Os Gadarenos, Jesus e os Porcos | Uma Reflexão sobre Mt 8,28-34

Por Hermes Fernandes

A Liturgia de hoje nos apresenta uma perícope evangélica das mais intrigantes. Trata-se de Mt 8,28-34. Mateus nos dá a entender que este episódio é subsequente ao que lemos ontem na Liturgia, isto é, Mt 8,11-22.

Hoje também celebramos os Santos Pedro e Paulo. Entretanto, o caráter de Solenidade foi transferido para Domingo próximo, onde seremos convidados a refletir sobre duas testemunhas fiéis à missão apostólica de anunciar Jesus Cristo ao mundo. Ambos, Pedro e Paulo, foram chamados por Jesus a serem anunciadores da Palavra em contextos específicos. Pedro encontrou-se com o Senhor à beira do mar da Galileia, e Paulo, no caminho de Damasco. Tiveram pouco tempo de convivência entre si, mas partilharam a mesma fé e a mesma missão, embora em realidades diferentes. Pedro cuidou pastoralmente da Igreja-mãe de Jerusalém, e Paulo se dedicou ao anúncio de Jesus Cristo aos gentios. Deixemos para aprofundar nossa reflexão sobre esses grandes arautos do anúncio do Evangelho, quando da solenidade, dia 3 de julho.

O Evangelho de hoje tem seus paralelos sinóticos em Mc 5,1-20 e Lc 8,26-39. Na geografia bíblica do Segundo Testamento, Gadara fazia parte de uma confederação de dez cidades, chamada de Decápolis, a saber: Damasco, Filadélfia, Rafana, Citópolis, Gadara, Hipos, Díom, Pela, Galasa ou Gerasa, e Canata. Estas eram centros da cultura helênica, povoadas por elementos de língua e cultura grega, em meio a uma região de povos Semitas, os Judeus, Nabateus e Sírios. Em outras tradições e traduções, em alguns manuscritos do Evangelho de Mateus, Marcos e Lucas, podemos encontrar o termo Gadarenos como Gergesenos ou Gerasenos. Uma referência à legendária cidade dos gigantes Anaquins e Refains, os Girgashi, de Dt 7,1.

Segundo a concepção da época, o mundo dos espíritos malignos se associa com as muitas formas de contaminação compreendidas pela antropologia judaica. Bem o sabemos que os judeus tinham forte rejeição à influência da cultura grega. Uma referência aos acontecimentos descritos nos Livros de Macabeus. Não é de se espantar que um dos demônios mais poderosos a confrontar Jesus esteja situado em território de influência grega. Aqui vale mais um olhar sociocultural do que a demonologia em si. O demônio Legião, descrito no Evangelho de hoje, vem simbolizar toda forma de opressão e alienação da dignidade humana. Exatamente aquilo que os invasores estrangeiros fizeram com Israel e Judá, quando das invasões babilônicas, helênicas e assírias. No lugar onde estiveram esses invasores e implantaram sua cultura, o povo e a região ficaram contaminados, segundo a ótica judaica. Daí a analogia desta situação sociopolítica com o mundo dos infernos. Temos aqui mais um estilo literário do que demonologia em si, como já o dissemos. Para bem entender esse jeito de pensar judeu, no que se refere à contaminação, sugerimos a leitura de Lv 11,7; Sl 91,6 e Jó 18,13.

Ainda nessa perspectiva sociopolítica, vemos que Mateus nos conta que os demônios sentem a presença de Jesus, reconhecem-no e o confessam Filho de Deus, ou o Messias. Essa confissão é lamuriosa, forçosa até. Mais uma expressão de estilo literário que referencia as invasões estrangeiras e os povos derrotados no Primeiro Testamento. Porém, essa confissão de nada adianta, pois não demonstra fé em Cristo e, sim, impotência diante de seu poder. A Carta de Tiago bem nos ilustra esse sentimento quando diz: “também os demônios creem e tremem de medo” (Tg 2,19).

A ação de Jesus, quando negocia com os demônios, expulsando-os para os porcos, tem significância exegética que vale um olhar especial. Este superendemoniado, possuído por uma Legião, também pode nos referenciar o sentido de opressão. Legião era o nome que se dava a um destacamento de soldados romanos de 6000 homens. Parece oportuno que o episódio da super possessão demoníaca se dê em terra de influência cultural de invasão estrangeira do passado, e que os demônios tenham o nome da tropa de elite de soldados da ocupação romana. Em uma única narrativa, os evangelhos confrontam os opressores do passado e do presente, com Jesus. O demônios e os Gadarenos são, ao mesmo tempo, a opressão do passado e do presente. A alienação da dignidade dos filhos e filhas de Deus. E os demônios sabem que Jesus é mais forte e pode derrotá-los. Sim, a ação de Deus e de seu Filho é vida. E as forças da morte, da alienação da dignidade, da opressão; nunca se prevalecerão diante das forças libertadoras de Javé e de seu Filho. Quando Jesus expulsa Legião para uma manada de porcos, a cena do Evangelho termina em auto aniquilação. Os porcos se precipitam ao mar (Mt 8,32). Esta auto aniquilação dos demônios pode nos significar que o mal traz em si o germe da autodestruição.

Por fim, os gadarenos pedem que Jesus deixe sua região. Seria pelo prejuízo dos porcos? Ou seria uma forma de os evangelhos nos sinalizar que a humanidade, muitas vezes, tem apego à sua própria escravidão? Os gadarenos eram, conforme vimos antes, descendentes de culturas oprimidas por nações estrangeiras do passado e, no tempo de Jesus, estavam – também – sob a ocupação romana. Muitos são os que aplaudem a chibata. Conspiram contra a própria dignidade, elogiando o opressor. Os gadarenos rejeitam Jesus, preferindo os porcos e seus demônios.

Em nossos dias, muitas são as nossas experiências de opressão. Tivemo-nas no passado, temos nossos grilhões no presente. Não diferente dos acontecimentos descritos no Evangelho de hoje, há momentos em que nos é apresentada a oportunidade de liberdade e dignidade, e optamos pela opressão e pela vida indigna. Em nossos tempos, ainda vemos quem clame pelos opressores do passado. Tentam resgatar políticas de morte. Isso é o que acontece quando se pede a volta da ditadura militar, quando se sabotam e marginalizam os direitos sociais conquistados às duras penas, quando se acredita que podemos buscar o bem, fazendo o mal necessário. Quando escolhemos aos falsos messias, aos porcos, desprezamos o Evangelho de Jesus.

Que em nossa vida, enquanto cristãos e cristãs, escolhamos e Direito e a Justiça, o Reino de Deus! Não os opressores, seus demônios e seus porcos.

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