O Primeiro Isaías e a Opção pelos Pobres | Uma Introdução ao Profeta Isaías, dos Capítulos 1 ao 39

Por Hermes Fernandes

Para compreender algo que ficou no imaginário, na história, é preciso saber sobre o ambiente e o tempo em que se situa. Nós, humanos e humanas, fazemos história e a história nos faz. Somos marcados pela época, pela condição (lugar social). Pela situação econômica, política e religiosa onde vivemos. Nossas escolhas também condicionam a história que construímos. Assim também foi com os profetas. Cada um está inserido em um contexto histórico e sua profecia e ação são frutos de suas escolhas.

A história de Isaías é marcada por uma espécie de conversão. Não se converteu à Iahweh, pois bem sabemos que era homem religioso desde sua juventude. Converteu-se à causa dos pobres. Isaías foi educado no Templo. O que podemos entender que era homem piedoso e conhecedor da religião judaica. É importante pontuar aqui que o contexto em que viveu Isaías foi o da cidade, diferente de outros profetas que tinham origens rurais. É descrito pelos estudiosos como homem de Deus, que vivia a Lei de forma reta e piedosa. No contexto em que viveu o profeta, a desigualdade social era marcante. As elites oprimiam os pobres. Por isso, influenciado por sua companheira, sua mulher, converteu-se, ou melhor dizendo, sensibilizou-se com a causa dos pobres. Presenciou as injustiças praticadas pela elite dirigente e suas consequências na vida do povo. De acordo com sua fé em “Iahweh dos Exércitos” (cf. Is 1,9), o “Santo de Israel” (cf. Is 5,19) e sensível aos pobres, que carinhosamente chamava de “meu povo”, denunciou de forma crítica e vociferante: “Que direito vocês têm de oprimir meu povo e esmagar a face dos pobres?” (Is 3,15). Com isso, Isaías exigia justiça dentro da monarquia davídica. A partir de sua leitura da história e da sociedade, o profeta acreditava que um rei justo e bom poderia criar uma sociedade humana e fraterna. Pensamento de inspiração para além de sua história. Ainda hoje precisamos ter entre nós novos Isaías. Capazes de contestar a opressão aos pobres por parte das elites constituídas.

As Origens e Contexto do Primeiro Isaías

Pouco se sabe sobre as origens de Isaías. Sua vida pessoal é um desafio para os biblistas. Podemos pontuar algumas particularidades sobre sua pessoa, o que ilumina um pouco nosso desejo de conhecê-lo. De seu nome podemos inferir parte de sua história e importância no mundo bíblico. Significa: “Iahweh é salvação”. Como cronologia, seu nascimento pode ser datado em 760 a.C. Enquanto região, localizamo-no no Reino do Sul, Judá. Enquanto contexto, o reinado de Ozias (781-740 a.C.). Seu pai se chamava Amós, conforme podemos verificar em Is 1,1. Certamente, não se trata do profeta Amós, de Técua. Amós, o profeta, tem suas origens em uma pequena cidade (Técua), no interior do Reino de Judá. Entretanto, Amós migrou para o Reino do Norte, Israel (cf. Am 7,12-15), viveu seu ministério profético no período de Jeroboão II (783-743). Aqui também vale lembrar que Amós tem como contexto a realidade rural, diferente de Isaías. Sobre Amós, nos dedicaremos em texto futuro. Voltemos ao Primeiro Isaías.

Isaías tinha formação e cultura típicas de Jerusalém. Era um metropolita, como já o dissemos acima. Foi profeta ao serviço do Templo. Conselheiro do reinado, conforme podemos verificar em 2Rs 19, 1-7. Sua função social, com suas tradições religiosas, influenciou fortemente sua vida. O que se pode inferir em sua mensagem profética. Por isso, grande parte de sua pregação era baseada na escolha divina de Jerusalém e da eleição da dinastia davídica, princípios teológicos fundamentais para compreender o reflexo da fé que o sustentava. Daí o que podemos concluir como elemento fundante de sua profecia.

Aos 20 anos de idade, em torno do ano 740 a.C., Isaías recebeu a vocação profética. “No ano que morreu Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono alto e elevado. (…) Ouvi, então, a voz do Senhor que dizia: ‘Quem é que vou enviar? Quem irá de nossa parte?’ Eu respondi: ‘Aqui estou. Envia-me'” (Is 6,1.8).

Isaías se casou logo após ser chamado à vida profética por Iahweh. “Em seguida, eu me uni à profetiza e ela concebeu e deu a luz um filho…” (Is 8,3). De sua união, nasceram dois filhos. Isaías deu a estes filhos nomes simbólicos. Os nomes das crianças, no relato de Isaías, estão relacionados com sua mensagem profética: Sear-Jasub significa “um resto que voltará” (cf. Is 7,3) e Maer-Salal Has-Baz, significa “pronto-saque, rápida-pilhagem” (cf. Is 8,3).

Sobre sua morte, temos alguma incerteza acerca da data exata. Podemos supor que tenha acontecido após a morte de Ezequias, em 687 a.C. Os padres da Igreja, ao exemplo de Justino, Tertuliano e outros – baseados na tradição judaica – dizem que Isaías foi martirizado por Manassés, o qual, teria mandado parti-lo ao meio. Entretanto, essa tradição não tem sustentação bíblica; sendo mais legendária, ao nível hagiográfico.

Ao ler Isaías, podemos perceber que seus textos nos mostram características de sua personalidade. Fica-nos claro que era um homem decidido, firme e lúcido em suas posições. Ofereceu-se voluntariamente a Iahweh para sua missão (cf. Is 6,8). Com essa mesma prontidão, mais tarde, enfrentou reis e políticos, sem jamais deixar-se abater. Aqui podemos lembrar o que mencionamos acima, enquanto uma espécie de conversão à causa dos pobres. Era um dos profetas oficiais do Templo, conselheiro do rei, não adepto a revoltas e lutas por mudanças sociais radicais (cf. Is 3,1-9). Entretanto, sensibilizado com as desigualdades e a marginalização promovidas pela elite, gerando grande sofrimento aos pobres, sobretudo às mulheres; muda seu perfil e postura, tornando-se ferrenho denunciador das injustiças e corrupções das classes privilegiadas. Foi extremamente duro com os grupos dominantes injustos: anciãos, juízes, latifundiários, políticos, mulheres da elite de Jerusalém (cf. Is 1,10-28; 3,16-24; 5,8-24). Sua mudança em sensibilidade à causa dos marginalizados fez com que defendesse – com todo vigor – os oprimidos, as viúvas (Is 1,17; 10,1-4) e o povo explorado por seus líderes (Is 3, 13-15).

Estilo de Escrita e Organização do Primeiro Isaías

Podemos dizer que o estilo de escrita do Primeiro Isaías é clássico e original. Não se pode ignorar sua facilidade em se expressar, sobretudo, de forma poética. Além disso, percebe-se grande sensibilidade em seus escritos, muita clareza e precisão na forma de seu discurso; o que podemos verificar por sua linguagem direta, com imagens simples, tocando no âmago da questão e atingindo em profundidade o destinatário de seus textos (cf. Is 5,1-7).

Enquanto organização, podemos dividir a estrutura da obra do Primeiro Isaías em seis partes. Ou melhor dizendo, seis blocos, a saber:

  1. Oráculos ao Povo de Deus: capítulos 1 – 12
  2. Oráculos às nações estrangeiras: capítulos 13 – 23
  3. O “Grande Apocalipse”: capítulos 24 – 27
  4. Oráculos ao povo de Deus: capítulos 34 – 39
  5. O “Pequeno Apocalipse”: capítulos 34 – 35
  6. Apêndice Histórico: capítulos 36 – 39

Em sua maior parte, o texto do Primeiro Isaías foi escrito de forma poética. Porém, como um todo, inclui vários gêneros, como oráculos (cf. Is 17,1-6), poema (cf. Is 5,1-7), relato biográfico (cf. Is 6,1-13), parábola (cf. Is 18,24-29), sátira (cf. 3,16-24), narrativas históricas (capítulos 36 a 39), apocalipse (capítulos 24 a 27 e 34 a 35).

No tocante a toda obra que leva o nome de Isaías, o Primeiro Isaías é a parte mais longa. Foi um texto muito usado nas comunidades depois que morrera o profeta. Por isso, o texto passou por muitas releituras e recebeu acréscimos, conforme as necessidades e circunstâncias das pessoas que reliam. Isso nos sugere o sentido da existência de mais duas partes da grande obra de Isaías. Daí a divisão da obra em Primeiro, Segundo e Terceiro Isaías. Ainda no tocante ao Primeiro Isaías, podemos localizar alguns acréscimos, oriundos de data e contexto histórico diferentes, mesmo na estrutura dos 39 primeiros capítulos, isto é, no texto do Primeiro Isaías. Semanticamente, podemos identificar vários versículos dos capítulos 1 ao 39 como acréscimos de discípulos de Isaías, que contribuíram no texto com suas próprias releituras e experiências proféticas. Além disso, os capítulos de 24 a 27 e do 34 ao 35, são de outra época histórica.

É clara a dificuldade de se datar todos os textos. Importa agora conhecer seu contexto geral e suas motivações. Além: ter a certeza de que Isaías foi um profeta comprometido com a causa dos pobres, dos oprimidos e das viúvas; os marginalizados de seu tempo. Para tanto, criticou audazmente os opressores, atraindo para si algumas perseguições. Isaías vai se tornar referência de ação missionária, compromisso fervoroso com Iahweh, Deus que ama de forma preferencial os pequenos.

Isaías e nós

Que Isaías seja inspiração para nosso caminhar cristão hoje! Seu testemunho e teologia nos são tão oportunos, que o próprio Jesus, pela literatura lucana, se faz inspirar nele para definir sua missão messiânica. Citando o Terceiro Isaías (Is 61,1-2), Jesus deixa clara sua opção pelos pobres, assim como fez o profeta. Se os pobres foram a razão da conversão, mudança de perfil, de Isaías e também da Ação Messiânica de Jesus, quanto mais deve ser da Ação Evangelizadora da Igreja hoje e sempre. Inspirada na Palavra de Deus, pelos profetas e os Evangelhos, com o coração impulsionado pelo chamado de Iahweh libertador.

Toda a Bíblia é grande promessa de libertação. Isaías representa os profetas que denunciaram a opressão e a marginalização do povo, vitimando e gerando excluídos. Sintetiza em si o compromisso com as vítimas de fraturas sociais em seu tempo, o Primeiro Testamento. A vida de Jesus de Nazaré, no Segundo Testamento, foi inteiramente voltada para a libertação dos pobres e excluídos de seu tempo (cf. Mt 9,35-36; Lc 4,16-21; Mt 11,2-6; Lc 7,18-23) e pode ser resumida na expressão que o evangelista João põe na boca de Jesus, o Bom Pastor: “Eu vim para que todos e todas tenham vida e tenham vida em abundância” (Jo 10,10).

A Igreja hoje, após a 5ª Conferência de Aparecida – a qual comemoramos seus 15 anos recentemente – tem a vida como o grande objetivo a ser defendido. E essa defesa da vida, em todas as suas dimensões, deve ser fruto do seguimento de Jesus de Nazaré, proclamado o Cristo, o Senhor, por aqueles e aquelas que são seus discípulos e discípulas, missionários e missionárias. A opção pelos pobres e excluídos de nosso continente latino-americano e caribenho é a marca de nossa Igreja e tem o selo dos nossos mártires que, por amor aos irmãos e irmãs, deram seu sangue, como Jesus o fez, em favor da vida de todos e todas.

Ao que se refere à Opção pelos Pobres, antes mesmo que Jesus nascesse, Isaías já nos apontava o caminho.

Um comentário em “O Primeiro Isaías e a Opção pelos Pobres | Uma Introdução ao Profeta Isaías, dos Capítulos 1 ao 39

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  1. Que texto!
    Delicioso de ler. Uma forma gostosa de se conhecer a figura desse grande profeta.

    Parabéns, meu irmão! Quando ficamos velhos, somos chamados a ler a história. Que beleza constatar que o pequeno menino que eu conheci antes, se tornou o padre e teólogo gigante que eu vejo hoje nesse texto. Agradeço a Deus por poder presenciar sua bondade! Eu, seu velho amigo padre, sendo instruído pelo ex-coroinha. Que benção! Saber que o menino que ensinei a rezar, hoje me ensina Teologia. É benção demais!

    Abraço desse seu velho amigo,

    Padre Oswaldo Ferreira

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