“Levanta-te, pega a tua cama e vai para a tua casa” | Reflexão sobre Mt 9,1-8

Nesta Quinta Feira, da 13ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos sugere o Evangelho de Mt 9,1-8. Neste relato, somos convidados pelo Evangelista Mateus a presenciar – mais uma vez – um sinal miraculoso de Jesus e a ausência de fé de seus conterrâneos. Sabemos que na primeira parte dos sinóticos, pelo menos de forma bem marcada em Mateus e Lucas, Jesus sofre rejeição de seus familiares e em sua terra natal. Ficou inscrita em nossa memória a palavra queixosa de Jesus em que diz: “nenhum profeta é bem recebido em sua terra” (Lc 4,24).

No relato de Mateus hoje, temos mais um sinal, uma cura feita por Jesus. Não nos cansamos de insistir que tais fenômenos sobre-humanos não se trata de mero exibicionismo. Jesus não é um taumaturgo. As curas feitas por Jesus, sob um olhar teológico, têm dois fins. Primeiro, atestar materialmente sua messianidade. Segundo, reintegrar os doentes ao seio da dignidade humana.

O paralítico da perícope de hoje é doente incurável. Está morto em vida, pois – uma vez que não pode assumir sua emancipação e sequer pode locomover-se sozinho – vivendo em estado de constante dependência dos outros, é contado como aqueles que carregam sobre si o olhar da maldição. Não são raros os textos bíblicos que atribuem as doenças ao preço do pecado. A teologia da retribuição, presente em muitos dos corações religiosos do Primeiro e Segundo Testamento, afirmava que o mal que afligia alguém era resultado de seu pecado, ou de seus pais. Além do sofrimento físico, a indigência; os doentes eram marcados pela mancha do pecado, considerados pecadores indignos. Sofriam o mal de saúde e a exclusão da sociedade e religião.

A cena do Evangelho nos apresenta o sinal de fé dos que carregam o paralítico. Os carregadores materiais do doente, também são portadores de valores espirituais. O elogio à fé, feito por Jesus, é significativo. Estes tinham tamanha fé, que se sentiam impelidos à empatia, à misericórdia. Não só acolheram e cuidavam do paralítico, mas não se deixavam tocar pela mente discriminatória e excludente do judaísmo.

Sabendo que a teologia judaica afirmava que o mal físico era resultado do pecado, Jesus não só cura; mas oferece anistia aos pecados do paralítico. O ato de perdoar pecados gera escândalo aos corações religiosos. É chamado de blasfemo. Jesus confronta estes que lhe acusam, perguntando qual sinal seria maior: o perdão dos pecados ou o dom da cura. “Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? que é mais fácil, dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te e anda’? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados, — disse, então, ao paralítico — ‘Levanta-te, pega a tua cama e vai para a tua casa’” (Mt 9,4b-5).

A cura acontece! Com ela, corrobora-se a messianidade de Jesus. O Filho do Homem pode curar e perdoar pecados. Ele é o Filho de Deus. Sua vinda ao mundo faz parte do Projeto do Pai que deseja ressignificar a vida de seus filhos e filhas. O profeta Isaías bem define a missão do Messias: “…ele assumiu sobre si nossas fraquezas, e nossas dores ele as suportou” (Is 53,4). É nessa inspiração do Servo de Javé que podemos bem entender a ação de Jesus. Ele, o Messias, é a encarnação humana da misericórdia divina.

Em nossos dias, não são raros os momentos em que essa perícope evangélica pode nos servir de inspiração e paradigma. Os corações religiosos, fechados para a misericórdia, ainda estão em meio a nós. Muitos são os nossos irmãos e irmãs, – quem sabe nós mesmos – que atribuem o mal que alguém sofre à sua dignidade, ou ausência dela. Não são raros os que dizem que o sofrimento alheio é castigo de Deus. Não nos enganemos! A meritocracia só se justifica a partir da hipocrisia religiosa inerente em nós. Nunca dentro dos critérios de Deus, Pai da misericórdia. O Pai nos ama por um amor infinito. Nosso sofrimento é consequência da ordem natural de todas as coisas. Não faz parte do projeto de um deus impiedoso e castigador. A mensagem de Jesus nos alerta sobre isso. Esse deus do castigo é reflexo de nosso coração fechado à misericórdia. Entretanto, devemos nos atentar: Jesus pode curar e apagar qualquer pecado. Fazer novas todas as coisas (cf. Ap 21.5). Seu poder vem de sua misericórdia. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça!” (Rm 5,20).

Um comentário em ““Levanta-te, pega a tua cama e vai para a tua casa” | Reflexão sobre Mt 9,1-8

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: