preservar a vida dos dominados. Quem não pagava tributos, era considerado insurgente (rebelde) e devia morrer. E mais: como se não bastasse a opressão e a exploração, Roma ainda ostentava a alcunha de benfeitora, dizendo que os dominados tinham o privilégio de adentrarem no contexto e convívio de uma cultura superior.

Assim, existem inúmeros testemunhos históricos referentes à brutalidade e crueldade, quando dos recenseamentos e coletoria de impostos, realizados na época de Jesus. Historiadores como Lactânio deixaram verdadeiras radiografias sobre o sistema opressor de Roma. Nessa rede de opressão e exploração, muitos dos que eram da população nativa dominada – isto é, palestinos – se inscreviam nas equipes de manutenção da arrecadação de impostos. Traidores de seu povo, motivados pela pedagogia do poder e do lucro. Entre estes traidores, estava Levi – o Mateus; personagem da perícope do Evangelho de hoje. Voltemos ao trecho do Evangelho! Jesus se aproxima da banca de coletoria de impostos e diz a Mateus: “segue-me” (9,9). Levantou-se e seguiu Jesus.

Na continuidade da narrativa, o cenário muda. Estão em um jantar. Na casa do próprio Mateus (v. 10). Muitos dos que estavam sentados à mesa eram tidos como pecadores públicos. Coletores de impostos, tal qual o era o anfitrião. Estando também presentes alguns Fariseus, questionam por que Jesus se associa a pecadores? A cobradores de impostos? Como dissemos acima, os coletores de impostos eram duplamente odiosos aos judeus. Traidores da causa da resistência e exploradores dos seus irmãos e irmãs. Dizem os historiadores que os coletores de impostos não só traíam a identidade nacional, mas compravam as dívidas dos explorados pelo império romano, acrescentando vultoso percentual à dívida. Sim, além de traírem os palestinos, seus irmãos e irmãs; ainda os exploravam, à guisa de agiotagem.

Jesus, ouvindo o questionamento dos Fariseus, diz: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (9,12-13).

Antes de adentrarmos na mensagem inerente às palavras de Jesus, gostaríamos de levantar uma questão: Se os coletores de impostos eram tão indesejáveis, se a companhia deles era insuportável, o que estavam fazendo os Fariseus ali? A conclusão mais óbvia seria que estavam à procura de algum motivo para criticar e condenar Jesus. Se por um lado os publicanos traíram às causas nacionais por amor ao lucro, os Fariseus conspiravam contra Jesus. Da forma mais vil e hipócrita possível. Permitiam-se estar entre os odiosos do seu povo, com o objetivo de levar ao bom termo a conspiração contra o profeta galileu, que oferecia ameaça aos poderes do Templo. Apontavam pecadores, mas eram – sobremaneira – odiosos pecadores. Destes que se escondem atrás de máscaras de santidade.

O Messias dos pobres, Jesus de Nazaré, não faz parte de nenhum destes grupos. Nem dos corrompidos pelo poder romano, nem dos viciados pelo poder do Templo. Sua missão é a misericórdia de Deus, seu Pai. Este que ama a todos por um amor infinito, estando presente onde houver – sequer – um só coração ferido a ser curado (cf. Is 61,1b). É nesta inspiração que se entende a Palavra de Jesus: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes.” (v. 12b).

Se por um lado há que se concordar que a rejeição aos publicanos, ou seja, coletores de impostos, é justificada; por outro, devemos convir que a hipocrisia dos Fariseus é igualmente condenável. É por isso que Jesus não condena a nenhum deles. A ação do Filho de Deus é contrária. Acolhe a ambos. Recebe em seus número de discípulos um publicano, senta-se com seus iguais em comensal fraternidade e, ainda, esclarece suas intenções, face à invectiva do Fariseu. Temos que concordar que o tom usado por Jesus respondendo ao Fariseu foi cheio de caridade. O profeta galileu não condenou o passado de Mateus, agregando-o a si, mas – com a mesma tolerância – responde ao Fariseu de forma fraterna. Por mais hipócrita que o fariseu possa ter parecido com seus questionamentos!

Em nossas vidas, nos veremos em situação semelhante. Não nos faltará momentos em que nos veremos na posição em que esteve Jesus. Fica-nos a necessidade de escolha. Acolher como Jesus, ou sentarmo-nos sob o trono da hipocrisia e acusar como fez o Fariseu. Não se pode esquecer o que disse Jesus: “quero misericórdia e não sacrifício” (v. 13). Ao citar o Profeta Oseias, ele mostra a contradição do Fariseu (cf. Os 6,6). Mesmo que passasse sua vida ao serviço da Lei, não conhecia a vontade de Deus. Os Fariseus, profissionais da fé, perderam a essência do que – de fato – importa ao ser religioso. O amor. E este a tudo suporta, tudo perdoa (cf. 1Cor 13,4).

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