Evangelho de Lucas – Parte 1: Jesus, Messias dos Pobres

Por Hermes Fernandes

Contextualizando

O Evangelho de Lucas é a primeira parte da obra Lucana, sendo a segunda o livro dos Atos dos Apóstolos. Segundo algumas referências históricas sugeridas na própria obra Lucana, podemos datar sua composição por volta dos anos 80 ou 90 E.C.  É possível identificar muitas semelhanças entre este Evangelho e os de Marcos e Mateus. Daí chamarmos aos três de sinóticos, isto é: aqueles que estão sob uma mesma ótica. Todavia, a obra de Lucas traz grandes particularidades.

A primeira particularidade que podemos elencar é sua identificação com a língua e – de certa forma – com a cultura grega. Este Evangelho usa melhor a língua grega, embora não deixe de lado todos os arquétipos do semitismo tradicional, uma vez que não abandona a sabedoria e tradições do Primeiro Testamento. Outrossim, faz-se necessário sublinhar que a obra de Lucas se destina aos leitores desligados de questões judaicas. Oferece e destina a mensagem aos pagãos, isto é, não membros da comunidade judaica.

Como falamos acima, podemos identificar alguma influência no Evangelho e Atos dos Apóstolos da cultura grega, uma vez que usa do método de historiador ao estilo grego. É cuidadoso ao consultar suas fontes e apurar os fatos. Já no início do Evangelho, aponta ao método de seu trabalho. Por consulta a outras narrativas e círculo de testemunhas oculares (cf. Lc 1,1-4). Lucas deseja anunciar a fé em Jesus, sem deixar de lado a aplicação e o esmero próprios aos historiadores. Entretanto, ao compor as cenas dos acontecimentos narrados, não se prende ao estilo grego, recorrendo à midrash, estilo hebraico de fazer memória dos fatos à luz da experiência e do sentido da fé.

Ainda podemos elencar uma terceira particularidade no Evangelho de Lucas. A conexão com sua segunda obra, os Atos dos Apóstolos. Com esta característica, o Evangelho se mostra como prelúdio de uma grande ordem de acontecimentos.  O Evangelho passa a ter uma posição intermediária, conectando a Promessa do Primeiro Testamento, aqui ressaltamos a íntima relação da obra Lucana com a Profecia de Isaías; e a realização desta Promessa na pessoa de Jesus e nas comunidades cristãs após o Pentecostes. A preparação para a Economia da Salvação que se dá pelo Primeiro Testamento é essencial para se compreender a missão de Jesus no Segundo. Por isso, a obra de Lucas faz a passagem da Antiga para Nova Aliança de forma pedagógica. Os personagens da infância de Jesus, sobretudo Simeão, personificam a passagem do passado promissor da Aliança Definitiva para o Tempo que chegou. Posteriormente, não menos importante, é a vivência deste novo Tempo, pelo caminhar da Igreja nascente em Atos dos Apóstolos.  Como o Primeiro Testamento profetiza e prefigura Jesus, este – o Messias – forma e prepara a missão dos Apóstolos. Para tanto, forma-os gradualmente ao seu lado, os instrui, os previne sobre dificuldades vindouras na vivência do discipulado, dá-lhes seu Espírito. Por isso, Lucas  – ao contar os Atos dos Apóstolos  – se compraz em estabelecer paralelos entre Jesus e a Igreja nascente. Traçando, assim, uma teologia Pneumatógica, até mesmo Trinitária; narrando acerca da ação permanente do Pai e do Filho, por intermédio do Espírito Santo.

Ainda podemos destacar a importância da geografia do Evangelho de Lucas, onde Jerusalém é o centro. Nesta se conclui o itinerário de Jesus e onde se organiza a Igreja Primitiva, que partirá dali em missão para todo o mundo.

No relato de Lucas há constante presença de referências históricas. Com isso, Lucas deseja explicitar a necessidade de que a mensagem de Jesus, assim como a ação da Igreja nascente, esteja em profunda encarnação histórica. Transformando as realidades humanas a partir da proposta do Reino de Deus.

Analisando

Ao que se refere à composição, o Evangelho de Lucas se relaciona com a obra de Marcos, inclusive na ordem de algumas perícopes. Também é perceptível que compartilha algum conteúdo do Evangelho de Mateus. Outrossim, não se pode negar que Lucas segue suas intuições, onde ficam claros seu discernimento e estilo. No bloco da infância constrói um díptico de correspondências rigorosas, entre Isabel e Maria, entre João Batista e Jesus. Com isso, traça uma simetria entre o Primeiro e Segundo Testamento, entre a Promessa profetizada e a realização desta Promessa na pessoa de Jesus. Para bem marcar essa passagem do Antigo ao Novo, três hinos bíblicos a celebram: Hino de Zacarias, de Simeão e o Magnífica de Maria.

Segundo opinião comum entre os biblistas, o que mais se sobressai no livro é a grande viagem à Jerusalém, onde aproveita este itinerário para formar seus discípulos, aprofundar com eles sua catequese e prepará-los para a Paixão que deveria viver, cumprindo-se as Escrituras (cf. Lc 9,51). Finda essa viagem, vai morrer por assassínio, vítima da conspiração dos Sacerdotes e Doutores da Lei. Ressuscitando no terceiro dia, ascenderá ao céu. Aqui vale lembrar que só Lucas relata a ascensão.

Algo que podemos ressaltar são duas cenas presentes na obra Lucana que cabe-nos chamar aqui de programáticas. Testificando o programa narrativo da teologia de Lucas.

A primeira cena é a inauguração do ministério de Jesus na Sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4,18+). Neste episódio, Jesus se identifica como cumpridor da profecia de Isaías, o Messias esperado (cf. Is, 61,1+).  

Na segunda, temos o episódio com os discípulos de Emaús. Dada a decepção de suas expectativas sobre o messias de Israel, Jesus Ressuscitado se aproxima incógnito e propõe uma chave pascal de entendimento dos acontecimentos da Paixão, dando – mais uma vez – sentido em sua vida às profecias. Este relato se conclui com o reconhecimento do Messias ao partir do Pão, fundamentando a Eucaristia: alimento e presença real de Jesus na Igreja.

Ainda cabe relacionarmos aqui a visão particular de Lucas sobre o Messias. Em seus relatos, ele destaca a universalidade de sua mensagem e ministério salvífico. Por isso, a genealogia de Jesus, segundo Lucas, remonta até Adão. O que nos vem significar a extensão do ministério de Jesus e da Igreja a todos os viventes. Lucas procura deixar bem conceitualizadas várias personagens romanas (abertura da mensagem de Jesus aos não judeus) e, em contrapartida, deixa muito explícita a oposição de Jesus às autoridades judaicas.

Jesus, segundo Lucas, traz uma mensagem de misericórdia e perdão, de acolhida aos pecadores, de reintegração aos extraviados, de compromisso com os pobres e necessitados. Ainda nos cabe a feliz constatação de que as mulheres na obra Lucana desempenham papéis fundamentais na narrativa. Rompe, assim, com o patriarcado marginalizante do judaísmo.  

Esperançando

Ao título de conclusão deste nosso primeiro texto sobre o Evangelho de Lucas, gostaríamos de salientar a importância da obra de Lucas para os empobrecidos. Nela encontramos um Messias intimamente inserido na realidade do Povo, atuando na história – inserindo-se nela – e transformando-a a partir da proposta do Reino de Deus.

Por ser voltada radicalmente em favor dos pobres, a atividade de Jesus reverte uma série de injustiças históricas. A pobreza e a doença eram vistas como consequências do pecado, marginalizando as vítimas de tais infortúnios. Esta visão errônea do mal que aflige a vida humana é desmitificada por Lucas. A pobreza e a doença não podem ser atribuídas ao pecado. Javé não pode ser visto como mero castigador ou recompensador, imputando aos pobres e doentes a marginalização por seus sofrimentos. A isto chamamos Teologia da Retribuição. Um equívoco que deve ser extirpado de toda chave de leitura bíblica. O Evangelista Lucas parece estar atento a esta dificuldade de compreensão do mal e da ação de Deus. As curas e os exorcismos de Jesus são mais do que manifestações de seu poder. Segundo Lucas, Jesus não é um taumaturgo, um curandeiro. Quando dos exorcismos e das curas, a pessoa que experimenta a ação de Jesus tem sua vida reintegrada à comunidade e ressignificada em seu valor. É um processo de libertação. Desde o Magnífica de Maria, fica-nos clara a transformação da realidade a partir de Jesus. A ação de Javé inverterá a realidade dos empobrecidos “derrubando os poderosos de seus tronos e elevando os humildes; despedindo os ricos de mãos vazias” (Lc 1,52-53).

A mensagem de Jesus apresentada por Lucas, assim como a Igreja nascente, deve transformar a história a partir do amor de Javé que se faz presente na justiça, na paz e na fraternidade. Para tanto, é preciso optar pela lógica do Reino de Deus. Onde não há oprimidos e opressores, explorados e exploradores, marginalizados e marginalizadores. Enfim: o sonho de Javé para a Casa Humana, em que todos sejam plenificados em suas vidas.

Referências  bibliográficas

BARREIRO, A. O itinerário da fé pascal: a experiência dos discípulos de Emaús e a nossa (Lc 24,13-35). São Paulo: Loyola, 2001.

BÍBLIA. Bíblia sagrada: Nova edição pastoral. São Paulo: Paulus, 2018.

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2004.

BÍBLIA. TEB: Tradução Ecumênica BíblicaNova Edição Revista e Atualizada. São Paulo: Edições Loyola, 2020.

BÍBLIA. Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 1997.

BOVON, François. El evangelio según San Lucas. Salamanca: Sígueme, 2004. 

CASALEGNO, Alberto. Lucas: a caminho com Jesus missionário. Introdução ao terceiro evangelho e a sua teologia. São Paulo: Loyola, 2003.

______. Ler os Atos dos Apóstolos: estudo da teologia lucana da missão. São Paulo: Loyola, 2005.

ERNST, Josef. Il vangelo secondo Luca. Brescia: Morcelliana, 1997. (vol. 2).

FABRIS, Rinaldo. O Evangelho segundo Lucas. In: ______; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos II. São Paulo: Loyola, 2006.

FAUSTI, Silvano. Una comunità legge il vangelo di Luca. Bolonha: EDB, 2011.

FITZMYER, Joseph A. El evangelio según Lucas. Madri: Cristiandad, 1987. (v. 1).

FRANCISCO. Misericordiae vultus: o rosto da misericórdia. São Paulo: Paulinas, 2015.

GEORGE, A. Leitura do Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 1982. (Cadernos bíblicos, 13).

GOURGUES, Michel. As parábolas de Lucas: do contexto às ressonâncias. São Paulo: Loyola, 2005.

JEREMIAS, Joachim. Jerusalém no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 2005.

______. Las parábolas de Jesús. 3. ed. Estella: Verbo Divino, 1974.

KODELL, Jerome. Lucas. In: BERGANT, Diane; KARRIS, Robert J. Comentário bíblico. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2001.

KÖSTER, Helmut. splagcnon. In: KITTEL, Gerhard (Ed.). Grande lessico del Nuovo Testamento. Brescia: Paideia, 1988. p. 903-934.

MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

MAZZAROLO, Isidoro. Lucas: a antropologia da salvação. Rio de Janeiro: Mazzarolo Editor, 2004.

MEYNET, Roland. Il vangelo secondo Luca: analisi retorica. Roma: EDB, 1994.

MESTERS, C.; OROFINO, F. Pé no chão, sonho no coração: olhar no espelho das primeiras comunidades. São Leopoldo: Cebi, 2001.

MOXNES, H. A economia do Reino: conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 1997.

PENALVA, José. Pensar Jesus a partir de Lucas. São Paulo: Ave-Maria, 1999.

RETAMALES, Santiago Silva. Discípulo de Jesus e discipulado segundo a obra de são Lucas. São Paulo: Paulus, 2005.

RICHARD, P. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999.

RIUS-CAMPS, J. O Evangelho de Lucas: o êxodo do homem livre. São Paulo: Paulus, 1997.

SCHÖKEL, Luís Afonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 2008.

SKA, Jean Louis. O Deus oleiro, dançarino e jardineiro: ensaios de antropologia bíblica. São Paulo: Loyola, 2001.

STUHLMUELLER, Carroll. Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulinas, 1975.

2 comentários Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s