A questão da “radicalidade” na Igreja [1]

Por Frei Marcos Sassatelli, Frade Dominicano[2]

Todo cristão ou cristã é chamado ou chamada a ser radicalmente ser humano. Ora, enquanto estamos no mundo – no tempo e no espaço – podemos crescer sempre na vivência do humano. Nunca serenos humanos ou humanas demais, nunca exageraremos em ser humanos ou humanas.

“Todo aquele que segue Cristo, o Homem perfeito, torna-se ele também mais ser humano” (GS 41). “A fé esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do ser humano. E, por isso, orienta a mente para soluções plenamente humanas” (GS 11).

No seguimento de Jesus de Nazaré, a radicalidade humana pode ser vivida de muitas maneiras, conforme os carismas (dons) e ministérios (serviços) de cada um e de cada uma.

Em nossa Igreja Católica, um dos caminhos para viver essa radicalidade é a chamada “Vida Religiosa Consagrada”: “Religiosos” – que em sua maioria são também Ministros ordenados – e “Religiosas” das diversas Ordens, Congregações e Institutos.  

Permito-me, agora, fazer alguns questionamentos a respeito dessa terminologia comumente aceita.

Os que, “Religiosos” e “Religiosas”, pertencemos à chamada “Vida Religiosa Consagrada”, não temos o direito de nos apropriar dessas palavras.

Todo ser humano que pratica uma religião é “religioso ou religiosa”, ou seja, tem “vida religiosa”. E ainda: todo cristão ou cristã, batizado ou batizada é “consagrado” ou “consagrada”, ou seja, tem “vida religiosa consagrada”. Aliás, nós ensinamos que o Batismo é a consagração fundamental, que nos torna seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré, continuadores e continuadoras de sua missão no mundo.

Lamentavelmente (como já disse em outras ocasiões), no decorrer da história, criamos uma Igreja com estrutura social de três classes: Hierarquia, Vida Religiosa Consagrada e Laicato.

Precisamos voltar ao Evangelho e acabar com as classes para sermos uma Igreja somente de irmãos e irmãs, como eram as primeiras Comunidades cristãs.

Com isso, não quero dizer que devemos uniformizar tudo. Ao contrário! É justamente numa Igreja de irmãos e irmãs que temos condições de apreciar o valor e a beleza da imensa variedade e diversidade dos carismas (dons) e dos ministérios (serviços), que o Espírito Santo (o Deus Amor) suscita na Igreja.

Um dos carismas – que devemos valorizar –  é justamente a Vida Cristã de Particular Consagração”, em resposta a um chamado pessoal de Deus (o novo nome que sugiro para a chamada “Vida Religiosa Consagrada”). Esse “carisma” é um caminho – entre outros – para viver a radicalidade da consagração batismal: “projeto de vida cristã radical”. Ele se desdobra em dois carismas: um comum à toda “Vida Cristã de Particular Consagração” e outro próprio de cada Ordem, Congregação ou Instituto.

Na Igreja, o “projeto de vida cristã radical” pode ser assumido publicamente ou em caráter particular, mas sempre na comunhão eclesial.

Acredito que – se formos uma Igreja de irmãos e irmãs realmente comprometida com o Projeto de Jesus no mundo de hoje, que é o seu Reino, Deus suscitará novas formas de “Vida Cristã de Particular Consagração” e muitas pessoas – das mais diversas formas – farão a experiência do chamado de Deus para viverem o “projeto de vida cristã radical”, por amor aos irmãos e às irmãs a partir dos Pobres.

Considerando a nossa realidade sócio-econômico-político-ecológico-cultural-religiosa, Deus poderá, por exemplo, chamar trabalhadores e trabalhadoras para seguirem mais de perto Jesus de Nazaré – que também foi trabalhador (carpinteiro) – assumindo o “projeto de vida cristã radical” a serviço dos companheiros e companheiras:  nos Movimentos Sociais Populares, nos Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, nos Partidos Políticos Populares e nos Comitês ou Fóruns de Defesa dos Direitos Humanos e da Irmã Mãe Terra Nossa Casa Comum.

Esses Trabalhadores e Trabalhadoras continuarão vivendo com seus familiares ou – se for por opção deles e delas – em pequenos grupos de base (grupos de vivência). Pessoalmente peço a Deus que nos dê essa graça. Na Igreja e na sociedade atual precisamos muito disso.

Por fim, se ser cristão ou cristã é ser radicalmente ser humano, ser radicalmente cristão ou cristã (vivendo o “projeto de vida cristã radical”) é ser radicalmente ser humano em dobro, com tudo o que isso significa.

“Deus é Amor. Todo aquele/aquela que permanece no Amor permanece em Deus, e Deus nele/nela” (1 Jo 4,16).

Estamos no tempo pascal. Que a Páscoa seja para nós cristãos e cristãs uma realidade de todo dia: Passagem para uma vida de amor sempre mais radical. São estes os meus votos a todos os irmãos e irmãs de caminhada.

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[1] Os articulistas e colaboradores deste blog exercem seu livre direito à liberdade de expressão. As ideias expressas em seus artigos e reflexões não necessariamente correspondem à opinião dos demais colaboradores desta página. Respeitamos e acolhemos a hermenêutica de cada autor, agradecendo afetuosamente sua contribuição para nosso crescimento pessoal e eclesial.
[2] Marcos Sassatelli, Frade dominicano. Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP). Professor aposentado de Filosofia da UFG. E-mail: mpsassatelli@uol.com.br
Imagem: Arquidiocese de Florianópolis

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