“Quem é esse homem, que até os ventos obedecem?” | Reflexão sobre Mt 8,23-27

Por Hermes Fernandes

Estamos na 13ª Semana do Tempo Comum. Nesta Terça Feira, o Evangelista Mateus nos apresenta o episódio do mar revolto, do medo dos discípulos e da autoridade de Jesus sobre os ventos (Mt 8,23-27). Mensagem muito importante para nossa caminhada eclesial, quando conseguimos compreender o sentido teológico dessa perícope bíblica. Este texto de Mateus tem seus paralelos nos evangelhos sinóticos. O mesmo episódio é descrito por Lc 8,22-25 e Mc 4,35-41. É claro que uma leitura paralela entre os evangelhos sinóticos nos fará perceber algumas diferenças nas narrativas de cada um deles. Entretanto, o acontecimento é o mesmo.

Os exegetas, isto é, estudiosos da bíblia, nos explicam que o mar pode significar, neste trecho do Evangelho de Mateus, toda força destruidora que pode afligir ao homem e à mulher. Bem o sabemos que o mar é uma força que a humanidade é incapaz de controlar. Para bem sublinhar isso, podemos ver no Livro dos Salmos várias referências ao mar, como exemplificação de força e perigo (cf. Sl 69,3; 69,16; 107,23-30).

O fato de Jesus e seus discípulos se encontrarem em um barco não nos causa nenhuma surpresa. Em sua maioria, eram pescadores. O que faz marcante essa perícope é que Jesus estava a dormir e, de repente, o mar começa a ficar revolto. No Primeiro Testamento, o mar é descrito como uma potência rebelde, até mesmo caótica. Porém, Deus é capaz de a domesticar e submeter. Isso podemos verificar no Salmo 93 e no 104,6-7. Enquanto Jesus dormia, os discípulos são tomados pelo pavor, diante dos fortes ventos e o mar revolto. No Primeiro Testamento, temos um acontecimento semelhante com o Profeta Jonas (cf. Jn 1,5). Assim como na legenda de Jonas, nessa perícope de Mateus, a ação divina de Deus, presente na messianidade de Jesus, fará com que os perigos e as forças impetuosas se sujeitem face à autoridade do Filho, dada pelo Pai. Ao repreender os ventos, o mar se acalma.

Nos Evangelhos, podemos ver outras referências ao vento como sinal de perigo ao homem e à mulher. Em Mt 14,30, quando Pedro pede a Jesus que o permita ir ao seu encontro andando sobre as águas, é o vento que o faz ter medo. O medo, lhe gera dúvida e, com isso, começa a afundar. A repreenda de Jesus é categórica. Diz a Pedro: “homem fraco de fé. Por que duvidaste?” (Mt 14,31).

O medo, muitas vezes, pode sabotar a condição de discipulado de Jesus. Em nossa caminhada cristã, muitos ventos podem nos vir ao encontro. As tempestades da vida são inevitáveis. Jesus, porém, é o Senhor da História. Com sua Palavra ele a tudo domina e transforma.

Aqui fica uma questão para nossa vida em comunidade, enquanto discípulos e discípulas de Jesus: confiamos nele, mesmo que possa parecer que esteja dormindo? Essa é a impressão que temos quando a maldade se nos bate à porta. Perguntamo-nos: onde está Deus e seu Filho Jesus, nesse momento de tanta penúria? Onde está Deus quando meninas são estupradas dentro de suas casas, trabalhadores são postos em condições análogas à escravidão, políticas de morte são implantadas por nossos governantes? Ao nosso redor, a fome se alastra. Pessoas sem ter onde morar já se fazem tantas, que se incorporaram à paisagem das grandes cidades. Onde está Deus que não vê a humanidade perecer? A resposta está na perícope do Evangelho de hoje.

Os discípulos foram acordar Jesus. Desesperados, suplicam por suas vidas (8,25). A resposta de Jesus se faz quase que irônica. “Por que tendes medo, fracos na fé?” Aqui podemos pensar que Jesus tenha feito pouco caso do medo dos discípulos, ou mesmo, do perigo que os afligia. Em verdade, não é assim. O discípulo e discípula de Jesus foi revestido da mesma autoridade que lhe fora dada pelo Pai. Em outros discursos de Jesus, ele deixou claro que a fé nele e no seu Pai, lhes conferiam força incontável. Em Mt 17,20, Jesus disse que se seus discípulos tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderiam ordenar até mesmo que uma montanha mudasse de lugar. A hipérbole de Jesus é proposital. Deixa-nos clara a necessidade de fé verdadeira e comprometida. Se nos atentarmos ao texto de Mt 17,20, veremos que após a condicional de se ter fé – mesmo que do tamanho de um grão de mostarda – poderiam ordenar que uma montanha se deslocasse. Isso mesmo! Jesus não disse que seriam felizes. Ou que ficariam tranquilos. Disse que iriam fazer alguma coisa, no caso, ordenar a uma montanha que se transportasse. Fé sempre tem como consequência atitude. Quando Jesus questiona a fé dos discípulos, no episódio do Evangelho de hoje, vem nos significar que eles mesmos poderiam ter acalmado os ventos. Sim, eles podiam. Jesus deu autoridade aos seus discípulos e discípulas. Veja isso lá em Mt 28,17-20.

A autoridade de Jesus impressa em nossa identidade de seguidores e seguidoras dele, deve estar sustentada em uma fé inabalável. Todo mal que há nesse mundo pode ser vencido pela fé. Jesus não está dormindo no barco de nossas vidas. Ao contrário, ele está em nós. Em nosso agir, impulsionado pelo Espirito Santo, que recebemos por herança em nosso batismo. Neste sentido, nós podemos combater todas as tormentas de nossa história. Com fé suficiente, podemos lutar contra toda dor que a humanidade enfrenta. Nós somos Igreja, corpo místico de Jesus. Assumimos a responsabilidade de instaurar o Reino de Deus e sua Justiça. Denunciando toda forma de injustiça, curando os corações feridos, defendendo a dignidade humana em todas as circunstâncias; nos tornamos legítimos seguidores e seguidoras de Jesus. É nas atitudes consequentes de nossa fé que a autoridade de Jesus se revela em nossas vidas.

Portanto, não podemos dormir no barco da história. É hora de acordar e pôr mãos à obra!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: