Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, sob a inspiração de Lc 15,3-7

Por Hermes Fernandes

Celebramos Hoje a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. A iniciativa de se celebrar o Sagrado Coração inspira-se na Cruz, onde o soldado abriu o lado de Jesus com uma lança (cf. Jo 19,34). E na passagem da Escritura onde Jesus se intitula “manso e humilde de coração” (cf. Mt 11,29). Com o tempo, a Igreja se sentiu chamada a viver esse carisma de forma especial, cheio de carinho por Jesus, fonte de amor e misericórdia. E quando o povo toma algo e reveste-o de carinho, nasce a devoção. Por isso, mais que da cristologia, é da religiosidade popular, do sentimento sincero dos pequeninos de Deus, que nasce a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Frei Jacir de Freitas Faria, célebre estudioso da Bíblia de nossos tempos, nos conduz pela história deste Mistério e Devoção. Diz assim:

“A devoção ao Sagrado Coração de Jesus surgiu com a religiosa Margarida Maria Alacoque. Era o ano de 1675. Segundo a tradição, ela teve uma visão de Jesus mostrando-lhe o seu coração e pedindo que fosse realizada uma celebração em honra ao Sagrado Coração de Jesus, no oitavo dia depois da festa de Corpus Christi, isto é, numa sexta-feira. Nesse dia, todos deveriam comungar e fazer o desagravo do Coração de Jesus com muita piedade. O povo tinha medo de comungar. Havia um sentimento de poder comungar a própria condenação ao inferno. Essa visão é fruto dos ensinamentos de um holandês, chamado Cornélio Jansênio. Ele pregava um Deus carrasco que punia os pecadores. O pedido de comungar e, mais tarde, de nove sextas-feiras ou o ano todo, em honra ao Sagrado Coração de Jesus foi uma resposta ao jansenismo. 

O outro pedido, o do desagravo do Sagrado Coração, é uma devoção, uma piedade popular antiga na Igreja que consiste em fazer um ato de reparação de algo que foi feito de maneira errada. Por exemplo: o Santíssimo foi profanado. Então, era necessário fazer um ato de desagravo do Santíssimo. O desagravo do Sagrado Coração de Jesus se justifica porque segundo o evangelho de João, e somente ele, Jesus recebeu um golpe indevido de lança no seu coração, uma violação (Jo 19,34), seu coração foi dilacerado. O amor não foi amado. E o que é pior, Jesus morreu na cruz sem ser culpado de nada. Esse é o sentido da festa do Sagrado Coração, que logo se espalhou pela Europa e pelo mundo cristão.

Na Bíblia há várias citações do substantivo coração. Ele aparece 853 vezes. Para exemplificar:  povo tinha o coração indócil (Jr 5,23); o Faraó do Egito era de coração duro (Ex 7,14); mudar de vida é rasgar o coração (Jl 2,13); o judeu é chamado a ter um coração puro (Sl 51,12); Jesus é manso e humilde de coração (Mt 11,24-30).

Coração é, na Bíblia, a sede da razão, da decisão, mais do que sentimento. Deus, fonte de conhecimento, colocou a lei no nosso coração (Jr 31, 3.33) para que possamos decifrá-la e vivê-la. A falta de razão das lideranças judaicas e romanas crucificaram Jesus na cruz. Nela, (na Cruz), Jesus teve o coração dilacerado por anônimos soldados que representavam o poderoso Pilatos, de coração duro e mãos impuras, as quais foram lavadas com o sangue de Jesus.”[1]  – Obrigado, Frei Jacir, por seus ensinamentos!

Vamos à Liturgia da Palavra! Oportunamente, nos é apresentada no Evangelho de hoje – do terceiro Evangelista, isto é, Lucas – uma das perícopes mais lindas do Segundo Testamento. Em Lc 15,3-7, Jesus propõe a alegoria da ovelha e do pastor, para ilustrar a dinâmica da misericórdia do Pai, e dele mesmo, por nós.

A sessão onde o Evangelho de hoje está inserido, se compõe das três parábolas da misericórdia. No capítulo 15 podemos ver a parábola da ovelha perdida, que temos hoje na Liturgia; a parábola da dracma (moeda) perdida; e a do filho “perdido” e o filho “fiel”, também conhecida como Parábola do Filho Pródigo.

Para abordar tema tão importante, como a verdadeira imagem de Deus, opondo-se às tradições do Primeiro Testamento que o imprimia no coração do povo como o castigador impiedoso, Jesus usa de historietas que enchem os olhos e tomam a atenção dos discípulos e discípulas de ontem e hoje. A que nos é oferecida na Liturgia de hoje, a ovelha perdida, vem inferir em nós o sentimento de confiança no Pai, mudando nossa relação e percepção dele. Jesus não pretende defender ou definir a si mesmo. Este pastor descrito na parábola não trata de si, mas de seu Pai. O desejo de Jesus é mudar a percepção do agir de Deus. Para Jesus, a ação do Pai é sempre pautada pela misericórdia. Na mesma linha de raciocínio que a Parábola da Moeda Perdida (Lc 15,8-10), a Parábola da Ovelha Perdida sublinha – por analogia – o esforço do Pai em resgatar seus filhos e filhas perdidos e perdidas, alegrando-se infinitamente quando estes são encontrados. O mesmo podemos perceber na essência da Parábola do Filho Pródigo (Lc 15,11-32).

Ao exemplo do Pai Misericordioso, os homens e mulheres, seguidores e seguidoras de Jesus, devem sempre primar pelo restabelecimento da unidade, até festejando quando aqueles e aquelas que se afastaram da comunidade, são recebidos e reintegrados. A disposição e alegria de receber de volta os que estavam dispersos, machucados, marginalizados, deve ser imperativo em nossas relações fraternas. Nas três parábolas da misericórdia, Jesus derruba a ideia de um Deus castigador dos pecadores e beneficiador dos justos. A medida do acolhimento é sempre a misericórdia. Não a meritocracia.

Ao exemplo do Pai, Jesus se fez acolhida e perdão. Em seu ministério não são raros os momentos em que vemos sua ação reintegradora. Mesmo as curas. Não se faziam meros espetáculos de curandeiro, ou taumaturgo. Foi mais: Jesus libertava dos males que impossibilitavam a real dignidade, proporcionando aos homens e mulheres, vida digna e respeito na comunidade.

O coração de Jesus, manso e humilde, é espelho do coração do Pai. Reflete misericórdia infinita, ação resultante de seu amor inabalável. Celebrar a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus é trazer para nossa realidade eclesial estes paradigmas. Nosso agir e celebrar devem ser sempre inspirados na festa da acolhida que integra todos e todas que estavam dispersos e dispersas.

Que nosso coração possa ser testemunho do Coração de Jesus. Sendo presença constante de libertação e integração. Amando sempre, perdoando sempre, colocando-nos – sempre – ao lado dos fracos, pobres, sofredores. Somos os anunciadores da Boa Nova em nossos tempos. Para tanto, precisamos ter um coração semelhante ao do Pai, que se alegra por todas ovelhas, sobretudo, aquelas que – antes perdidas – voltam ao regaço amoroso do Sumo Pastor, o Pai da Misericórdia. Sejamos amorosos com o Amor infinito! Amém!

***

[1] Para ler na íntegra o texto de Frei Jacir de Freitas Faria, clique no link: www.ocaminheirodoreino.com; www.bibliaeapocrifos.com.br, ou assista o vídeo abaixo:

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