Diálogo e perdão são fontes de cura para a nossa sociedade doente

REFLEXÃO DO EVANGELHO DE LUCAS 6,28-38

Leia a reflexão sobre Lucas 6,28-38, texto de Lenon Andrade*

Esta porção do evangelho de Lucas inicia com a ênfase que Jesus dá ao ato de escutar! Ele diz claramente, “eu falo à vocês que me escutam…” Falar e ser ouvido, sem interferência nenhuma, sem as barreiras do preconceito ou da intolerância, ou sem o zumbido barulhento da vaidade presunçosa de quem se julga superior aos outros, é o princípio fundamental do diálogo. Neste sentido, diálogo é valor que nos define como seres humanos porque alicerça relações saudáveis para a vida em comunidade.

Falar e ser escutado, ouvir para depois ser ouvido, desde que exista o desejo honesto de abertura para o outro, faz nascer afetos que se tornam fontes poderosas de cura interior para todos os sujeitos envolvidos na relação. Isso é tão humano e humanizador em Jesus de Nazaré que o apelo seguinte, descrito no texto, não poderia ser outro que não fosse o de que seus ouvintes internalizassem a pedagogia do perdão, como parte essencial de suas humanidades.

Gosto de pensar no significado da palavra perdão em seu sentido etimológico em consonância com o sentido produzido por Jesus Cristo, nesta porção do Evangelho. Desta maneira, se perdão quer dizer mudança da mente ou expansão da mente, traduzido da palavra grega metanoia, também significa pensar diferente ou compreender a realidade para além si, evitando assim, a armadilha diabólica de imaginar que as pessoas e o mundo são projeções de si mesmo. Assim, na perspectiva do Evangelho, o perdão é a primeira expressão que surge como expansão da mente para aceitar, acolher e amar aqueles e aquelas que são diferentes e pensam diferente de nós. O contrário disso, não passa de expressões do medo, do ódio e da ojeriza da mente cauterizada pela incapacidade de amar alguém além de si mesmo.

O Evangelho anunciado por Jesus de Nazaré denuncia o amor endereçado exclusivamente aos iguais como negação do verdadeiro amor, simulacro de bem querer, alinhamento com a projeção doentia de Narciso que “acha feio o que não é espelho” como diz o poeta.

Para ilustrar este raciocínio resgato aqui uma das frases mais sintomáticas do ressentimento desumanizador usada nestes tempos de gabinetes de ódio para atacar a Declaração Universal dos Direitos Humanos como está expressa naquela fórmula infeliz “direitos humanos para humanos direitos,” como se houvesse uma classe de “humanos direitos”, melhores e mais perfeitos que os demais humanos. O Evangelho entra em rota de colisão com essa lógica perversa que desumaniza, exclui e mata seres humanos. Em sentido diametralmente oposto, o Evangelho aponta para o amor incondicional do Pai, assimilado pelo discípulo como fonte de cura de si mesmo e da sociedade em que o discípulo vive.

Ao convocar seus discípulos para a demonstração prática de amor pelos inimigos com o cuidado efetivo, em oração, para com a vida de seus algozes, Jesus revela, de maneira definitiva e afirmativa, a natureza libertadora do reino de Deus. Nesta proposta revolucionária, de nascimento de uma outra sociedade humana possível, a vida das pessoas tem valor e dignidade plenas. Não há espaço para a cultura do cancelamento e nem para o descarte de seres humanos como se fossem CPFs a serem deletados de uma base de dados.

Esta porção do Evangelho revela o comprometimento da comunidade de Lucas na aplicação dos ensinos de Jesus de maneira radical, histórica, centrada no resgate inegociável da dignidade humana. Neste sentido, a pregação lucana aponta para relações horizontais, de igualdade, solidariedade e fraternidade em substituição aos modelos hierárquicos do império romano incorporado ao estilo de vida dos líderes judeus, sediados no templo de Jerusalém.

A comunidade de Lucas diz não ao moralismo legalista da religião judaica que, naquele contexto de crise civilizatória generalizada, usava a tradição e a lei de Moisés para alienar o povo, insuflar a divisão entre as pessoas e promover julgamentos injustos, seguidos de expulsões sumárias dos que eram considerados inimigos do templo. Quem não rezava na cartilha do Sinédrio corria o risco de ser julgado, preso, excluído e morto!

Em Lucas, o evangelho radicaliza a ideia de horizontalidade na vida comunitária, onde todos e todas são filhos e filhas do mesmo Pai, que também é Mãe, Deus amoroso que resolveu armar a sua tenda entre nós, nunca como um ídolo acima de todos ou acima de nós.

É por isso mesmo o Evangelho enfatiza: Escutem! Não julgueis! O reino de Deus já está entre vós. Amem seus inimigos cuidando deles em oração conclama a comunidade lucana… Eis a fonte de cura para a nossa sociedade adoecida, que também é cura para a terra, vítima do diabólico narciso que se recusa a amar algo ou alguém além de si mesmo.

Que Jesus de Nazaré nos ajude a encarnar o perdão e o diálogo como fontes de cura para toda a criação, incluindo todas as tribos raças e nações. Que nossos olhos vejam a porção medida, calcada, sacudida e transbordante prometida neste Evangelho. Que assim seja. Amém, amém e amém.

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*Lenon Andrade integra o CEBI Paraíba e é autor do livro “Café com Esperança: Para deixa a vida mais leve”, do CEBI Editora.

In: CEBi

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