Medellín em gotas – parte 19: Pastoral familiar – um estudo de Frei Marcos Sassatelli, OP

No documento “Família e Demografia”, a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín – depois de apresentar a realidade da família latino-americana e caribenha, refletir sobre o papel da família nessa mesma realidade e tratar da questão demográfica – faz, no final, algumas recomendações para a pastoral familiar.

A Conferência parte de uma constatação: “Por vários fatores históricos, étnicos, sociológicos e até caracterológicos, a instituição familiar sempre teve, na América Latina (e Caribe), uma importância global muito grande. É certo que nas grandes cidades perde parte de sua importância. Nas áreas rurais, que formam ainda a maior parte do continente, apesar de todas as transformações externas, a família continua a desempenhar um papel primordial tanto no campo social, quanto no cultural, no ético ou no religioso”.

Afirmam os bispos: “Por isso e mais ainda pela condição da família de formadora de pessoas, educadora na fé e promotora do desenvolvimento (da vida), mas também a fim de sanar todas as carências de que ela padece e que tem graves repercussões, julgamos necessário dar à pastoral familiar uma prioridade na planificação da pastoral de conjunto”. E ainda: “Sugerimos que esta seja planejada em diálogo com os casais que, por sua experiência humana e pelos carismas próprios do sacramento do matrimonio, podem auxiliar eficazmente em sua elaboração”.

Segundo a Conferência, a pastoral familiar “deve conter, entre outras coisas, as seguintes metas e orientações fundamentais:

  1. Procurar, desde os anos da adolescência, uma sólida educação para o amor que integre e, ao mesmo tempo, ultrapasse a simples educação sexual, inculcando nos jovens de ambos os sexos a sensibilidade e a consciência dos valores essenciais: amor, respeito, dom de si mesmo etc.
  1. Difundir a ideia e facilitar, na prática, uma preparação para o matrimônio, acessível a todos os que vão se casar e tão integral quanto possível: física, sociológica, jurídica, moral e espiritual.
  1. Elaborar e difundir uma espiritualidade matrimonial baseada simultaneamente numa clara visão do cristão leigo no mundo e na Igreja, e numa teologia do matrimônio como sacramento.
  2. Inculcar nos jovens em geral e sobretudo nos casais jovens a consciência e a convicção de uma paternidade realmente responsável (…).
  3. Despertar nos esposos a necessidade do diálogo conjugal que os leve à unidade profunda e a um espírito de corresponsabilidade e colaboração.
  4. Facilitar o diálogo entre pais e filhos que ajude a superar, no seio da família, o conflito de gerações e torne o lar ‘um lugar onde se realize o encontro das gerações’ (GS 52).
  5. Fazer com que a família seja verdadeiramente uma ‘igreja doméstica’: comunidade de fé, de oração, de amor, de ação evangelizadora, escola de catequese etc.
  6. Levar todas as famílias a uma generosa abertura para as outras famílias, inclusive de concepções cristãs diferentes; e sobretudo para as famílias marginalizadas ou em processo de desintegração; abertura para a sociedade, para o mundo e para a vida da Igreja”.

Finalmente – declara a Conferência – “queremos estimular os casais que se esforçam por viver a santidade conjugal e realizam o apostolado familiar, bem como os que, ‘de comum acordo, de forma bem ponderada, aceitam com magnanimidade uma prole mais numerosa para educá-la condignamente’ (GS 50)”.

Os bispos concluem dizendo: “Bem planejada e bem executada mediante os movimentos familiares, tão meritórios, ou mediante outras formas, a pastoral familiar contribuirá, certamente, para fazer de nossas famílias uma força viva (e não, como poderia acontecer, um peso morto) a serviço da construção da Igreja, do desenvolvimento (da promoção da vida) e da realização das necessárias transformações em nosso continente”.

Todas as “metas e orientações” do documento “Família e demografia” para a pastoral familiar são de fundamental importância e continuam plenamente atuais.

Destaco duas: Primeira: as famílias precisam ser “comunidades de fé, de oração, de amor e de ação evangelizadora”. Segunda: as famílias precisam ter “uma generosa abertura para as outras famílias, inclusive de concepções cristãs diferentes; e sobretudo (reparem!) para as famílias marginalizadas ou em processo de desintegração; para a sociedade, para o mundo e para a vida da Igreja”.

A pastoral familiar deve colaborar na formação de famílias cristãs profundamente humanas, sensíveis aos desafios do mundo de hoje, que saibam escutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho e, por fim, que sejam verdadeiras “Igrejas domésticas em saída”, em missão.

A pastoral familiar não pode criar clubinhos de amigos e amigas, fechados sobre si mesmos, com mentalidade elitista e preocupados somente com seus próprios interesses (mesmo que sejam espirituais) ou, no máximo, com os interesses de sua Paróquia. Se fizer isso, estará incentivando o “egoísmo familiar” ou “paroquial”.


E a nossa pastoral familiar? Como está sendo? Quais são seus principais objetivos? Meditemos!

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Blog do Frei Marcos

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