Só a devoção resolve?

Por Hermes Fernandes

O catolicismo, de tempos em tempos, parece se reinventar. Quem já conta idade superior a quatro décadas, é testemunha de mudanças. Isso seria bom, se o ser humano não fosse tão propenso aos extremos. O dito popular “ou oito, ou oitenta” parece ser máxima que rege a vida de muitos.

Quem conta as quatro décadas acima citadas em idade, se lembra dos esforços de católicos e católicas, ministros ordenados ou não, em implantar as reformas do Concílio Vaticano II. Em minha juventude não era raro ouvir que o referido concílio foi um vento novo, um respiro, em tempos tão abafados. Fomos marcados e marcadas por personalidades corajosas, motivadas pelo Vaticano II. Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Helder Câmara, D. Evaristo Arns, Santa Dulce dos Pobres, outros. Santos e Santas de Deus que entenderam a necessidade de uma Igreja inserida na vida dos pequenos, dos sofredores. Fazendo da Palavra, referencial do ser Igreja. Tudo pareceu ser mais nosso. Ter nosso jeito de ser impresso no teologizar e celebrar. Nada por improviso. Sempre bem refletido, maturado. Documentos e Estudos da Igreja não nos faltam para fundamentar que uma Igreja inculturada à realidade, comprometida com os pobres, profética diante dos projetos de morte (afirmando sempre o valor da vida); é – de fato – a Igreja de Jesus.

Foram tempos lindos. Onde nasceram grandes iniciativas. Basta lembrar que foi nesse espírito que as Comunidades Eclesiais de Base se lançaram ao largo, dando um rosto de gente, ao Povo de Deus. A comunidade cristã não se sentia mais na condição de assembleia, de assistente. Fez-se protagonista, partícipe. Povo de Deus a caminho. Além das CEBs, não nos esqueçamos as iniciativas de Leitura Popular (prefiro chamar eclesial) da Bíblia. As comunidades mantinham seu amor às devoções, à religiosidade popular, mas não deixavam de buscar e compreender, partilhar e celebrar; à luz da Palavra de Deus. E mais: ainda temos a grata constatação de que o Povo de Deus se sentiu chamado ao estudo da teologia, como vocação. Algo muito raro antes, aos ministros não ordenados. Muita alegria nos deu tudo isso!

Lamentavelmente, o tempo passou. Não sei bem quando, ou o porquê, mas fato é que o trem da história tomou outros caminhos. Sinto como que se a locomotiva freasse seu rodar sobre os trilhos e engatasse o reverso. Como que em marcha ré, a locomotiva da história da Igreja embalou um retrocesso que muito nos entristece e, percebe-se claramente, gera alguns danos. De repente, as pessoas pararam de buscar aggiornamento. Criaram neologismos para combater o que, antes, o Concílio Vaticano II afirmou ser caminho certo e seguro para a Igreja. Devoções foram inventadas ou reinventadas. Paramentos, retirados dos museus, passaram a habitar como a última moda dos presbitérios. Nunca se viu tanta batina, barrete, rendas, penduricalhos. Seminaristas e padres adentram as livrarias católicas, mas se esquecem dos livros. Deslumbram-se com as rendas, os brocados, os dourados. Cheguei a ouvir um padre afirmar que leigo não precisa estudar teologia. Pasme! Padres condenando a razão crítica como instrumento do aprofundamento da fé. E mais: católicos bradando que não queriam diálogo com a modernidade. Condenaram a muitos. Deslegitimaram a Doutrina Social da Igreja. Nunca se falou tanto em caça aos hereges! Nem mesmo na Idade Média, quando o Santo Ofício exercia esse ministério de forma institucional. Em meio a tanto ultraconservadorismo, muita devoção, para provar que aqueles que condenam, agridem, desmoralizam, marginalizam; são – de fato – seguidores de religião. Confesso que vejo em muitos discursos católicos o mesmo tempero dos afãs das ditaduras de extrema direita. A mesma que fabricou milhares de torturados e mortos em nosso triste passado recente.

Penso nestes dois momentos da Igreja, os quais, fazem parte da minha vida. Saudoso dos tempos em que convivi com homens e mulheres embalados e engajados na Igreja comprometida com a caminhada histórica. Vejo ao meu lado os sinais do conservadorismo infrutífero. Que fabrica uma religião de belezas, sem conteúdo. Nada contra a riqueza de nossa liturgia. Ao contrário! Entretanto, o que tenho visto nas liturgias não se trata do que nos propõe o advento do Concílio Vaticano II. A Constituição Pós-Conciliar Sacrossanctum Concilium, o Documento 43 da CNBB – entre outras belas fontes de formação – foram quase que marginalizadas pelos que querem resgatar as práticas dos tempos de São Pio X. Não quero aqui denegrir ou deslegitimar o referido Papa e Santo do século passado. No momento em que viveu, em seu contexto, todos seus escritos e atos do pontificado foram condizentes às necessidades da Igreja naquela época. Mas o tempo passa. Outras necessidades surgem. Adaptar o caminhar se faz necessário, conforme a aridez ou suavidade do caminho. Ultraconservadorismo não é eficaz.

Que possamos resgatar em nossos corações o amor e agradecimento pelo aggionarmento proposto por São João XXIII e São Paulo VI. O Concílio Vaticano II sonhou uma Igreja Povo, não uma pirâmide hierárquica, sustentada pelas relações de poder. Inspirados e inspiradas na Palavra de Deus, devemos seguir refletindo, teologizando, celebrando. Sempre à luz da realidade histórica em que vivemos. Adaptar a Fé à Vida se faz necessidade, há muito, constatada. A Igreja deve ter o devido cuidado de se ocupar de todas dimensões da vida humana. Só a devoção, não basta!

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