A Bíblia – métodos de leitura e abordagens possíveis

Por Solange Maria do Carmo

De vez em quando alguém aparece perguntando sobre os métodos de leitura da Bíblia e sobre qual deles é mais apropriado para lançar luzes sobre os textos bíblicos.

Bom, essa questão é intrigante: lançar luzes sobre os caminhos da Bíblia. Certamente, ao longo da história da exegese cristã, muita coisa foi feita. Muitas luzes foram projetadas sobre o texto, muitos métodos surgiram e o texto ganhou mais transparência, mais visibilidade pelo esforço exegético e hermenêutico de uma porção de estudiosos que se empenharam em decifrá-lo.

Em linhas gerais, nós poderíamos classificar os métodos que tiveram força e status em momentos importantes nessa caminhada de investigação em três grupos: métodos que priorizam o autor, o leitor ou o texto. Vejamos um pouco mais sobre cada um desses caminhos metodológicos.

1º) Métodos que priorizam o autor do texto

Numa primeira abordagem, o interesse de pesquisa dos exegetas foi o autor do texto: sua intenção, o que ele queria dizer com seu escrito no contexto em que ele se encontrava. Essa pesquisa muito contribuiu para a compreensão das Sagradas Escrituras. São os chamados métodos histórico-críticos, tão conhecidos dos teólogos, especialmente dos exegetas – aqueles que se debruçam sobre o texto bíblico para destrinchá-lo e melhor explicá-lo. Quem já fez teologia pelo menos já ouviu falar desses métodos. Mas eles não são de todo desconhecidos dos não-teólogos. Vamos lembrá-los:

a) Crítica textual: o objetivo desse método é reconstituir o texto no estado original do momento em que ele foi publicado. Nós não temos os originais da Bíblia. Temos diversos manuscritos (pergaminhos e papiros), mas que são cópias de cópias de cópias… Na hora de copiar o texto, o copista fez modificações. Ele pode ter modificado o texto intencionalmente, por exemplo, para torná-lo mais claro. Ou pode ter modificado sem querer, por exemplo, por descuido, pois já estava cansado de tanto copiar textos à luz de velas e aí saltou uma frase, ou colocou sem querer no lugar outra coisa que estava em sua cabeça. É bom lembrar que tudo era feito manualmente, num trabalho minucioso e delicado, sem as técnicas modernas, sem a ajuda da imprensa. Cada texto era copiado artesanalmente, como se pinta um quadro ou se faz um trabalhoso bordado. Num trabalho artesanal, podemos fazer a mesma obra, mas ela nunca sai igualzinha. Então, os estudiosos ficam comparando os manuscritos que nos sobraram. É como se pegassem uma lupa ou um microscópio para melhor ver o que está desenhado na obra. Aí aparecem as diferenças. E além de compararem manuscritos bíblicos entre si, comparam também os manuscritos com outros textos antigos em que as citações bíblicas aparecem, por exemplo, num manual de liturgia, num escrito de algum antigo Pai da Igreja (os Santos Padres), etc.

A crítica textual não está interessada no sentido do texto, na mensagem que está veiculada naquele registro. Ela apenas procura saber até que ponto o texto bíblico que temos em mãos é mesmo o texto que foi escrito lá no começo. Então, a pergunta que norteia essa pesquisa é: “O texto que temos hoje em mãos é mesmo o que o autor escreveu originalmente?” Ou ainda: “Posso mesmo confiar nesse texto que hoje estou lendo?”. Note que o acento está sobre o autor, sobre o que ele escreveu. Recuperar isso não é tarefa fácil. E há regras para fazer essa pesquisa. São regras rigorosas, baseadas nas ciências modernas.

b) Crítica histórica: o objetivo desse método é, tanto quanto possível, reconstruir os fatos narrados com a máxima objetividade histórica. Ou seja, a tentativa é recuperar a historicidade do fato narrado pelo autor, até porque se pensou que a Bíblia fosse um livro de história, um livro de relatos de fatos acontecidos na vida do povo de Israel durante sua história. Essa pesquisa já foi muito importante. Agora, nem tanto mais. A Igreja compreendeu que a Bíblia apresenta um relato teológico dos fatos e não um relato histórico. E essa verdade teológica que a Bíblia narra vem na embalagem dos diversos gêneros e formas literários. Essa descoberta mudou bastante a abordagem bíblica, o jeito de lidar com os textos.

A pergunta principal da crítica histórica é a seguinte: “Quando o autor relata um evento, podemos acreditar que de fato isso aconteceu? As palavras escritas na bíblia foram mesmo ditas por Jesus e por outros personagens bíblicos?”. Para responder a essa interrogação, o pesquisador confere os relatos bíblicos com os testemunhos arqueológicos ou com documentos da época. Ele procura ver se há registros na história que confirmem aquela narrativa. Além disso, ele confere os textos da Bíblia, comparando-os para ver se são coesos ou se entram em contradição. Note que o acento continua sobre o autor: “O que ele escreveu é verdade ou não? O que ele escreveu aconteceu?” Recuperar isso também não é nada fácil. Há regras, critérios estabelecidos para fazer essa pesquisa.

c) Crítica literária: o objetivo desse método é descobrir o que o autor quis dizer quando escreveu o texto. Para isso, levam-se em consideração as circunstâncias em que o texto foi escrito e o tipo de literatura que o povo produzia naquele tempo. Esse estudo foi muito importante para desvendar certos enigmas de alguns textos bíblicos, por exemplo, quem é o autor do texto, se é um autor só ou se o texto foi composto por várias mãos, etc. Foi graças a essa pesquisa que a gente conseguiu penetrar mais no Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), que a gente descobriu que a famosa Carta de Paulo aos Hebreus não foi escrita por Paulo, assim como muitas outras a ele atribuídas. Foi aí que a gente descobriu a chamada pseudo-epigrafia: a atribuição de um escrito a outra pessoa, para homenagear alguém, para dar mais credibilidade ao texto ou até para remetê-lo a uma origem mais antiga e mais confiável.

A pergunta que norteia esse trabalho é a seguinte: “Por quem, onde, como, quando, para quem, por que esse texto foi escrito?”. Ou ainda: “O que o autor quis dizer quando relatou essa história nessa dada época?” Veja que de novo a pergunta gira em torno do autor: quem escreveu, como escreveu, etc. Para fazer esse trabalho, o estudioso da Bíblia busca fontes arqueológicas, literárias, arquivos e registros da época. Ele vasculha a própria Bíblia para ver os sinais que estão nela presentes. Por exemplo, ele estuda o estilo do texto, o seu vocabulário e o pensamento ali registrado, comparando-os com outros textos da época. Um trabalho também muito árduo e penoso, que exige muita dedicação e critérios muito sérios. Para isso, o estudioso conta também com a ajuda de diversas ciências modernas.

d) Estudo da Tradição: o objetivo desse estudo é saber como se formou a memória que deu origem ao texto. Todo texto bíblico, antes de ser escrito, foi vivido, transmitido, interpretado. Então, é importante saber qual era o interesse das pessoas ao conservar essas histórias, o que elas queriam transmitir, se havia grupos que pensavam diferente, etc. Essa é, então, uma preocupação com a transmissão literária do texto. Esse tipo de investigação ajuda a mergulhar melhor no texto, porque  dá a oportunidade de conhecer a tradição na qual ele nasceu, seu contexto, a realidade de fé e de vida que o cercava. Descobrimos que um texto vem de um lugar e outro vem de outra região; que um grupo tinha um tipo de tradição teológica e outro grupo tinha uma teologia um pouco diferente. É o caso das diversas tradições presentes, especialmente, no Pentateuco: Tradição Javista, Tradição Eloísta, Tradição Deuteronomista, Tradição Sacerdotal.

A pergunta que norteia a pesquisa é: “Que tradição conservou esse texto? Como esse grupo vivia sua fé? Que teologia esse grupo defendia? Qual imagem de Deus está por trás desse texto?”. Veja que tudo ainda gira em torno do autor: pensa-se na tradição à qual ele pertencia e que ele faz questão de conservar. Para saber isso, o pesquisador estuda muito: compara textos, pesquisa as teologias antigas em outros registros, procura conhecer os povos vizinhos que se relacionavam com o povo de Israel, seu jeito de crer, suas religiões, etc. Uma tarefa nada fácil e para a qual a pessoa deve ser muito bem preparada.

e) Estudo dos gêneros ou das formas: essa investigação tem como objetivo saber o gênero literário a que pertencem os livros da Bíblia. Há diversos gêneros literários na Bíblia: um texto foi escrito em forma de leis, outro de poesia, outro de história, outro de carta, outro de apocalipse e ainda de profecia, etc. E, dentro dos livros, há diversas formas literárias diferentes. Há, por exemplo, dentro de um livro profético, as chamadas invectivas, os oráculos, os relatos, as cartas, os gestos proféticos, etc. Se a gente sabe disso, lê o texto com mais critério. Ninguém lê uma receita de bolo como se lê um conto de fadas. Nem lê uma carta como se lesse uma constituição do país. E ninguém lê uma poesia, como se fosse uma bula de remédio. São gêneros e formas literárias diferentes. Quando a gente lê uma poesia, já sabe que é poesia. E poesia tem regras próprias, bem diferentes do código de trânsito, por exemplo.

A pergunta que norteia essa pesquisa é clara: “Que gênero literário é esse que o autor escolheu para nos deixar essa mensagem? Que forma literária é essa que ele utilizou para fazer teologia e nos relatar sua experiência de Deus?”. Veja que a preocupação ainda é o autor: sua forma de escrever, seu artifício literário, suas escolhas literárias. O resultado dessa pesquisa orienta a leitura do texto: mostra se ele deve ser lido como um fato acontecido ou como um relato cheio de nuances próprias, se deve ser tomado como um relato biográfico ou como um relato catequético. Para fazer essa investigação, o pesquisador também estuda muito. Ele deve conhecer bem as línguas bíblicas, comparar textos da Bíblia com outros livros da época, saber da cultura e da literatura do povo da Bíblia, das particularidades da linguagem do povo e do seu jeito de escrever. O investigador tem muito trabalho pela frente, mas conta também com o auxílio das ciências que envolvem principalmente a linguística e a literatura.

f) Estudo da redação: o objetivo desse método de pesquisa é fazer relação entre a tradição que deu origem ao texto e a redação final do texto; ou seja, entre a forma como o relato foi transmitido e a forma que ele ganhou quando se tornou texto, pois os textos foram escritos bem depois de os relatos e as tradições terem surgido. Só para exemplificar: os Evangelhos foram escritos de 40 a 60 anos depois da morte de Jesus; a história das origens – no Gênesis – foi escrita no tempo do Exílio; a história de Rute que relata sobre o tempo dos juízes (mais ou menos 1100 aC) foi escrita em torno do ano 440 aC. Essas elaborações teológicas surgiam e eram conservadas oralmente. Só depois eram cristalizadas na forma de escrita.

A pergunta que norteia a pesquisa é: “Que relação tem esse texto que o autor escreveu com a história que ele viveu e recebeu na sua comunidade? Será que o autor reelaborou a tradição recebida, colocando-a numa nova forma? Ou teria ele preservado a tradição tal qual recebida, sem nenhuma reelaboração?”. Veja que de novo o autor é o centro. O que interessa é o que ele fez. Para se emaranhar nessa pesquisa, o estudioso da Bíblia tem um trabalhão também. Ele deve ser possuidor de muitos conhecimentos para estabelecer relações tão complexas entre tradições e textos diversos.

Bom, ainda bem que existe muita gente pesquisando tudo isso e nos ajudando a entender melhor a Bíblia. São os exegetas – estudiosos que geralmente são conhecedores das línguas bíblicas, da geografia e da história da época, da organização social do povo daquele tempo, da literatura de Canaã e dos povos vizinhos, da arqueologia e de tantas outras ciências – e que se põem a dissecar o texto, como se disseca um cadáver. A teologia usa os métodos e os recursos da ciência moderna para fazer a investigação bíblica. E o resultado é um texto todo dissecado, conhecido nas suas entranhas, desmitificado, quase sem mistérios e estranhezas. Um trabalho importante e de grande valor, pois a exegese – o que fazem esses pesquisadores – dá elementos para que o texto bíblico não seja entendido na sua literalidade, evitando o fundamentalismo e tantas outras abordagens equivocadas do texto.

Numa comparação bem simples, poderíamos dizer que o exegeta faz com o texto o que uma pessoa poderia fazer com um bom bife no prato: corta-o da maneira mais correta possível, com os melhores instrumentos, segundo as regras da etiqueta, para que seu paladar não seja alterado. E depois ainda explica como fez, o que fez, por que fez, e ensina outros a fazerem o mesmo. E critica quem fez diferente: argumenta, prova, discute e debate. Cria teorias e hipóteses. Tudo muito bom e útil. Mas, nem sempre depois de cortar o bife, esse precioso prato é degustado com prazer. O bife torna-se objeto de estudo e não um alimento saboroso que deve ser comido com calma na companhia de bons amigos. Todo o esforço do exegeta, mais que válido e precioso, nem sempre é aproveitado no final. E pior, nem todo mundo tem as técnicas, os recursos, as ferramentas e os conhecimentos necessários para fazer trabalho tão minucioso. Isso é coisa para especialistas, doutores, quase sempre religiosos e padres que dedicam sua vida a esse árduo trabalho e que assumem essa tarefa como um ministério, um dom colocado a serviço das ciências bíblicas para o bem da Igreja.

Não podendo nós, pobres mortais, dar conta de tudo isso, agradecemos a quem já destrinchou os textos para nós e vamos às fontes que eles nos deixaram. Há boas traduções da Bíblia que levam em conta essas pesquisas e nos apresentam suas considerações em formas de notas de rodapé e na própria versão que nos oferecem. A Bíblia de Jerusalém e a TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia) são bons exemplos desse esforço. Além delas, a Bíblia da CNBB que, apesar de carecer de uma séria revisão, traz ainda outras vantagens: notas ricas e confiáveis, ótimas introduções aos livros bíblicos e uma linguagem popular e facilitada, que não adultera o texto, nem veicula ideologias.

Para quem não pode se tornar exegeta, mas tem prazer na leitura bíblica e quer se alimentar da Palavra de Deus registrada na Escritura, essas traduções são bem recomendadas. Voltando à nossa comparação, já encontramos o bife bem partido e todo ajeitado, no ponto de ser degustado. Que bom que temos exegetas talentosos para nos ajudarem nessa caminhada. Agora, é só saborear esse prato delicioso.

2º) Métodos que priorizam o leitor do texto

Num segundo momento, o acento da leitura bíblica foi deslocado do autor do texto para o leitor. O mesmo texto já tão conhecido e pesquisado passa a ser visto por outra ótica. Acontece que, ao trocar os óculos de leitura, conseguimos ver de outra forma o que está aos nossos olhos. A novidade se encontra na forma de ler, ou melhor, naquele que lê: o leitor. Desse novo ponto de partida, surgem diversas leituras. Vejamos duas possibilidades mais frequentes em nosso meio.

a) Leitura libertadora: também chamada de leitura a partir dos pobres. Essa leitura da Bíblia parte de uma situação específica da vida: a pobreza e a situação de exclusão em que vivem tantos irmãos e irmãs, especialmente na América Latina. Uma sensibilidade para as questões sociais e uma percepção afinada da justiça se apresentam como marcas desse leitor.

Então, vamos entender como essa leitura ganhou corpo. Tudo começou a fazer sentido com o Vaticano II. Cristãos da América Latina há muito buscavam mudanças sociais significativas, tão cansados estavam de ver o sistema opressor em que viviam – e vivem – milhões de pessoas. As reflexões conciliares ganharam feição própria na pobreza dos países do Terceiro Mundo e a Bíblia foi relida a partir do rosto do povo sofrido, sinal visível do Cristo crucificado. Textos tão conhecidos e tão populares ganharam nova cor, novo brilho, novo sentido. A problemática da fé passou a ser vista sob uma ótica inovadora: o processo de libertação dos oprimidos. Brotaram desta experiência uma nova teologia e sua reflexão, e não o contrário. Uma práxis libertadora norteou a hermenêutica bíblica.

Baseada na espiritualidade do êxodo de Israel – libertado do regime opressor do Egito –, a leitura libertadora ganhou adeptos, pessoas de peso, nomes importantes, tendo como expressão teórica dessa ótica a Teologia da Libertação. Mas os passos mais marcantes para firmar essa tendência à leitura libertadora foram dados pelas Conferências Episcopais Latino-americanas, que assumiram a tarefa concreta de traduzir as grandes inspirações do Vaticano II para a realidade do povo sofredor deste continente.

Em 1968, ainda sentia-se o frescor do perfume do Concílio que desabrochara há pouco, quando aconteceu a Conferência de Medellín, com a finalidade de levar a Igreja latino-americana a uma leitura situada do Vaticano II. Dela resultou um documento, no qual os bispos afirmaram clara e corajosamente a necessidade de uma nova teologia, frente a uma sociedade profundamente marcada pela injustiça e pela opressão. E, se é necessária uma nova teologia, faz-se mister um novo jeito de ler a Bíblia, fonte principal da teologia. Toma forma, então, uma leitura a partir dos pobres.

E não ficou por aí. Em 1979, Puebla falou sobre a evangélica opção pelos pobres, realçando, com cores fortes, o estranho quadro social construído com ricos e pobres. Tanta pobreza e tanto sofrimento não podiam – e não podem – ser ignorados pela Igreja na América Latina. Ganhou ainda mais força a leitura libertadora, com a entrada no cenário de novos biblistas, exegetas e teólogos, também bispos e padres, que despertavam cada vez mais para a estranha e excludente situação social de nossa gente.

Especialmente essas duas Conferências Episcopais Latino-americanas muito contribuíram para a leitura libertadora. O evento do êxodo de Israel foi redescoberto e retraduzido, trazendo possibilidades de leituras antes impensadas. Os profetas do direito e da justiça, atuantes especialmente no século VIII antes de Cristo, foram retomados e o clamor profético da Igreja ecoou por todo canto na América Latina, tendo as Escrituras como sua fonte inspiradora. Mas esse sopro renovador não ficou só nas margens estreitas da América dos Pobres. Encontrou ressonância na África, na Ásia, na população negra dos Estados Unidos, etc.

Poderíamos dizer então que o leitor passa a buscar na Bíblia um alento para sua vida e a força necessária para superar as situações de opressão. Em vez de se conformar com a leitura já conhecida, nossa gente procura fazer uma leitura que nasce de sua situação concreta. A realidade presente se torna o centro articulador da leitura; a concreta situação de pobreza e opressão do leitor tira-lhe o véu e ele vê nas Escrituras sua própria realidade, como uma imagem no espelho. A partir dessa experiência, a Escritura se transforma em fonte dinamizadora de libertação.

Então, o raciocínio é mais ou menos o seguinte:

  • Deus está presente na história; ele não ignora a história humana, ao contrário faz-se história em Jesus Cristo. Mas ele não tolera a injustiça e abomina a opressão.
  • Se é assim, não faz sentido a leitura bíblica ser neutra: ela deve ser encarnada como o Deus encarnado. O leitor deve tomar o partido do pobre, como Deus mesmo faz. Deve repudiar toda injustiça e buscar na Escritura as bases para esse repúdio.
  • A partir daí, o melhor lugar para se ler essa Escritura torna-se a comunidade, pois a libertação é processo coletivo e não individual. Os pobres são entendidos como os destinatários primeiros do texto, pois a Bíblia é palavra de libertação para eles. Eles são entendidos como aqueles que são capazes de encontrar o sentido mais genuíno da Escritura.

Essa leitura trouxe contribuições muito valiosas para a Igreja: o sentido profundo da presença de Deus na história, o reconhecimento da importância da dimensão comunitária da fé, a urgente necessidade de uma práxis libertadora enraizada na justiça social, a retomada da Escritura como pão cotidiano que sustenta o caminheiro na busca de seus sonhos, a possibilidade de revisitar a Escritura a partir de um lugar específico: o povo sofredor.

Mas ela, apesar de suas contribuições, colocou-nos diante de alguns riscos também. Ao se priorizar demais o leitor, corre-se o risco de se esquecer do texto, de se esquecer de seus códigos, de suas particularidades, etc. E pode-se ler no texto o que se quer ler. Vejamos! Os grandes exegetas e biblistas que deram voz a esse tipo de leitura certamente eram pessoas muito preparadas e conhecedoras da Escritura. Mas popularizou-se por aí uma leitura bastante extravagante: a partir do binômio opressor-oprimido que norteia esse tipo de leitura, todo texto bíblico teria que falar de libertação social, de exclusão, de pobreza, etc. Mas nem todo texto da Escritura está preocupado com isso. Nem todo texto da Bíblia quer falar algo sobre a estranha e injusta situação de pobreza. Há outros problemas presentes na Bíblia, muito além do que esse binômio dá conta. Se a gente forçar a barra e colocar tudo dentro desse esquema, até Jesus será opressor em algumas situações: quando ele expulsa os vendilhões do templo, quando ele responde com aspereza ao pedido da sírio-fenícia que intercede em favor de sua filha, quando ele manda pagar imposto a César, quando ele conta a parábola dos trabalhadores da última hora, etc. Ora, esse esquema tem limites. Se por vezes ele deixa o leitor oprimido falar por meio da Escritura, em outros momentos, ele pode levar a fazer uma leitura ideológica, dando, às vezes, um resultado bem equivocado e diferente do sentido original do texto.

É preciso ser cuidadoso na hora de ler a Bíblia. O leitor é da máxima importância: sempre! Mas é preciso deixar o texto falar. Nem sempre a situação concreta do leitor é suficiente para definir a abrangência da mensagem que se colhe na leitura bíblica.

b) Leitura feminista: também chamada de leitura de gênero. A hermenêutica feminista, como a leitura libertadora, não é outro método de estudo. É um novo jeito de abordar a Escritura. E o que nos interessa nessa reflexão não são tanto os métodos, mas o modo de aproximação da Escritura. O jeito de ler a Bíblia: a luz que pode ser lançada sobre ela a partir de caminhos, métodos, escolhas diferentes.

Esse tipo de leitura nasceu no final do século XIX, nos Estados Unidos, no contexto sócio-cultural da luta pelos direitos da mulher. Essa hermenêutica trouxe novidades, ventilou possibilidades impensadas. Viu a Bíblia por uma ótica feminina, redescobrindo o papel da mulher nas comunidades de fé, tanto do Antigo quanto do Novo testamento, mas especialmente no seguimento de Jesus. Com o olhar delicado da mulher, a Bíblia foi revisitada e Deus foi compreendido na sua ternura, no seu amor materno.

A leitura feminista acrescentou dois critérios na investigação bíblica, o que ajudou a encontrar um resultado bem inovador no final da leitura. O primeiro é o critério feminista, que diz respeito à suspeita que deve ser levantada quando é feita uma aproximação do texto. Ora, o texto sagrado foi escrito por homens e para homens. Assim, para se entranhar na verdade que o texto propõe, não se deve confiar demasiadamente nos textos. Deve-se pesquisar e ir bem além dele, na tentativa de encontrar indícios que revelem outra coisa. Assim, uma pequena frase, um simples nome, uma alusão apenas, uma palavra no feminino – tudo pode ser muito importante. O segundo critério é sociológico. Procura-se investigar sobre as sociedades do tempo em que o texto foi escrito e publicado, para melhor entender o papel da mulher nessa organização.

A partir desses novos elementos, tenta-se estabelecer uma linha comparativa entre a concepção da mulher na sociedade do tempo da Bíblia e a concepção da mulher nas comunidades de fé, especialmente nas comunidades cristãs do século I. Traça-se um perfil das comunidades e vê-se a igualdade homem-mulher nos escritos dos Evangelhos e nas cartas de Paulo. O texto basilar desta leitura é Gl 3,28: “Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus”. Daí, volta-se ao passado, vasculha-se a Bíblia e se descobre nos relatos o papel importante das mulheres nas Igrejas das origens. Mesmo nos textos do Antigo Testamento, tenta-se garimpar algum fragmento da presença feminina, tentando salvar a participação da mulher na história sagrada.

Não temos dúvidas de que essa leitura trouxe contribuições importantes para a Teologia Cristã. A primeira delas foi que esse tipo de leitura levantou questões novas, esquecidas, que os homens não se punham. A teologia cristã, exceto algumas raras contribuições femininas, manteve-se ao longo da Igreja como monopólio masculino. Os homens mantinham a hegemonia do pensar, especialmente na Igreja Católica. A entrada da sensibilidade feminina no panorama da hermenêutica corrigiu interpretações teológicas equivocadas e revelou a face materna de Deus.

Mas o problema dessa leitura é que, muitas vezes, despreza-se o texto em prol de uma construção hipotética. Ou ainda, atem-se a pequenos resíduos do feminino que nele se encontram e despreza-se o grande relato. Não é incomum, por exemplo, encontrar adeptos dessa leitura que, ao estudar o Pentateuco, desprezam a Torá e toda sua riqueza teológica para se debruçarem sobre algumas presenças femininas que aparecem nos relatos: Séfora, Mara, Tamar, Dina, etc. Outros, ao ler os livros históricos, ignoram toda a teologia deuteronomista para se dedicarem a saber quem foi Ana, Jezabel, Débora e outras. Outros acusam a Bíblia de machista, como se naquele tempo já existissem os critérios que possuímos hoje para perceber a dignidade da mulher e sua situação de opressão na sociedade.

Estamos certos de que a leitura feminista muito contribui para abrir os olhos da Igreja, um ambiente totalmente generificado, onde a mulher ocupa papel de somenos importância. Nas questões de poder da Igreja, então, nem discutimos isso! O perigo, porém, é que a visão feminista queira ocupar o lugar da visão machista. Seria apenas inverter os papéis. Em vez de leitura feminista, falamos de leitura feminina. Toda mulher, consciente de sua feminilidade, só conseguirá ler a Bíblia como mulher, com a sensibilidade feminina, com a astúcia feminina, com a perspicácia que lhe é própria. Assim como o homem haverá de lê-la como homem, mas nem por isso sua visão precisará ser machista. São lugares diferentes de leitura, mas não são leituras opostas.

3º) Métodos que priorizam o texto

Depois de investigar o autor e dar voz ao leitor, entramos em outra fase: a valorização do texto, do que está escrito. Recupera-se o valor do texto, do registro que nos foi legado. Percebe-se que o texto diz por si mesmo; basta saber ler o que está dito, basta deixar o texto dizer, pois os relatos na sua forma escrita comunicam algo. Isso equivale a fazer uma leitura literária da Bíblia.

Mas será a Bíblia uma literatura? Bom, no sentido estrito de literatura como “arte da palavra”, que alguns pesquisadores usam, a Bíblia talvez não se encaixe na classificação de obra literária. Mas hoje encontramos uma definição muito mais ampla de literatura e que parece muito mais apropriada. Literatura é criação desinteressada que está destinada a durar. O que é uma criação desinteressada? É aquela obra que é de natureza estética, ou seja, um dos seus principais objetivos é proporcionar prazer ao leitor: o prazer de ler, a satisfação dos sentidos, a difusão de ideias, a transmissão de experiências, a alegria de ver a vida de sua gente recontada nos relatos, etc.

Se a Bíblia é entendida como uma literatura – como um registro que o autor faz do seu tempo, cujo objetivo é transmitir a experiência de fé de sua gente e proporcionar aos leitores a alegria de fazer essa mesma experiência –, então ela está sujeita aos mesmos métodos de análise literária que qualquer outra obra da literatura. Mas uma abordagem bíblica por essa vertente pode causar estranhezas em alguns, que apresentam suas objeções. Vejamos:

  1. “Se é assim, então a Bíblia não foi inspirada”: Parece que por ser Palavra de Deus encarnada em palavra humana, a Bíblia torna-se menos digna de credibilidade, menos capaz de iluminar nossa realidade. Mas, por ser palavra humana, a Bíblia não é menos Palavra de Deus, não é menos inspirada. Ao contrário, aí é que está a beleza mais sutil. Na Escritura, Deus se torna evento nas palavras humanas, abandonando sua radical alteridade para se deixar conhecer. Ao tratar o texto como evento literário, ganhamos clareza e amplitude e, se perdemos precisão, ganhamos muito mais em significado. O que seria dito com muita precisão e positividade num relato histórico-jornalístico ou numa biografia não é mais digno de fé e credibilidade do que o que é dito em forma poética, mitológica, narrativa com toda a estranheza do texto. Há tanta verdade na ficção quanto num relato histórico, depende de como entendemos a verdade. Vejamos um exemplo. O que nos diz mais sobre a vida sofrida e a peleja do povo nordestino: a obra literária de João Cabral de Melo Neto, como Morte e Vida Severina e Angústia, ou uma pesquisa do senso do IBGE e um relato de um historiador? O que nos fala mais sobre os costumes mineiros e as tramas do sertão de Minas: a obra de Guimarães Rosa Grande Sertão, Veredas ou os registros oficiais das prefeituras das cidades do noroeste mineiro? Depende muito. Se os relatos desses autores são pura ficção no que diz respeito aos personagens, eles ao mesmo tempo transmitem a mais pura verdade sobre o homem aí descrito. E ainda, os autores usam nomes fictícios, mas a realidade que eles transmitem não é fictícia: é real e verdadeira. O fato de uma obra ser literária não lhe tira sua verdade, ao contrário, confere à verdade que ela transmite ainda mais amplitude e significado.
  2.  “Ah, isso é um truque para a Igreja se safar das contradições presentes na Bíblia e dos absurdos por ela relatados”. De um lado é verdade. Quando se toma o texto como literatura e não como ditado de Deus, a resposta para toda questão pode ser o gênero literário, a forma de escrever do autor, o recurso por ele utilizado, etc. E vamos admitir: há muitas contradições na Bíblia. Contradições de cunho histórico e geográfico, do tipo cultural; contradições religiosas e até teológicas. Mas a Igreja não precisa encaixar o texto na análise literária para sair dessa saia justa. A noção de inspiração que a Igreja assume já é suficiente para dar ao leitor condições de conviver com essas estranhezas do texto. Estranhezas que vão desde informações equivocadas, até noções culturais só assimiladas por aquela cultura. Basta ao leitor saber que Deus não ditou o texto e que ele é uma obra do seu tempo, de uma cultura específica, com conhecimentos científicos bem diferentes dos conhecimentos do leitor atual. A análise literária não é para justificar os textos bíblicos. Ela não tem fins apologéticos. Sua finalidade gira em torno de outro eixo: a possibilidade de plenificação do texto, de forma que o leitor possa tirar do relato tudo o que ele pode lhe dizer.

Se a Bíblia, então, é uma literatura, as palavras registradas no texto, os artifícios literários que ele contém, as escolhas do autor, nada disso é ingênuo e sem consequências. Cada texto, cada relato e sua mensagem teológica estão subordinados a questões literárias que ele suscita. Torna-se fundamental, pois, deixar-se impregnar de sua natureza literária, dos traços característicos que cada relato literário possui. Como já falamos anteriormente, a Escritura não é ditado de Deus, nem relato histórico de eventos acontecidos no passado; é resultado de uma criação por parte do autor, cujo interesse é difundir experiências religiosas vividas por seu povo e suscitar nos leitores o prazer de fazer essa experiência. E que fique bem claro: o conteúdo que é dito – a teologia que perpassa o texto – não está separado da forma como o texto se apresenta. A teologia que o autor elabora está dita na forma literária que ele a transmite, no modo como o relato é organizado, nas escolhas que o escritor faz ao registrar o texto. Conteúdo teológico e forma literária estão em íntima relação. Assim, poderíamos dizer que, na trama da escrita, as mesmas palavras humanas que escondem Deus também revelam sua face amorosa. O mesmo recurso literário que ofusca o que é dito é o recurso que revela o sentido do texto. A mesma questão literária que tira a precisão do relato plenifica-o, fazendo-o ganhar significado.

Esse tipo de leitura enfrenta alguns obstáculos. Nenhum método é tão bom que nos faça escapar da aventura do equívoco. Vejamos alguns riscos:

  1. A tendência de fazer desaparecer o autor e seu contexto. Ao colocar sua tônica sobre o texto, o método literário corre o risco de menosprezar o autor do texto. Pode-se de tal forma absolutizar o texto, que todas as outras possibilidades de leitura sejam descartadas. Mas, se essa tendência é um perigo, ela é também uma vantagem. O descolamento do autor possibilita a chance de o texto falar. Enquanto estamos preocupados com a intenção do autor, sempre oculta, esquecemo-nos do legado que ele nos deixou, presente em cada sinal de seu relato. A intenção do autor é sempre uma hipótese, enquanto que o texto é algo concreto, palpável, possível de análise. Ao mergulhar no texto, o leitor encontra muito mais que palavras e artifícios literários. Ele encontra o próprio autor, sua realidade, sua comunidade, sua vida, sua fé, seus costumes, sua história.
  2. O risco de desconsiderar o leitor. Esse é um risco que não podemos desprezar: o de achar que o texto é absoluto e que tudo advém dele, de forma que sua análise traz um resultado isento de parcialidades, algo puro e inquestionável. Nós já sabemos que não é bem assim. É só lembrar que, para que o sentido se descole do texto, o texto precisa de um leitor. E todo leitor se aproxima do texto com uma predisposição, com um horizonte de compreensão já formulado, com uma realidade que o envolve, que o obscurece ou o fascina. Não se vai ao texto com uma cabeça oca, mas com uma vida de experiências, conhecimentos e afetos que fazem o leitor ser quem é, que o fazem formular questões e hipóteses que lhe são próprias. Logo, uma boa leitura do texto nunca desconsidera o leitor, o único capaz de fazer saltar do registro literário o seu sentido.
  3. A confusão entre fundamentalismo e leitura literária. Nem seria preciso tratar disso, mas para evitar transtornos, vamos enfrentar o assunto. Ao se falar em leitura literária, muita gente acaba pensando em fundamentalismo: ler o texto ao pé-da-letra. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Esse equívoco vem do fato de a leitura literária valorizar o texto e tomá-lo como ponto de partida do estudo. Mas vamos esclarecer: A leitura fundamentalista parte da convicção de que a Bíblia é Palavra de Deus, inspirada por ele, praticamente um ditado de Deus ao hagiógrafo, palavra por palavra. Bem diferente da leitura literária, que parte do pressuposto de que a Bíblia não é um ditado, apesar de sua inspiração divina. O perigo do fundamentalismo está exatamente em desconsiderar o texto como literatura humana, como se ele tivesse caído pronto do céu, sem a mediação humana. Parece que esse risco é bem remoto na leitura literária.

Mas, se há riscos, essa abordagem tem múltiplas vantagens. Ao tomar o texto como eixo da leitura, podemos realizar uma busca de sentido muito ampla, sentido que só pode ser encontrado nele. E isso é muito importante no campo teológico: o sentido. Porque Deus é o Totalmente outro que não pode ser dito e a única linguagem possível para falar dele é a linguagem simbólica, sempre plena de sentido.

Para concluir, poderíamos afirmar que, nesse mergulho no mundo do texto, encontramos, ao mesmo tempo, o texto – que é o legado do autor; o autor – que se diz no texto; e ainda nos encontramos como leitores no confronto com o que está dito.

Até aqui, vimos expondo o imenso esforço de inúmeros estudiosos de encontrar o melhor método para lançar luzes sobre a Bíblia. Mas queríamos propor uma inversão nesse caminho, com o objetivo de pensar não em como lançar luzes nos caminhos da Bíblia, mas, sim, em como deixar a Bíblia lançar luzes em nossos caminhos. Conforme o Sl 119,105 a Bíblia é luz para os nossos caminhos. Não é uma questão apenas de trocadilho. É uma escolha, uma opção pensada e deliberada de tomar as Sagradas Escrituras em toda sua estranheza e dificuldade como luz, como clarão, como farol que ilumina nossa vida. Certamente essa escolha se aproxima mais do terceiro momento acima citado que se apropria do texto como literatura, fazendo a recuperação da centralidade do texto na hora de escutá-lo, estudá-lo e acolhê-lo em nossa vida. Mas penso que tomar a Bíblia como luz para nossos caminhos vai além dessa abordagem, apesar de integrá-la no processo, pois na leitura literária das Escrituras corremos também o risco de ficarmos aprisionados no texto.

Ao se falar em métodos de leitura da Bíblia e da Bíblia como luz em nosso caminho, precisamos ver antes a centralidade da Bíblia na vida dos cristãos. É preciso lembrar que a religião cristã, assim como o Islamismo e o Judaísmo, é intitulada por muitos de “religião do livro”. A experiência de fé de um povo se encontra registrada em textos que foram canonizados pela Igreja e aceitos como livros inspirados por Deus. Mas se a religião cristã é religião do livro, ela é antes de tudo religião da hermenêutica. Cada texto da Bíblia nasceu da hermenêutica de uma experiência religiosa que, depois de ser vivida e partilhada, tornou-se escritura. Essa escritura foi conservada e projetou luzes sobre outras realidades. Sua acolhida provocou outra experiência religiosa, que de novo foi transmitida para novas gerações, tornou-se outro registro, que foi outra vez lido e reinterpretado, numa corrente hermenêutica que perpassou gerações e gerações.

Nesse processo de apropriação do texto, ele foi ganhando novo sentido e elevando o texto anterior a um patamar hermenêutico ainda mais alto. A narratividade bíblica ganha corpo na vida de cada grupo, de cada pessoa que acolhe, experimenta, degusta o texto. A Escritura Sagrada projeta luz sobre a experiência religiosa das gerações que a acolhem. Percebe-se que o Deus que falou aos antigos pais na experiência de fé por eles vivida continua falando a cada um que se abre para a experiência com ele: a palavra escrita é luz para o leitor e provocadora de novas e legítimas experiências de fé que vão ser luz para novas experiências. Assim, o povo hebreu não teve receios de refazer o texto, pois acreditou que Deus continuava falando, sua luz continuava sendo projetada sobre a sua caminhada de fé. Os profetas se apropriaram de textos que os antecederam e os interpretaram atualizando as Escrituras. Os evangelistas tomaram os textos dos profetas e os viram ganhar plenitude em Jesus. E assim por diante.

Desde seus primórdios, a Igreja entendeu essa hermenêutica da experiência de fé vivida como Sagradas Escrituras ou Palavra de Deus, expressão nem sempre bem compreendida, pois deu margem para pensar que o texto, por ser sagrado – Palavra de Deus –, estava engessado, como um ditado de Deus feito a pessoas com capacidade especial de comunicação com ele. Essa visão das Escrituras levou-nos a esquecer que esses relatos continuam sendo textos, elaborações teológicas literárias, exigindo sempre novas hermenêuticas. E cada texto tem seu mistério, que não está ali para ser desvendado, mas acolhido, experimentado, saboreado. Na acolhida do texto, o relato faz sentido na vida de quem o acolhe, projetando luz sobre a vida do ouvinte.

Se o princípio hermenêutico é válido para todo texto, ainda mais para as Escrituras Sagradas, que relatam a experiência de fé de um povo com o Deus Totalmente Outro, o Deus que não tem nome, que não pode ser visto, muito menos apreendido, abarcado, esgotado. Esse Deus Totalmente Outro, num paradoxo sem igual, ao mesmo tempo, se esconde e se deixa conhecer. Ele se oculta e se revela, num jogo sedutor impressionante que os escritores dos textos sagrados com maestria souberam narrar. Acontece uma espécie de dança harmoniosa entre Deus e os homens por meio de artifícios literários, cuja música é tão suave que só os ouvidos sensíveis podem captar e gozar. Num vai-e-vem sutil, Deus se faz experimentar; e uma troca de intimidades acontece. Na estranheza desse jogo de mostrar-se e esconder-se, luzes são projetadas sobre a vida de quem acolhe essa Palavra. Há uma beleza e uma significação incomparáveis na estranheza. Ela instiga, questiona, faz pensar, provoca mudanças, causa mal-estar – algo bem próprio da vida de fé. A estranheza do texto desinstala o ouvinte, incomoda-o; ela o faz ir além do dito para acolher o não-dito. Deus se diz nas palavras e para além delas, pois o relato bíblico da experiência de fé é o inefável que precisa ser narrado. A estranheza do texto é a porta de entrada da escuta, porque ela provoca, suscita desejo, atenção; ela instiga a escutar. Há, pois, uma tensão salutar: o que não dá para dizer, o inenarrável, precisa ser dito mesmo assim. Então acontece algo maravilhoso: o Deus que não pode ser dito, ele mesmo se diz. E isso é mesmo muito estranho.

Aí encontramos a característica mais curiosa da hermenêutica. Se Deus é o objeto da investigação bíblica, ao mesmo tempo ele é o sujeito da ação investigativa, porque é ele que se dá a conhecer, é ele quem fala, é ele quem se diz, o que não elimina, é claro, o esforço da investigação, mas cria uma atitude humilde de acolhida. A tarefa da investigação bíblica não é tanto dar uma informação, proporcionar conhecimento, achar uma solução para o texto, eliminar sua estranheza. Seu desafio é antes ajudar no reconhecimento de Deus que fala por meio de sua Palavra, é suscitar no ouvinte abertura e acolhida como correspondência a Deus que é pura doação e se entrega a cada um que se dispõe a ouvi-lo. Deus fala. E falar é abrir um campo de comunicação onde nada é determinado de antemão, onde os dois interlocutores que travam o diálogo estão abertos ao novo, ao inusitado. Por muito tempo, nós fomos à Bíblia buscar textos que justificassem nossas teologias, nossas definições dogmáticas, nossas certezas morais, nossos costumes. Já é tempo de dar palavra à Palavra, deixar a Palavra dizer. E a Palavra quer se dizer. É só estarmos dispostos a escutá-la. É muito importante acolher a luz que essa Palavra lança sobre nossas vidas, para que vivamos “à luz da Palavra de Deus”. Mais que conhecer métodos exegéticos e hermenêuticos muito complicados que lançam luzes sobre o texto sagrado, apesar da máxima importância disso, talvez seja mais importante ainda se dispor a acolher a luz que é própria dessa Palavra e que pode transformar nossas vidas.

Depois de toda essa reflexão, é bom falar também sobre alguns cuidados que devemos tomar ao ler a Bíblia. Já conhecemos os métodos mais comuns de investigação bíblica, suas vantagens e seus riscos. E conversamos principalmente sobre a importância de dar palavra à Palavra de Deus, de deixar Deus falar, pois a Escritura é antes de tudo palavra que ele nos dirige, mesmo na sua estranheza. Agora, é por mãos à obra e começar a ler a Bíblia, mas alguns cuidados são importantes. A Bíblia não é um livro nosso, ainda que o exemplar que estamos lendo seja de nossa propriedade. A Bíblia é um patrimônio da Igreja: ela o conservou, ela selecionou os textos de seu cânon, ela traduziu esses textos. Eles fizeram caminho e história na vida da Igreja, numa comunidade eclesial. Ao ler a Bíblia, devemos então nos lembrar dessa trajetória, e ler a Bíblia como Igreja e com a Igreja, ainda que a estejamos lendo na solidão de nosso quarto. Porque ler a Bíblia como Igreja e com a Igreja não significa lê-la apenas na liturgia ou nas reuniões comunitárias. Não é uma questão de lugar físico e sim de lugar hermenêutico, e até de lugar teológico. Ler a Bíblia com a Igreja e como Igreja significa ler em comunhão de fé.

Vejamos, pois, alguns cuidados importantes na hora de nos aproximar do relato bíblico:

a)  Não devemos pegar os textos ao pé da letra.

Por exemplo: Quando a Bíblia diz em Mc 1,33 que “toda a cidade se ajuntou à porta da casa onde Jesus se encontrava”, Marcos não quer dizer que todo mundo de Cafarnaum saiu de casa para ir aonde Jesus estava. Isso seria impossível. Marcos só quer dizer que Jesus atraía muita gente por causa de sua palavra e de suas obras maravilhosas. Jesus despertava a curiosidade de muita gente e elas queriam ver Jesus e saber quem ele é. Diariamente nós usamos também expressões assim, com o mesmo sentido. São as hipérboles. Dizemos: todo mundo veio à catequese; todo mundo foi à festa.

Outro exemplo. O Evangelho de Mateus diz que, se nossa mão é motivo de queda para nós, devemos cortá-la. A Igreja entendeu desde o começo que ninguém deve se mutilar porque cometeu um pecado. O que o texto quer dizer é que a gente deve evitar ocasiões que favoreçam pecar. Cortar as ocasiões de pecado e não partes do nosso corpo. Cada um sabe de suas fraquezas. Cada um que se cuide para não pecar.

b)  Não devemos tirar o texto de seu contexto.

Por exemplo: Quando o Livro do Gênesis diz que Abraão quase sacrificou seu filho Isaac para agradar a Deus, é fundamental lembrar que Abraão estava antes num contexto de politeísmo, em que cada pessoa, para agradar aos deuses do paganismo, ofertava a eles vários sacrifícios, inclusive sacrifícios humanos, da vida de seus próprios filhos. Em nosso contexto, isso soa muito estranho, porque nós já entendemos coisas que Abraão ainda não tinha entendido. Se a gente tirar a narrativa do contexto, vai pensar que Abraão é doido ou que Deus é cruel e mau, pedindo a um pai que mate seu próprio filho. O que para nós parece uma loucura já foi, em tempos passados, um costume, que o povo de Deus aprendeu a superar.

Outro exemplo. Quando a Primeira Carta de Pedro diz que as mulheres devem ser submissas a seus maridos (cf. 1Pd 3,1), é preciso lembrar que a mulher era, naquele tempo, considerada uma propriedade do marido. Ele podia dispor dela como de uma ovelha ou de um campo. Podia mandá-la embora, podia desprezá-la, podia inclusive corrigi-la com violência. Esses eram os costumes e as regras sociais daquele tempo. Se a mulher não se subordinasse sabiamente a seu marido, podia ir parar nas ruas, sem emprego, sem apoio, sem nenhuma instituição para defendê-la. As mulheres não podiam trabalhar fora como hoje, nem tinham direito a pensão de marido, nem a parte dos bens do matrimônio. Nada! Para não passar fome, uma mulher repudiada mendigava ou se prostituía. Isso era muito comum. Então, na comunidade cristã, havia uma preocupação com as mulheres. Para que elas não chegassem a essa situação tão complicada, deviam se lembrar de que as leis favoreciam os homens. Logo, deveriam agir com sabedoria e não enfrentar os maridos cara a cara. Era preciso agir com prudência. Então, a submissão não era uma atitude de acomodação e preguiça. Era uma estratégia para sobreviver, um jeito sábio de enfrentar a vida matrimonial naquele tempo. Com jeitinho, as mulheres conseguiriam mais coisas do que com brigas inúteis com seus maridos. Mas os tempos mudaram, é claro, e hoje os costumes sociais e até as leis são muito diferentes. Prudência continua sendo importante, mas a mulher não tem que ser mais submissa ao seu marido. Ela é vista hoje como uma companheira, que deve ser amada e respeitada. Isso tem que ser levado em conta quando lemos a Bíblia. A palavra de Pedro sobre a subordinação da mulher ao homem não procede mais.

c)  Não devemos entender a Bíblia como um livro de história ou ciência.

Por exemplo, a bíblia diz que Deus criou o mundo em sete dias. E descreve isso em detalhes. Será que ele criou o mundo igualzinho está ali narrado? Mas a Bíblia não é um livro de ciência; nem o escritor do Gênesis um cientista. A Bíblia é um livro religioso e o escritor é um teólogo, uma pessoa de fé. Então, o que o Gênesis diz não é como o mundo foi criado. Isso não interessa ao povo da Bíblia. O Gênesis diz que a vida vem de Deus, que nós somos queridos de Deus a tal ponto que ele primeiro fez surgir o mundo lindo pra depois fazer a vida humana brotar nele. Se o mundo demorou milhões de anos pra chegar a ser o que ele é, se a vida brotou em um dia ou em milhões de anos, tanto faz. Se ela surgiu pronta ou se foi evoluindo, isso é coisa para cientista pesquisar. Mas que ela é dom de Deus, disso nem o escritor do texto nem nós que cremos temos dúvida, não importa como ela se deu: ela é um milagre do amor de Deus. Mas quem pensar que a Bíblia quer repassar informações científicas vai ficar perdido com essas informações. Hoje, imaginar um mundo feito em sete dias parece irracional. E é mesmo. Criar em sete dias, para o escritor sagrado, significa criar com carinho, de modo organizado e com a máxima perfeição. Essa é a mensagem de fé do texto.

Outro exemplo. A Bíblia fala, no Salmo 19/18, que o sol se levanta de manhã e percorre o céu em volta da terra (cf. Sl 19/18,5-7). Ora, o que o escritor sabia de astronomia naquele tempo não lhe permitia afirmar senão aquilo que ele via: o sol no nascente, de manhã; o sol no poente, de tarde. Olhando assim, parecia mesmo que o sol andou e mudou de lugar, girando em volta da Terra. Mas os cientistas, muito tempo depois, inventaram aparelhos, observaram os astros e viram que a Terra é que se move em torno do sol e não o sol em torno da Terra. A Bíblia está errada? Bom, cientificamente sim, mas isso não importa. O escritor do salmo é um músico, um poeta, e não um cientista ou astrônomo. Ele está fazendo uma canção sobre a natureza e louvando a Deus por isso. Só isso! E Deus deve mesmo ser louvado por tudo de belo que há. Nisso o autor do salmo tem razão! Mas não tem razão quando diz que o sol gira em torno da Terra. Só que essa descoberta foi feita muito tempo depois que o salmo já tinha sido escrito. Ao escrever, o escritor lida com os conhecimentos de seu tempo.

Em outro texto se diz que o sol parou (cf. Js 10,12-15) e ficou parado por um dia inteiro. Ora, hoje sabemos que o sol não para jamais. O autor, com os conhecimentos precários da astronomia de seu tempo, usou um recurso de expressão para falar do poder de Deus que abençoava assim as conquistas de seu povo.

d)   Não devemos ler a Bíblia desconsiderando sua compreensão e acolhida ao longo da história da Igreja.

Em outras palavras, devemos olhar com atenção como a Igreja interpreta e entende certos textos mais complexos. A experiência e a orientação da Igreja nos ajudam muito. Por exemplo, a Bíblia diz, no livro do Levítico (cf. Lv 11,1-8) que não se deve comer carne de porco, entre outros animais, porque ele é um animal impuro. Ora, a Igreja desde o começo entendeu que esse era um costume do povo judaico, mas não uma lei de Deus. O povo, por questões culturais, não comia carne de certos animais, entre eles o porco. Mas hoje essas questões não fazem mais sentido. A Igreja percebeu logo que isso era uma questão cultural e não uma regra para a salvação humana.

Outro exemplo. No começo do cristianismo, os cristãos vinham do judaísmo e os judeus tinham o hábito de circuncidar os meninos. Ora, logo no começo do cristianismo, o apóstolo Paulo entendeu que esse era um costume judaico e que, com a entrada de muita gente que vinha de outros povos, não era lógico impor o costume de um povo ao outro. Então, na Igreja ficou combinado que, se os judeus quisessem se circuncidar, tudo bem. Mas circuncidar os outros povos, não era preciso. Cada um deveria viver a fé, dentro de sua realidade cultural.

Se esses textos e toda a Bíblia forem entendidos fora de sua história de interpretação, muitas conclusões podem ser precipitadas e estranhas para nós. Por isso, a gente diz que a Bíblia deve ser lida com o Magistério da Igreja, ou seja, com a Igreja que estuda a Bíblia e ensina a gente a lê-la com sabedoria. Desta forma, a gente evita equívocos extravagantes e até perigosos.

e) Não devemos tirar sorte com a Bíblia.

Estamos nos referindo ao costume de abrir a Bíblia aleatoriamente e ler qualquer versículo, sem seu contexto, como se nele a gente fosse encontrar alguma mensagem mágica de Deus para nós; como se fôssemos descobrir o que Deus quer nos falar naquele exato momento. A Bíblia é um livro especial, porque relata a vida de fé do povo. Mas ela não é um livro mágico. Não devemos agir com a Bíblia como alguns fazem com cartas, búzios ou tarô. Ela não é um livro para se tirar sorte, como nas cartas. Então, os textos devem ser lidos ou no conjunto do que foi escrito (por exemplo, o Evangelho de Mateus todo, o livro do profeta Jonas, etc.) ou à medida que queremos rezar, meditar, estudar ou pesquisar um tema. Então abrimos a Bíblia naquela passagem e lemos com amor, respeito e veneração. Refletimos, destrinchamos e pesquisamos o seu sentido. Mas abrir a Bíblia ao acaso, como se fosse um ato mágico no qual Deus fala, é desaconselhado. Deus sempre fala quando escutamos com coração aberto a sua Palavra. Qualquer relato da Bíblia está cheio de significado para nós. Não é preciso lançar a sorte com ela. Esse costume é tolo e perigoso, além de colocar na banalidade as coisas de Deus. Não é assim que Deus fala. Esse não é um costume da Igreja Católica. E, se somos Igreja, lemos a Bíblia com a Igreja e como Igreja. Além disso, esse desejo de saber o que Deus quer me dizer nesse exato momento é pura fantasia e sinal de insegurança. Deus quer te dizer tudo o que está na Bíblia em todos os momentos. E ele quer também que a gente saiba acolher os seus ensinamentos, com maturidade e segurança, tomando as nossas decisões com critério. Uma pessoa madura na fé saberá tomar suas decisões. E não vai ficar buscando em versículos aleatórios da Bíblia algo como se fosse Deus lhe falando diretamente.

Ao concluir essa reflexão sobre a leitura da Bíblia e os métodos de abordagem do texto, lembramos que, para nós católicos, a Bíblia é um livro ou conjunto de livros muito importante. Livros inspirados por meio dos quais Deus nos fala, mas são apenas livros. Contém relatos da vida de um povo que viveu sua fé de modo dedicado. Povo que fez sua experiência de fé, acolhendo a revelação do Deus Uno, e que deixou para nós, como uma herança, essa experiência. Nossa Igreja se esforça o máximo para perceber qual é realmente a mensagem de Deus transmitida por esses escritos. Há pessoas que estudam a fundo a Bíblia Sagrada, para nos ajudar a entendê-la melhor. Então, insistimos: é preciso ter cuidado para não interpretar de qualquer jeito a experiência de fé do povo da Bíblia. Por isso, lemos a Bíblia com a Igreja e como Igreja, sempre atentos à Tradição, ao Magistério e ao bom senso. Mas isso não significa continuísmo ou mesmice. Lemos a Bíblia sempre abertos ao novo de Deus: com humilde e atenta atitude de escuta: Deus não cessa de falar. É urgente ouvir o seu clamor.

Bibliografia:

CNBB. Crescer na leitura da Bíblia. São Paulo: Paulus, 2003.
GABEL, John B; Wheeler, Charles B. A Bíblia como literatura. São Paulo: Loyola, 1990.
KONINGS, Johan. A Bíblia nas suas origens e hoje. Petrópolis: Vozes, 1998.
LACROIX, Roland; VILLEPELET, Denis. Question à la foi: la catéchèse, écho d’une parole de vie.  Paris: L’Atelier, 2008.
MAGALHÃES, Antônio. Deus no espelho das palavras. São Paulo: Paulinas, 2009.
PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A interpretação da Bíblia na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1994.
TOSAUS ABADÍA, Jose Pedro. A Bíblia como literatura. Petrópolis: Vozes, 2000

Colaborou: Fique Firme

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