A Educação e sua Relação com a Tentação do Poder, do Corpo e o Rodízio de Berinjela na Inspiração de Lc 4, 1-13 | Reflexão de Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

O texto sobre o qual vamos refletir hoje é tirado de Lc 4,1-13. Trata-se das tentações de Jesus, no deserto, e de sua relação com o Tentador, o Diabo, aquele que provoca divisões. Estamos na Quaresma, isto é, um tempo de quarenta dias de preparação para a Páscoa, criado pela Igreja por volta do ano 350 E.C. Um tempo longo de deserto, de reflexão e de mudança de vida, tendo em vista a paixão, morte e ressurreição de Jesus.

A Igreja Católica, no Brasil, a cada ano, nesse período, propõe uma temática de reflexão. Esse ano é sobre a Educação. Vamos refletir a educação e sua relação com a tentação do poder, do corpo e o rodízio de berinjela na inspiração de Lc 4,1-13.

O que é isso educar? Educar para quê? Quem educa, hoje: a família, a escola, a Igreja, a televisão ou as redes sociais? Qual a relação entre educação, poder e tentação? Por que a mulher é chamada de tentação? O que é isso: “rodízio de berinjela”?

Diante de tantas perguntas tentadoras, vamos a possíveis respostas. Comecemos o lema da Campanha da Fraternidade (CF), tirado do livro de Pr 31,26: “Fala com sabedoria, ensina com amor”. A máxima apresenta a proposta judaica de educar, conservada pelo livro de Provérbios, e assumida por Jesus, como demonstra o cartaz da CF. Jesus está encurvado, na posição de escuta diante da mulher adúltera, que não é Maria Madalena. Ele ouve, procura entender o que a mulher tem a lhe dizer. Condenada pelos mestres, a mulher também está curvada em sinal de acolhida dos ensinamentos de Jesus. Jesus e a mulher têm as mãos no coração, que é a sede do conhecimento, na visão judaica, e da misericórdia, conservada na tradução latina do substantivo hebraico hahim, resultado da junção dos substantivos compaixão (miseratio) e coração (cordis), isto é, ter compaixão do coração, sentir, ouvir o outro.

Educar é o movimento da escuta, da compaixão, da interpretação e do transmitir, com amor, a sabedoria adquirida. O contrário de educação é cair na tentação de inverter o sentido dos valores, deseducando. O texto de Lc 4,1-13 é reflexo da educação judaica, unida à fé. Jesus e todo o judeu professavam a máxima da Lei: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, o teu ser e as tuas posses” (Dt 6,4-5). Lucas mostra que Jesus, no início de sua missão, é tentado, testado para ver se, de fato, Ele era o Filho de Deus e se estava convicto de sua missão. O tentador entra em cena no deserto, lugar do demônio Azazel, chamado de Diabo, que é a tradução grega do aramaico Satanás, aquele que divide para se impor, dominar, assim como o capeta do imaginário popular. Jesus não aceita se submeter ao poder das riquezas, das glórias e da saciedade oferecidas pelo Diabo.

Para se tornar um mestre, Jesus, na educação judaica, deveria ser provado três vezes. E foi o que aconteceu com ele, durante 40 dias. Jesus era judeu, mas agiu de forma diferente do seu povo, que esteve, simbolicamente, no deserto, por 40 anos; não resistindo à fome no deserto; discutindo com Moisés; colocando Deus à prova, duvidando de sua presença no meio deles (Êx 17,1-7); cedendo à tentação do poder do bezerro de ouro (Dt 9,12).

A conclusão para Lucas é a de que Jesus é o mestre, o educador preparado para falar com sabedoria e ensinar com amor. O jejum no deserto mostrou-lhe o caminho de Deus. Jesus é o novo Adão que resistiu ao tentador, o novo Moisés que passou pelo deserto e carregou sobre si a tentação do povo.  

Atualizando a nossa reflexão, partindo da ideia de que quando falamos de tentação, logo nos vem à mente a questão da sexualidade, e considerando que a Igreja ensinou, num passado recente, que existem dois tipos de diabos, demônios desencarnados e tentadores, o masculino, chamado Íncubus, e o feminino, Súcubus. A ação deles no ser humano começa pelo corpo, precisamente pela sexualidade, e atinge a alma. Eles podiam entrar no quarto de mulheres e homens durante a noite para ter relações com eles, tendo, assim, domínio sobre seus corpos.[1] Nessa perspectiva é que surge a visão de que a mulher é a presa fácil para a ação diabólica, pois elas não resistiam ao tentador. Acreditava-se que as feiticeiras tinham relação sexual, por meio de ritos orgíacos, com o demônio. O poder de fazer o mal de várias formas vinha dessa relação com o “Senhor do prazer”, o diabo.[2] Portanto, a mulher e suas malícias são obras do demônio, sobretudo as feiticeiras, por estragarem a ordem natural estabelecida do universo. O fim delas foi, infelizmente, a fogueira da inquisição.

A relação sexual entre seres humanos era sinal de fraqueza de ambos e colocava em risco o poder de domínio exercido por eles. Cultos, em civilizações antigas, celebravam o poder do homem, do macho, e a sua relação com o sagrado. A “tourada” é reminiscência dessa relação erótica de poder. O toureiro mostra o seu corpo bem formado para um público ávido de poder e erotismo. Ele mata o touro para restabelecer a ordem masculina do poder sagrado. Por mais vil que seja a cena, todos aplaudem a morte do touro.

Atualmente, essa relação de poder, que expõe o corpo, o erotismo e as futricas da vida real, exerce grande atração na televisão e nas redes sociais num programa que reina soberano há mais de 20 anos, o Big Brother, que de irmão não tem nada. As relações de poder são identificadas com o corpo e o prazer. Relação é estar 24 horas no mesmo local, fazendo a mesmice para os “mesmos de fora” assistirem fascinados a novela da vida real. Para muitos, isso é algo similar ao sabor de uma picanha suculenta, para outros, é semelhante a um “rodízio de berinjela” malpassada.  O vencedor do prêmio milionário é o que mais divide (diabo) na frenética luta de poder, no deserto da ausência da família e do mundo lá fora.

Como falar de educação diante dessa situação? Quais são os outros tipos de tentações que nos afligem? Ouso terminar com mais perguntas que respostas. Oxalá que o tempo quaresmal de reflexão e oração nos traga luzes para a vivência de uma educação que integra o ser e o poder, apesar dos tentadores. Deixemos que o Espírito Santo aja no deserto de nossas vidas. Amém!        

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[1} MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros: a Enciclopédia dos Mortos-Vivos. São Paulo: Makron Books, 1995. p. 29.
[2] KRAMER, Malleus Maleficarum, p. 31, citado por AVELINO, Jamil David. O medo na Idade Média (séculos X-XIII). 2010. 30p. Artigo (Licenciatura em História) – Faculdade Alfredo Nasser/Instituto Superior de Educação, Aparecida de Goiânia, 2010, p. 7.

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Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze.

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