Falemos com sabedoria e ensinemos com amor

Por Itacir Brassini, msf

É o segundo ano consecutivo que o povo brasileiro inicia a quaresma sem ter vivido o carnaval. Para muitos, é como ter vivido um duro tempo de penitência social e ter que iniciar um tempo de penitência quaresmal. E, infelizmente, não faltam pessoas que ainda insistem em atribuir a pandemia e a crise sanitária e sanitária que ela trouxe aos excessos de carnavais anteriores. Esta é uma forma perversa e detestável de encobrir as verdadeiras causas dessa tragédia humanitária.

Mesmo que o carnaval de salão continue a existir como passarela para exibicionismo da classe de cima, o mais puro e original do carnaval de rua continua sendo o protagonismo do povo. As pessoas que passam o ano inteiro dobradas sob o peso da exploração rasgam suas fantasias de povo submisso e lançam seu grito alegre e provocador, afirmando em cores e ritmos que a dignidade e a fraternidade são inegociáveis.

No domingo passado (27/02/2022) Jesus ensinava que um cego não pode oferecer-se como guia de outros cegos, e que não temos condições de apontar o cisco no olho do próximo se nosso próprio olhar está prejudicado pela sujeira. Com isso, ele já afirmava a necessidade de conversão permanente e alertava para a arrogância descabida de quem quer sentar-se na cadeira do juiz. Daí emerge a importância de uma campanha que suscite atitudes e gestos de fraternidade.

Falando em nome de Deus, o profeta Joel pede que rasguemos o coração e não as vestes, que mudemos nossas atitudes profundas e não a exterioridade das fantasias e máscaras. Já vivemos o suficiente para aprendermos que não basta mudar de governo, de partido ou de Igreja. A desumanidade corroeu todas as instituições e setores sociais. Sem arrependimento sincero, sem mudança profunda e estrutural não há esperança possível nem comportamento inocente.

Jesus suspeita até da religião e suas expressões mais piedosas. Ele ensina que não basta proclamar que Deus está acima de tudo, pois isso pode ser uso da religião para esconder interesses de classe. O simples uso público e político da religião já deve soar como sinal de alarme, pois pode beirar à hipocrisia e a busca de vantagens, elogios e votos. Ao mesmo tempo em que questiona o uso interesseiro da religião, Jesus repete que Deus vê o que está oculto ou escondido.

Junto com a certeza de que Deus vê aquilo que fazemos sem publicidade, precisamos cultivar o olhar de Deus, ou seja, a capacidade de ver aquilo que não tem notoriedade: a doação e o engajamento sincero e cotidiano de milhares de pessoas pelo bem comum; os grupos e movimentos que lutam pela paz e contra a guerra; a multidão de homens e mulheres que, em nome da sua fé, defendem e servem os pobres e as vítimas, e não apenas as vítimas das catástrofes.

No momento em que presenciamos atônitos e demasiadamente passivos a ação de “milícias digitais” que torcem tudo o que é reto e tornam palatáveis os venenos mais perniciosos, a Igreja do Brasil nos convoca a falar com sabedoria e ensinar com amor, como o fez Jesus. A Campanha da Fraternidade nos convoca a olhar criticamente para os processos educativos familiares, eclesiais e civis e vertê-los para um horizonte humanista, dialogal e libertador.

E quando somos obrigados a assistir desolados o espocar de mais uma guerra, dessa vez desejada e provocada pela Rússia, somos interpelados a superar nossos olhares enviesados e recordar outras tantas tragédias humanitárias provocadas por potências do ocidente que hoje se fazem passar por defensoras da soberania dos países e dos direitos humanos. Seus porta-vozes falam com hipocrisia e ensinam o que não fazem. Com eles, precisamos despir as máscaras de “pessoas de bem” e revestir-nos da verdade que despoja e nos eleva.

Jesus misericordioso e compassivo, que falas com sabedoria e ensinas com amor, dá-nos um coração sábio e capaz de reconhecer o teu Reino entre nós. Em tua misericórdia e habitando entre nós, testemunhaste o amor solidário de Deus e ensinaste o Evangelho que torna sábios aqueles que o mundo despreza. Que seu exemplo nos conduza a esta sabedoria e nos faça bons educadores, verdadeiros parteiros/as de uma humanidade renovada e sábia. Assim seja! Amém!

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Publicado Originalmente em CEBi


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