Um novo paradigma catequético (1ª parte)

Por Solange Maria do Carmo

Este artigo se propõe a contribuir com a reflexão teológica acerca da necessidade e da viabilidade de um novo paradigma catequético[1]. Percebe-se hoje a procura por um novo paradigma catequético. Como surgiu essa discussão? Nossos paradigmas estão em crise? Teria caducado o nosso jeito de fazer catequese, nossa pedagogia, nossos programas, conteúdos, métodos? O que mudou tanto assim para tornar obsoletos nossos caminhos catequéticos tão conhecidos? O que catequetas e teólogos têm refletido sobre isso? E os documentos da Igreja, tratam desse assunto? Onde o problema catequético é sentido com mais intensidade? Essas são algumas perguntas que norteiam este artigo, cujo objetivo é ventilar a discussão em torno do novo paradigma catequético, debate com abrangência mundial e que chega também ao Brasil.

Para cumprir essa tarefa, vamos dividir esta discussão em dois artigos, pois é vasto o assunto. Neste primeiro artigo, vamos nos debruçar sobre a gênese do problema e apresentar a reflexão teológica catequética no cenário mundial. Dentro dessa investigação, uma primeira aproximação será feita em torno dos documentos magisteriais e de reflexões que surgiram em encontros catequéticos que marcaram a virada do milênio; uma segunda aproximação investigará catequetas renomados que se debruçam sobre o assunto[2]. E nosso artigo termina ai, deixando um gostinho de quero mais. Na próxima revista, retomaremos o assunto com novo artigo e nossos interesses se voltarão para a reflexão catequética no Brasil. Segue-se o mesmo esquema: uma primeira aproximação se dará em torno dos documentos magisteriais e, depois, uma segunda abordagem se concentrará na contribuição de alguns catequetas e teólogos brasileiros, com breve conclusão sobre a discussão, que não tem a pretensão de fechar o assunto, mas, ao contrário, quer abrir o tema para debate.

1. Gênese: a crise do sistema catequético

À pergunta: “E a catequese, como vai?”, infelizmente, a resposta “Vai bem, obrigado!” não vem imediata e certeira como em outros tempos. Se lançarmos um olhar crítico sobre a catequese católica, poderemos perceber uma crise evidente do sistema catequético – tanto da catequese tradicional doutrinária cuja base são os catecismos, quanto da catequese que se firmou nos pilares da teologia moderna e nas novas descobertas pedagógicas dos últimos séculos, no Brasil conhecida como catequese renovada ou libertadora. Não dá mais para esconder essa verdade: ela se faz visível a olhos nus e ninguém precisa ser especialista no assunto para percebê-la. Ela se manifesta nas reflexões teológicas, nos encontros dos catequistas, na prática pastoral das paróquias. Perpassa o ambiente eclesial um mal-estar: uma sensação estranha de fracasso, uma impotência incômoda diante dos desafios que se apresentam, uma certeza de que trabalhamos duro demais e obtemos resultados mínimos, quase nulos.

Certamente nem tudo são fracassos e decepções na catequese. Há muitos aspectos positivos ainda observáveis. Na maioria das paróquias e dioceses, há uma sede de formação e uma busca crescente de espiritualidade. Percebe-se a valorização da Bíblia nas comunidades e a multiplicação de cursos para aprofundar e partilhar os textos bíblicos. Começam-se a ouvir aqui e acolá relatos interessantes sobre a catequese com adultos e amplia-se o conceito de catequese, antes tão estreito e reduzido à formação doutrinal para a recepção dos sacramentos. Nota-se um esforço para que o processo de iniciação cristã não seja processo de finalização e encerramento da caminhada catequética. Os leigos conquistam espaço e o clericalismo – apesar de persistente – se enfraquece diante das iniciativas do povo fiel. Brilham intensamente esses sinais de esperança, alimentando o ardor de catequetas e catequistas para que continuem sua árdua luta. Não parece razoável desanimar diante da evidente crise constatada. Nem tudo está perdido! Mas todas as conquistas da catequese não conseguem ofuscar a dolorosa realidade de um sistema em crise.

Vejamos, pois, alguns sintomas da crise no processo catequético, mais fortemente constatados na Europa, mas não ausentes na realidade brasileira.

1.1 Crise da transmissão

Apesar de sabermos que a crise de transmissão tem contornos para além das fronteiras da fé cristã e acontece também em outros setores da sociedade, não deixa de ser preocupante o fato de ela não poupar a catequese. Tomemos a França como exemplo. Os bispos franceses têm-se perguntado sobre essa crise. Eles observaram que, em 2001, o sistema catequético atingia 33% de pré-adolescentes enquanto que, em 1994, 42% das crianças escolarizadas frequentavam a catequese: uma baixa de 1% ao ano[3]. Isso fica ainda mais grave quando se sabe que a França, desde a década de 50, investiu todos os esforços na catequese de crianças de 11 a 12 anos, gastando bem menos recursos com a catequese de crianças menores de 11 anos, adolescentes, jovens e adultos.

Outro dado importante: Na França, em 1966, 60% dos pais queriam a educação cristã para seus filhos. Em 2003, os que desejam educar os filhos na fé cristã são somente 20%. Muitos desses pais pertencem a uma faixa etária secularizada, que se distanciou da fé cristã recebida na infância. Pesquisas apontam que, entre as pessoas com 60 anos ou mais, o número dos que afirmam pertencer a uma religião oficial era de 80% e, entre os jovens de 18 a 29 anos, o número cai vertiginosamente para 47%.

Essas cifras fazem pensar o esgotamento das formas tradicionais da transmissão catequética, independente dos métodos, ritmos, conteúdos e itinerários. Já se percebeu que a crise da catequese não é, em primeiro lugar, uma crise dos meios de transmissão, uma vez que o século XX foi muito frutuoso nos descobrimentos psicopedagógicos. Não se trata de cantar mais, brincar mais, partilhar mais, celebrar mais, usar multimídia, jogos eletrônicos, apesar de tudo isso ser possível na catequese. O nó da questão é outro. A crise se assenta sobre um questionamento acerca do que é transmitido. Parece que o que está sendo transmitido perdeu sua importância para o mundo contemporâneo.

1.2 Fracasso do processo tradicional de iniciação cristã

Desde Pio X, a Igreja tem investido esforços na catequese como preparação para a primeira comunhão de crianças. Pensava-se que, uma vez recebida a fé no seio da família que garantia o batismo a seus filhos, a catequese deveria completar o processo de iniciação cristã, dando-lhe acabamento. Por essa ocasião, batismo e crisma eram ministrados à criança recém-nascida e a recepção da Eucaristia significava que o processo de iniciação cristã tinha sido concluído.

Os tempos mudaram, mas a catequese não. Hoje, os próprios pais – fora raras exceções – não são evangelizados e não têm a menor condição de comunicar a experiência da fé cristã a seus filhos. E, se a fé não flui mais naturalmente na família, a catequese não pode mais se dar ao luxo de acompanhar ou burilar uma fé que não existe, visando ao acabamento do processo iniciático. Ela deve despertar a fé, irradiar a fé. Ela deve fazer todo o processo de iniciação, a começar pela árdua tarefa de despertar o desejo de professar a fé.

Sabe-se, porém, que o processo catequético não foi pensado para isso. A Igreja se encontra em situação missionária, enquanto sua catequese foi pensada para uma sociedade cristã. O sistema catequético foi elaborado para “nutrir a fé” e não para “propor a fé”. Disso resulta um descompasso perigoso. Na Europa secularizada de hoje, que virou terra de missões, percebe-se uma defasagem entre a iniciação cristã que o processo catequético oferece e a iniciação cristã de que o homem atual precisa. Como fazer um paciente e elaborado trabalho evangelizador para que os catequizandos se interessem pelo Evangelho e respondam pessoalmente ao apelo do Deus de Jesus Cristo que lhes fala?

Esta tarefa não se apresenta fácil. São séculos de um trabalho catequético realizado em ritmo que não agrada nem funciona mais, e mexer nessa música certamente vai exigir muito traquejo para não perder o passo da dança. Um dos primeiros problemas surge logo quando se toma o conceito de iniciação. O processo iniciático foi pensado para pessoas não batizadas que desejam receber a fé por meio do batismo. Hoje, os catequetas estão cônscios de que pululam o continente europeu os batizados sem iniciação, apesar de já terem recebido o sacramento da fé cristã. E isso parece claro não somente na Europa. O conceito de iniciação cristã precisa ser revisto e ampliado.

Tal como vem sendo realizado, o processo catequético de iniciação tornou-se processo de conclusão da vida cristã. Basta um olhar atento para perceber que a catequese de iniciação, na realidade, não inicia, mas paradoxalmente conclui o processo iniciático. O processo de iniciação cristã tornou-se processo de conclusão cristã; para muitos jovens ele fecha o período de prática religiosa. O sacramento da crisma ministrado aos jovens passou a ser conhecido como “sacramento do adeus” ou “o último dos sacramentos”. E ainda mais triste: “a extrema unção juvenil”. E como se não bastasse, mais recentemente, ele cedeu seu lugar à Eucaristia ministrada aos pré-adolescentes. Para alguns, nem a crisma acontece. A iniciação fica interrompida na pré-adolescência com a primeira comunhão. É triste constatar que, ao término do processo formativo catequético, os catequizandos não frequentam mais a igreja. A evasão é frequente. A participação na liturgia depois da recepção da primeira Eucaristia é mínima. E pior é constatar que aqueles que catequizamos permanecem indiferentes à fé cristã. A formação recebida não os despertou para o discipulado e não diz a eles nada de novo, nada que os impregne do desejo de seguir Jesus, nada que seja significativo para suas vidas.

Um dos diagnósticos possíveis desse mal-estar é o descompasso entre o que a Igreja oferece nos sacramentos e o que o povo procura. Observamos em toda parte uma folclorização dos ritos religiosos de passagem. Não se vai à Igreja em busca de um sacramento pelo mesmo motivo que a comunidade eclesial o disponibiliza. A razão da busca é bem mais folclórica e com pouca ligação com a razão teológica sacramental. Tomemos alguns exemplos! Na primeira comunhão, as crianças e jovens vêm para a comunidade eclesial para “receber Jesus em seu coração”, enquanto que a Igreja quer bem mais do que isso. Para ela, não se trata primeiramente de comunhão com Jesus, mas de comunhão com a comunidade eclesial que vive e crê no Ressuscitado e na qual o catequizando está incorporado. No caso do batismo, a situação se agrava ainda mais. Pais e padrinhos costumam procurar a Igreja para batizar as crianças com o intuito de protegê-las do mal, de dar-lhes saúde, de estreitar os laços entre as famílias e amigos. O batismo é um acontecimento pontual, factual, sem maiores consequências. Raras vezes os pais procuram o batismo para inserir seus filhos na caminhada de fé da Igreja; poucas vezes sabem que suas crianças vão ser mergulhadas no mistério de Jesus Cristo e ficar comprometidas com a construção de seu Reino ao longo de suas vidas; desconhecem que o batismo faz das crianças discípulos de Jesus e que longo caminho de seguimento vem pela frente. O mesmo poderia ser dito sobre a crisma e os demais sacramentos.

1.3 Precariedade da catequese com adultos

Apesar de todos os avanços já conquistados – diversas experiências são registradas – permanece precária e descuidada a catequese com adultos. Fato notável é a ausência da Igreja no mundo da juventude, da cultura, do trabalho… E, como consequência, a ausência dos jovens, dos artistas, dos operários e profissionais liberais nas igrejas. Salta aos olhos a dificuldade encontrada: a catequese com adultos avança com muita dificuldade, apesar de o Diretório Geral de Catequese insistir na sua importância e prioridade. Qualquer observador mais atento percebe que nossa catequese se reduz à catequese de crianças. A catequese de adultos – quando acontece! – não é senão um apoio ou um complemento que permite conservar a estrutura implantada na infância. A infância permanece como a idade de ouro da catequese. Pensa-se que ela representa a base para a estruturação da fé cristã, um bom momento para alicerçar os fundamentos dessa fé de forma indelével. E a catequese de adultos fica sempre em segundo plano. A verdade é desconcertante: a catequese não sabe catequizar adultos; ela foi totalmente pensada para a infância. Neste campo, até os peritos da catequese são inexperientes!

Vinculada a esse problema se encontra a caducidade da linguagem religiosa. A comunidade eclesial parece apta, no máximo, a oferecer uma linguagem que convença a quem já está convencido. Não são poucos os que reclamam que a linguagem religiosa não comunica mais; que a catequese responde perguntas que ninguém fez e pelas quais ninguém tem interesse. Utilizando uma linguagem inacessível, a catequese tradicional não comunica a fé. Parece que o que a Igreja oferece ao catequizando está bem distante do que interessa a ele. A reclamação é frequente. Alguns se atrevem a dizer que a catequese utiliza linguagens que ninguém entende, se dirige a auditórios que já não existem e responde a questões sobre as quais ninguém se interessa. Parece hora então de pensar um novo paradigma catequético.

2 Reflexões na Igreja em geral

Tentemos uma aproximação da discussão. Como surgiu essa ideia de novo paradigma catequético? Retomemos o Vaticano II, divisor de águas na Igreja no último século. O período pós-conciliar foi fecundo para a catequese. Apesar de o Vaticano II não ter um documento específico sobre a catequese, seu espírito renovador motivou a catequese e a fez deslanchar. As mudanças no jeito de a Igreja ver a si mesma (Lumen Gentium), a Revelação (Dei Verbum) e o mundo (Gaudium et Spes) fizeram repensar a catequese de Trento e deram impulso ao movimento catequético, já estabelecido na Europa, que se espalhava por toda parte. Do Concílio até os anos 80, só se viam florescer entusiasmos e esperanças no campo catequético. O impulso do Concílio propiciou um rico conjunto de iniciativas e de reflexões. O ambiente catequético transbordava novidades e irradiava otimismo.

Com o passar dos anos, começaram a aparecer pequenos desânimos: a mudança do mundo se fazia mais rápida que a da catequese; uma defasagem já começava a ser observada nas conquistas estabelecidas. Aqui e ali se ouviam lamentos dos catequistas, dos pastores, dos catequetas e bispos. A catequese advinda da renovação catequética já não acompanhava o embalo da nova sociedade que surgia no fim do milênio. Profetas da catequese começavam a intuir que o mundo pós-moderno que se estabelecia exigia novos caminhos catequéticos. Foi quando o Papa João Paulo II, por ocasião da chegada do terceiro milênio, colocou em pauta a proposta da “nova evangelização”, com sua carta apostólica Nuovo Millennio Ineunte, apontando para a urgente necessidade do primeiro anúncio e da dimensão missionária da Igreja. Sua proposta teve alcance mundial, mas gerou controvérsias. Nem todo mundo acolheu bem a proposta do Papa. Uns acharam exagerada a sua preocupação; outros pensaram que ela era um retrocesso na caminhada pastoral, outros julgaram que ela induzia ao proselitismo, que lembrava as colonizações e a evangelização nada inculturada de outros tempos… Não faltaram críticas. Mas a Igreja em geral pareceu acolher o apelo do Papa. Ele vislumbrava a secularização galopante que foi desencadeada no Ocidente e, paradoxalmente, o ressurgimento do sagrado e a busca de Deus que nossos tempos vivem.

Depois disso, o tema da nova evangelização, da catequese missionária, do primeiro anúncio, da necessidade de propor a fé e não de transmiti-la simplesmente foi se popularizando no ambiente catequético. A renovação catequética, que tantas conquistas havia alcançado, parece não responder mais, pois ainda está muito presa ao sistema de cristandade que vigorou durante anos nas sociedades ocidentais e que agora entra em extinção. Como uma aurora ainda distante, já é possível vislumbrar, na consciência coletiva catequética, a necessidade de um novo paradigma.

2.1 Documentos magisterais e encontros

A discussão tomou fôlego, primeiramente, na Europa, tendo como foco a França, filha primogênita da Igreja Católica, ora totalmente secularizada. Depois o debate se alastrou e ocupou outros espaços, chegando até as Américas, inclusive a América Latina e o Brasil, o país ainda com o maior número de católicos do mundo.

2.1.1 Carta dos Bispos aos Católicos Franceses (1996)

Uma das contribuições mais significativas na discussão sobre esse novo paradigma veio da França. Em 1996, os bispos franceses escreveram uma carta aos católicos de seu país, intitulada Propor a fé na sociedade atual[4] e, nela, eles reconhecem abertamente a mudança dos tempos e a necessidade de a comunidade eclesial repensar o jeito de evangelizar.

Para os bispos franceses, a velha sociedade chamada de cristandade deixou de existir. Com a crescente secularização, a sociedade descristianizou-se e uma pluralidade de ofertas de sentido ocupou o lugar hegemônico da fé católica. Isto afeta de cheio as pessoas, e a Igreja da França chega a reconhecer que mudou a gramática existencial humana; ela não é mais sustentada pelos pilares da tradição.

Nessa nova situação cultural, os bispos franceses perceberam novas exigências para o anúncio do evangelho. Eles reconheceram sem medo que há novas condições para a evangelização hoje. E estão convictos de que os tempos atuais não são menos favoráveis ao anúncio do evangelho que outros tempos de nossa história passada.

A novidade maior do documento episcopal francês ultrapassou o reconhecimento sincero da falência de recursos diante da mudança epocal. Sua maior contribuição foi trazida pela coragem e esperança de suas palavras. A crise atual foi encarada não de forma negativa ou nostálgica, mas como um novo kairós, uma chance para a fé cristã, um sinal dos tempos. Afirmaram os bispos: “Rechaçamos toda nostalgia de épocas passadas, nas quais o princípio de autoridade parecia impor-se de maneira indiscutível. Não sonhamos com uma impossível volta ao que se denomina cristandade”. O episcopado francês não se pôs na defensiva, não quis salvaguardar seu modo de transmitir a fé. Ao contrário, colocou-se em atitude de diálogo e boa vontade diante do novo. Não se endureceu em posturas dogmáticas na tentativa de defender a ortodoxia e a instituição eclesial. A atitude dos bispos transparece humildade e acolhida, e não medo de perder suas garantias.

Ao reconhecer a irrupção de uma nova realidade, os bispos franceses perceberam a necessidade de uma profunda revolução na catequese, levando os catequetas franceses a colocarem em juízo o paradigma catequético que tinha sido assumido nos últimos tempos. Era preciso passar do “herdado ao proposto”, ou seja, de uma evangelização que se sustenta na fé recebida como herança dos pais e da sociedade ocidental cristã a uma fé acolhida livremente na opção pessoal por Jesus Cristo e seu Reino. A pertença aceita e não questionada, antes experimentada na cristandade, perde sua pertinência, e uma decisão consciente, que se desenvolve gradualmente, ganha espaço no cenário eclesial. Nasce aí a consciência da necessidade de uma “pastoral da proposta”, que exige ir ao coração do mistério da fé, superando a pastoral da herança, onde a fé era transmitida por processos quase automáticos, numa espécie de osmose sociológica. Um pontapé inicial foi dado no debate sobre a necessária mudança do paradigma catequético.

2.1.2 Diretório Geral para a Catequese (1997)

Grande contribuição trouxe para a reflexão catequética o Diretório Geral para a Catequese[5], de 1997. Sua introdução já acena para o que vem a seguir: apesar de não confundir a catequese com a ação missionária da Igreja, a tarefa catequética é situada dentro da perspectiva missionária e evangelizadora da Igreja, abrindo-lhe um novo leque (cf. DGC, 14-33; 59-62).

Dentre os desafios que o Diretório Geral aponta, encontram-se: a necessidade de a catequese assumir característica missionária; a urgência de dirigir-se a todas as pessoas, mas orientar-se especialmente para os adultos; a necessidade de plasmar a personalidade daquele que crê; o dever de anunciar os mistérios da fé, promovendo a experiência do Deus Uno e Trino, e por fim, a tarefa de empenhar-se na preparação e formação dos catequistas (cf. DGC, 33).

Se um dos desafios da catequese é assumir a característica missionária, a catequese sofre um deslocamento de eixo muito importante. A ela, que antes era atribuída a tarefa de aprimorar a fé, agora é dada também a missão de fazer o primeiro anúncio, de proporcionar a experiência cristã de Deus, de assegurar a conversão (DGC, 62). Começa a despontar na reflexão catequética a consciência de que, em tempos atuais, não basta educar na fé, cujo pressuposto se encontra na cristandade. É preciso propor a fé, pois ela não vem de per si, não é mais recebida por osmose sociológica (DGC, 29).

2.1.3 Documento dos bispos de Quebec (2000)

O documento Propor a fé aos jovens[6], resultado da Assembleia dos Bispos de Quebec em 2000, oferece orientações para que o Evangelho de Jesus Cristo seja proposto às gerações mais jovens. O texto mostra a sensibilidade da Igreja de Quebec às mudanças culturais e aos novos desafios oferecidos à fé cristã, entendidos não mais como ameaças, mas como oportunidades para o despertar e a transmissão da fé.

Como caminho, os bispos de Quebec propõem a volta à fonte, que significa muito mais que volta às crenças, mas voltar à genuína experiência cristã que brota da vida, surpreende e faz viver. Para os bispos de Quebec, essa experiência requer uma catequese que não se dirija somente à razão ou à memória, transmitindo uma mensagem ou determinadas convicções, mas deve antes de tudo dar sentido à vida dos jovens.

2.1.4 Plano Pastoral da Conferência Episcopal Espanhola 2002-2005 (2001)

Esse documento da Conferência Episcopal Espanhola, intitulado Una Iglesia esperanzada: “¡Mar adentro”, de 2001, levantou importantes questões acerca da realidade da Igreja desse país, apontando para sua secularização interna e admitindo que o problema maior enfrentado pela Igreja não está fora dela, mas dentro de seus próprios muros. Dentre os efeitos dessa secularização, os bispos apontam para a débil transmissão da fé às gerações jovens.

Para enfrentar o problema da secularização interna, a Igreja espanhola propõe três prioridades pastorais: 1) o encontro com o mistério cristão e o chamado à santidade: entendidos como algo maior que o conhecimento intelectual ou a assimilação de valores, mas como o encontro com o próprio Cristo; 2) a comunicação do evangelho de Cristo, com ênfase especial na transmissão da fé e na formação cristã, pois as novas gerações simplesmente o desconhecem e amplos setores do povo necessitam purificar suas referências evangélicas; 3) a comunhão no amor de Cristo, que não se identifica com mera solidariedade, mas se define como fraternidade que emana da filiação divina.

Dentro da comunicação do evangelho, o documento se debruça sobre a reflexão acerca da situação catequética e reconhece a necessidade de a catequese recuperar vitalidade e qualidade. Na raiz do problema, constata-se a falta da experiência pessoal dos catequistas com Jesus Cristo e o não direcionamento dos programas da catequese para a transmissão do evangelho e para a educação na fé. Os bispos convidam os catequistas a não se contentarem com uma pastoral da manutenção (expressão também presente no Documento de Aparecida), mas a se lançarem corajosamente numa pastoral missionária.

2.1.5 Encontro internacional no ISPC (2003)

Em fevereiro de 2003, foi realizado em Paris, promovido pelo Instituto Superior de Pastoral Catequética (ISPC) do Instituto Católico de Paris (ICP), um encontro internacional com o tema “A catequese num mundo em plena mudança”, cuja preocupação foi a formulação de um novo paradigma catequético. Para isso, foram trabalhadas quatro hipóteses catequéticas.

1ª hipótese: “Na atual situação multicultural e multirreligiosa, uma catequese da proposta deve sublinhar a singularidade e a originalidade cristã, de tal modo que permita a cada um situar-se e construir-se como sujeito crente”.

2ª hipótese: “Uma catequese da proposta deve consistir na arte de fazer saborear, sentir e experimentar o mistério pascal, e isto requer uma maior articulação orgânica entre catequese e liturgia”.

3ª hipótese: “A catequese deve ser uma iniciação ao mistério cristão, o que implica a prática efetiva de uma pedagogia iniciática cujo objetivo não é só ensinar ou transmitir uma mensagem, mas oferecer uma vida que só pode ser experimentada pela imersão no banho simbólico que a anima”.

4ª hipótese: “A catequese, em todas as etapas e em todas as idades e situações, deve permitir o desenvolvimento daquilo que constitui a coerência do mistério cristão, ou seja, a revelação de Deus Trindade, não de modo linear, mas orgânico”.

Esse encontro internacional teve grande repercussão, tornando-se de certa forma uma referência para aqueles que refletem sobre a necessária mudança no processo catequético.

2.1.6 Documento da Comissão Episcopal de Catequese e Catecumenato da França (2003)

A Comissão Episcopal de Catequese e Catecumenato da França produziu em 2003 um documento surpreendente, com o título Ir ao coração da fé[7], que lembrou aos franceses a importância da catequese, a começar pela tarefa catequética entregue aos bispos, bem registrada no Vaticano II (Christus Dominus, 14).

A primeira convocação que o documento faz a todos os católicos franceses se apresenta da seguinte forma: “ir juntos ao coração da fé”. O caminho proposto se assenta na experiência da vigília pascal, quando todos são convidados a formar um povo que caminha para o Senhor. Afirma corajosamente o documento que nós não somos discípulos de Jesus uma vez por todas. Este é um processo sempre em devir. O Espírito, a cada dia, nos torna discípulos.

Uma contribuição importante deste documento foi o acento sobre a centralidade do mistério pascal na catequese e a clareza da afirmação de que o encontro com Jesus ressuscitado e a inserção do catequizando no Corpo de Cristo são o objetivo da catequese. Essa afirmação confirmou a superação do conceito estreito de catequese como acabamento da fé, estendendo suas fronteiras para o campo da evangelização e do primeiro anúncio.

2.1.7 Documento da Conferência Episcopal Alemã (2004)

O documento da Conferência Episcopal Alemã, Catequese em tempos de mudança[8], publicado em 2004, desenvolve a ideia de que a Igreja deve ser missionária e evangelizadora, o que melhor responde à mudança epocal hoje experimentada e à crise da transmissão da fé.

Como o serviço eclesial da transmissão da fé tem sido tradicionalmente entregue à catequese, os bispos alemães lembram a dimensão missionária da catequese. Para isso, torna-se urgente uma mudança de acento na atividade catequética, superando a tradicional identificação da catequese com a instrução das crianças e jovens na fé. Em meio a um concerto polifônico de propostas que o mundo apresenta, a catequese é desafiada a demonstrar a plausibilidade da fé. Esse anúncio se encontra sob o signo da proposta (como na Carta dos Bispos aos Católicos da França) promovendo a passagem de uma pertença automática – aceita e não questionada – a uma participação escolhida – pessoal, livre e consciente.

Os bispos terminam o documento com uma afirmação corajosa, dizendo que a Igreja não será Igreja de Jesus se, em cada época de sua história, ela não realizar de forma nova a tarefa de acender a luz da fé nos corações das pessoas. E para isso, ela mesma deve se colocar em situação de humilde escuta e acolhida do evangelho que ela própria anuncia.

2.1.8 Documento dos Bispos de Quebec (2004)

O documento resultante da Assembleia dos Bispos de Quebec em 2004, Jesus Cristo: caminho de humanização[9], quer ajudar as pessoas a descobrirem, valorizarem e aprofundarem a proposta evangélica do seguimento de Cristo. A atividade catequética, chamada de formação para a vida cristã, ganha novas orientações e possibilidades a partir da consciência de que o futuro do cristianismo depende da capacidade de a Igreja promover uma readaptação inteligente da proposta cristã e um compromisso de vida de seguimento de Cristo.

Sabendo da real impossibilidade de contar com uma cultura que favoreça a pertença prévia garantidora do despertar da fé cristã e de sua continuidade, a Igreja de Quebec, cheia de esperança, deseja com esse documento propor um projeto que leve a opções corajosas e a ajustes radicais que favoreçam a proposição da fé no mundo atual. Uma das contribuições importantes desse documento é dizer com todas as letras que o objetivo da catequese é favorecer o encontro com Cristo e a comunhão com seu mistério – afirmação já presente na carta dos bispos franceses – além de propor o evangelho de Cristo como caminho de humanização integral para as pessoas e para o mundo, ou seja, uma força para viver.

2.1.9 Texto Nacional para Orientação da Catequese na França (2006)

Texto Nacional para Orientação da Catequese na França[10], publicado em 2006, trouxe três grandes convicções: a catequese se inscreve na missão evangelizadora da Igreja; ela deve ser guiada pela pedagogia da iniciação; ela deve ser vivida em comunidades missionárias.

A compreensão da catequese como uma tarefa evangelizadora, apesar de não ser nova, tem repercussões importantes. Tira da catequese o estigma de mera maquiadora da fé e atribui-lhe oficialmente a tarefa de despertar e irradiar a fé.

A escolha da pedagogia da iniciação busca raízes na pedagogia de Jesus, catequeta e iniciador. Ela exige que sejam desenvolvidas novas iniciativas de primeiro anúncio, entendidas como toda marcha que torna efetiva a acolhida do Deus que se manifesta e se dá a conhecer. Esse anúncio é assim designado porque ele convida a crer e conduz à conversão. A pedagogia da iniciação proporciona o mergulho no mistério pascal que é o núcleo da experiência cristã.

A compreensão da catequese como uma experiência que se realiza em comunidades missionárias faz um apelo à comunidade cristã a se deixar catequizar e não só a evangelizar os outros. Insiste o documento na necessidade de formar uma Igreja que não somente proponha a fé, mas que redescubra ela mesma o evangelho como verdadeira novidade. Passa-se a falar de banho eclesial como condição necessária para a experiência de fé cristã, ou da comunidade como mediação que faz saborear, experimentar e nutrir a experiência pascal.

2.1.10 Documento da Conferência dos Bispos da Bélgica (2006)

A Conferência dos Bispos da Bélgica muito contribuiu para a reflexão catequética, quando, em 2006, publicou um documento sobre a catequese com adultos[11]. Humildemente, os bispos belgas iniciam o documento admitindo que, em termos de catequese, há muito que fazer, pois a sociedade cristã que antes favorecia a transmissão da fé desapareceu completamente. A Igreja belga se questiona se a perda dessa evidência social não é um bom desafio para a fé, ou seja, eles suspeitam que ela pode ser uma verdadeira chance de redescobrir a perpétua novidade da fé crista.

Como o documento quer lançar luzes para a prática catequética, sua primeira iniciativa é situar a catequese como evangelização e atribuir a ela a tarefa do primeiro anúncio, sem o qual é impossível atender ao apelo do Deus de Jesus Cristo. Os bispos afirmam que não se chega à fé fazendo somente uma reflexão mais profunda. Para eles, a fé não será nunca a conclusão lógica de uma meditação sobre o sentido da existência ou sobre o mistério da realidade. Depois disso, o documento deixa clara a prioritária tarefa catequética de evangelizar os adultos, admitindo que a catequese, antes tão centrada na infância, deve sofrer um giro e se organizar em torno dos adultos.

2.2 Contribuição de catequetas e teólogos

Todas essas contribuições do magistério não se encontram isoladas no cenário teológico mundial. A reflexão catequética que versa sobre a necessidade de um paradigma condizente com os novos tempos tem ocupado catequetas no mundo inteiro, especialmente na Europa. Vejamos a contribuição de alguns nomes importantes nesse campo.

2.2.1 Emilio Alberich

Emilio Alberich[12] tem demonstrado antiga preocupação com a evangelização dos cristãos. Desde 1978, ele já alertava que a pastoral da cristandade, com seus pressupostos e suas consequências práticas, apresentava-se inadequada e convocava a ação evangelizadora da Igreja a sair da “situação de gata borralheira” para “subir à ribalta da reestruturação operante de todos os serviços eclesiais”[13].

Mais recentemente, Alberich brindou-nos com um artigo sobre o futuro da catequese, apontando para a grave crise do sistema catequético atual[14]. Nesta obra, o catequeta espanhol fala de conversão pastoral e de um novo paradigma catequético, que ele veio a delinear em estudos posteriores.

Segundo suas intuições, a identidade do paradigma catequético apropriado para a cultura pós-moderna tem três qualidades indispensáveis: é uma catequese evangelizadora, uma catequese iniciática e uma catequese aberta.

a) Catequese evangelizadora: A atual situação da Igreja convoca-a a uma ação evangelizadora eficaz da qual a catequese não pode escapar. Os cristãos de hoje padecem não só de ignorância religiosa como outrora, mas também de falta de identidade, de carência de fé. Somos uma “Igreja invertebrada”, afirma Alberich, ou seja, cristãos sem esqueleto, sem a coluna vertebral da fé. Daí a urgência de se passar de uma catequese da herança, cuja preocupação principal era a transmissão da fé e seu acabamento, para uma catequese da proposta, que comunica a experiência cristã de Deus e favorece a personalização da fé. E isso, insiste o autor, não diz respeito a apenas algumas pessoas, mas à totalidade do povo cristão.

b) Catequese iniciática: Se os cristãos precisam fazer sua experiência pessoal com o Deus de Jesus Cristo, a catequese deve favorecer essa experiência e, por isso, ela adquire caráter iniciático. Ela assume os aspectos típicos da iniciação: a centralidade da conversão, como processo de imersão no mistério pascal; a atenção às pessoas e à comunidade; a relação vital entre a memória, a tradição e a inovação; o dinamismo processual da fé, que se dá em etapas ou itinerários; a vinculação eclesial. Nessa catequese, o ensinamento doutrinal se dá por meio do banho eclesial, estando ele em função do ser crente e não do conhecimento intelectual.

c) Catequese aberta: Ou seja, em movimento, permanente. Trata-se de uma experiência catequética harmônica e global que abrange toda a comunidade, extrapolando os muros da catequese infantil ou de preparação para os sacramentos. Ela conta com a livre participação dos fiéis, sem preocupar-se com separação por idades ou condições. Sua principal riqueza consiste na escuta da Palavra de Deus e na partilha e reflexão sobre a caminhada da fé. Tal catequese não é uma pastoral ou um setor da vida eclesial, mas uma dimensão transversal de toda a vida cristã.

2 2.2.André Fossion

O anúncio da falência dos métodos tradicionais da catequese não é tema raro também em Fossion[15]. Suas obras vêm trazendo grandes contribuições para a reflexão catequética[16].  Catequeta experiente, ele tem observado que o sistema clássico de catequese sofre de crescentes dificuldades, ainda que ele dê alguns frutos. Para ele, isso não se dá somente em razão de suas limitações, mas principalmente por causa de inadequação à evolução sociocultural da sociedade, que muda freneticamente deixando na catequese sintomas de que nosso trabalho não vai bem..

Nesse contexto de crise, o catequeta belga vê surgir um novo paradigma catequético, cujas características principais ele descreve:

a) Uma catequese permanente das comunidades, que seja orientada para a proclamação da fé pascal: a comunidade é a primeira destinatária da catequese e não somente as crianças que buscam os sacramentos. É preciso criar um tecido comunitário fraterno, que viabilize a evangelização dos seus membros e acolhida da palavra de Deus em seu interior como fonte de vida e alegria.

b) Uma catequese diversificada que ofereça variados caminhos para avançar na fé: a diversificação da catequese se apresenta como pré-requisito imposto pela sociedade atual. É preciso criar formas variadas de catequese que acomodem do melhor modo as condições e aspirações pessoais das pessoas, sempre num espírito de serviço e acolhida do outro.

c) Uma catequese para quem se inicia e para quem se reinicia na fé, aberta ao entorno social: a catequese não é separável da evangelização e inclusive da primeira evangelização. Torna-se urgente revalorizar o catecumenato de adultos – para os não-batizados e os já batizados –, pois a fé cristã é fruto do assentimento pessoal, da adesão livre ao Ressuscitado.

d) Uma catequese inicial de tipo iniciático: o que está em jogo é oferecer às gerações jovens uma verdadeira proposta de iniciação na fé por meio da catequese. O catequizando hoje quer mais que apenas aprender as verdades da fé: quer ver, tocar, sentir, fazer a experiência, já que a percepção da fé passa também pelos sentidos e não só pela via cognitiva.

2.2.3 Luc Aerens

Aerens[17] propõe diversos deslocamentos na prática catequética[18]. Para ele, devemos passar:

a) De uma catequese de crianças a uma catequese com todos: Quando se fala em catequese, pensa-se primeiramente em crianças. Acontece atualmente uma identificação visceral entre catequese e infância ou pré-adolescência, excluindo todas as outras idades do processo catequético. O que o autor propõe, evidentemente, não é o abandono da catequese infantil, mas a evolução da mentalidade pastoral, tornando a catequese extensiva a todos.

b) De uma catequese por idades a uma catequese entre gerações: Em todas as paróquias, aparecem sempre outras demandas catequéticas. Jovens e adultos que querem receber algum sacramento, famílias que retornam à Igreja depois de tempos de afastamento, pessoas que querem aprofundar sua fé, grupos que buscam estar sempre renovando sua experiência cristã. Apesar de, em alguns casos, ser aconselhável manter grupos por idades, na maioria das vezes, afirma o autor que a experiência tem mostrado que grupos de diversas idades funcionam muito bem, criam comunhão e colocam toda a paróquia na responsabilidade catequética.

c) De uma catequese sacramental a uma catequese permanente: Enquanto a catequese for entendida como preparação para os sacramentos da iniciação, sua eficácia estará em suspenso. Terminado o processo de preparação para o sacramento, acontece a celebração que se transforma no encerramento do percurso. O autor propõe uma catequese que seja permanente, cuja motivação seja a vida cristã, a contínua e renovada experiência cristã de Deus, na qual os sacramentos nos iniciam. Dessa forma, a motivação da catequese já não seria os sacramentos em si mesmos.

e) De uma catequese de apresentação a uma catequese mistagógica: Na maioria das vezes, a catequese se dedica a ensinar as coisas de Deus: quem é ele, o que é a Eucaristia, quem foram nossos antepassados na fé etc: uma tarefa de apresentação da fé e seus desdobramentos. Mas a experiência da fé cristã nem sempre tem espaço neste cenário. Corre-se o risco de estar sendo preparado para o mistério e não ser iniciado nele. Esquece-se que a vida precede a reflexão. Daí a necessidade de uma catequese mistagógica.

f) De uma catequese temática a uma catequese orgânica: o mais comum na catequese é abordar temas específicos da fé e dedicar-se a seu aprofundamento. Toma-se a bíblia como um recurso para elucidar ou justificar o tema abordado, um sacramento ou um ensinamento moral, por exemplo. Cada aprendizagem está confinada a uma gaveta do conhecimento da fé. Mas esse tipo de abordagem quase sempre se torna reducionista, não permitindo a elaboração do todo. A experiência de fé, ao contrário, passa antes por uma estratégia aberta, livre, onde o aprendiz é ativo, onde a amarração das diversas experiências tem seu lugar privilegiado.

g) De uma catequese cuja responsabilidade está centrada no catequista a uma catequese de responsabilidade da comunidade eclesial: A prática catequética atual tem favorecido a centralidade da tarefa catequética no catequista, atribuindo a ele todo o sucesso ou fracasso do processo catequético, eximindo a comunidade eclesial de seu papel fundamental na evangelização. O autor recomenda que a catequese seja em primeiro lugar de responsabilidade da comunidade eclesial, que é chamada a empenhar seus melhores esforços no bom andamento da catequese.

h) De uma catequese obrigatória a uma catequese opcional permanente: A catequese atual tem exigido inscrição, tem registrado frequência etc. Esse tipo de catequese tem como pano de fundo os sacramentos: a catequese é um curso preparatório para a recepção de um sacramento. Ao deslocar o eixo catequético dos sacramentos para a experiência cristã de Deus, perde-se o sentido de sua obrigatoriedade. A catequese torna-se algo livre, para todos que desejam iniciar ou reiniciar sua caminhada de fé, e os sacramentos tornam-se um acontecimento ao longo do caminho.

2.2.4 Marcel Villers

Villers[19] insiste que a catequese baseada na transmissão de saberes não encontra pertinência nos tempos atuais, pois a fé não se apresenta mais como uma herança transmitida pela família ou pela sociedade[20]. O autor propõe uma catequese de iniciação, que exige uma reconfiguração do modelo vigente, mudando seus principais eixos orientadores. Vejamos.

a) Uma catequese centrada em Cristo e não em uma série de verdades: A tarefa primeira da catequese é tornar conhecido Jesus Cristo e promover o seu seguimento e não a aprendizagem de sua doutrina.

b) Uma catequese centrada no catequizando e no ato de fé: A catequese deve ser concebida como um movimento de maturação: vai-se da fé inicial para a fé adulta e eclesial, por meio de uma catequese permanente.

c) Uma catequese que dê prioridade aos adultos: A catequese tem como objetivo primeiro ajudar as pessoas a se tornarem cristãs, o que exige uma decisão livre e consciente, e os adultos estão mais habilitados a essa resposta de fé.

d) Uma catequese que interpreta os sinais dos tempos: Deus se revela na história das pessoas de hoje. Cada acontecimento deve, pois, ser entendido como sinal dos tempos, que exige interpretação.

e) Uma catequese indutiva, que se apoie sobre a experiência: O esquema exposição-memorização-aplicação da catequese frontal – entendida no Brasil como educação bancária, expressão cunhada por Paulo Freire – cede vez ao esquema experiência-implicação, explicação-compreensão, apropriação-transferência, pois a experiência é elemento constitutivo da catequese e assume todas as realidades da existência.

2.2.5 Donaciano Martinez Alvarez e Saborido Cursach

Mais recentemente, José Luis Saborido Cursach[21] e Donaciano Martínez Alvarez[22] têm sido vozes a insistir na tarefa missionária e evangelizadora da catequese, realçando seu caráter iniciático[23]. Para estes autores, a situação de pluralismo que vivemos é uma oportunidade para uma opção de fé mais livre, deixando para trás a marca da uniformidade, própria da cristandade. Longe de toda nostalgia do passado ou de atitudes de defensiva diante do mundo, os autores incentivam a olhar corajosamente o presente e a investir esforços em uma nova possibilidade de transmissão da fé.

Para esse novo paradigma catequético, eles apontam algumas características: uma catequese missionária, uma catequese que passe do herdado ao proposto, uma catequese da des-aprendizagem[24], uma catequese comunitária.

a) Catequese missionária, cuja preocupação principal não é alimentar a fé, mas suscitá-la.

b) Catequese da proposta pois, em meio à multiplicidade de propostas de sentido, a voz da Igreja não ressoa mais como autoridade, mas como uma possibilidade. Sua proposta deve ser convincente de tal modo que a adesão à sua fé seja por escolha livre e pessoal e não por herança adquirida dos pais.

c) Catequese da des-aprendizagem, que leve em conta que os seus destinatários não são “campo virgem” que recebe a semente da palavra. Cada ouvinte traz consigo um mundo de significações da fé, um mundo de imagens e símbolos nem sempre positivos de catequeses passadas. Ao mesmo tempo em que a catequese propõe o evangelho como força para viver, ela desfaz equívocos e bloqueios de um cristianismo indesejável e não digno de credibilidade que foi anunciado antes.

d) Catequese comunitária, destinada a todos, sem limite de idade, que toma cada membro da comunidade como seu destinatário e seu ator ao mesmo tempo. Essa catequese rompe com a estabilidade e territorialidade paroquial; ela põe a comunidade eclesial a caminho, lá onde estão as pessoas que se propõem a caminhar.

2.2.6 Denis Villepelet

Desde seus primeiros escritos na área de catequese, Denis Villepelet[25] demonstra séria preocupação com a crise da transmissão da fé, dando especial ênfase à necessidade de um novo paradigma catequético, por ele denominado terceiro paradigma. Depois de observar as diversas práticas catequéticas da Igreja, o catequeta francês delineou três paradigmas. Para construí-los, ele conjuga cinco campos distintos: campo sociológico, campo antropológico, campo teológico ou catequético, campo eclesial e campo pedagógico. Em cada um dos paradigmas, parâmetros diferentes desses campos ganham relevância e interagem entre si de forma sistêmica. Vejamos os paradigmas por ele delineados:

a) Primeiro paradigma: advém de Trento e firmou-se com a divulgação dos diversos catecismos. Sua construção tem bases numa sociedade tradicional (cristandade), cujo indivíduo é parceiro institucional e fortalece as instituições com as quais tem pertença. A catequese desse paradigma é teocentrada; põe acento na figura de Deus Pai, que revela a verdade à Igreja corpo de Cristo – uma sociedade hierarquicamente organizada que difunde a verdade por meio da pedagogia do ensinamento da doutrina.

b) Segundo paradigma: firmou-se com o movimento catequético que antecedeu o Vaticano II e a consequente renovação catequética, tendo sua legitimação com o Concílio. É a catequese que se firmou na modernidade. Esse paradigma tem raízes bem fincadas numa sociedade evolutiva, voltada para o futuro, cujo indivíduo assume a postura de ator social, comprometido com a construção de um mundo novo e melhor. A catequese desse paradigma é cristocentrada, pois a partir de Jesus de Nazaré, o Verbo encarnado na história, conhece-se a Deus e tem-se a imagem mais perfeita e autêntica do ser humano. Essa catequese parte da experiência humana e vê a revelação divina pela ótica da hermenêutica. É uma catequese marcadamente antropológica. A Igreja na qual se sustenta essa catequese é a Igreja povo de Deus, um povo irmanado no batismo que pela busca crescer na fé até atingir sua maturidade. A pedagogia própria dessa catequese é a pedagogia da aprendizagem; o catequizando, por meio de sua própria experiência de vida, constrói seu conhecimento de Jesus e o engajamento na sua missão.

c) Terceiro paradigma: está em vias de construção, mas práticas catequéticas já possibilitam delinear suas características. Assenta-se numa sociedade complexa, onde a cristandade experimenta seu fim e as referências religiosas são tênues e voláteis. O indivíduo da contemporaneidade pode ser dito como sujeito, não mais de um mundo melhor ou de um futuro cheio de promessas, mas de sua própria vida, de sua própria identidade: um sujeito em busca de sua própria interioridade. A catequese desse paradigma é pneumatocentrada: a ação catequética mergulha o catequizando no mistério pascal, colocando-o sob a ação do Espírito que faz conhecer Jesus e motiva à entrega da vida ao Pai. Para a sustentação dessa catequese, temos a Igreja templo do Espírito, a comunidade reunida em nome do Senhor para experimentar sua presença e testemunhá-la ao mundo. Nessa caminhada catequética, a experiência cristã de Deus não se dá primeiramente por meio do ensino ou da aprendizagem, ainda que eles sejam necessários. Ela acontece por meio da iniciação, pelo mergulho no mistério pascal, pelo banho eclesial.

Para o catequeta francês, o terceiro paradigma se apresenta como mais indicado para o mundo atual, mas ele não elimina os outros, pois a sociedade hoje é plural, multirreferencial.

Tendo conhecido o panorama geral da discussão teológica e pastoral que leva à formulação de um novo paradigma catequético, nós nos perguntamos: “E no Brasil, o que dizem os documentos da Igreja e os teólogos? Também no Brasil percebemos a necessidade de um novo paradigma catequético?”. Mas essa discussão ficará para outro artigo, na próxima revista.

Notas

[1] A noção de paradigma não é usual na catequese. Ela entra no universo catequético pouco a pouco, mas especialmente graças à contribuição do francês Denis Villepelet, que toma-a emprestado de dois grandes pensadores: o sociólogo e físico americano Thomas Kuhn e o filósofo e epistemólogo francês Edgar Morin.

[2] Atrevo-me a fazer aqui breve seleção de textos do magistério e de catequetas renomados comentando-os de forma bem simplificada, mesmo sabendo quão enfadonho isso possa ser. Entendo que nem sempre os catequistas têm acesso a esses escritos publicados em línguas estrangeiras, mas que eles têm direito a essa reflexão. A maioria dos documentos magisteriais citados podem ser encontrados em uma publicação espanhola, o que certamente já facilita para muitos catequistas. Cf. MARTÍNEZ, Domiciano et al. Proponer la fe hoy: de lo herdado a lo propuesto. Santander: Sal Terrae, 2005.

[3] Cf. VILLEPELET, Denis. Les défis actuals de la tâche catéchètique. Catéchèse, n. 173, v. 3, 2003. p. 23.

[4] Cf. LES ÉVÊQUES DE FRANCE. Proposer la foi dans la société actuelle:: Letre aux catholiques de France Paris: Cerf, 1996.

[5]CONGREGAÇÂO PARA O CLERO. Diretório Geral para a Catequese. São Paulo: Loyola/Paulinas, 2003.

[6] Cf. CONFERÉNCE DES ÉVÊQUES DE QUÉBEC. Proposer aujourd’hui la foi aux jeunes: une force pour vivre. Quebec: Fides, 2000.

[7] Cf. COMMISSION EPISCOPALE DE LA CATÉCHÈSE ET DU CATÉCHUMÉNAT. Aller au coeur da la foi. Paris: Bayard-Centurion/Fleurus-Mame, 2003.

[8] Cf. DEUTSCHE BISCHOFSKONFERENZ. Katechese in veränderter Zeit. Bonn: Sekretariat der Deutschen Bischofskonferenz, 2004.

[9] Cf. CONFERÉNCE DES ÉVÊQUES DE QUÉBEC. Jésus Christ, chemin d’humanisation. Montreal: Médiaspaul , 2004.

[10] Cf. CONFERÉNCE DES ÉVÊQUES DE FRANCE. Texte National pour l’orientation de la catéchèse em France et príncipes d’organisation. Paris: Bayard/Cerf/Fleurus-Mame, 2007.

[11] Cf. CONFÉRENCE DES ÉVÊQUES DE BELGIQUE. Devenir adulte dans la foi: la catéchèse dans la vie de l’Eglise. Bruxelles, Edition Licap, 2006.

[12] Emilio Alberich é sacerdote salesiano, com ampla experiência catequética. Foi professor de catequética na Faculdade da Educação da Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, desde 1964, tendo ocupado por duas vezes, o cargo de diretor do Instituto de Catequética da mesma universidade. É autor de inúmeras obras como Catequese com adultos (2v)e Catequese evangelizadora, publicados no Brasil pela Editora Salesiana.

[13] ALBERICH, Emilio. Evangelizar os cristãos?. Revista de Catequese, n. 3, 1978, p. 55.

[14] Cf. ALBERICH, Emilio. A catequese tem futuro? Revista de Catequese, v. 28, n. 109, 2005, p. 22-28.

[15] André Fossion é nome bem conhecido na reflexão catequética. Ele é belga, padre jesuíta, professor no Instituto Lumen Vitae em Bruxelas e tem numerosas obras publicadas.

[16] Cf. FOSSION, André. Dieu toujours recommencé: essai sur la catéchèse contemporaine. Bruxelles: Lumen Vitae/Novalis/ Cerf, 1997. E sua obra prima: La catéchése dans champ de la comunication. Paris: CERF, 1990.

[17] Luc Aerens é diácono permanente, professor do Instituto Lumen Vitae e do Instituto Superior de Pedagogia de Bruxelas. Pessoa de longa experiência catequética, atuou como coordenador de catequese tanto em nível diocesano como interdiocesano. Tem diversas obras publicadas.

[18] Cf. AERENS, Luc. Mener la transition vers la catéchèse de cheminement. Lumen Vitae, v. 55, n. 2, 2000, p. 149-169. Cf. Também: La catéchèse de cheminement: pédagogie pastorale por mener la transition em paroise. Bruxelles: Lumen Vitae, 2002; Organizer la catéchese sans exiger une inscription obligatoire? Lumen Vitae, v. 60, n. 3, 2005, p. 341-358.

[19] Marcel Villers é padre da diocese de Liège e professor do Instituto Superior de Catequese e Pastoral em Liège.

[20] Cf. VILLERS, Marcel. D’une catéchèse de transmission à une catéchèse d’initiationLumen Vitae, v. 56, n. 1, 2001, p. 75-96.

[21] José Saborido Cursach é padre jesuíta e membro do Instituto Superior de Catequese Argentino.

[22] Donaciano Martinez Alvarez é padre da diocese de Palencia, professor do Instituto Teológico Palentino e diretor da Escola de Agentes de Pastoral de Palencia.

[23] Cf. SABORIDO CURSACH, José. Evangelización y primer anuncio em la transmisión de la fe hoy. Catequética, v. 48, n. 1, 2007, p. 2-18. MARTÍNEZ ALVAREZ, Donaciano. Apologia de lo iniciático: opción por uma catequesis iniciática. Catequética, v. 48, n. 6, 2007, p. 362-375. MARTÍNEZ ALVAREZ, Domiciano et al. Los nuevos caminos de la catequesis: Cinco documentos de la Iglesia para nuestra reflexion. Catequética, v. 47, n. 3, 2006, p. 146-167. CATORCE OPINIONES sobre el futuro de la catequesis y el “nuevo paradigma”. Catequética, v. 45, n. 4, 2004, p. 195-202.

[24] Tema que será muito bem desenvolvido por Fossion em belíssimo artigo publicado em 2010. Cf. FOSSION, André. La nécessaire révision des représentations religieuses aujourd’hui. Lumen Vitae, v. 65, n. 4, 2010, p. 365-382.

[25] Denis Villepelet, catequeta francês, foi diretor do Instituto Superior de Pastoral Catequética, do Instituto Católico de Paris, onde ainda leciona. Tem várias e importantes publicações na área da teologia catequética. No Brasil, temos a tradução de uma ótima obra sua, O futuro da catequese, publicado pelas edições paulinas.

Colaborou: Fique Firme

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