Despojamento e Disposição para seguir Jesus | Uma reflexão sobre Mt 8,18-22

Por Hermes Fernandes

O Evangelho de Mateus ganhou lugar de destaque entre os quatro Evangelhos, em razão de seu caráter catequético. Além de seu destaque ao discurso inaugural de Jesus, o Sermão da Montanha, que abrange os capítulos de cinto a sete; podemos destacar a preocupação do evangelista pela comunidade de fé, fazendo desse evangelho, eclesial por excelência.

Propositalmente, a Liturgia da Igreja elenca esta perícope de Mateus um dia depois da que foi proclamada ontem na celebração do 13º Domingo do Tempo Comum, de Lucas. Em Lc 9,51-62, vimos de forma sinótica o mesmo discurso de Jesus sobre a disponibilidade e o despojamento, como requisitos para segui-lo. Os versículos de 57 a 59, do capítulo 9 de Lucas, – proclamado Domingo – equivale-se ao Evangelho de Mateus, 8,18-22. Esta insistência litúrgica pode nos servir para abrir os olhos ao ensinamento que Jesus dera outrora aos seus discípulos e discípulas, mas se faz muito atual para nosso seguimento hoje dele.

Antes de aprofundarmos nossa reflexão sobre o Evangelho de hoje, convidamos ao leitor que visite conosco a profecia de Amós, presente na Primeira Leitura da Liturgia. Em Am 2,6-10.13-16, o profeta nos adverte sobre o risco de nos corrompermos pelo acúmulo de bens, pela usura. Israel, exortada pelo profeta, deixou-se seduzir pelo dinheiro e pelo poder. Amós afirma categoricamente que “eles vendem o justo por dinheiro e o indigente pelo preço de um par de chinelos; pisam, na poeira do chão, a cabeça dos pobres, e impedem o progresso dos humildes” (Am 2,6b-7). Ora, outros profetas acusaram as elites e o poder do Templo desse mesmo pecado. Isaías também fala dessas mesmas deturpações da religião e da ganância da elite, vilipendiando os pobres (cf. Isaías, capítulos de 1 a 5). Os profetas do Primeiro Testamento advertiram bem: toda vez que o homem e a mulher escolhem o dinheiro e o poder, em prejuízo de vidas humanas – sobretudo dos mais pobres – está em grande pecado. Nenhuma religião pode deixar-se seduzir pelo sonho capital. Vidas humanas, e sua dignidade, não podem valer menos que o lucro e as pedagogias do mercado.

Pensando em tudo isso, podemos ler o Evangelho de hoje e dele inferir paralela mensagem. Ao seguidor e seguidora de Jesus nada mais deve importar do que os valores do Reino de Deus. É neste sentido que se encaixam as advertências de Jesus sobre a abnegação necessária para segui-lo. “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Com esse provérbio popular, bem comum para povo da época de Jesus, vem-nos a advertência de que toda ação evangelizadora é revestida de caráter missionário. Aquele e aquela que disseram sim ao chamado de Jesus e dispuseram-se a segui-lo, são enviados ao anúncio de sua mensagem, a Boa Nova. Para tanto, o anunciador e anunciadora do Evangelho não podem apegar-se aos bens, ou qualquer valor que os impeçam de uma real disponibilidade ao serviço das causas do Reino.

Mateus também descreve, no v. 22, outra resposta a um propenso seguidor dele, o qual, pede que Jesus o espere enterrar seus mortos. A resposta de Jesus pode parecer muito categórica. Até indelicada. “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos” (Mt 8,22). O que podemos pensar desta palavra dura de Jesus?

Como podemos ver, os episódios narrados pelo capítulo 8 do Evangelho de Mateus, são imediatamente posteriores ao discurso inaugural de Jesus e alguns sinais que ele possa ter realizado. O biblista Alonso Schönkel nos instrui que o entusiasmo suscitado pelo ensinamento e milagres não deve iludir, pois o seguimento de Jesus é exigente. Os dois exemplos de discípulos entusiastas apresentados nesse Evangelho são diferentes. Porém, complementares. Podem nos servir de paradigmas para nossa própria vivência eclesial. O primeiro (v. 19-20) é um letrado que quer fazer-se discípulo. Jesus lhe apresenta as dificuldades que pode enfrentar diante do desafio do discipulado. A abnegação e a renúncia aos valores diferentes aos do Reino. Não ter onde recostar a cabeça, pode nos significar desprendimento e, até mesmo, ruptura com as dinâmicas capitais da existência. O seguidor e seguidora de Jesus deve entender-se indigente por amor aos valores do Evangelho e, assim, estar ao lado dos desvalidos. No segundo exemplo, (v. 21-22), a pessoa já é discípula de Jesus. Por isso, o Mestre o exorta a manter-se firme em seu caminho. Ir enterrar seus mortos, pode nos significar ter assumido o seguimento de Jesus, mas sempre se sentir saudoso da vida anterior, oscilando pela inconstância e indecisão. Outra palavra de Jesus, em outro momento, traz a mesma advertência. Veja: “quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno do Reino de Deus” (Lc 9,62). Portanto, o segundo exemplo de seguidor de Jesus dado pelo Evangelho de Mateus não se trata de desrespeito aos familiares falecidos, e sim, é uma analogia ao discípulo e discípula que mantem-se claudicante em seu caminho. Sem passos firmes em seu caminhar.

Com ouvidos e olhos atentos à mensagem de Jesus que nos é apresentada por Mateus hoje, devemos rever nosso caminhar cristão. Estamos realmente comprometidos com os valores do Reino? Ou nos perdemos diante dos apelos capitas e, conforme nos adverte o profeta Amós, fazemos da religião pedagogia de exploração e opressão? Nosso sim ao chamado de Cristo é motivado pela certeza da Verdade por ele anunciada, ou estamos deslumbrados por sua realeza, buscando uma imagem de Jesus corrompida pela busca de honra, dinheiro e poder? E mais: estamos dispostos a seguir Jesus até às últimas consequências? Ou, vez por outra, vamos “chorar as cebolas do Egito”, vivendo uma saudosa lembrança dos tempos anteriores ao nosso chamado e envio missionário, desejando retornar e enterrar nossos mortos?

Uma coisa é certa: para seguir Jesus, é preciso despojamento e decisão!

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