O Amor de Rute

Por Ir. Cristiano Pinto Carmona, OSB
 

O livro de Rute começa nos apresentando a família de um homem chamado Elimelec que, em um período de fome na região de Belém, muda-se com sua esposa e seus dois filhos para os campos de Moab, vindo a falecer logo em seguida deixando viúva a esposa Noemi e órfãos seus filhos Maalon e Quelion. Seus filhos, tomam por esposas mulheres não israelitas, as moabitas Orfa e Rute. Por volta do décimo ano após chegarem àquelas terras, morrem igualmente Maalon e Quelion, permanecendo, assim, três viúvas sem descendência, Noemi, Orfa e Rute. Noemi, ouvindo que Iahweh visitara seu povo dando-lhe pão, decide, então, retornar à terra de Judá.

Como era praxe, as viúvas sem herdeiros dependiam das esmolas para sobreviver, por isso Noemi, após perder os filhos e o marido, pede para mudar seu nome, cujo significado é “minha doçura”, para Mara, que significa “a amarga”, referindo-se à amargura que o destino lhe reservara. O nome Elimelec por sua vez, significa “meu Deus é meu Rei”, o que permite que comparemos a amargura que toma conta de Noemi com a grande tristeza que invade aqueles que se distanciam Deus. Os nomes dessas personagens, provavelmente de escolha proposital, sugerem-nos que, ao perder a doçura do viver, nos questionemos se o motivo não é o abandono da fé em Deus que é o único Rei.  A amargura nos claustros, bem como na vida de qualquer cristão, é contratestemunho do seguimento de Cristo que, embora mostre-se árido em alguns momentos, é um caminho de doçura. Um cristão envolvido pela amargura deve, com sinceridade, indagar-se se tal condição não é sintoma de seu distanciamento dos preceitos evangélicos.

Noemi, em sua amargura, dispensa as noras com sua bênção, para que retornem à casa de seus pais. As duas, entre lágrimas, negam-se a partir. No entanto, após Noemi insistir, dizendo que não há esperança de um bom futuro em sua companhia, Orfa, abraçando-a, volta para junto dos seus.

Ao despedir as noras, Noemi assume ainda mais o peso de sua viuvez, ensinando-nos, com isso, uma preciosa lição: o amor não pode ser exigido; embora tenham vivido juntas por longo tempo, Noemi não impõe seu fardo às noras, senão, despede-as, para que, encontrando novos maridos, possam ser felizes. Em períodos de triste sorte, somos tentados a cobrar daqueles de quem somos próximos que nos apoiem e sofram conosco. Tal atitude pode ser disfarce de egoísmo, pois exigimos que o outro assuma nosso sofrimento para termos um pouco de consolo.

Orfa é “a que volta as costas”. Podemos encontrar, analisando sua atitude, duas situações distintas que justificam, ou não, nosso distanciamento daqueles que padecem. O fato de Noemi dar a bênção para que as noras retornem à casa de seus pais, acrescente-se a isso a falta de esperança de um futuro melhor na companhia da sogra, parece justificar a decisão de Orfa em partir. Existem situações, de fato, em que o mais prudente é voltar as costas à amargura da vida do outro. Nem sempre temos condições de ajudar quem padece, sem padecermos também nós. Insistir em relacionamentos tóxicos, assemelha-se, por vezes, a saltar em um rio para salvar o outro que se afoga, sem saber nadar. Nesses casos, o ato prudente de buscar ajuda ou de estender o apoio da oração pode evitar grandes malefícios a ambos. Orfa, percebendo que pouco poderia ajudar a sogra e que o peso de seu destino era pesado demais para assumir, dá-lhe as costas. A atitude que pode parecer compreensível à primeira vista, carrega algumas complicações nas entrelinhas. Orfa ao voltar para sua terra – Moab – e para a casa de seus pais, não só dá as costas a Noemi, mas também a Iahweh, uma vez que, retornando à sua terra natal, volta para o seu deus Camos. O texto sugere-nos, então, a tentação oposta ao de contagiar-se com a amargura da vida do próximo, que seria, a de não ajudar o irmão, ou por não ganhar nada em troca, ou para servir ao deus da comodidade. “Em situações como essa devemos pedir a Deus o discernimento para aceitar, em nossas relações, não apenas aquilo que nos agrada, caso contrário, nossa atitude nos impeliria a voltar as costas ao amigo na primeira dificuldade que sobreviesse, com a desculpa de que não podemos ajudá-los, disfarçando nossa tibieza frente ao cumprimento do preceito evangélico de amar o próximo.

Rute, por sua vez, mesmo recebendo a bênção da sogra para partir e tendo ouvido seus argumentos de que havia para ela pouca esperança, mesmo considerando a lei do levirato[1], decide por ficar com Noemi; movida pela compaixão, resolve-se por sofrer com a sogra, mesmo sem ter obrigação disso. Segue-se então uma das mais belas declarações de fidelidade da Sagrada Escritura: Respondeu Rute “não insista comigo que te deixe, pois para onde fores, irei também, onde for tua moradia será também a minha; teu povo será o meu povo e teu Deus o meu Deus. Onde morreres quero morrer e ser sepultada. Que Iahweh me mande este castigo e acrescente mais este se outra coisa, a não ser a morte, me separar de ti” (Rt 1, 16s). Ao decidir ficar com Noemi, Rute antecipa o preceito presente no Evangelho de São João “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”, de fato, ao mover-se de compaixão ultrapassa o amor de amigo (Philia), ama com amor Ágape, o mais nobre dos sentimentos, amor de gratuidade, que nada espera em troca, amor com que Deus nos amou ao entregar-se por nós na cruz, amor com o qual devemos amar a Deus e aos irmãos.

No Evangelho lucano encontramos outra passagem em que alguém se move de compaixão por uma viúva, trata-se de Jesus, que aproximando-se da cidade de Naim, depara-se com o cortejo fúnebre do filho único de uma mãe viúva. A viúva de Naim encontra-se em situação semelhante à de Noemi, poderia também ela desejar ser chamada de Mara. Diz o texto que Jesus, ao vê-la, “moveu-se de compaixão” (Lc 7,13) e restitui a vida ao filho da viúva; tal como Rute que, ao mover-se de compaixão, gerará vida e nova esperança para sua “Mara”.

É fácil perceber no texto a nobreza da decisão de Rute em contraponto com a de Orfa. É certo que, ao que costuma dizer nosso Dom Abade, não se improvisa um martírio, nem a vitória sobre a própria vontade, sem treinar-se com pequenos martírios e abnegações, podemos acrescentar, também não se improvisa a compaixão e, por conseguinte, o amor. Se não formos capazes de compadecermo-nos das pequenas dores de nossos irmãos, muito provavelmente, não seremos capazes de compadecermo-nos das grandes, afastando-nos, por conseguinte, de Deus, como fez Orfa, e privando-nos do amor e de seus frutos, experienciados por Rute.

Estando em Belém, e já tendo feito voto de não abandonar a sogra, Rute se dirige a essa pedindo permissão para ir ao campo respingar[2], ao que Noemi assente chamando-a por filha. O fato de Rute servilmente pedir permissão à sogra e a decorrente resposta afetuosa de Noemi à nora, nos reporta novamente ao Evangelho de Lucas, agora à parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11) que, voltando a si, ao retornar à casa paterna pede ao pai que o trate como a um de seus servos ao que o pai responde com grande afeto e júbilo. Semelhante fato também ocorre conosco, quando, ao aproximamo-nos de Deus com (justa) atitude servil, somos surpreendidos por uma atitude de imensurável amor de Pai. Esse mistério da servidão, os monges – assim como religiosos e clérigos – atualizam pelo voto de obediência ao Abade, que, se trouxer na memória o preceito de São Bento de “mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai” (RB 2,24), responderá sempre com afeto e discernimento, visando a edificação de seu monge.

Parte, então, Rute ao campo, e, por feliz coincidência, vai ao campo de Booz, parente de Elimelec, que, pela lei do levirato, tem direito de resgate sobre ela. Booz, tomando conhecimento de que se tratava de Rute, tendo conhecimento de seu proceder para com Noemi, a recebe bem, oferta-lhe água e comida e permite que ela recolha as espigas em seu campo. Mais do que isso, Booz ordena que seus servos a deixem respigar também entre os feixes e orienta-os a deixar cair algumas espigas de seus feixes para que Rute possa colher. Além de servir-nos de exemplo de generosidade, a atitude de Booz recorda-nos de que Deus não falta em generosidade com aqueles que, com gratuidade, o amam na pessoa do irmão.

Rute respigou nos campos de Booz até o fim da colheita.

Chegada a noite em que Booz joeiraria a cevada na eira, aconselhada por Noemi, vai ao seu encontro a fim de pedir que exerça seu direito de resgate sobre ela. Tal atitude pode nos parecer um tanto quanto ousada, mas trata-se, aqui, de colaboração com a graça pois, já havendo, por graça de Deus, encontrado os favores de Booz, convinha que Rute tomasse atitudes para que os frutos fossem mais abundantes. Timidez em colaborar com a graça esconde, por vezes, o demônio da acédia, de fato, se Rute permanecesse em casa de “braços cruzados”, provavelmente não teria tão excelente granjeio. Corremos, ainda hoje, o risco de, por excessiva timidez (ou acédia), “cruzar os braços” e esperar que Deus resolva todas as nossas necessidades, deixando de cumprir com a parte que nos cabe e impedindo a plena realização da graça em nossas vidas.

Booz aceita a proposta de Rute e deseja exigir seu direito de resgate, sabendo, porém, da existência de outro parente, que tem prioridade para cumprir a lei do levirato, vai ao encontro do mesmo, cujo nome não é mencionado, e, acompanhado de dez anciãos, comunica-lhe que Noemi quer vender parte do terreno que pertencera a Elimelec e que o mesmo tem prioridade em adquiri-lo. O parente manifesta interesse em fazer a aquisição, mas, informado que além do terreno, teria, igualmente, de adquirir Rute, a moabita, para perpetuar o nome de Elimelec e de Maalon, volta atrás, pois não queria prejudicar seu patrimônio para comprar um terreno que viria a pertencer ao herdeiro legal de outro[3]. A mesquinhez do parente o priva de “adquirir” um bem muito mais precioso que o terreno, uma mulher prudente. A avareza, além do material, pode impedir-nos de adquirir bens que nem a prata nem o ouro podem comprar. Quanto mais nos embebemos de nós mesmo e de nossos vícios, menos abertos ficamos aos bens eternos. A falta de generosidade da nossa parte, não poucas vezes, nos faz perder ótimas oportunidade de “comércio” das coisas divinas, como fez o dito parente.

Tendo-se recusado, pois, aquele que tinha o direito de resgate, Booz diante das testemunhas o exerce. Proclamam então as testemunhas a sentença profética. “Que Iahweh torne essa mulher que entra em tua casa semelhante a Raquel e a Lia, que formaram a casa de Israel” (Rt 4,11).

 “Assim Booz desposou Rute, que se tornou sua esposa. Uniu-se a ela, e Iahweh deu a Rute a graça de conceber e ela deu à luz um filho. As mulheres disseram então a Noemi: ‘Bendito seja Iahweh, que não te deixou sem alguém para te resgatar; que seu nome seja célebre em Israel! Ele será para ti um consolador e um apoio na tua velhice, pois quem o gerou é tua nora, que te ama, que para ti vale mais do que sete filhos’. E Noemi, tomando o menino, colocou-o no colo e serviu-lhe de ama” (Rt 4,13-16).

Ao filho que Rute deu à luz chamaram Obed que quer dizer “o servo (de Iahweh)”, Obed gerou Jessé e Jessé gerou Davi. O amor de Rute por Noemi, a tornou instrumento nas mãos de Deus, para realizar a salvação de Israel[4]. O amor com que serviu sua sogra, colocou Rute, mesmo não sendo Israelita, na genealogia do Cristo, sinalizando, desde já, a generosidade de Deus que deseja salvar, em seu Filho, todas as nações. Somos também nós, chamados a agir com compaixão para com aqueles que Deus coloca em nossos caminhos, tal atitude, assim como na vida de Rute, tornar-nos-á instrumentos nas mãos do Criador, luz diante dos homens, cidade edificada sobre a colina, Sacramentos vivos do amor de Deus.


__________
[1]. De acordo com a lei do Levirato, a viúva sem filho do sexo masculino, deve ser desposada pelo cunhado; o filho que nascer dessa união será considerado filho do falecido, perpetuando seu nome e recebendo sua herança (cf. Dt 25,5-10).

[2] . O direito de respigar os campos era previsto pela lei, a fim de que aqueles que não podiam plantar e colher, adquirissem seu sustento, no entanto, para tal, era necessário o consentimento do dono das terras (cf. Lv 23,22; Dt 24,19)

[3] . Essa é a única vez na Sagrada Escritura em que se aplica a Lei do Levirato associando os bens do parente falecido à sua viúva.

[4] . Deixando-se ser instrumento nas mãos de Deus, Rute é responsável pela superação da lei que estabelecia que moabitas e seus descendentes de até dez gerações, que não poderiam adentrar ao templo de Iahweh, (cf. Dt 23,4-5).

In: Abadia da Ressurreição

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