O que há depois da morte? Um olhar introdutório sobre Destino, Vida, Morte e Eternidade na Doutrina Cristã

Por Hermes Fernandes

Não é incomum que se ouça ou diga que a morte é o destino comum para todos os viventes. Assim também o é para os humanos. Outrossim, a palavra destino é um tanto ambígua. O que significa destino? Erroneamente, destino é entendido como uma força cega, neutra, que impele o homem e a mulher numa determinada direção, em vista de um norte, caminho preciso. Destino lembra facilmente fatalismo. O que contrapõe a concepção cristã de Graça de Deus e Liberdade Humana. Se tudo está escrito, insólitos são nossos esforços em construir uma história. Por isso, devemos dizer que não existe destino se o entendemos como uma força cega que empurra o homem e a mulher em sua caminhada terrestre. Deus nos concedeu a liberdade de arbítrio e a respeita. A Graça de Deus não extingue a livre opção do homem e da mulher.

Só se vive uma vez?

Muito acertadamente, nosso leitor e leitora pode supor que a morte nos estabiliza em nossa opção final ou nos fixa no termo último de nossa existência. Diz o autor da Carta aos Hebreus: “E como está determinado que cada um morra uma só vez, e depois vem o julgamento…” (Hb 9,27). Passamos uma só vez pelas estradas da vida com todas as Graças de Deus para nos aprimorar (e por que não nos santificar?); em preparação para uma vida eterna, na comunhão dos santos, conforme nos promete a escatologia. Nossa vida aqui na terra é um ensaio para uma vida plena, na comunhão com o Pai. Ele nos acompanha carinhosamente até o último instante desta peregrinação.

Neste sentido, cabe ao cristão e à cristã não se preocupar com a pretensa exiguidade de uma só passagem pela Terra. Deve, em verdade, aproveitar esta existência terrena para estar preparado para sua Páscoa Definitiva. Esta Páscoa está revestida das prestimosas promessas que, pela Graça de Deus e pelo Sacrifício de seu Filho por morte de Cruz, nos reservou todos os subsídios necessários para que não somente nos santifiquemos durante nossos anos de vida na terra, quanto gozemos das Promessas Futuras.

O cristão, que une sua própria morte à de Jesus, vê a morte como um caminhar ao seu encontro e uma entrada na Vida Eterna. Depois de a Igreja, pela última vez, pronunciar as palavras de perdão da absolvição de Cristo sobre o cristão moribundo, selá-lo pela última vez com uma unção fortificadora e dar-lhe o Cristo no viático como alimento para a Viagem, diz-lhe com doce segurança estas palavras:
“Deixa este mundo, alma cristã, em nome do Pai Todo-Poderoso que te criou, em nome de Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo, que sofreu por ti, em nome do Espírito Santo que foi derramado em ti. Toma teu lugar hoje na paz e fixa tua morada com Deus na santa Sião, com a Virgem Maria, a Mãe de Deus, com São José, os anjos e todos os santos de Deus. (…) Volta para junto de teu Criador, que te formou do pó da terra. Que na hora em que tua alma sair de teu corpo se apressem a teu encontro Maria, os anjos e todos os santos. (…) Que possas ver teu Redentor face a face (…).
(CIC: 1020)

A Morte

A morte consiste na separação entre o corpo e a alma. O corpo tende a se desgastar pela idade, podendo disso inferir-se a certeza de que nossa vida terrena tem uma finitude. Uma vez debilitado o corpo, já não mais oferece condições para que a alma, ou o princípio vital, nele permaneça, conservando a vida. Consequentemente, o corpo, feito cadáver, é lançado à terra e a alma, sendo espiritual, sobrevive, sendo ela imortal por si mesma.

A alma, uma vez separada do corpo pela morte, não perde a consciência lúcida, não fica adormecida. Fala-se de sono da morte, como uma metáfora. Ou seja: porque os mortos parecem dormir. Em verdade, mesmo os cadáveres não tendo mais vida, as almas – separadas do corpo – continuam a viver, com toda a lucidez.

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

(Santo Agostinho de Hipona)

Logo após a morte, se dá o juízo particular. Este não consiste em uma avaliação dos prós e contras de nossa conduta terrestre, pois somos nós que nos julgamos nessa terra, ao nos posicionarmos em comunhão ou não com a vontade de Deus. Ao morrermos, somos nós mesmos que auspiciamos nossa sentença. São nossas escolhas que ditam nosso porvir, nosso futuro.

O Juízo Particular, portanto, consiste na iluminação de todo o nosso histórico de vida, para que possamos ver – com objetividade e sem preconceitos – os valores e desvalores de nossa conduta terrestre. Assim iluminada, a alma humana deseja imediatamente colher os frutos da semeadura realizada na Terra. Ela deseja voluntariamente a justa sorte que a espera. Aqui vale mais uma vez salientar o aspecto consciente do exercício dessa alma. Mesmo não mais em sua vida terrena, desligada de seu corpo físico, exerce sua liberdade e consciência, conforme a vontade do Pai.

A morte põe fim à vida do homem como tempo aberto ao acolhimento ou à recusa da graça divina manifestada em Cristo. O Novo Testamento fala do juízo principalmente na perspectiva do encontro final com Cristo na segunda vinda deste, mas repetidas vezes afirma também a retribuição, imediatamente depois da morte, de cada um em função de suas obras e de sua fé. A parábola do pobre Lázaro e a palavra de Cristo na cruz ao bom ladrão assim como outros textos do Novo Testamento, falam de um destino último da alma pode ser diferente para uns e outros.
Cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação, seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre.
No entardecer de nossa vida, seremos julgados sobre o amor.
(CIC: 1021-1022)

E o que pensar sobre Céu, Purgatório e Inferno?

Após a morte e o Juízo Particular, mesmo antes da ressurreição da carne (que se dará no Último Dia), o ser humano tem três destinos possíveis:

1) O Céu: É a visão de Deus face a face ou a satisfação plena de todos os nossos anseios. Deus será sempre a Grande Maravilha para os justos no céu. Na Pátria Celeste – como a teologia milenar gosta de se expressar – os justos, vendo a Deus, veem também seus familiares e amigos plenamente inidentificáveis em seu estado de transcendência. A alma humana, mesmo ainda não ressuscitada corporeamente, em sua condição de espírito vital, traz em si os traços indeléveis de sua persona, imagem do Pai.

Aqui também vale lembrar que, conforme nossa fé, os justos podem interceder por nós no céu, pois Deus nos fez solidários uns para com os outros, pois vivemos na Comunhão dos Santos, e esta solidariedade não é rompida pela morte. O Pai a conserva e faz com que os justos e Santos no céu conheçam nossas preces e possam orar por nós.

Especialmente a Virgem Maria Santíssima, na qualidade de Mãe do gênero humano (cf. Jo 19,26), é a Grande Orante que leva ao seu Divino Filho suas preces em favor dos homens e mulheres na Terra. Ela, que foi a intercessora do primeiro milagre de Jesus em Caná da Galileia – ao dizer, muito discretamente – com um olhar de mãe atenta: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3) – continua, ainda hoje, a dizer a Jesus: “eles não têm pão…, não têm casa…, não têm paz…, não têm trabalho…, não têm amor etc”.



Os que morrem na graça e na amizade de Deus, e que estão totalmente purificados, vivem para sempre com Cristo. São para sempre semelhantes a Deus, porque o vêem “tal como ele é” (1Jo 3,2), face a face (1Cor 13,12):
Com nossa autoridade apostólica definimos que, segundo a disposição geral de Deus, as almas de todos os santos mortos antes da Paixão de Cristo (…) e de todos os outros fiéis mortos depois de receberem o santo Batismo de Cristo, nos quais não houve nada a purificar quando morreram, (…) ou ainda, se houve ou há algo a purificar, quando, depois de sua morte, tiverem acabado de fazê-lo, (…) antes mesmo da ressurreição em seus corpos e do juízo geral, e isto desde a ascensão do Senhor e Salvador Jesus Cristo ao céu, estiveram, estão e estarão no Céu, no Reino dos Céus e no paraíso celeste com Cristo, admitidos na sociedade dos santos anjos. Desde a paixão e a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, viram e vêem a essência divina com uma visão intuitiva e até face a face, sem a mediação de nenhuma criatura.
(CIC: 1023)

     Essa vida perfeita com a Santíssima Trindade, essa comunhão de vida e de amor com ela, com a Virgem Maria, os anjos e todos os bem-aventurados, é denominada “o Céu”. O Céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva. (CIC: 1024)

    Viver no Céu é “viver com Cristo”. Os eleitos vivem “nele”, mas lá conservam – ou melhor, lá encontram – sua verdadeira identidade, seu próprio nome.
“Vita est enim esse cum Christo; ideo ubi Christus, ibi vita, ibi regnum – Vida é, de fato, estar com Cristo; aí onde está Cristo, aí está a Vida, aí está o Reino”.
(CIC: 1025 )

     Por sua Morte e Ressurreição, Jesus Cristo nos “abriu” o Céu. A vida dos bem-aventurados consiste na posse em plenitude dos frutos da redenção operada por Cristo, que associou à sua glorificação celeste os que creram nele e que ficaram fiéis à sua vontade. O céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados a Ele.
(CIC: 1026)

   Este mistério de comunhão bem-aventurada com Deus e com todos os que estão em Cristo supera toda compreensão e toda imaginação. A Escritura fala-nos dele em imagens: vida, luz, paz, festim de casamento, vinho do Reino, casa do Pai, Jerusalém celeste, Paraíso. “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).
(CIC: 1027)

    Em razão de sua transcendência, Deus só poder ser visto tal como é quando Ele mesmo abrir seu mistério à contemplação direta do homem e o capacitar para tanto. Esta contemplação de Deus em sua glória celeste é chamada pela Igreja de “visão beatifica”.
(CIC: 1028)

Qual não ser tua glória e tua felicidade: ser admitido a ver a Deus, ter a honra de participar das alegrias da salvação e da luz eterna na companhia de Cristo, o Senhor teu Deus (…) desfrutar no Reino dos Céus, na companhia dos justos e dos amigos de Deus, as alegrias da imortalidade adquirida.

Na glória do Céu, os bem-aventurados continuam a cumprir com alegria a vontade de Deus em relação aos outros homens e à criação inteira. Já reinam com Cristo; com Ele “reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22,5).
(CIC: 1029)

2) O Purgatório: Como Purgatório, a Igreja acredita ser a antecâmara do céu. Com efeito, para ver Deus face a face, o ser humano precisa estar isento de qualquer sombra de pecado, pois o Senhor é Três Vezes Santo. Assim, se alguém morre com seu amor voltado para Deus, mas ainda traz em si algum sinal defectível em sua relação íntima com ele, precisará se libertar dessas máculas que o afastam de um amor pleno com o Pai. O Purgatório deve ser entendido como um estado e não um lugar. É a condição daquele que ainda não pode se dizer em suas vestes nupciais, para a perfeita comunhão com o Noivo, Nosso Senhor. No purgatório, nossas vestes são purificadas, alvejadas, para bem estarmos diante do Noivo, em seu Banquete Nupcial.

O Purgatório não é um lugar onde há fogo e tormentos físicos, mas sim, um estágio – no qual – voluntariamente a alma humana repudia a mancha do pecado e dela se purifica para bem se apresentar diante do Amado. É um estado e ato de contrição, pelo qual, se aprimora nossa condição diante do Bem que se nos revela.

“Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu.”
(CIC: 1030)

3) O Inferno: O Inferno é o estado, e não o lugar, no qual o pecador que tenha morrido apegado ao pecado e avesso a Deus, sente a amargura de tê-lo negado. Ele é o Sumo e Único Bem, o qual, o homem e a mulher não podiam ter perdido.

O Inferno é a frustração definitiva. Não sabemos quantas são as pessoas que morrem voltadas conscientemente para o mal, opondo-se ao Bem. Outrossim, até o fim último, no momento derradeiro, Deus – como o Pai de Misericórdia – aguarda a volta do homem e da mulher para seu abraço reconciliador. Portanto, enquanto Inferno, se entende aquele estado de extremo tormento, da consciência de perda do Amor Pleno de Deus. É o vazio esmagador do abandono definitivo. Abandono este que é reflexo do primeiro abandono humano ao seu Pai amoroso.

  “Não podemos estar unidos a Deus se não fizermos livremente a opção de amá-lo. Mas não podemos amar a Deus se pecamos gravemente contra Ele, contra nosso próximo ou contra nós mesmos: “Aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia seu irmão é homicida; e sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele” (1 Jo 3,14-15). Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados dele se deixarmos de ir ao encontro das necessidades graves dos pobres e dos pequenos que são seus irmãos morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa ficar separado do Todo-Poderoso para sempre, por nossa própria opção livre. E é este estado de auto­-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra “inferno”.
(CIC: 1033)

Vida em Deus

À guisa de encerramento desta nossa Catequese, cabe-nos uma palavra exortativa. Acima ficou exposta a síntese da Doutrina da Santa Igreja sobre o que se passará conosco depois de nossa Páscoa Definitiva. Mais do que o medo que possa advir desta nossa leitura sobre os ensinamentos que o Magistério da Igreja nos oferece, importa cultivar em nossos corações a certeza de que vale muito a pena manter a filial comunhão com o Pai. É cultivando sentimentos e virtudes de filhos fiéis que poderemos colher boas sementes desta nossa peregrinação terrestre. Mais que ter medo do inferno, importa que sejamos verdadeiramente comprometidos com o Reino de Deus. Uma relação amorosa com Nosso Senhor, o Cristo Ressuscitado, nos ressuscitará consequentemente no Último Dia. Será para nós uma alegria plena, habitar – em definitivo – a Casa do Pai.

A escolha é nossa, pois:

“O que os olhos não viram, o que os ouvidos não ouviram e o coração do homem jamais percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que o amam.” (1Cor 2,9)

3 comentários em “O que há depois da morte? Um olhar introdutório sobre Destino, Vida, Morte e Eternidade na Doutrina Cristã

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  1. Muito bom texto. Com explicações do autor e apresentação das fontes do Catecismo. Uma verdadeira catequese para adultos.

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  2. Um roteiro de formação para Catequese de adultos. Irei indicar às equipes. Obrigado por nos ajudar na formação de nossas comunidades.

    Abraço, padre!

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