Ministério Sacerdotal. A responsabilidade ética na arte de servir

“Os deveres do ministro ordenado tocam no âmbito pessoal e o âmbito eclesial/comunitário: cuidado pessoal no aspecto humano, no aspecto religioso, exigência da formação permanente, distinguir o pessoal do comunitário, a confidencialidade, responsabilidade pelo futuro etc.”, escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Ministério Sacerdotal. A responsabilidade ética na arte de servir (Vozes, 2020, 376 p.), de autoria de Roberto Noriega.

Ministério Sacerdotal. A responsabilidade ética na arte de servir (Capa do livro: Divulgação)

Eis o artigo.

As transformações no mundo de hoje desafiam cada vez a vivência do ministério presbiteral. Frente a isso, a Igreja sempre se preocupou com a formação de seus ministros atendo-se as diferentes dimensões que compõe o processo formativo: “é fundamental que os presbíteros vivam eticamente e sejam modelos de conduta cristã” (p. 12).

Dr. Roberto Noriega, especialista em Moral, professor e com ampla experiência no campo formativo – no livro: Ministério Sacerdotal. A responsabilidade ética na arte de servir (Vozes, 2020, 376 p.) olha especificamente para a formação ética dos presbíteros, objetivando-se a “oferecer pistas para procurar tal qualificação ética nas diversas competências que o ministro ordenado terá de assumir” (p. 09). Entende que: “para completar a vida ética do ministro é possível servir-se da ética aplicada e da deontologia profissional” (p. 12-13).

O livro está estruturado em duas partes, precedidas por um capítulo introdutório. A primeira parte se detém “ao que se refere propriamente à ética ministerial” (p. 51). Por sua vez, a segunda parte consiste na “apresentação das responsabilidades do ministro ordenado” (p. 145).

No capítulo introdutório: A dimensão ética da vida e ministério do presbítero (cf. p. 17-52), o autor coloca “as bases da reflexão acerca da responsabilidade ética inerente ao ministério pastoral aproveitando as reflexões sobre a ética das profissões” (p. 17), mostrando que o “ministério presbiteral, embora seja uma vocação, pode ser enriquecido em seus aspectos éticos com as reflexões da ética das profissões” (p. 15).

O segundo capítulo: Origens bíblico-teológicas da ética do ministério ordenado (p. 55-93) apresentam “breves reflexões bíblico-teológica sobre o modo de compreender a dimensão ética do ministério ordenado ao longo da história” (p. 55), atualizado a reflexão “à luz dos documentos magisteriais e da teologia atual” (p. 55). As conclusões deste capítulo mostram que na indicação dos documentos da Igreja: “o modelo definitivo da ação do presbítero é a vida de Deus Trindade” (p. 93) uma vez que, “as pessoas trinitárias e suas relações são referências para a vida dos presbíteros” (p. 93).

O terceiro capítulo: O ministério ordenado em perspectiva patrístico-agostiniana (p. 94-114) busca aprofundar os “aspectos teológicos da compreensão patrístico-agostiniana do sacerdócio” (p. 94), para “extrair dela as consequências válidas para a ética ministerial de nossos dias” (p. 94). Dentre as consequências válidas: “a relação profunda com Cristo, o pastor que os chama a entregar sua vida, o serviço à Igreja que impregna suas funções ministeriais, as atitudes necessárias para harmonizar a ação-contemplação, o apreço pela verdade etc” (p. 114).

No quarto capítulo: Principais atitudes na vida e ministério do presbítero (p. 115-143) elencam-se as “principais virtudes que devem acompanhar o presbítero numa vida moral que o leva à plenitude e autorrealização pessoal na entrega aos outros” (p. 116). Entendendo que o mensageiro é mensagem – o autor destaca atitudes enraizadas na área do ter e atitudes enraizadas na área do agir (cf. 129-135), pois, o testemunho da vida moral do ministro ordenado é de fundamental importância para a aceitação da mensagem evangélica (cf. p. 116).

No quinto capítulo o autor situa a realidade dos deveres e dos direitos sacerdotais (p. 147-182). Os deveres do ministro ordenado tocam no âmbito pessoal e o âmbito eclesial/comunitário: cuidado pessoal no aspecto humano, no aspecto religioso, exigência da formação permanente, distinguir o pessoal do comunitário, a confidencialidade, responsabilidade pelo futuro etc. Quanto aos direitos do presbítero são apontados três: direito de associação, direito às férias e a uma remuneração apropriada e decente.

No sexto capítulo: A gestão do poder na função de governar (p. 183-217), entendendo que o presbítero deve “presidir a comunidade em nome e a exemplo de Jesus de Nazaré” (p. 217), o autor, analisa a origem e os significados do conceito bíblico de autoridade para num segundo momento “extrair consequências para a atividade pastoral com os seculares e os colegas de profissão na hora de colocar em prática tal autoridade e liderança como parte da função do governo” (p. 184).

No sétimo capítulo: A administração dos bens e a atenção aos pobres (p. 218-238), o autor analisa “o mundo da administração dos bens econômicos no âmbito das instituições religiosas de evangelização” (p. 218). Num segundo momento recorda que os bens da Igreja devem ser usados a serviço do Reino privilegiando os mais necessitados: “a Igreja de Jesus Cristo é uma Igreja pobre ao serviço dos pobres” (p. 2138), por isso, apresenta “alguns dos deveres no campo da ação social e a atenção aos pobres, como responsabilidades da missão de governo do presbítero” (p. 218).

No oitavo capítulo abordam-se as responsabilidades no campo afetivo-sexual (p. 239-262), situando “adequadamente os elementos afetivos da vida do presbítero numa ordem adequada para poder equilibrá-los e apresentando algumas possíveis responsabilidades e pautas de ação concretas para tanto” (p. 239). Neste âmbito, o autor, chama a atenção para a necessidade da intimidade e toca em questões espinhosas como os abusos sexuais e de poder, o assédio e exploração sexuais, as questões éticas em relação à homossexualidade.

No nono capítulo: A missão de ensinar. Responsabilidades da pregação e o acompanhamento pessoal (p. 263-285). Entendendo que o primeiro dever do presbítero é o anúncio do Evangelho, buscam-se “compreender as exigências especiais da função presbiteral de ensinar, sobretudo em relação à pregação e o usos dos meios para comunicar a Palavra” (p. 263). Chama-se a “atenção sobre a necessidade e cuidados do acompanhamento espiritual como modo de viver a função de ensinar” (p. 263).

No décimo capítulo: A missão de santificar por meio dos sacramentos e o cuidado dos enfermos (p. 286-312), Noriega analisa as responsabilidades éticas do presbítero no âmbito sacramental e as reflexões deste capítulo visam aumentar a sensibilidade para as exigências éticas do ministro ordenado atendo-se ao risco do ritualismo, do minimalismo, do fixismo normativo. Em seguida, abordam-se “as exigências especiais das relações com os enfermos que pedem maior preparação do presbítero” (p. 286). Merecem destaque as visitas domiciliares, de cortesia, em hospitais atendo-se aí para as relações pastorais de ajuda, atitudes básicas e técnicas para acompanhar o enfermo.

No décimo primeiro capitulo: Para a elaboração de um código ético (p. 313-334), o autor ajuda-nos a entender o que é um código deontológico: “documento que recolhe uma série mais ou menos ampla de princípios éticos orientadores para o exercício correto de uma profissão” (p. 317). Especificando as funções do código deontológico presbiteral apresenta-se “alguns modelos e o modo de elaborá-lo em vista da sua elaboração pessoal” (p. 313).

Nos anexos são apresentados alguns textos para aprofundamento/meditação pessoal:

1) Alfonso Ussía: A simplicidade do pastor (p. 337-338),

2) Narciso Garcia Nieto: Os padres: espécie a ser extinta ou protegida? (p. 339-342),

3) Exame de consciência para os sacerdotes (p. 343-346),

4) Olegario Gonzáles de Cardedal: Cinco textos bíblicos para orientar nossa atitude ministerial de fundo (p. 347-353),

5) Modelo de código de ética religioso/ministerial (p. 354).

***

O autor possui excelente informação, clareza didática e familiaridade com os documentos do episcopado brasileiro no tocante à formação presbiteral. Enriqueceria a reflexão se tomasse conhecimento dos materiais produzidos pela Comissão Nacional dos Presbíteros – CNP. Esta obra vem preencher uma lacuna no que diz respeito à responsabilidade ética no ministério presbiteral. Não há muita literatura dedicada à questão.

Este livro altamente provocador e instrutivo de R. Noriega concebido originalmente como um curso deveria fazer parte do kit formativo de todo o presbítero e de modo especial como manual de apoio para os formadores dos futuros presbíteros.

Adentrar-se nos conteúdos oferecidos em cada um dos capítulos permitirá aos presbíteros e formadores riqueza de sugestões tendo-se em conta que a formação recebida nos seminários resulta para muitos presbíteros insatisfatória e em chama a atenção o autor: “não podemos supor que o ministros ordenados pelo simples fato de terem concluídos seus estudos e terem recebido o sacramento da Ordem, sejam conscientes das múltiplas responsabilidades éticas e morais, nem estejam preparados na prática de modo mais adequado para assumi-las” (p. 11). Nestas questões vale também o alerta: “ingenuidade ou a desatenção são portas abertas para perigos sutis” (p. 11).

Talvez o título dado à obra não seja condizente com o conteúdo. O autor usa na totalidade de suas reflexões o vocábulo: presbítero distanciando do vocábulo sacerdote. E o usa acertadamente. Esse vocábulo pode facilitar a compreensão da missão dos que não querem ser reduzidos a meros cidadãos do altar, do sacrifício, dos sacramentos por mais importante que sejam. Por isso, o autor faz a distinção entre sacerdote e presbítero na página 66. Merece ser citado o que diz na página 78: “de modo que compreender o ministério ordenado em perspectiva da missão de Cristo e a leitura que se fazem dos textos do Novo Testamento superam a concepção sacerdotal, dando sentido também à sua missão profética e à pastoral”. Assim sendo, o título mais condizente com o conteúdo seria “ministério presbiteral” em vez de “ministério sacerdotal”.

O valor do livro permanece independente do título. Como dito inicialmente é uma obra de referência muito prática, que permite o acesso rápido a muitas informações, mostrando-se um excelente instrumento de trabalho, sobretudo para Formadores das diferentes etapas da formação inicial dos presbíteros e para Cursos de Formadores.

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IHU Revista Online

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