Uma Igreja que segue Jesus sempre será profética

Por Itaci Brassiani msf

Quem acolhe e escuta a Palavra sente a voz de Deus queimar como brasa, e não consegue ficar indiferente diante das mentiras e disfarces que encobrem tragédias previsíveis e culpáveis, nem das práticas de exploração e discriminação. O próprio Jesus confirma isso: depois de ler e acolher a palavra do profeta Isaías, se propõe a cumpri-la fielmente, esquecendo-se dos próprios parentes e compatriotas e priorizando as pessoas mais pobres necessitadas. Rompendo com as expectativas do seu povo e da sua família, Jesus terá que enfrentar a oposição e a perseguição.

A Igreja é uma comunidade profética, sacerdotal e de serviço à vida. Mas ninguém é instituído profeta, nem aprende este ofício num seminário ou numa universidade. A profecia é dom do Espírito, dom que recebemos com temor e tremor. Ela se desenvolve no ventre de uma comunidade que se coloca à escuta da Palavra de Deus, pungente no clamor de todas as vítimas. Quem não se fecha à voz de um Deus que fala e interpela, sente a Palavra queimar suas entranhas e não consegue viver indiferente à causa de Deus, que é a causa dos pobres, das vítimas, dos excluídos.

Uma comunidade que ouve e medita a Palavra acaba também amadurecendo no serviço à Boa Notícia de Deus. Vemos isto na experiência de Jeremias. Ele tem a sensação de que a Palavra que o chama é anterior ao seu próprio nascimento. “Antes de formar-te no seio de tua mãe, eu já contava contigo. Antes de saíres do ventre, eu te consagrei e fiz de ti profeta para as nações”. É isso que percebemos também no próprio itinerário de Jesus: depois de ler e acolher a Palavra do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré, ele conecta para sempre sua vida à causa dos oprimidos.

Um olhar atento aos evangelhos nos leva a perceber como, por causa de seu radicalismo profético, Jesus foi experimentando uma progressiva marginalização. Houve um momento em que sua fama se espalhava por toda a região e todos o elogiavam. Enquanto lia as escrituras, todos tinham os olhos fixos nele e estavam maravilhados com as palavras cheias de graça que saíam da sua boca. Mas o entusiasmo logo se transformou em fúria e desejo de eliminá-lo, quando ousou questionar o privilégio dos judeus em relação aos pagãos.  E nisso Elias e Eliseu lhe serviram de paradigma.

No passado, Elias privilegiara uma viúva menosprezada porque era estrangeira, e Eliseu curara um pagão, que os judeus situavam abaixo dos cães. Jesus defendeu ardorosamente a dignidade das mulheres, dos pecadores, dos pobres, dos doentes, dos migrantes e estrangeiros. Esse é o caminho da profecia, que no Brasil de hoje passa pela defesa do território dos indígenas e quilombolas, pela reivindicação de políticas públicas em favor dos pobres, pela defesa da vacinação, pela denúncia da ação criminosa das mineradoras que devastam o ambiente.

Mas a profecia tem seu preço, e tanto a pessoa como a instituição que a vivem devem estar dispostas a pagá-lo. Jesus recorre a um provérbio que diz que nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra, pois a expectativa é que ele atue em benefício dos seus pares. Mas este é apenas um lado da medalha. O outro lado é este: nenhum profeta que sente a compaixão de Deus queimar suas entranhas consegue permanecer preso aos estreitos muros da raça, da nação, da religião ou da família. O profeta é um incansável transgressor de fronteiras, um incurável abridor de brechas.

Escrevendo aos cristãos de Corinto, Paulo chama a atenção para a centralidade do amor e a relatividade de todas as funções e instituições. Se a profecia deslizar para o discurso enraivecido e acusatório, será pouco mais que nada. O que dá consistência e verdade à profecia é o amor, este dinamismo que reconhece a dignidade do outro e o serve em suas necessidades. A profecia que brota do amor, orienta-se pelo amor e conduz a um amor que não reconhece fronteiras nem méritos. E o amor está acima de todo conhecimento e instituições, e até acima da fé.

Jesus de Nazaré, profeta de um mundo sem fronteiras, amigo dos oprimidos e das vítimas! Abre nossos ouvidos à tua Palavra. Suscita em nós uma resposta engajada. Ajuda-nos a assumir a missão profética que nos confiaste ainda no seio materno, apesar das nossas fraquezas. Abre nossos olhos e nossas mãos ao amplo e criativo trabalho de construir outro mundo, um mundo que desconhece e os estreitos muros das culturas, nações e religiões. Assim seja! Amém!

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CEBi

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