Reflexão do Evangelho da Natividade de Jesus de Nazaré, Nosso Senhor Jesus Cristo

Colaborou: CEBi

Por Sílvia Souza

Nestes dias “o povo do caminho”, aquele que faz o seguimento a Jesus de Nazaré, celebra o mistério da encarnação do Deus da vida. Este mistério esta relatado nos escritos sobre o nascimento, vida, morte e ressurreição de Jesus, a partir da memória das comunidades da segunda geração de pessoas cristãs, que viveram mais ou menos entre os anos 67 e 97 da E.C. São as boas notícias que chegaram até nós através dos Evangelhos, cujos títulos homenageiam Marcos, Mateus, Lucas e João.

Neste ano de 2021, as igrejas cristãs, convencionalmente chamadas históricas, celebram a natividade de Jesus de Nazaré iluminadas pelos textos de Is 9, 1-6; Sl 96 (95); Tt 2,11-14 e Lc 2,1-14. As leituras bíblicas deste período são convite especial para a reflexão, interiorização da mensagem. Diante dos textos, nós, pessoas cristãs e todas as de boa vontade, somos convidadas a nos perguntar: o que esta memória diz para mim hoje?

A profecia de Isaías 9,1-6 anuncia o resplandecer da luz, o crescer da alegria, o fim do jugo e da opressão. O nascimento de um menino é sinal de mudança na vida daquele povo que vivia nas trevas e “viu uma grande luz”. O canto litúrgico do salmo 96 (95) nos convoca para dar graças, cantar, bendizer a existência do Deus-conosco que estabelece a justiça sobre a terra inteira. Em Tito 2,11-14 todas as pessoas são levadas a acolher a graça de Deus e viver no mundo com equilíbrio, justiça e piedade. Na liturgia das celebrações, de modo especial, neste momento da natividade de Jesus, as leituras preliminares nos preparam para acolher a mensagem do evangelho. Elas são o prenúncio de que a luz vence as trevas, o nosso Deus é justo, piedoso e está no meio de nós.

A Boa Nova da Comunidade Lucana é a memória de um povo que “andava nas trevas” em razão das muitas perseguições que levaram a diáspora (saída do povo de seu lugar de origem), do enfraquecimento da fé, vez que a esperada volta gloriosa de Jesus não se concretizava e ainda havia os conflitos internos nas comunidades. É neste contexto que as comunidades começam a reelaborar suas expectativas e dar maior ênfase a experiência de um Jesus presente na humanidade, e, assim chegamos ao texto de Lucas 2, 1-14.

A Comunidade de Lucas relembra que o tempo do nascimento de Jesus também era difícil, havia o jugo Romano com pesados impostos. O recenseamento era obrigatório, historiadores dizem que os fariseus que se recusaram a fazê-lo foram fortemente perseguidos e muitos mortos.  Estes fatos justificam que José e Maria tenham viajado mesmo em condições tão adversas.

Quantas vezes nas nossas cidades vemos famílias inteiras vivendo em situação de rua? Quais são as estruturas opressoras que produzem estes caminhantes: mulheres grávidas desamparadas, mulheres e homens sem trabalho, crianças sem-lugar, pessoas LGBTQIAP+ condenadas a não ser?

A vida segue derramando-se inteira, como se não percebesse as condições impróprias, o texto Lucano vai dizer:

Enquanto estavam em Belém,
completaram-se os dias para o parto,
e Maria deu à luz o seu filho primogênito.
Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura,
pois não havia lugar para eles na hospedaria. (Lc 2,6-7)

Perguntei para minha mãe, uma senhora cristã de 82 anos: o que chama atenção na narrativa do nascimento de Jesus?

Achei muito interessante o nascimento dele, ser colocado na manjedoura, como ele foi tratado. Isso aí também eu me empolgo, acho interessante.

Perguntei ainda: Para sua vida, o nascimento nestas condições, muda alguma coisa?

Muda, porque essa história de egoísmo, de vaidade, isso é só na cabeça das pessoas. Porque se for olhar pelo lado de Jesus  ele nasceu numa manjedoura. Uma manjedoura é o que? De animais, e ele está lá. Quer dizer que a gente não pode ter esta coisa de vaidade, de nobreza,  porque Jesus nasceu aonde? Numa manjedoura, eu acho isso muito humilde, entendeu? (lágrimas).

Quem responde minha mãe é minha filha, uma jovem negra-preta, trabalhadora e estudante:

Entendi que a passagem lida nos traz esperança de dias melhores. O nascimento daquele que nós acreditamos ser o Salvador. Salvador das pragas, das enfermidades, das angústias, dos medos, da insegurança. O nascimento de Cristo vem com esperança.  Esperança e renovação. Renovação da fé em um Deus vivo e presente entre nós. Da fé em crer que haverá dias melhores.

O menino nasce e o anuncio é feito na terra envolvendo de luz pastores simples, mulheres simples, pessoas simples do povo.

Sim, minha mãe, eu penso que entendi: quem acredita no Deus da Vida, que se encarna em um menino pobre e sem lugar, tem, necessariamente, que enxergar todas as pessoas sem lugar como a encarnação de Deus e correr ao encontro delas, para juntas darmos glória a Deus e construir a paz, filha da justiça.

Sílvia Souza
Mulher, negra-preta
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