Somos ungidos para servir…

Por Cláudio Marcio Rebouças da Silva

Gosto da espontaneidade das crianças que muito nos ensinam e nos desafiam. Ao sair para entregar kits lanche da Turma da IPUzinha em bairro carente de Muritiba-Ba, eu e Jussi levamos nosso sobrinho como ato pedagógico, almejando inculcar valores de solidariedade e compaixão com pessoas em vulnerabilidade social. Confesso que os olhos dele (Gui) brilham em saber que naquele momento é capaz de cuidar de alguém. Fica feliz e quase eufórico.

Entretanto, seus olhos também se entristecem pelo fato de saber que os kits não são o suficiente para o número de crianças que cercam nosso carro e ele fica preocupado com quem não conseguiu receber. Através dessa experiência ele aprendeu que não deve esperdiçar comida e ou estragar a roupinha, pois, há muita gente com necessidades múltiplas na própria cidade que ele mora.

No retorno, saindo do bairro e indo para nossa casa eu disse: “Gui, que bom que foi possível ajudar alguém hoje. Vamos agradecer a Deus por isso”. Aí que vem a espontaneidade linda da criança ao dizer: “Tio cacau, Deus que tem que agradecer a gente por ter feito o trabalho dele”. Essa narrativa é profunda e não herética como alguns podem imaginar. É sobre espiritualidade e serviço em parceria com Deus que se trata.

A relação entre Igreja e Sociedade é demasiadamente desafiadora, pois, ambas são formas de organização social e, não menos, de controle, logo, possuem suas especificidades e também suas limitações. Neste sentido, é preciso problematizar: que modelo de igreja e de sociedade queremos e ou precisamos? O que leva alguns grupos cristãos a tentar sobrepor a Bíblia diante da Constituição brasileira?

Ao olharmos a narrativa bíblica do Evangelho de Lucas 4:14-21 para o Terceiro Domingo do Tempo Comum, percebemos o filho de Deus levado pelo Espírito para sinagoga e tendo acesso à leitura do profeta Isaias diz: “o Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração. A pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A pôr em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18-19).

Com efeito, Jesus de Nazaré é ungido para o serviço do Reino, ou seja, de justiça e liberdade a todos(as) que necessitam, assim, o que isso de fato pode nos ensinar em 2022 no território de identidade do Recôncavo da Bahia? Suspeito que seja necessária uma outra percepção de espiritualidade mais madura e ampla, uma vez que, é notório que líderes religiosos cristãos reivindicam uma dimensão simbólica da unção que é contrária a prática de Jesus (o camarada de Nazaré).

De fato, essa unção que tanto falam que possuem é para terem prestígio, poder e controle dos fiéis. Em nome dessa suposta unção eles(as) querem impor sua fé particular no espaço público. Eles possuem um projeto de poder em que o voto de cajado é uma estratégia para benefício de suas instituições e se esquecem do serviço e do amor ao próximo, isto é, se esquecem da orientação bíblica ao assinalar: “visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4:11).

Numa abordagem reformada-ecumênica aprendemos com Jesus e com homens e mulheres a viver uma espiritualidade humanizadora. A compaixão daqueles e daquelas que encontramos na jornada com suas pluralidades singulares nos sinalizam, de algum modo, que a relação entre Igreja e Sociedade carece de compromisso com a justiça social, assim sendo, uma experiência de fé madura não deve jogar para Deus o que é responsabilidade sua.

Somos nós que devemos assumir o mutirão do Reino com as mãos dentro e fora dos espaços eclesiásticos. É urgente a compreensão que toda vida é sagrada e que nós devemos derrubar muros de inimizades e criar pontes para que possa existir uma grande ciranda fraterna e potente onde a beleza das flores seja mais encantadora que as balas dos canhões. Onde o canto dos pássaros seja mais familiar do que ver um corpo afro-indígena sangrando nas periferias da nação.

Servir ao próximo é se abrir para um mergulho na alteridade e na empatia. É saber que só somos com e a partir do outro, isto é, somos em comunhão fraterna. Bem, só quero e ou acredito na unção do Espírito Santo se for para servir quem necessita de pão, ombro, abraço, afeto, moradia, saúde, educação de qualidade, democracia efetiva, ou seja, se o óleo de Deus em minha cabeça não for para que eu possa ir em direção ao outro em amor e libertação, talvez, honestamente, eu não deva nem ser chamado de cristão.

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CEBi

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