Medellín em gotas – parte 18:  Questão demográfica – um estudo de Frei Marcos Sassatelli, OP

No documento “Família e Demografia” – que é o terceiro – a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín – depois de apresentar a realidade da família latino-americana e caribenha e refletir sobre o papel da família nessa mesma realidade – trata da questão demográfica.

Afirma: “A questão demográfica em nosso continente reveste-se de uma complexidade e delicadeza peculiares”. De um lado, é certo “que existe um rápido crescimento da população” (índice de nascimento, índice de mortalidade infantil baixo mas não satisfatório, índice de longevidade crescente); de outro lado, é certo também “que a maioria de nossos países sofre de subpopulação e precisa de um aumento demográfico como fator de desenvolvimento”; e ainda “que as condições sócio-econômico-culturais, excessivamente baixas, se mostram adversas a um crescimento demográfico pronunciado”.

Os bispos, conscientes de sua responsabilidade, declaram: “Como pastores, sensíveis aos problemas de nossa gente, fazendo nossas suas dores e angústias, julgamos necessário enunciar os seguintes pontos sobre esta matéria”:

  1. Todo enfoque unilateral e toda solução simplista a respeito desses problemas são incompletos e equívocos. “Aparece como particularmente daninha a adoção de uma política demográfica antinatalista que tende a suplantar, substituir ou relegar ao esquecimento uma política de desenvolvimento (promoção da vida) mais exigente, mas a única aceitável. ‘Trata-se, com efeito, não de suprimir os comensais e sim de multiplicar o pão’ (Paulo VI)”.
  2. A Encíclica Vida Humana (Humanae Vitae – HV), pelo seu caráter social, tem – ao lado da Desenvolvimento dos Povos (Populorum Progressio – PP) – uma importância especial para o nosso continente. Ante nossos problemas e aspirações, a HV:
  1. “Acentua a necessidade imperiosa de sair ao encontro do desafio dos problemas demográficos com uma resposta integral e orientada para o desenvolvimento (promoção da vida).
  2. Denuncia toda política fundada num controle indiscriminado da natalidade, isto é, a qualquer preço e de qualquer maneira, sobretudo quando se torna condição de ajuda econômica.
  3. Ergue-se como defensora dos valores inalienáveis como: o respeito à pessoa humana, especialmente dos pobres e dos marginalizados, o valor da vida, o amor conjugal.
  4. Contém um apelo e um estímulo à formação integral das pessoas mediante uma autoeducação dos casais, cujos elementos principais são: o autodomínio, a rejeição de soluções fáceis, mas perigosas por serem alienantes e deformadoras, a necessidade da graça de Deus para o cumprimento da lei, a fé como estimuladora da existência e um humanismo novo, livre do erotismo da civilização burguesa etc.”.
  5. O próprio Papa Paulo VI – diz a Conferência – reconhece que a aplicação da Encíclica na parte a que se refere à ética conjugal, ”aparecerá facilmente aos olhos de muitos como difícil e até impossível na prática” (HV 20).

Os bispos, conhecedores dessas dificuldades e empenhados em oferecer seu apoio a todos/as que procuram viver o ideal que a HV propõe, indicam os seguintes pontos:  

  1. “O ensinamento do magistério na Encíclica é claro e inequívoco a respeito da exclusão dos meios artificiais para tornar voluntariamente infecundo o ato conjugal (HV).
  2. Mas o próprio Santo Padre reafirmou, ao inaugurar a Conferência: ‘Esta norma não constitui uma cega corrida para a superpopulação nem diminui a responsabilidade, nem a liberdade dos cônjuges, a quem não se proíbe uma honesta e razoável limitação da natalidade, nem impede os meios terapêuticos legítimos, nem o progresso das investigações científicas’ (Discurso ao inaugurar a II Conferência Episcopal Latino-americana).
  3. A vida sacramental, sobretudo como caminho para uma progressiva maturidade humana e cristã do matrimônio, é um direito e, mais ainda, um dever, e corresponde a nós, pastores, facilitar esse caminho aos casais cristãos.
  4. A ajuda mútua que os casais se proporcionam ao reunirem-se, apoiados por peritos em ciências humanas e sacerdotes imbuídos do espírito pastoral, pode ser inestimável aos que, apesar de suas dificuldades, procuram alcançar o ideal visado.
  5. Formulamos o propósito, e procuraremos cumpri-lo, não só de prestar ‘nosso serviço às pessoas que lutam com essas dificuldades, com o coração de bom pastor’ (HV, e Discurso de abertura da II Conferência), mas também, e de modo especial, de hipotecar nossa solidariedade aos casais que sofrem, por meio do exemplo de nossa própria abnegação pessoal e coletiva, na pobreza real, no celibato assumido com sinceridade e vivido com seriedade e alegria, na paciência e dedicação aos seres humanos, na obediência à palavra de Deus e, sobretudo, na caridade elevada até ao heroísmo”.

A Conferência, inspirada na HV, apresenta o ideal humano e cristão (radicalmente humano) do matrimônio (vida matrimonial) e da família (vida familiar) para nossa realidade latino-americana e caribenha.

Refletindo, porém, sobre esse ideal, podemos levantar alguns questionamentos:

  • O que entendemos por “meios artificiais” e “meios naturais”? Tem sentido fazer essa distinção? Os “meios naturais” são somente os “meios biológicos” (ou seja, os meios que seguem os ritmos biológicos do corpo humano)? Numa visão existencial integral da natureza humana, os meios que – à luz da razão iluminada pela fé – um casal cristão escolhe para fazer – com responsabilidade e amor à vida – o seu planejamento familiar, não são “meios naturais”?
  • Temos a capacidade de reconhecer, entender, respeitar e valorizar as etapas da caminhada de crescimento de cada casal e de cada família – em sua situação histórica concreta – rumo ao ideal apresentado?
  • Sabemos aceitar (sem julgar e sem condenar) – reconhecendo seus valores – situações familiares diferentes, como as uniões homoafetivas (LGBTs)?               

Jesus foi sempre muito humano e respeitoso para com as pessoas. Era a partir de sua realidade que Jesus suscitava nas pessoas a capacidade de abrir novos horizontes e encontrar novos caminhos de vida. Lembremos, por exemplo, o seu encontro com a samaritana (cf. Jo 4,5-42) e com a mulher pecadora (cf. Lc 7,36-50).

Jesus só não tolerava a hipocrisia e a falsidade: “Raça de cobras venenosas! Se vocês são maus como podem falar coisas boas? Pois a boca fala aquilo de que o coração está cheio” (Mt 12, 34). Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora, parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça” (Mt 23,27-28). Pensemos!

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Blog do Frei Marcos

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