O que o Papa Francisco realmente desejava exortar ao criticar as “rendas da Vovó” na Liturgia?

Por Hermes Fernandes

Desde 2013 nos surpreendemos com a personalidade de nosso Papa. A história de Jorge Bergoglio é marcada por suas posturas fidedignas ao Evangelho. Poucas pessoas na história recente apresentaram tamanha lucidez em suas atitudes e palavras. Como Papa Francisco, sempre nos inebria com seu agir à Luz do paradigma do Bom Pastor. Há quem se edifique e, até mesmo, o intitule santo. Há quem lhe impute a alcunha de herege. Não se assuste com os que veem heresias no pontificado de Francisco. Quem o desmerece, em verdade, quer uma Igreja longe de Jesus de Nazaré, flertando – sempre – com as pedagogias de poder. Poder este que, incansavelmente, o Papa afirma não existir. Exorta que os ministérios são serviço. A hermenêutica de Francisco sobre um agir humilde dos ministros ordenados se faz muito clara quando afirmou desejar “uma Igreja Pobre com os Pobres”. E ainda: “precisamos de pastores com cheiro de ovelhas”, isto é, encarnados na história e comprometidos com a dor de nosso povo. Com isso, Francisco rompe com a pedagogia do poder hierárquico do ministério ordenado, aproximando-o da própria pedagogia de Jesus, presente na teologia da comunidade do Evangelista Marcos, onde o Senhor é Servo (cf. Mc 10,45).

Dia 09 de junho, do presente ano de 2022, a notícia de que o Papa Francisco tinha feito sérias críticas sobre a moda litúrgica antiquada, viralizou na rede. Com seu habitual bom humor, disse que os padres estão exagerando nas rendas da vovó nas vestes litúrgicas. Além: criticou o uso do barrete em circunstâncias impróprias. Aliás, esse chapéu eclesiástico traz, em sua própria existência, singular polêmica. Símbolo de poder, destoa gritantemente do carisma do Bom Pastor. Originariamente, o barrete não é uma veste eclesiástica e sim do poder judiciário. Para entender isso, precisamos visitar a história italiana, onde os magistrados do judiciário desfilavam seu tricorno desde a era medieval. Não há qualquer referencial teológico que o sustente. Outrossim, não é raro ver orientações litúrgicas periféricas ao Magistério que o justifiquem. Cabe aqui sublinhar que essas orientações litúrgicas são interpretativas e não magisteriais. Os documentos da Igreja que se referem à Liturgia não sustentam seu uso. Podemos comprovar isso conferindo a Constituição Apostólica Sacrossanctum Concilium, a Introdução Geral ao Missal Romano – ou mesmo suas rubricas. Não há prescrição de seu uso na Liturgia Pós-Conciliar. Ao contrário, tanto a referida Constituição Apostólica, quando o Documento 43 da CNBB, afirmam ser justa e necessária a inculturação da Liturgia à realidade do Povo que a celebra. Ora, o barrete é símbolo de poder. Contraria, até mesmo, ao referencial bíblico do ministério ordenado.

Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja busca ardentemente uma volta aos valores apostólicos. Da Igreja dos Atos dos Apóstolos. Na catequese, na estrutura dos ministérios, na valorização dos leigos e leigas como protagonistas da Ação Evangelizadora, na Liturgia. É sob este olhar que devemos entender a fala do Papa Francisco. Atualmente, percebemos o desejo de parte do clero de se restaurar velhos costumes e, com isso, velhos vícios. Sobretudo os padres mais jovens. Para bem entender este fenômeno, indicamos a leitura do livro recém publicado pela Editora Vozes, de Agenor Brighenti e colaboradores: O novo rosto do clero: Perfil dos padres novos no Brasil. É clara a busca de muitos jovens padres por estéticas litúrgicas, por costumes e por modelos pastorais já considerados ineficientes para a evangelização e o bem viver da Liturgia. Fazem um movimento reverso ao aggiornamento proposto pelo Papa Francisco. Isto não se dá somente na moda litúrgica. Vai além: na própria concepção das coisas em si. Esses padres de barretes e rendas abandonaram todo um caminhar de mais de 50 anos de crescimento e riqueza pós-conciliar. Não só ignoram as orientações do atual magistério, boicotam-no mesmo. Com isso, confundem mentalidades, geram cismas, desobedecem. Mesmo que com um discurso lindo, cheirando à hipocrisia, dizendo defender a Sã Doutrina da Igreja. Ora, a Doutrina é sustentada pelo Magistério. Por isso, o Papa e os Bispos são os referenciais desta posição pedagógica. O que difere dos textos Conciliares, das orientações do Sumo Pontífice e das Conferências Episcopais – em nosso caso a CNBB – é contrário à própria Igreja de Jesus.

É na crise de referências que devemos entender a crítica do Papa Francisco. Não confundamos seu habitual bom humor com alguma venialidade de interpretação. O tema abordado pelo Papa é gravíssimo. Constata uma sabotagem ao avanço pastoral da Igreja. Retrocesso é o que propõem os barretes e rendas saídos do armário! Os afeitos a estes costumes estão longe da compreensão de que a Igreja é Povo de Deus e que a ideia de Poder corrompe o verdadeiro sentido dos ministérios: servir! Quem ostenta declarados símbolos de autoridade totalitária e judiciosa, não está convencido de que representa o modelo de sacerdócio proposto pelo próprio Jesus, o Bom Pastor! O referencial é sempre o Cristo! Convidamos ao leitor a aproximar os conselhos de Jesus na última ceia, em que nos exorta a lavarmos os pés uns dos outros (Jo 13,12-14), com vestes que remetem diretamente ao poder. Suma contradição! Essa incongruência foi percebida e corrigida pelo Concílio Vaticano II. Lamentavelmente, há quem teime em ignorar.

Com coração dócil, entendamos a essência do discurso do Papa. Precisamos reavivar em nossos corações os ideais evangélicos. Eclesialmente, aproximarmo-nos do modelo da Igreja do primeiro século, dos primeiros discípulos e discípulas de Jesus. Adaptando-a à modernidade, sem perder o essencial. Cada dia fica-nos mais clara a necessidade de uma Igreja de irmãos e irmãs, evangelizando com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, à luz da opção preferencial pelos empobrecidos. Viver em nossos tempos a mensagem de Jesus, antecipando, já no aqui e no agora, o Reino de Deus. É preciso voltar ao Primeiro Amor! Restaurar o Carisma. Para isso, devemos abandonar os vícios de Poder!

7 comentários em “O que o Papa Francisco realmente desejava exortar ao criticar as “rendas da Vovó” na Liturgia?

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  1. Estes comentários e estas recomendações do Papa chegam com muitos anos de atraso. Lembrar que Dom Helder Câmara do Recife era um dos primeiros Bispos do Mundo em condenar este estilo de vestimentas pomposas do Clero. Era no Vaticano, logo depois do Concilio Vaticano, no mês de Novembro de 1965 (!). E Dom Helder foi duramente criticado……

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  2. Alguns comentários não foram aprovados. Não significa que este blog desrespeita a livre expressão de ideias. Ao contrário! É bem vindo qualquer manifestação que vise a concórdia e o crescimento da Igreja. Alguns comentários (não aprovados aqui para a visualização) apresentaram agressões ao Papa. Usando de palavras sem o respeito humano que devemos a todos e todas.

    Não aprovamos comentários de quem agride o Sumo Pontifíce, pois entendemos que não se pode ser católico sem o devido respeito ao nosso líder maior. Não se ofende a um pai. Quem o faz, sequer conhece o sentido de ser família. Por isso, a opinião dessa pessoa não é relevante.

    Agradecemos a todos os que colaboram com suas opiniões sobre nossas publicações. Mesmo que discordem do exposto. Só não aceitamos que se falte com a caridade ao se expressar.

    Abraço fraterno,
    O Editor.

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  3. Excelente esta materia.
    Deixou clara a missão da Igreja servidora.Pobre para os pobres
    .Assim o papa Francisco convida a um despojamento de toda a ostentação do poder que foge ao que Criso viveu e ensinou.

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  4. Engraçado. A Igreja só resgatou os valores evangélicos há 50 anos, antes disso era apenas uma um antro de autocracia e sede de poder. Foram 1900 anos entre a morte dos apóstolos e o Concílio Vaticano II, durante todo esse tempo, o magistério da Igreja negou a fé católica. Por que então esse magistério passa a ser reconhecido e respeitado de um dia para o outro? Se a Igreja Católica se resume a “50 anos de avanços”, por que não aderir a qualquer outra denominação cristã que supostamente tenha vivido a pureza evangélica há muitos séculos? Já se os 2000 mil anos de catolicismo representarem muito mais que os 50 anos, por que atacar de maneira deliberada e indiscriminadas os crentes e clérigos afeitos à tradição? Paz e bem a todos!

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    1. Prezado Márcio,

      Primeiramente, não conseguimos entender a relação entre suas primeiras premissas e o desfecho do seu comentário. Também não entendemos quando você disse que o “Magistério negou a fé Católica”. É uma contradição o que você diz, já que a função do Magistério é manter a Fé Católica. Outra contradição é quando você disse que esse Magistério passou a ser reconhecido e respeitado de um dia para outro. É um equivoco o que você diz. Se você estudar a história da Igreja, desde os primeiros séculos dela, após os apóstolos, verá que essa fé sempre foi vivida a partir das necessidades históricas. Daí temos tantos Concílios, Sínodos etc. Estes, aconteceram justamente para manter o viver e celebrar dessa fé de forma condizente com a realidade e em resposta à história. Neste sentido, o que você afirma é uma visão periférica. Sem leitura histórica.

      No que se refere à necessidade de se viver a partir das deliberações e diretrizes do Concílio Vaticano II, a própria realidade responde por si. Não há como se postar em tempos hodiernos, pelo bem da Ação Evangelizadora, com a mesma mentalidade e método da Era Medieval. Todas as dimensões humanas evoluem, a Ação Evangelizadora, também. Trata-se de método, de inculturação. Claro que não se trata de negar as verdades do Evangelho. Estas são eternas. Mas a forma com que se anuncia a verdade tem que ser concomitante com a realidade histórica. Negar a evolução histórica é o mesmo que se negar os avanços da medicina, da tecnologia. Já se imaginou viajar sob as costas de um animal, ou em uma charrete, de Fortaleza até São Paulo? A evolução tecnológica nos oferece meios mais eficazes como as viagens aéreas. Já imaginou tratar doenças por sangria ou emplastros, ignorando as evoluções mais elementares da farmacologia? Seria uma mortandade só. Pessoas morrendo das doenças mais simples.

      Assim como a tecnologia e a medicina evoluíram seguramente, a Ação Evangelizadora deve estar atenta a estas evoluções. Ter os olhos e ouvidos, até mesmo o coração, abertos à evolução. Tradição não pode ser um empecilho para o aggiornamento. A isto chamamos tradicionalismo. O tradicionalismo ostraciza o caminhar verdadeiramente eficaz da Ação Evangelizadora. Por isso, toda a Igreja deve caminhar a partir do Magistério Pós-Conciliar. Não é uma questão de escolha. Quem nega o Concílio Vaticano II e se nega a caminhar a partir do seu Magistério e Diretrizes, nega a própria Comunhão com a Igreja. É por isso que posturas retrógradas como as apresentadas no presente artigo são contraproducentes e se fazem ausentes de comunhão. Ao cristão e cristã, clérigo ou não, existe uma Igreja com a qual deve caminhar junto, professando a ela integral fidelidade. O contrário disso, não se faz real discipulado. E é fato: a Igreja das rendas e barretes, no sentido daquilo que representam, não existe mais. Vivemos um novo momento. Graças a Deus!

      Abraço fraterno!

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