Apresentação do Senhor: “Pois meus olhos viram a vossa salvação” (Lc 2,30)

Por Hermes Fernandes

Aos 02 de fevereiro, a Igreja celebra a Apresentação do Senhor. Neste dia, o tema central é a apresentação do Menino Jesus no Templo, conforme a tradição judaica previa. Jesus, Luz das Nações, é reconhecido por Simeão (cf. Lc 2,30). Com ele, nossos corações estão em festa. A Apresentação do Senhor tem proximidade com a Festa das Luzes, caracterizada pela benção solene de velas e procissão. Dada esta manifestação litúrgica de fé, recebeu também o nome de “Festa Candelária” ou “Festa das Candeias”.

Assim como a ḥănūkkāh, Festa das Luzes Judaica, a Festa das Candeias Cristã, vem significar o advento da Libertação. A ḥănūkkāh tem suas origens no século II a.E.C, ano de 167, quando Israel era dominada pelos gregos. Estes, proíbem certas práticas judaicas, entre elas, a circuncisão, o  shabāt (sábado judaico), e – para o horror dos judeus – pegam o Templo de Jerusalém, lugar mais sagrado para o judaísmo, e o transformam em um templo pagão. Sob o afã desta afronta, os judeus declaram guerra aos gregos. Guerra ao maior império e maior exército da época. Contra todas as probabilidades, um grupo de judeus – sem nenhum treinamento militar, sem um exército organizado – vencerão os gregos. Uma vitória quase que milagrosa, conquistando sua liberdade e reconquistando o Templo de Jerusalém.

Sob a afronta dos gregos, o primeiro a reagir diante das provocações de Antíoco IV foi Matarias, levita (1Mc 2,1), da aldeia de Modin situada a noroeste de Jerusalém. Ali, matou o representante do rei, bem como um judeu que sacrificava às divindades gregas sobre o altar, sob a ordem dos gregos (1Mc 2,24-25). Assim começou a luta contra os judeus que aderiram ao modo de vida helênica e contra a opressão dos Selêucidas. Uma batalha improvável, dolorosa e impossível, como mencionamos acima. Para a surpresa da história, com vitória dos judeus.

Com a vitória sobre os gregos e a retomada do Templo, os judeus procedem à sua purificação; no desejo de reinaugurá-lo, assim como, retornar ao culto a Javé. É neste sentido que se insere a palavra  ḥănūkkāh, que chega para nós com o significado de inauguração. Para que o templo volte a funcionar, a menorah, candelabro de sete braços, teria que estar acesa. Usava-se azeite de oliva puro, especial para o Templo de Jerusalém. Segundo conta a tradição, aconteceu que ao buscar azeite para o menorah, foi encontrado um só recipiente. O suficiente para um dia. Para se fabricar azeite, seriam necessários oito dias. Como que por intervenção de Javé, aquele azeite que manteria o candelabro aceso por um dia, manteve-se queimando por oito. Por isso, os judeus hoje usam, nos festejos da Festa das Luzes, um castiçal não mais de sete luzes e, sim, de oito ou nove que se chama channukyah (ḥănūkkyāh). Uma referencia à multiplicação do azeite, e – consequentemente – da libertação de Israel dos gregos. As oito luzes remetem-se aos oito dias em que a menorah esteve acesa. A nona é usada para acender as oito luzes já mencionadas. Diante deste contexto histórico, podemos inferir que a Festa das Luzes Judaica tem forte sentido de Libertação de Javé em Aliança ao seu Povo oprimido e humilhado.

Assim como os Judeus, no tempo da ocupação helênica, viviam sob lancinante opressão social e política; no tempo de Jesus – quando da ocupação romana – tais sofrimentos não eram ausentes.

Os historiadores que escreveram sobre o contexto sociopolítico da época, relatam-nos que Jesus nasceu sob o reinado de Herodes I, o Grande (Mt 2,1), que era rei vassalo do imperador romano. Quando Herodes morreu (ano 4 e.C.), o reino foi dividido entre seus três filhos, com o consentimento do imperador Augusto, que, não dando atenção ao testamento de Herodes, simplesmente não outorgou o título de rei a nenhum dos três. A Arquelau couberam como etnarca ou régulo a Judéia, província do sul, e a Samaria, província do centro (Mt 2,22). A Herodes II Antipas coube como tetrarca ou vice-rei a Galileia, província do norte, e a Transjordânia (Jo 6,1.23). E Felipe herdou como tetrarca o território a leste do Jordão e do lago da Galiléia até o norte (Mt 16,13 e paralelos). Arquelau foi deposto e exilado pelo imperador Augusto por causa de sua crueldade. Roma nomeou um procurador para ocupar seu lugar (ano 6 e.C.). Herodes Antipas governou até 39 e.C., quando foi deposto e exilado pelo imperador Tibério. Sua tetrarquia passou a ser de responsabilidade da província romana da Síria. Felipe ficou no cargo até sua morte (ano 33/34 e.C.). Seu território também ficou dependendo da Síria.

Uma grande estratégia de Herodes, o Grande, instituído rei dos judeus pelos romanos, foi empreender com apoio do povo judeu a reconstrução do Templo, destruído em 63 a.e.C. A reconstrução que se iniciou em 20 a.e.C. foi até meados da guerra judaica em 66 e.C., quando o Templo é destruído novamente em 70 e.C., pelo imperador Tito.

No início de seu Evangelho, Lucas faz alusão a este contexto histórico mais amplo, informando que o nascimento de Jesus, “aconteceu”, egheneto, quando César Augusto era imperador e decretou um recenseamento (2,1-7). O termo egheneto tem caráter de fato ocorrido, de discurso de verdade factual. Este trecho, mesmo sendo citado por grandes historiadores, possui problemas referentes ao seu contexto histórico: o recenseamento de que Lucas fala parece não estar situado corretamente no tempo, e possui características diferentes em relação aos censos realizados em Roma. Para esclarecer de fato essa situação, faz-se necessário analisar duas questões: o ano em que Jesus nasceu e como eram feitos os recenseamentos da época.

Outros historiadores relatam-nos que a primeira aparição pública de Jesus foi entre 26 e 29 e.C. Nessa época a Galileia vivia profundas tensões estruturais entre judeus e gentios, cidade e campo, ricos e pobres, governantes e governados. Ao proclamar a mudança de todas as coisas que já começava no presente, Jesus encontrou ouvintes que tinham inúmeras razões para ansiar por essa mudança.

O sistema judeu teve muita liberdade nas questões referentes aos assuntos internos e de autogoverno, durante o regime dos procuradores. Após a saída de Arquelau (ano 6 e.C.), passou-se de um governo monárquico para outro, de constituição aristocrática; confiou-se ao Sinédrio ou Conselho supremo a responsabilidade da nação, com plenos poderes legislativos e executivos. O sumo sacerdote passou a ser qualificado como Chefe de Estado. Entre os anos 4 e 41 e.C., o sumo sacerdote era designado pela autoridade romana, legado da Síria ou pelo procurador da Judéia.

Esta dupla influência, uma romana e outra judaica, com seus sistemas legais e instituições jurídicas próprias, foi motivo permanente de conflitos, embora neste regime os judeus tivessem certa autonomia. O Sinédrio era composto pelos sumos sacerdotes, anciãos e escribas. As pessoas empobrecidas pelo sistema, as que não se enquadravam nos padrões estabelecidos da época, sempre eram colocadas à margem da sociedade. Em função dessas influências, tanto dos romanos como dos judeus, Jesus desfez relações com muitos esquemas tradicionais nas esferas políticas, sociais, religiosas, econômicas, entre outras, que produziam opressão e exclusão.

Como aponta as mais apuradas pesquisas históricas, no mundo judaico, não havia distinção entre política e religião. Questões como política, sociedade, economia e religião eram consideradas em termos de Deus e sua Lei.

Naquela época, a unidade política se assemelhava à unidade econômica e religiosa. Internamente, a religião ditava as regras, os valores e as metas da política pela articulação e expressão da religião. Neste sentido, funcionários religiosos eram também personagens políticos, cujo foco estava na divindade como fonte de poder e força, de quem vem a ordem, o bem-estar e a prosperidade tanto para o corpo político e quanto para os detentores do poder.

Por isso, a própria morte de Jesus teve um profundo caráter político, uma vez que foi assassinado numa cruz, coroado com espinhos, como alguém que foi acusado de ambicionar ser Rei de Israel. Sua morte é o ápice das consequências provocadas pelas tensões e conflitos de um homem carismático que veio do campo, anunciando uma mudança cósmica que transformaria inclusive o Templo com os detentores e defensores do status quo.

Enfim, a pregação do Reino de Deus possuía aspectos politicamente explosivos, com grandes implicâncias para a época. O Povo ainda era oprimido e marginalizado. Sob estas mazelas, vem Jesus. Messias dos pobres.

Em Jesus a esperança se renova. Assim foi predito pelos profetas.

Ao leitor atento do Evangelho de Lucas fica clara a correlação entre o Primeiro e o Segundo Testamentos. Não se trata de história propriamente dita. Lucas mistura dados históricos e alusões ao Primero Testamento. Com isso, produz uma narrativa profética, mostrando a missão de João Batista e de Jesus, de forma inter-relacionada. João é o último dos Profetas, anunciando o início da realização das Promessas (cf. Lc 1,76-77). Enquanto isso, Jesus é a própria Promessa, o Messias prometido, o Filho de Deus que veio trazer o Reino para todos (cf. Lc 1,32-33; 2,29-31). Como este restaurador de todas as coisas. Este Messias, Jesus, se faz Luz e Esperança.

A celebração da Apresentação do Senhor vem liturgicizar esta dimensão libertadora da Novidade: o Messias está no meio de nós. Daí as candeias, ou candelárias. Finalmente a Luz brilhou entre nós. Atualizando a Aliança de Javé, nossa ḥănūkkāh. Não é atoa que o belíssimo cântico de Simeão nos diz:

“Deixai agora vosso servo ir em paz,
Conforme prometestes, ó Senhor.
Pois meus olhos viram a vossa salvação,
Que preparastes ante a face das nações:
Uma Luz que brilhará para os gentios,
E para a glória de Israel, o vosso Povo.” (Lc 2,29-32).

Verdadeiramente, nesse dia da Apresentação do Senhor, todas as Nações estão em festa! A Luz habitou a Casa Humana. O Verbo se fez Homem, e habitou entre nós (cf. Jo 1,14). E, como nos disse Simeão, nossos olhos viram a Salvação (cf. Lc 2,30)!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: