O Livro de Josué | Parte 2: Problemas do livro de Josué

2.1. O herém ou anátema

Quem lê o livro de Josué, talvez se sinta impressionado pela crueldade do tratamento infligido por Israel aos adversários vencidos na guerra: homens, mulheres e crianças eram despojados de seus bens, reduzidos a escravidão ou mesmo passados ao fio da espada. Tal praxe era chamada “o herém” (anátema). Cf. Js 6, 17-19. 21. 24.26; 7,20-26; 8,24-28; 10,28-42; 11, 11s.21s.

Essa praxe era comum aos antigos povos em geral. Devia-se não só a um grau de cultura pouco evoluída, mas também a uma concepção religiosa estranha a nós: cada povo julgava que, na guerra, a honra dos seus deuses estava em jogo; uma derrota militar significaria desprezo para os deuses da nação vencida, assim como a vitória seria triunfo da Divindade. Por conseguinte, os guerreiros julgavam que aos deuses do vencedor deviam ser religiosamente imolados os homens, as famílias, as cidades, as posses do povo vencido.

Ora esse costume foi respeitado por Deus nas suas relações com Israel; a mentalidade seria aos poucos corrigida… Devemos mesmo dizer que, para os hebreus, o herém se tornava particularmente necessário: este povo, e ele só, possuía a verdadeira fé para um dia transmiti-la ao mundo; por conseguinte, era de sumo interesse que Israel não corrompesse a sua religião. Todavia, para manter incontaminada a crença de Israel, não havia outro meio senão a absoluta separação dos hebreus de entre os demais povos; a experiência mais de uma vez comprovou que, ao habitar pacificamente com tribos vencidas na guerra, os judeus se deixavam seduzir pelas suas pompas religiosas. Em consequência, era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o herém, a fim de evitar danos religiosos. Apoiando-se nestas ideias, o legislador sagrado assim recomendava o herém a Israel:

“Quanto às cidades dos povos que o Senhor teu Deus há de te dar como herança, nelas não deixarás a vida a nenhum indivíduo que respire. Entregarás esses povos ao anátema: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus, como o Senhor teu Deus te mandou, a fim de que não vos ensinem a imitar todas as abominações que eles cometem para com os seus deuses e não pequeis contra o Senhor vosso Deus” (Dt 20,16-18; cf. 7,2-4).

Quem leva em conta este texto, compreenderá o porque dos anátemas no livro de Josué. Eram um estágio na evolução do povo de Israel, colocado na escola de Javé.

2.2. A queda dos muros de Jericó

Em Js6,1-20 lê-se que, para tomar a cidade de Jericó, os guerreiros hebreus realizaram um artifício estranho: a mando do Senhor, os soldados, juntamente com os sacerdotes, que levavam a arca, durante seis dias seguidos deram a volta da cidade em procissão. No sétimo dia, deram sete voltas: as trombetas então tocaram e os quarenta mil filhos de Israel soltaram um brado forte. Em consequência, as muralhas de Jericó caíram e os invasores puderam penetrar na cidade.

Pergunta-se: que relação há entre as procissões, com seus toques de trombeta, e a queda dos muros?

Muitos comentadores supõem que as procissões tinham significado militar: teriam servido para amedrontar os habitantes de Jericó ou para prender a atenção destes, enquanto operários israelitas cavavam galerias debaixo das muralhas de Jericó…

Estas explicações não são absurdas, mas não satisfazem plenamente. Melhor é dizer que as procissões em torno da cidade tinham significado religioso, e não militar; é o que a epístola aos Hebreus insinua quando diz: “Foi pela fé que os muros de Jericó desmoronaram, depois de se lhes haver dado a volta durante sete dias” (Hb 11,30). Esta breve frase estabelece uma relação entre a fé dos israelitas e a conquista de Jericó, foi a fé de Israel que obteve de Deus a vitória. Em consequência, diremos: quando Javé inculcou as procissões aos filhos de Israel, quis exercitar a sua fé; praticando aqueles artifícios, os hebreus, antes do mais, professavam crer no auxílio de Deus, que dispensa máquinas de guerra desde que Ele queira realizar algum desígnio. Depois de ter experimentado essa fé, o Senhor recompensou-a, dando a vitória ao seu povo.

Firme este princípio, pode-se admitir que, para entregar Jericó aos israelitas em prêmio da sua fé, o Senhor se tenha servido de causas segundas: um terremoto (como ocorreu em 1Sm 14,15), pequenos combates (mencionados em Js 24,11), a sede, que pode ter flagelado os habitantes da cidade cercada (como em Jt 7,6). Em suma, podemos crer que o livro de Josué não nos refere a história completa da tomada de Jericó, mas se limita ao episódio que realçava a influência da fé naquela campanha militar.

2.3. Josué e o milagre do sol

Em Js 10,7-15 parece descrito o estacionamento do sol a pedido de Josué – episódio que muito ocupou os estudiosos no decorrer da história. Procuravam explicar o fenômeno como se a terra tivesse parado ou por um reflexo do sol numa nuvem situada no horizonte ou por uma chuva de meteoros (ou de corpos celestes), ou por relâmpagos que teriam iluminado extraordinariamente a noite…

Hoje em dia estas explicações são postas de lado, pois os estudiosos verificam que há um mal-entendido na base das mesmas: o texto sagrado não quer insinuar um milagre tão extraordinário. – Com efeito, quem lê atentamente Js 10,7-15, toma consciência de que aí há duas narrações paralelas provenientes de duas diversas fontes: uma em prosa, devida ao autor mesmo do livro, que abrange os vv. 7-11; e outra, em poesia, citação transcrita de outro livro (12-13b) e ornada de breve comentário (13c-14). O versículo 15 é comum às duas narrações.

De fato, o v. 11 refere ao leitor já o fim da batalha com a vitória de Josué; Israel foi nesta campanha ajudado por violenta tempestade de granizo, que “o Senhor desencadeou” (o que parece insinuar uma intervenção extraordinária de Deus). Após o v. 11, poderia seguir-se o v. 15, ou seja, a menção da volta de Josué ao acampamento. Ora entre os vv. 11 e 15 há um episódio (12-14), que reconduz o leitor às peripécias da batalha; vê-se que é um enxerto. Os vv. 12-13a referem a oração de Josué:

“Sol, detém-te sobre Gabaon,
E tu, lua, sobre o vale de Ajalon.
13a E o sol parou, a lua se manteve imóvel,
Até que o povo se tivesse vingado dos seus inimigos”¹.

O v. 13b indica a fonte donde foram transcritos os versos poéticos anteriores: o Livro dos Justos, também citado em 2Sm 1,17s; tal livro era uma coleção de cantos poéticos de Israel, que exaltavam os grandes feitos dos heróis nacionais. Os vv. 13c e 14 são um comentário em prosa da segunda parte do texto citado; devem-se ao autor da transcrição.

Esta análise nos mostra que os vv. 12-14 se referem à batalha descrita em 7-11, realçando em estilo poético o que ela teve de glorioso.

Pergunta-se agora: que significa a parada do sol no estilo poético?

Os judeus julgavam que a terra era plana e recoberta por um firmamento ou uma abóbada cristalina, sobre a qual o sol e a lua giravam. Quando fazia mau tempo ou tempestade, diziam que o sol se retirava para sua tenda no firmamento e lá ficava escondido e imóvel durante a tempestade (ver a propósito Hab 3,11). Por conseguinte, quando o texto sagrado diz que Josué pediu o estacionamento do sol, quer significar que Josué pediu uma tempestade para ajudá-lo a vencer os adversários. O texto diz-nos que Josué também pediu o estacionamento da lua…; a menção da lua ocorre unicamente para atender a lei do paralelismo poético (quem mencionasse o sol, mencionaria também a lua, no estilo poético). A tempestade deve ter sido longa (“quase um dia inteiro”, diz o v. 13c). Tão longa tempestade terá sido especialmente permitida por Deus para atender a Josué, que implorara auxílio na batalha.

Conforme esta interpretação, vê-se que o propalado estacionamento do sol de que fala Js, não é senão o desencadeamento de violenta e demorada tempestade de granizo. Duas narrativas – uma em prosa, devida ao autor de Js, e outra em poesia, citada de outra fonte e inserida no livro – referem essa tempestade; enquanto o primeiro relato usa estilo liso, o segundo recorre a uma imagem familiar aos antigos orientais.

Para aprofundamento do estudo, veja:
BALLARINI.T, Introdução à Bíblia, vol. II 12. Ed. Vozes 1976.
GRELOT, P., Introdução à Bíblia. Ed. Paulinas.
LAPPLE, A., Bíblia: interpretação atualizada e catequese. Vol. 1. Ed. Paulinas 1978.

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