Ascensão: Por que subiu e não foi embora? (Atos 1,1-11) | Reflexão de Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Celebramos hoje a ascensão de Jesus. Ascensão é o mesmo que elevar. Ascensão é uma palavra não muito comum em português, mas elevador sim. Elevador em italiano é ascensore, e em espanhol, ascensor. Essas duas línguas conservaram a mesma raiz de ascensão. Quando estamos em um elevador, somos levados para cima. E é isso o significado de ascensão, isto é, ato de ascender, de subir. Foi o que aconteceu com Jesus. Na verdade, ele foi sem ajuda de um ‘elevador’, à diferença de Maria que, segundo a tradição dos evangelhos apócrifos, foi levada para o céu por Jesus e os seus anjos. Portanto, o que ocorreu com ela foi assunção, diferente da ascensão de Jesus. 

A ascensão passou a ser celebrada na Igreja a partir do século IV, no quadragésimo dia após a ressurreição de Jesus. Tendo cumprido a sua missão na terra, Jesus voltou para a casa do Pai.  O poder de Jesus é transferido aos discípulos, os quais devem se colocar de pé e sair mundo afora, anunciando a sua ressurreição em movimento de ascensão, de subida, de saída de Jerusalém, conforme At 1,1-11 e Lc 24,46-53.

Jesus voltou para a casa do Pai, a morada eterna, onde todos nós esperamos estar, após nossa morte. Ficamos privados de sua presença física e somos chamados a eternizá-Lo na vida da Igreja, a primitiva de Jerusalém e hoje. A ascensão nos torna participantes da Divindade. O humano Jesus de Nazaré leva consigo a natureza humana para a glória de Deus. Jesus subiu porque desceu na nossa humanidade.  

O sentido último da obra lucana, composta de Atos dos Apóstolos e o Evangelho, é mostrar que Jesus não foi embora. O evangelho de Lucas não termina, mas continua com a ação da comunidade de Jerusalém. Na introdução, em At 1,1-4, Lucas se propõe a escrever uma narração ordenada dos fatos que se cumpriram entre eles. Ele a dedica a Teófilo – nome grego que significa o amigo de Deus. No fim do Evangelho, Jesus promete o Espírito Santo e convoca os seus seguidores a permanecerem em Jerusalém para a realização das promessas (Lc 24,49). O evangelho começa com Jesus sendo apresentado no templo, onde tudo começou, e termina com os apóstolos também no templo, depois da ascensão (Lc 24,50-53), para recomeçar, coisa que é relatada na abertura de Atos dos Apóstolos. 

 Em At 1,6 os discípulos perguntam a Jesus: “É agora que vais restabelecer o Reino de Israel?”. Jesus responde, dizendo que eles não devem se preocupar com a data, pois essa compete ao Pai (At 1,7). O Espírito Santo continuará a realização das promessas (1,8a) no testemunho dos apóstolos. Jesus não foi embora, mas continua vivo entre e dentro de cada apóstolo que testemunha o ressuscitado, ontem e hoje. Nascem, como resultado da ação do Espírito Santo, as “Igrejas” de Jerusalém, isto é, vários núcleos do seguimento de Jesus, embora Lucas tenha, em Atos, idealizado e privilegiado a comunidade de Jerusalém, para onde os discípulos voltaram. Voltar para Jerusalém (At 1,12) significa voltar para o lugar sagrado do judaísmo, para o lugar da missão, da salvação e do sonho de uma nova Jerusalém, pois a Jerusalém cidade já tinha sido destruída pelos romanos.

A comunidade de Jerusalém é judaica de origem e, por isso, fiel observante da Torá (lei, conduta, caminho, modo de vida baseada no Decálogo; ela celebra a Eucaristia como memória do martírio redentor e profético de Jesus (At 2,42-46); partilha os bens (At 2,44-45), como expressão de uma espiritualidade comprometida com a justiça; está em conflito com as autoridades locais (At 3,114,22); está centrada e unida em torno aos doze apóstolos (At 2,42; 4,23-31); tem conflitos (At 5, 1-11); opera prodígios e milagres (At 3,1-10).    

Nessas características encontramos o rosto, às vezes, idealizado da comunidade de Jerusalém. Esse modo de viver a fé na comunidade de Jerusalém foi o jeito que os primeiros cristãos encontraram para exprimir a utopia do Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus na sua integralidade e com a sua ascensão.  A ascensão de Jesus no monte das Oliveiras teria sido a sua glorificação e a certeza da sua presença definitiva na comunidade de Jerusalém de forma histórica (presente), escatológica (futuro) e pneumática (plena do Espírito Santo). Tendo Jerusalém como referência e origem da comunidade judaico-cristã, os discípulos devem partir em missão até os confins do mundo, anunciando que Jesus ressuscitou e não morreu. Este foi o grande segredo do cristianismo; caso contrário, teria se perdido, como tantas religiões do mundo antigo. 

A ascensão é um movimento de ação transformadora do mundo a partir de nossa fé em Jesus ressuscitado e na ação libertadora da Igreja. Viver a ascensão significa não ficar olhando para o alto, esperando Jesus partir, mas colocar-se a caminho, no anúncio do reino, na evangelização. Ascensão não é a festa da despedida de Jesus, mas de sua presença no meio de nós, o que nos convoca a sair da “sacristia” das Igrejas e ir em missão para as periferias da sociedade faminta e sedenta da Boa-Nova do Evangelho. 

Será que a nossa Igreja está em movimento de ascensão? Ou estamos no fundo do poço, divididos e sem esperança? Jesus subiu para não ir embora. Jesus subiu porque desceu. Nossa ascensão, nosso movimento de subida, só será possível quando descermos ao mais profundo de nossa condição humana e a transformamos a partir do amor, do cuidado, do serviço e da justiça social. Será que não estamos descendo ladeira abaixo atrás de falsos pastores revestidos de uma fé que nos aliena? Coragem! Retomemos o caminho de volta para a Jerusalém de hoje! Acolhamos o pedido do Papa Francisco de rever o nosso modo de ser Igreja, participando do processo de revisão em vista do Sínodo de 2023. 

 

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Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze.

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