O Livro dos Atos dos Apóstolos

No atual contexto de Tempo Pascal, a Liturgia nos apresenta a inspiração do Livro dos Atos dos Apóstolos. Pensamos ser oportuna essa publicação que tenciona pontuar algumas informações sobre este texto sagrado, oferecendo formação às comunidades de fé que também se inspiram – em seu caminhar – neste segundo livro da obra Lucana.

Boa leitura!

Hermes Fernandes

Conteúdo dos Atos dos Apóstolos

O livro dos Atos refere-se à história da Igreja, que nasceu em Jerusalém e se propagou até Roma, ilustrando de certo modo as palavras do Senhor em At 1,8:

“O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força. Sereis então minhas testemunhas em Jerusalém e Samaria, e até os confins da terra”.

Com outras palavras: tem-se a história da Igreja que passa dos judeus para os gentios, sob o impulso do Espírito Santo. Por isto Teofilacto († após 1078) dizia:

“Os Evangelhos apresentam os feitos do Filho, ao passo que os Atos descrevem os feitos do Espírito Santo”.

Na verdade, os Atos registram com frequência a ação propulsora do Espírito: 2,4; 4,8.31; 6,3; 7,55; 8,29; 13,2.4.52; 15,28; 16,6…

O livro se divide em duas partes: uma marcada por Pedro (At 1-12), e a outra marcada por Paulo (At 13-28). Entre estas duas partes, existe concatenação lógica, pois a atividade de Pedro, Apóstolo dos judeus, prepara a de Paulo, Apóstolo dos gentios: Pedro leva o Evangelho de Jerusalém à Judéia e à Samaria, chegando ao seu ponto extremo na conversão do primeiro pagão, Cornélio (10,1-11,18). Paulo desenvolve a evangelização dos gentios mediante três viagens missionárias em terras pagãs. O capítulo 15 é como que a colagem destas duas partes do livro: relata os debates do Concílio de Jerusalém, que terminaram pelo reconhecimento de que o Reino de Deus superara os limites do judaísmo e se estendia aos gentios.

Autor e circunstâncias de origem

A tradição atribui a São Lucas, autor do 3º Evangelho, a autoria de Atos.

1. O testemunho mais antigo que se tenha, é o do cânon de Muratori, de meados do séc. II E.C.:

“As proezas de todos os apóstolos foram escritas num livro. Lucas, com dedicatória ao excelentíssimo Teófilo, aí recolheu todos os fatos particulares que se desenrolaram sob seus olhos e os pôs em evidência, deixando de lado o martírio de Pedro e a viagem de Paulo da Cidade (Roma) rumo à Espanha”.

Os escritores posteriores fazem eco a este testemunho.

2. Examinemos agora o texto de Atos para perceber o que nos diz sobre seu autor:

A identidade de autor, para Lucas e Atos, depreende-se de que ambos escritos têm um prólogo (Lc 1,1-4 e At 1,1-3); o segundo alude à “obra anterior”. Os dois livros são dedicados ao “Excelentíssimo Teófilo” (At 1,1 e Lc 1,3), Além disto, nota-se que o início de Atos dá continuidade exata ao fim de Lucas (cf. Lc 24,47-53 e At 1,8-12).

O autor nunca cita o próprio nome nas listas dos numerosos personagens que acompanhavam S. Paulo. Todavia, ele descreve segmentos das viagens de São Paulo recorrendo à primeira pessoa do plural (o texto usa o pronome nós: 16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), isto é, incluindo-se entre os companheiros de São Paulo. A modéstia impedia-o de inscrever-se ao lado dos seus companheiros. Donde se conclui: se a tradição apontou Lucas como autor dos Atos, de preferência a outros mais conhecidos (Silvano, Timóteo, Tito…), esta indicação só se explica porque Lucas de fato escreveu Atos dos Apóstolos.

O estilo e o vocabulário de Lucas e Atos são afins entre si, convergindo em um único jeito de se expressar: 33 termos do Novo Testamento só se encontram em Lucas e Atos.

Quanto aos indícios de autor ser um médico em Atos (algo presente no imaginário popular, dando origem até a livros de ficção como “Médico de Homens e Almas”, de Taylor Caldwell ), são tênues: citam-se a cura do paralítico com seus pormenores em At 3,7, e a descrição da moléstia do pai de Públio em At 28,8.

O autor dá provas de espírito culto, de visão ampla e de fino senso teológico ao descrever a difusão do Evangelho.

3. O livro dos Atos, dedicado a Teófilo e a todos os gentios convertidos, foi escrito em Roma, conforme São Jerônimo ou, como prefere a exegese moderna, na Grécia. São duas possibilidades, para uma mesma questão.

A época de origem é discutida. Muitos argumentam a partir do encerramento do Livro de Atos, quando o autor diz que Paulo ficou por dois anos (61-63 E.C.) em Roma sob regime de prisão domiciliar (28,30s). Pergunta-se, pois: por que Lucas não relatou o desfecho desse período de prisão? Por que não relatou a libertação de Paulo (muito provável) ou a condenação (improvável) do mesmo? A resposta estaria no fato de que Lucas escreveu antes do fim do período de prisão, ou seja, por volta de 63 E.C. O argumento é significativo; obrigaria a recuar a data de origem do Terceiro Evangelho para antes de 63 E.C, visto que o Livro de Atos é posterior ao Evangelho de Lucas.

Outros estudiosos não se prendem ao silêncio de Lucas acerca do fim do período de prisão. Julgam que, para Lucas, o importante era apenas mostrar que o Evangelho, na pessoa de Paulo, havia chegado à capital do mundo antigo. O autor sagrado teria atingido seu objetivo narrando a vinda de Paulo a Roma. Em consequência, tais autores atribuem a Atos origem mais tardia, a saber: entre 70 e 80 E.C.

Não merecem atenção outros postulados. Os racionalistas de Tubinga, por exemplo, pretendiam, no século passado, atribuir aos Atos origem por volta de 150 E.C, pois tal livro teria sido escrito para harmonizar entre si as supostas facções, petrina e paulina, da Igreja antiga. É artificial ou destituída de fundamento tal hipótese. Desconsideremo-na!

O livro dos Atos aparece, antes, como a continuação do Terceiro Evangelho: é obra de catequese que tenciona complementar a formação cristã dos leitores e mostrar-lhes a Igreja como obra viva do Espírito Santo.

Fontes e historicidade dos Atos

Uma obra tão rica em notícias e documentos supõe ampla informação da parte do autor, que, aliás, era um pesquisador dedicado (cf. Lc 1,1-4, prólogo que precede toda a obra de Lucas a Teófilo). Os estudiosos têm procurado determinar as fontes utilizadas por Lucas, pois desta questão depende a fidelidade histórica de Atos.

1. Antes do mais, deve-se registrar o próprio testemunho ocular de Lucas. Este foi companheiro de Paulo em viagens missionárias, como também no itinerário de Cesaréia a Roma. Em consequência, deve ter escrito suas Memórias ou seu Diário, que aparecem com minúcias e intenso colorido nos trechos em que usa o pronome nós: 16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16. Especialmente esta última, marcada por linguagem técnica e vivaz, relatando peripécias de viagem e naufrágio, é testemunho eloquente da perspicácia e da cultura do autor. Fato: Lucas era homem letrado e culto.

A seguir, registramos tradições – escritas ou orais – recolhidas por São Lucas: as que dizem respeito à comunidade primitiva de Jerusalém (At 1-5), as que se referem à obra apostólica de determinados personagens, como Pedro (9,32-11,18; 12,1-19) e Filipe (8,4-40; cf. 21,8). A comunidade de Antioquia, primeiro centro missionário em terra pagã, deve ter oferecido a Lucas tradições referentes à sua fundação e aos judeus helenistas[1] (6,1-8,3; 11,19-30; 13,1-3). A tradição referencia que Lucas mesmo era antioqueno; cf. At 11,27, onde, segundo alguns manuscritos, Lucas se teria incluído entre os cristãos de Antioquia. O próprio São Paulo deve ter oferecido a Lucas informações sobre a sua conversão e suas viagens (9,1-30; 13,4-14,28; 15,36s). Lucas soube harmonizar todo esse material, dispondo-o em sequência concatenada; algumas vezes terá praticado cortes ou deslocamentos de dados, como parece ocorrer no capítulo 12. Isto é: 12,25 se liga diretamente a 11,30, de modo que 12,1-24 quebra o relato da viagem a Jerusalém.

2. A fidelidade histórica de Atos se depreende da precisão e da sobriedade das narrações: estas parecem fazer eco à vida real e concreta; tenham-se em vista especialmente a descrição da viagem para Roma (27,1-28,16), a estada de Paulo em Atenas (17,16-34), o tumulto dos ourives em Éfeso (19,21-40), a celeuma levantada contra Paulo no Templo (21,27-22,22)…

Especialmente os discursos transmitidos por Lucas em Atos foram impugnados: seriam obra artificial, pela qual, Lucas teria posto nos lábios dos oradores suas próprias palavras, à semelhança do que faziam antigos historiadores. Todavia, é difícil admitir que Lucas, por mais culto que fosse, pudesse – após decênios – compor discursos de caráter tão arcaico e semitizante como são os de Pedro (1,16-22; 2,14-36; 3,12-26; 4,8-12; 10,34-43; 11,5-17) e Estêvão (7,1-53). Sem dúvida, Lucas dispunha de documentos, que referenciavam esses discursos. Isto não nos surpreende, se levamos em conta que a catequese primitiva voltava sempre a alguns temas essenciais (promessas feitas aos Patriarcas, cumprimento em Cristo, infidelidade dos judeus, ressurreição do Senhor, apelo à penitência…), apoiados em argumentos ou raciocínios tradicionais e expressos de maneira cadenciada (mnemónica)[2]. Havia florilégios de textos do Antigo Testamento para apresentar Jesus aos judeus e reflexões de filosofia comum, para interpelar os pagãos. A temática da pregação dos Apóstolos era quase sempre a mesma.

Ademais, é de notar que grande parte desses discursos foram proferidos em aramaico. São Lucas teve que lhes dar sua forma grega, recorrendo ao seu estilo pessoal. Chama-nos a atenção também o fato de que o desenrolar de tais discursos se adapta bem aos respectivos destinatários: um é o modo de Paulo falar aos judeus (13,16-41), outro aos cristãos (20,18-35), outro aos pagãos (17,22-31), outro ao procurador romano (21,10,21), outro ao rei Agripa (26,2-23).

A mensagem de Atos dos Apóstolos

O livro dos Atos é precioso documento da história da Igreja nascente: informa-nos sobre a vida das comunidades primitivas (cf. 2,44-47; 4,32-34; 6,1¬7; 8,4-8; 12,12-17…), sobre a sua oração e a partilha de bens; sobre a administração do Batismo até mesmo a uma família inteira, inclusive às crianças (10,1 -2.24.44.47s; 16,13-15; 16,31 -33; 18,8; 1 Cor 1,16); sobre a celebração da Eucaristia (2,42.46; 20,7.11; 27,35); sobre a organização da Igreja nascente com seus presbíteros, epíscopos etc (cf. 11,30; 14,23; 20,17.28)… Isto tudo sempre aparece como obra do Espírito Santo, Espírito sobre o qual, Lucas havia insistido no seu Evangelho (Lc 4,1.14.18; 10,21; 11,13…) e que preside à expansão da Igreja. É essa ação do Espírito que comunica a Atos o seu perfume de alegria espiritual e de maravilhoso sobrenatural, que só pode ser estranho para quem não compreenda aquele fenômeno único no mundo que foi o nascimento do Cristianismo.

Além disto, os Atos nos informam sobre as concepções teológicas dos primeiros cristãos, que têm sua expressão fiel também nas epístolas de São Paulo: Jesus é o Kyrios, o Senhor, estando a sua humanidade, outrora padecente, totalmente penetrada pela glória da Divindade (2,22-36; 3,17-21; 4,10-12…). Percebe-se que os antigos cristãos se compraziam em ver na figura do Cristo o cumprimento da profecia do Servidor de Javé descrito em Is 52,13-53,12 (cf. At 3,13.26; 4,27.30; 8,32s); Descreviam-no, também, especialmente quando falavam a judeus, como o novo Moisés (3,22s; 7,20s). O salmo 15 (16), nos vs 8-11, servia para comprovar a ressurreição de Jesus (cf. At 2,24-32; 13,34-37), assim como o Sl 109 (110), o que podemos verificar em At 2,34s.

O texto dos Atos dos Apóstolos

Os manuscritos gregos dos Atos apresentam duas recensões: a chamada oriental e a ocidental (código D e escritores latinos até Santo Agostinho, † 430). A forma ocidental é mais do que 8% mais longa do que a oriental, acrescentando a esta, pormenores de grande vivacidade. O que podemos verificar em 11,27; 15,20.29; 19,1; 20,2; 24,6; 26,7s… Todavia, não é mais credenciada; por isto é reproduzido nas edições modernas dos Atos o texto oriental, mais enxuto. De qualquer forma, ao estudioso importará, sempre que possível, consultar as variantes do texto que as notas de rodapé lhe ofereçam, pois assim enriquecerá sua leitura. Essas referências podem ser encontradas na Bíblia TEB (Nova versão pela Ed. Loyola) e pela Bíblia de Jerusalém (Ed. Paulus).


Referências:

(1) Judeu helenista é aquele que tem o sangue israelita, mas vive no estrangeiro, imbuído da cultura do Império greco-romano.
(2) Mnemônico = Discurso e método que favorece a memorização

Para aprofundamento do tema, veja:

BALLARINI, T., Introdução à Bíblia, vol. V/1. Ed. Vozes 1974 BARBAGLIO, FABRIS, MAGGIONI, Atos dos Apóstolos. Ed. Loyola 1990.
DUPONT, J., Estudos sobre os Atos dos Apóstolos. Ed. Paulinas 1974.
GRELOT, P., Introdução à Bíblia, Ed. Paulinas 1971.
LAPPLE, A., Bíblia: Interpretação atualizada e catequese; vol. 3: Novo Testamento. Ed. Paulinas 1980.

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