“Bendito o que vem em nome do Senhor” | Reflexão sobre o Domingo de Ramos de 2022

Por Hermes Fernandes



Estamos caminhando para o fim de mais uma Quaresma. Tempo oportuno para aprofundar nossa experiência diante do Mistério Pascal de Jesus. Neste domingo, que abre a Semana Santa, a Liturgia nos propõe refletirmos sobre a entrada de Jesus em Jerusalém, para ser aclamado como Filho de Davi e para, alguns dias depois, ser julgado e condenado como um grande malfeitor, um bandido que subvertia o povo.

Adentramos no auge, ao ápice do Ano Litúrgico, com a solenidade das solenidades que é a Páscoa da Ressurreição do Senhor, no domingo próximo.

Vamos refletir sobre a entrega de Jesus na Nova e Eterna Aliança, na quinta-feira e na paixão e morte de Jesus, na sexta. Tendo o sábado como um dia de esperança, aguardando a realização da promessa do Senhor, de que ressuscitaria. Passamos estes dias ao lado da Virgem Maria, a Nossa Senhora das Dores, a Mãe da Esperança, no aguardo da Vida Nova.

No presente ano de 2022 uma grande parte das comunidades paroquiais terá celebração presencial, ao contrário dos anos passados de 2020 e 2021. Mesmo nestes anos passados, com forte necessidade de isolamento social, a graça de se celebrar o Mistério Pascal não perdeu sua efetiva proficuidade. Isso nos afervora o sentimento de meditação e contemplação, já que nada será motivo de dispersão, mas sim, de união com o Cristo que sofre sua Paixão. Podemos fazer um paralelo da Paixão de Jesus com a de nossos irmãos que enfermos e alguns que fizeram sua páscoa, vítimas da Pandemia. O sofrimento de Jesus nos remete aos sofrimentos que nos cercam. Nesta Semana Santa, não podemos nos esquecer daqueles que fizeram e ainda fazem o papel de Cireneu. Os médicos e enfermeiros – todos da área da saúde – que labutaram e ainda lidam direta ou indiretamente em favor daqueles que sofrem pelo Covid-19.

Nestes dias veremos na Virgem Dolorosa também as pessoas que, aflitas, acompanharam e ainda hoje sentem o sofrimento dos amados, dos queridos, daqueles que importam em suas vidas. Nos tempos de pandemia que custosamente estamos a vencer, faz-se em nós um reviver da Via Crucis de Jesus.

Esta semana será Santa em todos os sentidos. Vamos vivê-la na dimensão compassiva com todos os que padecem em nosso mundo. Pelo flagelo do Covid-19, por tantas outras formas de sofrimento que afligem nosso povo.

Para bem viver e celebrar, vamos às leituras de nossa Liturgia do Domingo de Ramos. A primeira leitura da missa deste domingo, extraída de Isaías 50, 4-7, se inicia dizendo que o Senhor deu ao personagem principal do texto capacidade de confortar pessoas abatidas. Ao mesmo tempo, o personagem principal sofre agressões e afrontas, mas não perde o ânimo porque sabe que o Senhor é o seu auxílio e não sairá humilhado dessa situação de ultrajes. A cena pode ser aplicada ao Cristo, em sua paixão, e a nós, em situações de profundo sofrimento. A esperança em Deus permanece. O Senhor pode não nos livrar de vexames e afrontas, mas ele nos liberta dessa situação e nos mantem, apesar das humilhações, com nossa dignidade intocável. O salmo responsorial, Sl 21 (22), descreve com tragicidade o que acontece com o Servo do Senhor, mas será o Sl 23(22), que nos falará do sentimento mais profundo durante a experiência de atroz sofrimento: “Ainda que eu caminhe por vale tenebroso nenhum mal temerei, pois estás junto a mim… minha morada é a casa do Senhor por dias sem fim.”

Na segunda leitura, tirada de Filipenses 2, 6-11, São Paulo nos fala explicitamente de Jesus Cristo ao fazer a kenosis de si mesmo, isto é, ao se esvaziar da postura de Filho de Deus para se preencher com a condição de servo e se igualar aos seres humanos.

A celebração deste domingo se enriquece com dois possíveis momentos da proclamação do Evangelho. O primeiro, se houver procissão, traz a narrativa da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Lc 19,28-40). O segundo, na liturgia da Palavra, o relato da paixão de Jesus segundo Lucas (Lc 23,1-49 – versão mais breve).

Para o evangelista Lucas, Jerusalém é o ponto de convergência da mensagem cristã. Para lá Jesus caminha, subindo para sua morte e ressurreição (9,51; 19,28). De lá os discípulos saem para comunicar a Boa-nova em outros lugares (24,49; At 1,8).

Então, Jesus entra em Jerusalém para completar sua missão. Sua vida é como grande subida a essa cidade, realizando a profecia segundo a qual Deus visita seu santuário (Ml 3,1). Entretanto, Jerusalém não reconhece a hora dessa visita; isto é, os poderosos que se concentravam na cidade rejeitam a presença e a mensagem de Jesus (19,39-40), enquanto os pobres, a multidão e os discípulos; aceitam a salvação trazida pelo Messias diferente, pobre entre os pobres, e nela acreditam (Lc 19,39-40).

Observamos, na cena do Evangelho de Ramos, o contraste entre a entrada de Jesus, montado em um jumentinho e acompanhado pelos pobres da Galileia, e a ostentação de poder e soberba por parte dos poderosos. De um lado, o servo humilde que dá a vida para a salvação do mundo; de outro, os condenadores que não acolheram a “visita” de Deus na pessoa de Jesus e promovem sua condenação e morte de cruz.

Em seguida, a narração da paixão de Jesus assume o ponto alto da liturgia da Palavra na Eucaristia deste dia. A longa leitura motiva-nos para a interioridade e para o silêncio que envolve o evento e provoca em nós um sentimento próprio, por ouvirmos o relato da morte de alguém, cujo sentido compreendemos pela fé.

Lucas apresenta algumas especificidades na sua versão da paixão de Jesus. Na última ceia, Jesus se propõe como exemplo de serviço (Lc 22,24-25); as mulheres estão presentes na caminhada e são consoladas por Jesus (23,27-28); o ladrão é perdoado na cruz (Lc 23,39-43); a morte é entrega confiante (Lc 23,46), em vez de grito de abandono. O evangelista demonstra, como em outras passagens, seu gosto pelo tema da misericórdia, a valorização dos pobres, a consideração pelas mulheres e a oração enquanto estímulo de toda ação de Jesus.

Por um lado, a alegria da entrada triunfante em Jerusalém, com a qual iniciamos as leituras; por outro, a trama do processo e do final da vida de Jesus, esvaziada de honras e privilégios, e plena de amor, realização e confiança em Deus. A subida de Jesus a Jerusalém representa sua descida aos mais profundos dramas humanos: a dor, o sofrimento e a morte. Ele encara essas realidades firmado na convicção da ação do Pai, sem recuar ou se acovardar diante dos desafios e ameaças.

As leituras nos fazem pensar na seriedade do seguimento de Jesus. Assumir seu itinerário de vida é nos dispormos a enfrentar as mesmas consequências, atualizadas para nossos tempos, sofrendo processos e condenações, reconhecendo cruzes e crucificados da contemporaneidade, tantas injustiças e mortes que clamam aos céus. A fé se torna o ingrediente indispensável nesse caminho, como foi para Jesus.

Vivemos essa entrega do Senhor a cada Eucaristia, onde ele assume nosso lugar e sendo homem e Deus, faz a aliança nova e eterna com o Pai, renovada a cada sim dado ao Pai, quando saímos de nós mesmos e aceitamos morrer e abraçar a vida nova.

A Quinta e Sexta Feira Santas celebram especialmente essa entrega do Senhor, que também pode, aos poucos, ir se tornando a nossa, quando conscientes no dia de nosso Batismo, demos o Sim radical ao Senhor da Vida, e a cada dificuldade o vamos repetindo, até o Sim absoluto dado na hora de nossa morte.

“Anunciamos Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus!”, aclamamos a cada consagração do pão e do vinho. Aí, jaz a esperança, ou melhor, a certeza de que a vida dará sua palavra final com a ressurreição. A do Senhor já aclamada, e a nossa, incrustada na dele.

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