A Eucaristia como Ato Social

Por José Antônio Pagola

De acordo com os exegetas, a multiplicação dos pães é um relato que nos permite descobrir o significado que a Eucaristia tinha para os primeiros cristãos: ela é um gesto de irmãos e irmãs que sabem repartir e partilhar o que têm.

Segundo o relato, há ali uma multidão de pessoas necessitadas e famintas. Os pães e os peixes não são comprados, mas são sim reunidos. E tudo se multiplica e distribui sob a ação de Jesus, que abençoa o pão, o parte e o manda distribuir entre os necessitados.

Esquecemo-nos com frequência que, para os primeiros cristãos, a Eucaristia não era apenas uma liturgia, mas um ato social em que cada um punha os seus bens à disposição dos necessitados. Num conhecido texto do século II, em que São Justino nos descreve como os cristãos celebravam a eucaristia semanal, é-nos dito que cada um entrega o que possui para «socorrer os órfãos e as viúvas, os que sofrem por doença ou outra causa, os que estão nas prisões, os forasteiros que passam e, numa palavra, a todos os que estão necessitados».

Durante os primeiros séculos era inconcebível participar da celebração da Eucaristia sem levar algo para ajudar os indigentes e necessitados. Assim censura Cipriano, Bispo de Cartago, uma senhora rica: «Os teus olhos não veem o necessitado e o pobre porque estão obscurecidos e cobertos com uma noite espessa. Tu és afortunada e rica. Imaginas celebrar a Ceia do Senhor sem ter em conta a oferenda. Tu vens à Ceia do Senhor sem oferecer nada. Tu suprimes a parte da oferta que é do pobre».

A oração que hoje se faz pelas diversas necessidades das pessoas não é uma adição postiça e externa à celebração eucarística. A própria Eucaristia exige distribuir e compartilhar. Domingo após domingo, os crentes que nos aproximamos para compartilhar o pão eucarístico devemos sentir-nos chamados a partilhar mais verdadeiramente os nossos bens com os necessitados.

Seria uma contradição pretender partilhar como irmãos e irmãs a mesa do Senhor fechando o nosso coração àqueles/as que nestes momentos vivem a angústia de um futuro incerto. Jesus não pode abençoar a nossa mesa se cada um/a de nós guardarmos o nosso pão e o nosso peixe.

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez
Colaborou: CEBi

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