Henri de Lubac um profeta do Sínodo, por padre Rafael Solano

Compreender, condicionar e absorver, três verbos propícios para o tempo sinodal de escuta

Por Padre José Rafael Solano Durán

No dia em que o Papa Francisco comunicou ao mundo o acontecimento do sínodo; imediatamente me veio a imagem do grande teólogo francês Henri de Lubac. Suas meditações sobre a Igreja pautaram e influenciaram positivamente a vida eclesial antes, durante e depois do Concílio Vaticano II. Me propus então a fazer junto do povo que me foi confiado na Catedral de Londrina uma reflexão sobre cinco destas meditações elaboradas por De Lubac. Podemos nos perguntar qual o alcance destas reflexões, sobretudo a sua atualidade diante do evento sínodo.  Temos diante de nós uma das maiores exigências já propostas: abordar um tema na sua complexidade e compreender a riqueza do mesmo. Evitarei definições que já foram feitas por outros teólogos sobre o tema sinodalidade e me limitarei a refletir à luz do pensamento de Henri de Lubac sobre o caráter de uma experiência sinodal.

Muitos perguntam-se qual deve ser o ritmo do sínodo? Outros já tentam responder sobre quais devem ser as conclusões do sínodo; outros se questionam sobre o poder decisivo do sínodo. Enfim, são inúmeras as reflexões e visões que sobre ele se podem ter. Gostaria de trazer uma reflexão do próprio Henri de Lubac, teólogo jesuíta e cardeal da Igreja. Reflexão que ele mesmo realizou e que eu considero a coluna vertebral do sínodo sobre a sinodalidade.

De Lubac assim se expressou numa das suas meditações sobre a Igreja:

“A Igreja não só é a primeira entre as obras do Espírito santificador, mas também compreende, absorve e condiciona todas as outras. Todo o processo da salvação se realiza nela. Para dizer a verdade, identifica-se com ela. Mais ainda: o mistério da Igreja é um resumo de todo o Mistério. É por excelência nosso próprio mistério! Abraça-nos por completo. Rodeia-nos por todos os lados, já que Deus nos vê e nos ama em sua Igreja, já que ele nos quer nela e nela é onde nós o encontramos e nela é também onde nós aderimos a ele e onde ele nos faz felizes”.

Compreender, absorver e condicionar. Três verbos que garantem o significado daquilo que já tinha sido dito por ele quando foi perguntado sobre a profissão de fé na Igreja. Naquela ocasião De Lubac disse: “A confissão de fé no Símbolo (o Credo) se pronuncia sempre como que em nome de toda a Igreja”. Este é o primeiro passo na etapa da escuta. Pronunciar e proclamar a fé em nome de toda a Igreja. É isto que nos ajuda a compreender que somos uma Igreja “semper reformanda”. O exercício epistemológico de elaborar um caminho de compreensão é muito mais do que um simples passo cognitivo. Quem compreende escuta com atenção aquilo que faz parte do mundo sensível da realidade. Para escutar precisamos compreender; compreender que somos chamados e sobretudo convocados a proclamar aquilo que na fé recebemos.

Vejamos agora o segundo dos verbos. Absorver. É um verbo que num certo sentido tem se tornado pejorativo, mas que na sua raiz traz uma das atitudes humanas mais profundas e significativas. Empapar-se, fazer com que algo desapareça por pura incorporação e assimilação. A sua etimologia nos ajuda a vivenciar uma realidade própria do Espírito. Ele nos embebe do seu amor; a sua ação direta nos transforma e a igreja vive a sua caminhada por assimilação constante. Na V conferência do episcopado Latino Americano; conferência de Aparecida se declara: “A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de co-munidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mun-do (cf. At 1,8)”. Só podemos viver a riqueza da comunidade por absorção. A vida missionária nos empapa da ação do Espírito e por isso mesmo nós tornamos discípulos e missionários.

O último e terceiro dos verbos. Condicionar. É um verbo que tem duas características, de um lado quando utilizado de maneira transitiva direta diz respeito a um comportamento; num certo sentido um fator determinante. Quando é utilizado de maneira bitransitiva tem uma conotação persuasiva. Poderíamos dizer com um autor do século XVII, Blaise Pascal, que só a persuasão ajuda-nos a compreender a plenitude da realidade. A evangelização num certo sentido acontece por persuasão no sentido de ser uma oferta gratuita a ser seguida. Nesta bela reflexão de Henri de Lubac encontrei uma proposta a ser seguida neste tempo sinodal e acredito que a todos nós pode nos contribuir a sermos mais atentos ao tempo de escuta. Deste primeiro momento dependerá a continuidade da nossa caminhada. Tempo de escuta, aprendamos e compreendamos a escutar atentamente.

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Padre José Rafael Solano Durán
Cura da Catedral Metropolitana de Londrina e Vigário Geral da Arquidiocese de Londrina, PR

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