Celebrando o Imaculado Coração de Maria, sob a inspiração de Lc 2,41-51

Por Hermes Fernandes

Neste sábado, 25 de junho, a Igreja celebra a memória do Imaculado Coração de Maria. A data deve ser celebrada no sábado seguinte ao segundo domingo após Pentecostes. Na história da Igreja medieval, os Santos Padres, os místicos, os teólogos e os ascetas dos séculos seguintes; todos foram grandes devotos do Coração de Maria, assim como do Coração de Jesus. Entretanto, foi São João Eudes (1601-1680) o grande promotor desta celebração litúrgica, a qual, se tornaria devoção e patrimônio dos fiéis. Esta festa tornou-se pública de 1648, entrando assim na liturgia comum e, a partir daí, muitos bispos autorizaram em suas dioceses a celebração votiva ao coração de Maria.

Futuramente, com a aparição da Virgem Maria em Fátima, tal devoção tomou grande impulso, conforme escreveu o Cardeal Cerejeira: “A Missão especial de Fátima é a divulgação no mundo do culto ao Imaculado Coração de Maria.”

No dia 4 de Maio de 1944, o Papa Pio XII ordenou que esta festa fosse observada em toda Igreja para obter a intercessão de Maria para a paz entre as nações, a liberdade para a Igreja, a conversão dos pecadores e o amor pela pureza e pelas virtudes. Dois anos mais tarde, o mesmo Papa Pio XII consagra o gênero humano ao Imaculado Coração de Maria.

No dia 25 de março de 1984, o então Papa São João Paulo II, realizou na Basílica de São Pedro, acompanhado por uma multidão de mais de 150 mil peregrinos e diante da imagem da Virgem peregrina de Fátima, vinda de Portugal, a solene consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria em união espiritual com os bispos do mundo inteiro. São João Paulo II, na ocasião, pediu a Nossa Senhora que livrasse a humanidade da fome, das guerras e de todos os males.

Para bem celebrar esse amor especial à Virgem Maria, hoje sob a devoção ao seu Imaculado Coração, a Liturgia nos sugere o Evangelho de Lc 2,41-51. Esta sessão da obra Lucana é chamada de Evangelho da Infância. O Evangelista Lucas a termina salientando o realismo da Encarnação do Filho de Deus. Narrando acontecimentos naturais da vida familiar do povo, mesclando o trivial com o mistério, deixando-nos perceber que a Ação Salvífica de Javé se insere na história. Como qualquer outra pessoa, Jesus cresceu e se desenvolveu física, mental e moralmente. Como a Carta aos Hebreus nos deixa entender, foi através de sua humanidade que Jesus revelou sua divindade (cf. Hb 2,17; 4,15; 5,7-10). O episódio da perda e o reencontro de Jesus entre os doutores no Templo se insere nesta inspiração.

A Lei judaica obrigava que todos os homens, após os doze anos, fossem ao Templo três vezes ao ano. Eram momentos importantes no calendário litúrgico judaico: a Festa da Páscoa, das Semanas e das Tendas. Isso podemos verificar em Ex 23,14-17 e Dt 16,16-17. Aqueles que tinham dificuldades com a distância, assumiam como compromisso ir em peregrinação à Jerusalém pelo menos uma vez ao ano. Preferencialmente, na Festa da Páscoa (Lc 2,41). A cena do Evangelho que nos é proclamado na Liturgia de hoje compõe-se nesse cenário.

Um episódio muito significativo: Jesus permanece em Jerusalém e seus pais viajam de volta para a Galileia. Só após um dia de viagem, sentem a falta do menino. Certamente, acreditaram que ele estaria com alguém de sua parentela, uma vez que viajavam em caravana. Dando falta dele, voltam apressadamente para Jerusalém. O reencontro se dá após três dias. Nada que nos surpreende, supondo um dia que já viajaram de volta para casa, o tempo de se dar por certa sua ausência e a viagem de regresso à Jerusalém. Outrossim, mesmo que a lógica nos permita entender essa cronologia, somos convidados a pensar que esta seja uma construção literária proposital do Evangelista. Os Santos Padres nos sugerem que seja um paralelo com o tempo entre a morte e ressurreição de Jesus. Três dias para reencontrar Jesus entre os doutores no Templo, três dias para reencontrá-lo ressuscitado após sua Paixão de Cruz. Aqui, vale ressaltar o dado da Revelação. Ao encontrar Jesus ocupado das coisas do Pai, entre os doutores no Templo, revela – mesmo que em prelúdio – sua messianidade confirmada – incontestavelmente – na Ressurreição.

Propomos aqui um outro paralelo, quase que um parêntese: a forma com que Lucas descreve o que Jesus fazia no Templo, assemelha-se ao relato de Emaús, onde Jesus explicava aos discípulos desanimados o sentido das Escrituras (cf. Lc 24,25-27). Neste sentido, podemos concluir que o relato da perda e o reencontro de Jesus entre os doutores no Templo é bem mais do que um acidente ao nível doméstico. É como que um aperitivo que se nos é dado por Lucas sobre a messianidade de Jesus, na qual, se cumpre a promessa das Escrituras. A conclusão do Evangelho da Infância é um resumo simbólico de toda pessoa, mensagem e ação salvífica do Messias esperado, Jesus de Nazaré.

E como não poderia ser diferente, Maria guardava tudo isso em seu coração (Lc 2,51).

Que possamos, ao exemplo da Virgem Santíssima, manter nossos corações preenchidos pela revelação dos mistérios de nossa salvação e animados a ser celeiro do Evangelho de seu Filho; comunicando, sempre e em todos os lugares, a Boa Nova de Jesus, Messias dos Pobres.

Seja o Imaculado Coração de Maria referência para nossos corações, fazendo-nos evangelizadores e evangelizadoras, missionários e missionárias, ao serviço do Reino de Deus e sua Justiça.

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