O Deus que nos livra das chamas | Estudo sobre Dn 3,1-97.

Por Frei Antônio Fabiano Santos

Este artigo discorrerá sobre um trecho do Livro de Daniel, em que um contundente testemunho de fidelidade – o dos famosos “três jovens na fornalha” – culmina na intervenção divina e na proclamação de fé de um rei pagão. A narrativa é surpreendente e, podemos dizer, não apenas foi útil para fortalecer a fé dos membros da comunidade do tempo em que ela surgiu e foi escrita, mas é também atualíssima e leva-nos a refletir sobre os desafios da fé em nossos dias, uma fé viva, neste Deus que se importa conosco e nos livra das chamas. Mas que chamas? Esta perícope –trecho bíblico retirado de um texto maior e de sentido completo – convida-nos a lançar renovado olhar sobre a vivência da fé em tempos desafiadores, impele-nos à confiante esperança dos pobres do Senhor, dos que sabem que estão nas mãos de Deus, o Deus que ama e não desampara ninguém.

Seguimos, em todo este artigo, a numeração dos versículos conforme a Bíblia de Jerusalém, que traz na sequência do texto aramaico (retomado no início de nossa perícope) as versões gregas. Nas demais bíblias, a citação correspondente é Dn 3,91-97. Este trecho (perícope), contudo, foi traduzido e adaptado livremente para propósito exclusivo deste trabalho.

A proclamação de fé do rei Nabucodonosor em DANIEL 3,24-30

24 Ora, o rei Nabucodonosor ficou muito inquieto e se levantou com grandíssima pressa. Então, abrindo a boca, perguntou a seus secretários aconselhadores:– Nós não amarramos e lançamos no fogo três homens?Eles responderam ao rei:– Mas é claro que sim, rei!25 O rei continuou:– Mas eis que eu vejo quatro homens soltos, passeando no meio do fogo, sem nem sequer se queimarem, e um dos quatro parece um anjo!26 Logo em seguida, o rei Nabucodonosor foi até perto da porta da fornalha acesa. E, abrindo a boca, gritou:– Sidrac, Misac e Abdênago, servidores do maior Deus, venham para fora!Assim que ouviram isso, Sidrac, Misac e Abdênago saíram do meio do fogo.27 Toda a corte do rei, os maiores e os menores funcionários, foram correndo para ver os jovens: o fogo não tinha queimado nenhum deles, nem um fiozinho de cabelo, e as suas roupas estavam intactas, e eles sequer cheiravam à fumaça.28 Então Nabucodonosor gritou:– Louvado seja o Deus de Sidrac, Misac e Abdênago, que mandou seu anjo para libertar esses servidores, os que confiando em Deus preferiram desobedecer à ordem do rei, arriscando suas próprias vidas, ao invés de se curvarem perante outro deus que não é o seu Deus!29 Por essa razão eu decreto e faço divulgar: Quem ousar falar contra o Deus de Sidrac, Misac e Abdênago, seja de qual raça for, será espedaçado e terá sua casa demolida. Pois não há outro Deus que possa libertar como esse libertou!30 Ora, depois disso o rei deu cargos mais altos a Sidrac, Misac e Abdênago no governo da Babilônia.

A perícope no conjunto da obra

No cânon judaico, o livro de Daniel foi posto no grupo dos chamados “outros escritos”, entre Ester e Esdras. Isso, portanto, quando o cânon dos profetas já havia sido fixado. Para as tradições das bíblias grega e latina, porém, Daniel se coloca no grupo dos profetas e conta com os acréscimos deuterocanônicos, a saber, o salmo de Azarias e o cântico dos jovens na fornalha (Dn 3,24-90), o caso de Susana (Dn 13), e Bel e o Dragão (Dn 14).

De modo geral, podemos dividir o livro de Daniel em duas partes. Dos capítulos 1 a 6 temos uma série de narrativas, onde sucessivamente prevalecem os jovens hebreus sobre as provações que lhes são impostas. Na sequência temos, predominantemente, uma literatura apocalíptica, com tudo que isso implica, não obstante Daniel ser considerado um escrito atípico e não muito fácil de enquadrar-se nos protótipos do gênero a que pertence.

Se o começo do livro está em hebraico, a partir de Dn 2,4 tem-se o texto em aramaico até o fim de Dn7. Os demais capítulos voltam à língua hebraica (até o capítulo 12). Como já dissemos, em algumas versões o livro ostentará os acréscimos grego e siríaco (cf. os capítulos 12 e 13, além de partes do capítulo 3). Tendo em vista esse quadro mais abrangente, a perícope que analisaremos extrai-se da primeira seção ou primeira parte do livro, precisamente do eclético capítulo 3.

A presente perícope (Dn 3,24-30) se situa na sequência do famoso salmo de Azarias na fornalha ardente e o cântico dos três jovens. Esses textos, como sabemos, foram conservados somente nas traduções grega e siríaca, apesar de alguns acreditarem que houve um original hebraico ou aramaico para ambos. Dn 3,24-30 é a narrativa da grande proclamação de fé do rei Nabucodonosor, perante o prodígio da vitória dos jovens sobre as chamas, um sinal da intervenção miraculosa de Deus em favor dos que lhe são fiéis.

Antes mesmo dos referidos salmo e cântico (Dn 3,24-90),[1] adição que termina exatamente onde começa a nossa perícope, o autor sagrado quis enfatizar o prodígio de Deus, pintando em tons vibrantes as cores do cenário onde se passará o acontecimento: o colérico rei dá ordem para que se aqueça a fornalha sete vezes mais que de costume (cf. Dn 3,19); os que arremessam os jovens são, mesmo de fora, atingidos mortalmente pela fúria das chamas (cf. Dn3,22); mas os servidores do Senhor sairão incólumes do meio do fogo. Assim, enfatiza-se hiperbolicamente o poder de Deus sobre as potestades desse mundo.

A perícope se encerra com a libertação dos jovens: uma vitória física, em nível mais simples da narrativa, mas, sobretudo e principalmente, uma vitória moral – os jovens são inclusive justificados e elevados a novas dignidades (cargos mais altos no governo) – e uma vitória teológica, visto que o rei se rende ao Deus de Sidrac, Misac e Abdênago.

Chamamos a referida perícope de “proclamação de fé” do rei Nabucodonosor, porque precisamente na boca desse personagem pagão é posta a profissão de fé própria dos filhos de Israel: o “maior Deus” (cf. Dn 3,26). Não queremos com isso sugerir uma “conversão” do rei, pretensão que a própria sequência do livro sagrado desmentiria. Quanto a essa titulação de “maior Deus”, exprime-se aí – na consciência do rei pagão, estrangeiro – antes um reconhecimento de caráter puramente henoteísta (cultuar um deus, sem necessariamente excluir ou negar outros), em evidente contraposição ao rígido monoteísmo já desenvolvido em Israel na ocasião do livro de Daniel.

Delimitação da perícope

Como já acenamos no número anterior, Dn 3,24-30 está localizado na sequência da adição cântico/salmo, demarcando o fim da “louvação” e sinalizando o reconhecimento do prodígio operado pelo Deus dos jovens hebreus. Se quiséssemos ignorar aquele acréscimo deuterocanônico, ainda assim teríamos bem demarcada essa perícope. O que antecede o cântico e o salmo é a condenação dos três jovens e o cumprimento de sua sentença (cf. Dn 3,8-23), narrativa que prepara o leitor para a grande lição da vitória dos “servidores do maior Deus”. E o que vem depois desse desfecho, versículos seguintes e capítulos consecutivos, não faz mais depender de si toda a intenção do autor ou do texto com relação ao fato já consumado. No capítulo quarto, por exemplo, aparece um novo cenário que se abre aos olhos do espectador, para a descrição do sonho e da dramática condenação do déspota por meio de sua própria loucura.

A perícope começa com a inquietação do rei, sua angustia e precipitação; desenvolve-se num diálogo patético entre o rei e sua corte; atinge a mais alta tensão na perplexidade da visão do prodígio, isto é, o milagre dos jovens incólumes no meio do fogo e um quarto homem semelhante a um anjo. Essa tensão e perplexidade se estendem do rei à sua corte, em uníssono, uma vez que os funcionários, maiores e menores, participam da trama. A perícope culmina com a proclamação de fé do rei Nabucodonosor (vs. 28-29), de modo que o último versículo (v. 30) é apenas um desdobramento ou consequência do fato principal, uma “compensação”, um alívio do alto grau de tensão a que, desde o começo, vivem os personagens e o próprio leitor é convidado a experimentar. Esse último versículo em hipótese alguma deve ser lido como a parte mais importante da perícope, como uma “recompensa” ou “paga” pela fidelidade dos jovens. Isso realçaria bem, ainda que deturpadamente, numa pretensa teologia da prosperidade, a que nos opomos.

 Análise linguística

24 Ora, o rei Nabucodonosor ficou muito inquieto e se levantou com grandíssima pressa. Então, abrindo a boca, perguntou a seus secretários aconselhadores:– Nós não amarramos e lançamos no fogo três homens? Eles responderam ao rei: – Mas é claro que sim, rei!

 Vemos aí o remorso e a perturbação do rei, sentimento comum dos déspotas em toda a bíblia e fora dela. A perícope já nos coloca diante de um estado de perturbação, que antecipa o fracasso moral do rei e a vitória dos jovens hebreus. Pergunta-se e responde-se o óbvio. Entretanto não é no óbvio que se manifestará o Deus de Israel.

25 O rei continuou:– Mas eis que eu vejo quatro homens soltos, passeando no meio do fogo, sem nem sequer se queimarem, e um dos quatro parece um anjo!

O autor sagrado, após introduzir o leitor no drama do rei, aumenta a tensão da narrativa com a surpresa daquele que vê não mais três, porém quatro homens no meio do fogo. Pela visão desse personagem misterioso se personifica o amparo do Senhor aos que lhe permanecem fiéis. O rei pagão “vê” o sinal da proteção de Deus sobre os jovens. E a isso logo se somará o espanto de toda a corte, dos maiores e menores funcionários do rei e seu governo.

26 Logo em seguida, o rei Nabucodonosor foi até perto da porta da fornalha acesa. E, abrindo a boca, gritou:– Sidrac, Misac e Abdênago, servidores do maior Deus, venham para fora!Assim que ouviram isso, Sidrac, Misac e Abdênago saíram do meio do fogo.

O “venham para fora”, proferido pelo rei é um chamado à aquisição da liberdade (libertação), e, por isso mesmo, é um chamado à vida plena. No Novo Testamento Jesus dirá algo análogo a Lázaro (cf. Jo 11,43) e, em ambos os casos, a sentença faz alusão a uma “saída”, um êxodo daquela situação de ameaça ou desgraça de morte para o quadro da bem–aventurança e normalidade da vida de uma pessoa/povo que se volta para o seu Deus e Senhor. Assim, como só Deus pode ressuscitar os mortos na Sagrada Escritura, só Deus pode preservar da morte homens que são lançados no meio das chamas. Naquele e neste caso, atesta-se algo impossível ou, antes, possível só a Deus. Para ambos os casos, portanto, faz-se necessária a fé e a consequência de uma atual ou posterior fidelidade.

27 Toda a corte do rei, os maiores e os menores funcionários, foram correndo para ver os jovens: o fogo não tinha queimado nenhum deles, nem um fiozinho de cabelo, e as suas roupas estavam intactas, e eles sequer cheiravam à fumaça.

O fogo das ameaças, a potência opressora – tudo que subjuga o povo –, as tentações idolátricas que vociferam em todo o livro de Daniel, aqui são desmoralizadas, tornam-se risíveis a ponto de o autor dizer que o fogo não tinha queimado nenhum deles, nem um fiozinho de cabelo, e as suas roupas estavam intactas, e eles sequer cheiravam à fumaça. Esvai-se em face do poder de Deus, como cera, a potência do mal personificada e/ou assumida por Nabucodonosor.

Ora, quer-se aí demonstrar que os que permanecem com Deus, como os jovens hebreus, saem vencedores de toda provação. O autor sagrado chega mesmo a exagerar, mostrando-os invictos, absolutamente intactos. São os vencedores da grande tribulação, em linguagem apocalíptica.

28 Então Nabucodonosor gritou:– Louvado seja o Deus de Sidrac, Misac e Abdênago, que mandou seu anjo para libertar esses servidores, os que confiando em Deus preferiram desobedecer à ordem do rei, arriscando suas próprias vidas, ao invés de se curvarem perante outro deus que não é o seu Deus!29 Por essa razão eu decreto e faço divulgar: Quem ousar falar contra o Deus de Sidrac, Misac e Abdênago, seja de qual raça for, será espedaçado e terá sua casa demolida. Pois não há outro Deus que possa libertar como esse libertou!

A culminância da perícope se dá com o reconhecimento da soberania do Deus de Sidrac, Misac e Abdênago. Mas quem escreveu a perícope tem o cuidado de não deixar passar despercebido que o especial enfoque deve ser dado (ao lado da demonstração do poder de Deus) à fidelidade inquebrantável dos jovens. Eles não se deixam seduzir pelas idolatrias vigentes, observam a Lei do Senhor em tempo difícil e é isso que os salva. Uma leitura equivocada poderia tender para a ideia de um Deus mágico, que soluciona problemas de maneira mágica e retribui os bonzinhos, castigando os maus. Não é essa a chave de leitura que aqui apresentamos.

Os personagens hebreus são os que não foram corrompidos pelo poder e, por isso mesmo podem, inclusive, governar em cargos mais altos, numa justa e (para todos) benéfica ascensão.

30 Ora, depois disso o rei deu cargos mais altos a Sidrac, Misac e Abdênago no governo da Babilônia.

Análise Pragmática

O autor sagrado sem dúvida quis reforçar a fé do povo, perseguido por Antíoco Epífanes, dando-lhe esperança. O contexto é de um povo que experimenta o abandono das prescrições da Lei, um povo que é fortemente tentado pela idolatria de sucessivos impérios. O fato dos protagonistas de toda a sucessão dos relatos (Dn 1–6) serem jovens, os quais sempre saem vitoriosos pela fé no Deus de seus pais, é também algo emblemático: espera-se sempre de Israel uma consecução da fidelidade ao Senhor, a Aliança com o Senhor deve ser garantida pelas novas gerações, deve ser mantida.

Mas por que se diz isso? A obra se mostra ao leitor como da época do cativeiro da Babilônia. Mas hoje sabemos que ela foi escrita no tempo de Antíoco Epífanes (175-164). Muitos elementos do livro aludem a eventos desse período. Em meio às provações desse tempo, o autor sagrado visou encaminhar o povo para a fidelidade ao Deus de Israel.

O autor conhece a cultura, as tradições do seu povo. Sabe que tudo isso está ameaçado. A sua fala é velada e se desvela apenas aos iniciados, como é próprio do gênero apocalíptico. Assim, na perícope que analisamos fala-se de Nabucodonosor (597-587), quando na verdade quer-se fazer referência a Antíoco do século II. A história, tal como consta no texto sagrado, se passará na Babilônia, mas apenas porque este é o lugar simbólico para exprimir a opressão do povo.

Esse é um escrito de resistência, a expressão de uma comunidade que em situação limite olha para o passado, interpreta os sinais do tempo presente e se lança com fé no futuro onde a esperança faz crer que as forças do mal serão arruinadas e o bem triunfará.

Hermenêutica

O que diz esse texto às comunidades de hoje? Qual a atualidade de sua mensagem? Antes de tudo, o texto é um golpe sobre as situações de opressão. Não estamos hoje diante de grandes potências, não apenas econômicas, mas também ideológicas? Não nos deparamos todos os dias com o mal da violência, a morte dos que amamos, as impunidades institucionalizadas? Sofre-se hoje, como nos tempos de Daniel. Mas, naquele tempo e hoje, Deus é o Senhor da história, das nossas vidas. Ele derruba dos tronos os poderosos, elevando os pequenos e humildes, tal como vemos no cântico de Maria (Lc 1,52). Deus se coloca ao lado dos simples. E por mais que pareça irreversível uma situação, ela pode tomar um novo curso para os que têm fé. Não é esse Deus, um Deus de soluções imediatas, por mais hiperbólica que seja a perícope. Ela deve ser lida em seu contexto, dentro do grande texto. A libertação vem, mas antes disso um longo caminho é trilhado. Um caminho de esperanças e sucessivas lutas.

Esse Deus se manifesta e vem ao encontro dos que o amam. Com ele, nunca estamos sozinhos. Se ele não nos livra das chamas, coloca-se dentro delas conosco. É um Deus que participa de nossas vidas, no cotidiano de nossos trabalhos e preocupações. Uma pessoa que vem ao centro da nossa existência e nos salva, no mais amplo sentido teológico desse termo.

No apocalíptico tempo do fim, cuja expectativa se mostra em todo o livro de Daniel com maiores ou menores tensões alternadamente, as forças adversas que nos oprimem serão dobradas; haverá a chegada do Reino da justiça (e como quem já recebeu a boa nova do Evangelho, podemos entender esse Reino na pessoa de Jesus e essa justiça como Salvação do homem todo) pela misteriosa figura do Filho de homem (Dn 7,18) que é o próprio Reino profetizado, o qual há de imperar pelos séculos dos séculos.

Referências bibliográficas

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 3.ª impressão. São Paulo: Paulus, 2004.

BÍBLIA TRADUÇÃO ECUMÊNICA – TEB. São Paulo: Edições Loyola, 1994.

Notas

[1] Essa numeração de versículos é a mesma da adição que consta em itálico na Bíblia de Jerusalém, das traduções grega e siríaca. O v. 24 do aramaico coincide com o v. 91 do grego. A nossa perícope seguiu os números magnos da edição referida. A não ser assim poder-se-ia transpor toda a numeração de 24-30 para 91-97, respectivamente.

Colaborou: Fique Firme

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