De onde vem o termo “hebreu”?


 Por Luiz da Rosa

A origem do termo “hebreu” é fruto de muita discussão. Primeiro de tudo, essa palavra levanta algum problema ainda hoje. Por exemplo, em italiano se usa  o termo “hebreu” (ebreo) para definir os judeus. Os judeus, hoje, são aqueles que são filhos de uma mãe judia ou também alguém que se converteu ao judaísmo, obedecendo as regras dessa religião. Isso não nos ajuda a resolver o problema, mas põe uma base fundamental. Os judeus e, por consequência, os hebreus nunca foram considerados uma raça, mas sim um povo. Aliás o conceito de “raça” para o ser humano não existe cientificamente. É importante ter presente que alguém, mesmo não tendo nascido de uma mãe judia, pode ser tornar um judeu, um hebreu. Sublinha-se, portanto, a possibilidade de, através de uma escolha, pertencer a um grupo nacional, a um povo, do qual se pode entrar ou sair como para qualquer outro grupo ou nação. Ser hebreu/judeu, sob esse ponto de vista poderia ser visto como uma questão de escolha. Isso nos ajuda muito a evitar descriminação, embora nos afaste um pouco da sua pergunta.

Entrando mais tecnicamente na questão que você levanta, tradicionalmente “hebreu”, em português, é usado para classificar aqueles que se identificaram como “povo escolhido por Deus” no antigo Testamento, especialmente até à volta do Exílio na Babilônia. Depois do fim do exílio, principalmente com Esdras e Neemias, nasceu o judaísmo e a partir desse período cronológico, nós usamos o termo “judeu” para definir as pessoas que seguem essa religião. Eles são aqueles que continuam a tradição dos hebreus, os herdeiros dessa histórica. Sublinham, porém, como o termo “judeu” tem seus limites, ligando mais com os descendentes da tribo de Judá, com a região geográfica da “judeia”, aonde está Jerusalém. Os próprios judeus de hoje se chamam, em hebraico, “ivri” (עברי).

Ivri é o termo usado para descrever apenas dois personagens bíblicos, Abraão (Gênesis 14,13), como você menciona no seu texto, e Jonas. Os judeus, na Bíblia, são chamados normalmente de “filhos de Israel” (bne-Israel), que é o mesmo que “filhos de Jacó”. Jacó recebeu o nome de Israel depois da famosa luta com o anjo (Gênesis 32,24-34), uma palavra construída do verbo lutar (sciarah) e Deus (El), literalmente, Israel significa “aquele que luta com Deus”. Mas voltamos ao termo “hebreu”.

Como disse, esse vocábulo deriva do hebraico “ivri”, aparecendo, repetindo, em Gênesis 14,13:

Um sobrevivente veio informar Abrão, o hebreu, que habitava no Carvalho do amorreu Mambré.

A raiz desse vocábulo é  (עבר) que significa “parte / margem”. Hebreu significaria, portanto, alguém que está da outra parte, na outra margem. Poderíamos caracterizar assim o hebreu como aquele que provém de uma outra parte, de um outro lado ou que vai para um outro lugar, que deseja alcançar uma meta. Chamar Abraão de hebreu significa descrever a sua própria história, alguém que sai da sua terra e chega em Canaã: ele vem de outra margem, exatamente do outro lado do rio Eufrates. Hebreu é, portanto, aquele que está ou vai do outro lado, o “diferente” por antonomásia.

Origem do termo “hebreu”

Embora seja aplicado a Abraão e ele tenha morado em Hebrão, as duas palavras não estão à base do termo ibri. Provavelmente o termo deriva da maneira como os egípcios chamavam os povos estrangeiros que de alguma maneira, como escravos ou como ‘epregados’, os serviam. Eles usavam o termpo Ḫapiru (Apiru) para essa classe social. Os hebreus estiveram no Egito servindo aos egípcios, primeiro como amigos e, em seguida, como escravos.

No tempo do Êxodo, quando Moisés libertou o povo do Egito, na Idade de Bronze Média (1500 – 1200 antes de Cristo), os egípcios dominavam a terra de Canaã, a Terra Prometida. Nessa área, os egípcios dão notícia de que havia grupos ditos “hapiru” que invadiam a terra de Canaã. Isso mostra como que para os egípcios “habiru” eram outros povos ou grupos sociais de origem estrangeira. Muitos espertos pensam que essa é a palavra que está à base do termo “hebreu”.

Abraão, você dirá, veio antes de Moisés e do domínio egípcio em Canaã. É verdade. Mas precisamos lembrar que as histórias dos patriarcas, tais como as temos hoje na Bíblia, foram escritas muito tempo depois da sua vida e o autor já estava bem acostumado com o termo “hebreu”.

In: abiblia.org

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Luiz da Rosa
Luiz da Rosa

Natural de Santa Catarina, casado, vive atualmente em Roma, na Itália, onde trabalha como diretor de comunicações do Instituto dos Irmãos Maristas.

Possui o Bacharelado em Filosofia (1988-1990 – Instituto Filosófico Franciscano de Curitiba). Cursou 4 anos de teologia em Jerusalém (1991-1994 – Istituto teologico Ierosolumitano). Conseguiu o Mestrado em Ciências Bíblicas no Pontífico Instituto Bíblico de Roma (1996-2000) e dois anos mais tarde superou a Lectio Coram que lhe dava o direito de seguir com o doutorado pelo mesmo instituto. Fez os cursos para o doutorado, mas não terminou a Tese.

Em 2015 concluiu um mestrado de Comunicação Intitucional Religiosa na Faculdade Blanquerna de Barcelona, na Espanha.

Foi Professor de Sacrada Escritura no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (1995 e 2001) e também professor de Tecnologias da Comunicação em Âmbito Religioso, de 2009 a 2011, na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma.

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