O Evangelho não tem fronteiras | Uma Chave de Leitura para At 10,1-48

Por Hermes Fernandes

O livro de Atos dos Apóstolos é muito precioso para nossas comunidades. Lê-lo é como que sentar-se ao redor de uma fogueira e ouvir histórias de nossos antepassados. Nossos entes queridos que não mais estão conosco. É ter ouvidos atentos aos ensinamentos dos mais velhos. Os cristãos e cristãs das primeiras comunidades, são aqueles que ocuparam lugares na mesa da Casa de Deus antes de nós. Raízes, testemunho, sabedoria dos antigos. Assim gostaria de definir o segundo livro da obra Lucana, os Atos dos Apóstolos: um beber da sabedoria de nossos pais na fé!

É de comum acordo dos biblistas de nossos tempos que o bloco de At 10,1 a 11,18 guarda em si o clímax do livro de Atos. Na narrativa, temos a história de Cornélio, um pagão, convertendo-se à fé em Jesus Cristo. Tal fato gera mudança nas perspectivas e na história do cristianismo nascente. Até o presente momento, exceto o eunuco-etíope (cf. At 8,26-39), todos os convertidos eram judeus-hebreus, de língua aramaica, ou judeus-helenistas, de língua grega. Agora, Cornélio junta-se ao grupo das comunidades cristãs. Este é pagão, provavelmente um prosélito, o que vem significar que se trata de um simpatizante da religião judaica. Com o detalhamento ao relatar esse episódio, Lucas prepara o fundamento para toda a atividade missionária de Paulo. Aqui vale lembrar, também, que há muita possibilidade de que Lucas e Paulo tenham sido pessoas próximas, de grande comunhão afetiva e eclesial.

Para bem compreender a relevância da narrativa detalhada da história de Cornélio, precisamos nos questionar quais foram as consequências de sua conversão para as primeiras comunidades. Como já dissemos acima, as comunidades cristãs até aquele momento eram formadas prioritariamente por judeus, de língua aramaica ou grega. Agora as comunidades cristãs e o anúncio do evangelho devem ultrapassar distâncias geográficas, indo até os povos pagãos. Uma segunda consequência – ou melhor dizendo, uma necessidade – seria romper com o separatismo, aceitando no seio das comunidades pessoas de realidades diferentes, ao exemplo de Cornélio. Uma terceira consequência ou necessidade seria ultrapassar o preconceito, neste contexto expresso na Lei de pureza, que impedia a um judeu de sentar-se à mesa de alimentação com um pagão, incircunciso. Aqui não se tratava de aceitar ou não a salvação para outras culturas que não a judaica. Pior: a convivência com os não judeus, que incutiria mudanças profundas nos hábitos comuns pela convivência. E não convivendo, não existe comunidade. Como partilhar o Evangelho, com sua proposta de amor, liberdade e vida plena, sem construir laços profundos de fraternidade? Essas dificuldades de abertura ao diferente, pedagogias excludentes, eram heranças do judaísmo. Aprisionou muitas vezes a ação de Deus em seus legalismos e preconceitos.

Como Javé é um Deus de liberdade plena, Pai apaixonado pelos humanos todos, ele mesmo toma a iniciativa por quebra dessas fronteiras excludentes. Em Cesaréia, 50 km de Jope aproximadamente, vivia um oficial romano, de nome Cornélio. O texto Lucano nos deixa entender que este oficial estaria aposentado de seu ofício. Também nos apresenta a informação de que Cornélio era alguém temente a Deus, o que podemos concluir que seja um prosélito. Na condição de convertido ou simpatizante ao judaísmo, era homem piedoso e caridoso. Assíduo nas orações e no serviço aos empobrecidos por atos de misericórdia.

A ação de Javé na vida de Cornélio é bem descrita por Lucas no livro de Atos. O estilo de escrita que usa, favorece ao leitor perceber o desejo do autor em enfatizar a criatividade da ação de Javé. Deus age na história e na vida. Para compreender seu agir, é preciso estar atento ao que se passa na história, ser sensível aos sinais manifestos na realidade que nos cerca.

É isso que percebemos ao ler At 10,1-8. O agir de Javé como artífice da vida humana, e a sensibilidade de Cornélio em ouvir e atender aos desígnios de Deus.

Como qualquer encontro se dá de forma mútua, o de Cornélio com a vida cristã precisava de que ambos os lados se dispusessem ao caminho. Foi por uma experiência mística vivida por Pedro que se deu os primeiros passos do sonho de Deus em celebrar a vida de Cornélio e de Pedro. De um lado um pagão iria se tornar cristão, por outro, Pedro, líder dos seguidores e seguidoras de Jesus, iria receber de Deus a responsabilidade de acolher a todos e todas que desejassem seguir no caminho de Jesus.

Em At 10,9-16, temos o relato de que Pedro, estando em oração, sente fome. Há aqui todo um simbolismo na narrativa Lucana. Entrando em êxtase, vê descer do céu algo como que uma grande toalha, cheia de animais de todas as espécies. De repente, ouve uma voz que ordena: “Pedro, mate e coma!”

A Lei proibia que se alimentasse de diversos animais, répteis e aves. Eram considerados impuros, o que podemos verificar em Lv 11,1-47; Dt 14,3-20. Por isso, Pedro contesta. Todavia, Deus declara por uma voz que se fez ouvir, a pureza e santidade de tudo o que criara. “Não chame de impuro, o que Deus purificou” (At 10,15).

Há que se entender esse texto de forma interpretativa. Refere-se muito mais do que a alimentos permitidos ou não. A toalha vinda do céu com os animais indica o Dom de Deus. Dom este oferecido desde a criação. Este mesmo Dom vai continuamente realizando a história, agindo na vida dos homens e mulheres por ele amados e amadas.

Após estes dois episódios distintos: a disponibilidade de Cornélio ao chamado de Deus e o puxãozinho de orelha dado a Pedro, exortando-o a não excluir ou marginalizar nada que tenha sido criado pelo Sumo Bem, pois toda a criação reflete a santidade do Criador, é chegado o momento do encontro.

At 10,34-43 irá nos contar como Pedro compreendeu que Deus não faz acepção de pessoas. Deus não tem preconceitos, está aberto a todos e todas. Por isso, a mensagem evangélica pode e deve ser dirigida a todos os humanos. A propósito, esta foi a ordem de Jesus quando de suas despedidas no Evangelho de Mateus. “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,19). Por isso, Pedro reconhece que não pode negar o batismo aos pagãos, pois a eles também é derramado o Espírito Santo. Com o batismo, a pessoa é integrada à comunidade cristã e, também por ele, o catecúmeno é iniciado no Mistério de Jesus. Assim, Cornélio é batizado e inaugura-se a missão ad gentes da Igreja.

O Evangelho não pode ter fronteiras, pois a Boa Nova é dirigida a todos e todas, sobretudo aos pobres, Bem-Aventurados do Pai.

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