Poder: uma força sedutora

Resenha de Eliseu Wisnieski

Sobre o poder já se falou muitas coisas. As discussões a seu respeito não têm fim. No livro: Poder uma força sedutora (Vozes, 2021, 96 p.), o monge beneditino Anselm Grün -, entende que o poder é uma dádiva boa que Deus concedeu aos seres humanos. Mas cada dádiva boa pode ser distorcida. Frente a isso, o autor oferece nas páginas desta obra uma “teologia do poder”, analisando alguns de seus aspectos e chamando a atenção para a sua ambiguidade, ou seja, as possibilidades e os perigos que ele oferece.

Imagem: capa do Livro Poder: uma força sedutora | Foto: reprodução

Bem fundamentadas as explanações desta obra estão organizadas em cinco partes que se implicam e se explicam mutuamente, pois, buscam fornecer elementos para uma avaliação objetiva e realmente cristã do poder:

O capítulo inicial O poder de Deus (p. 9-16), entendendo que quando falamos de Deus, falamos de poder -, apresenta uma análise da história da religião e da Bíblia mostrando com estas tornam visível à relação entre Deus e o poder. A história da religião mostra que a experiência de poder evoca maravilha, reverência e medo. O poder das coisas é vinculado de modo confuso ao poder de um espírito grande ou de um ancestral (p. 9-11). Por sua vez, no Antigo Testamento (p. 11-16), Deus é visto como o “Poderoso”, por isso seu poder é louvado. O Novo Testamento também louva Deus como onipotente. Assim, a tradição bíblica e do cristianismo primitivo conhece quatro conceitos de poder: auctoritas (capacidade de transferir uma força interior), potestas (domínio / poder discricionário), dynamis (a força e o poder inerente às pessoas, a Deus ou a objetos diversos / a força e a capacidade de realizar algo), energeia (a eficácia, a atividade, a força de ação).

O capítulo seguinte O poder do ser humano (p. 17-26), destaca que “a maioria dos teólogos concorda que o ser humano como criatura recebeu poder e dignidade como dádiva de DeusDeus concedeu ao ser humano o poder da liberdade” (p. 17), esclarecendo o que significa poder neste contexto. Trazendo diferentes definições de poder: a) Christine Bauer-Jelinek (p. 17); b) Karl Rahner (p. 18); c) Romano Guardini (p. 18-19); d) Fulbert Steffensky (p. 19); e) Max Weber (p. 20); f) Paul Tilich (p. 20-21), destaca-se o poder do ser humano como dádiva de Deus (p. 21-22), e, descrevem-se as diferentes formas, cenários e instrumentos do poder (p 22-26). Quanto às fontes de poder, amparados pela psicóloga e mentora de administração austríaca Christine Bauer-Jelinek identificam-se oito fontes: 1) o poder da matéria; 2) o poder da origem; 3) o poder da maioria; 4) o poder do conhecimento; 5) o poder dos sentimentos; 6) o poder da função; 7) o poder dos contatos; 8) o poder da convicção. Quanto aos cenários ou palcos de poder existe, em primeiro lugar a casa (o poder da família), depois o mercado (os grupos de diferentes opiniões), o castelo (o poder dos governos) e o templo (o poder religioso). Em cada um destes âmbitos ou estruturas o poder é exercido de forma diferente.

O capítulo terceiro chama a atenção para o abuso do poder (p. 27-65). Compreendendo que “o poder sempre serviu e ainda serve muitas vezes para compensar a falta de autoestima com um poder externo” (p. 27), o autor destaca que os textos bíblicos do Novo Testamento também chamam a atenção para a tentação do abuso do poder / para o lado sombrio do poder (p. 27-37). Em seguida, olha-se para o poder oculto da Igreja descrevendo-se as diferentes formas de abusos (p. 37-47): a) no poder do ensino/magistério: “o magistério protege o ensino contra distorções. Mas a história mostra que, muitas vezes, ele foi usado para condenar a teologia que fazia jus ao ensino bíblico, mas não aos interesses da teologia, que muitas vezes era restritiva do magistério” (p. 37); b) no poder exercido pelas lideranças eclesiais/ o poder em virtude da falta de competência de liderança (p. 42-49); c) no poder emocional e espiritual exercido pela Igreja sobre os fiéis (p. 49-54). Por fim, descreve-se também as formas de abusos do poder no âmbito político (p. 54-57); nas empresas (p. 57-60); no âmbito pessoal (p. 60-65).

Em seguida, o capítulo quarto Razões biográficas para o abuso do poder (p. 67-70), com um cunho psicológico destaca que a base para que as pessoas abusem de seu poder como adultos costuma ser construída na infância. São principalmente complexos de inferioridade e medos que devem ser compensados pelo exercício de poder na idade adulta. O abuso do poder é “uma tentativa de compensar medo e sentimentos de inferioridade vivenciados na infância e recompensar a si mesmo pela própria inferioridade” (p. 67).

Numa parte final, O uso apropriado do poder (p. 71-88), apresenta estratégias para exercer o poder. Estas estratégias contemplam tanto o aspecto pedagógico quanto o metodológico, as precondições e condições para assumir e fazer bom uso do poder, bem como as posturas para o exercício do poder. Assim “uma pessoa que sabe usar pode consegue superar também resistências e alcançar seus objetivos que ele acredita serem valiosos não só para a própria empresa, mas para o mundo como um todo” (p. 71).

Estes são os aspectos do poder abordados por Anselm Grün neste livro. O referido autor faz questão de falar não só dos perigos, mas também das possibilidades que ele oferece. O verdadeiro poder para os cristãos consiste formar este mundo de acordo com o espírito de Jesus e transformá-lo cada vez mais naquilo que Deus imaginou. Ao mesmo tempo quando o poder é exercido de forma oculta, ele tem um efeito prejudicial sobre as pessoas. Aquilo que não é conscientizado é integrado no inconsciente e, a partir dali, desdobra seus efeitos destrutivos sobre o ser humano.

Dado o exposto, esta obra é um convite à reflexão sobre o uso do poder exercido para o bem das pessoas. Ajudará os leitores a refletir de forma nova sobre o poder que Deus lhe deu para que transpareça no mundo cada vez mais um pouco daquilo que Jesus chama de Reino de Deus, o domínio de Deus, que levanta as pessoas e permite uma nova forma de convívio. Nada prejudica tanto a proclamação do Reino de Deus quanto à persistência dos abusos do poder…

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Colaborou: Revista IHU Online

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