Alguns vírus que ameaçam a vida consagrada

Pe. Ademir Guedes Azevedo, cp.

Além da Covid-19 que continua causando danos à humanidade inteira nos mais diversos aspectos da existência, pretendo elucidar mais outros dois vírus letais que podem se hospedar (ou já estão bem alojados?) no solo da vida religiosa consagrada. Vejamos.

Com o alvorecer da era moderna, surgiu uma forte consciência de autonomia humana, desvinculada do transcendente. Deu-se demasiada ênfase à racionalidade e o homem pretendeu ser senhor de si mesmo, pois acredita que o progresso que surgiu de suas próprias invenções é capaz de solucionar toda carência por meio das satisfações materiais momentâneas. Na verdade, tal acontecimento não passa de um vírus letal para a vida consagrada. Ele pode ser chamado de ateísmo prático e está tão presente entre nós que já se tornou um hóspede amado de nosso cotidiano. Como ele age?

Os sintomas se fazem notar no excesso de organização e no conforto diário que desfrutamos. Este vírus cria uma normalidade intocável e não admite nenhuma provocação de quem pense algo diferente, sobretudo quando se fala em inserção e abertura a novas frentes de evangelização que exigem esforço e a arte de aprender a recomeçar do zero. O ateísmo prático na vida consagrada alcança seu ápice naquela sensação de segurança que todos nós desfrutamos, graças às nossas grandes estruturas. Como posso abandonar-me em Deus se não sei o que significa conviver com o incerto e com a carência, visto que estamos sempre plenos de coisas? A experiência de abandono em Deus pressupõe, necessariamente, privações. Na vida consagrada, o ateísmo prático nos acostuma a vivermos para um absoluto material, pois tudo indica que o absoluto espiritual (Deus) corre o sério risco de ser um discurso teórico que serve para confirmar nossas próprias certezas, as quais geralmente mantêm o status quo das nossas rotineiras atividades.

Só há um modo de romper, ou pelo menos começar a refletir diferente, com essa tragédia que está acontecendo: retomar a figura de Jesus de Nazaré e a sua fé no Pai, pois ele viveu em constante itinerância, sem nada em próprio, totalmente abandonado em Deus, a única segurança de sua vida. Sentindo-se perseguido e ameaçado e, no momento extremo de sua entrega, ainda que provasse o silêncio de Deus (aquela terrível sensação de impotência), não recorreu à sua divindade para adquirir qualquer consolação, mas continuou firme em sua fé e apaixonado pelo Pai. Será isso possível para os consagrados? Não é esse um programa profético para vivermos a liberdade do Evangelho?

Há ainda outro vírus, tão letal quanto o primeiro: o cinismo espiritual. Ele nos contamina geralmente quando fazemos pouco caso do sofrimento alheio e quando a situação econômica que massacra os pobres em nada nos atinge. O cinismo começa sua terrível manifestação quando dizemos, geralmente em um modo mecânico e frio, aquela conhecida frase: rezarei por você! Essa experiência eu mesmo a vivi quando certa vez alguém bateu à nossa porta pedindo comida. Fui atendê-lo. Era um senhor sem casa e sem ninguém por ele. Rápido preparei um belo prato de comida e lhe ofereci, prometendo que rezaria por ele. Mas será que rezei mesmo? E que tipo de oração foi essa sem nenhuma responsabilidade concreta? Não foi essa promessa um modo de eu escapar tão rápido da presença daquele senhor? Não é este cinismo espiritual o caminho de fuga dos problemas reais de nossa missão e o não querer envolver-se com o sofrimento alheio? Não é também esse mesmo cinismo que nos faz instrumentalizar os pobres com nossas teorias acadêmicas e com os belos sermões, mas lá no fundo levamos uma vida de burguês?

Mais uma vez, é Jesus quem nos traz a vacina: só um mergulho no mistério de sua Encarnação poderá nos curar. A Encarnação dele indica que nossa autoridade deve ser fundamentada numa práxis que provoca a viver com e como os que sofrem. Na verdade, essa é a compaixão de Deus. Porque se sente apaixonado (passio) pelos preferidos do Reino, então livremente Jesus exerce uma compaixão (compassio) a tal ponto de tornar-se um como nós, ou seja, de não apenas pregar, mas sentir na carne o que significa viver como aqueles que têm a vida ameaçada.

O risco de tornar-se um cínico é aceitarmos viver, sem nenhum questionamento, de acordo com as novidades mais recentes daquela economia que privilegia uma minoria rica e sacrifica aquela maioria que não fazemos conta de suas histórias e de seus rostos. Talvez possa ainda nos ser útil aquela perturbadora e perigosa interpelação de Gustavo Gutiérrez: “Onde dormirão os pobres?”. Quando nós de fato aceitarmos ser amigos deles, com toda fidelidade de coração, quem sabe nossa consagração fará ressoar de modo mais genuíno e intenso o grito do Evangelho em meio ao mundo de hoje. Perseveremos…


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Pe. Ademir Guedes Azevedocp, é missionário passionista e mestre em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade

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