Cristãos contra o Cristo

Por Hermes Fernandes

É inegável a percepção de que as ocorrências de intolerância religiosa aumentaram nos últimos três anos. Parece-nos que muitos daqueles que professam se identificar com a mensagem cristã, em verdade, tem posições contrárias à essência desta. Na pessoa de Jesus de Nazaré se concentra o âmago do ser cristão. Toda doutrina que se defina cristã deve convergir para Jesus, o Cristo. Daí vem-nos a pergunta: de onde vem tanta violência, tanta intolerância em nome dele?

Nos textos evangélicos temos a síntese da mensagem cristã. Dos lábios do próprio Cristo brotam as orientações para o caminhar cristão. Lendo Mateus, Marcos, Lucas e João: bebemos das fontes inspiradas do primeiro século da caminhada cristão e podemos conhecer a pessoa de Jesus e sua mensagem. Nesses textos encontramos exortação ao amor sem medida (cf. Jo 13,34-35), ao perdão incondicional (cf. Mt 18,21-22), exortação à misericórdia e à solidariedade para com os sofredores (cf. Lc 10,25-37; Mt 25,40; Mc 6, 34-44; Lc 6,36; entre outros textos), exortação à paz (cf. Mt 5,9). Fazendo memória destes temas dos discursos de Jesus, podemos perceber que posturas intolerantes, marginalizantes, violentas; nada tem de concordância com a mensagem cristã. Aliás, ele mesmo disse ao apóstolo Pedro: “Guarde sua espada no lugar. Porque todos os que usam da espada, pela espada morrerão.” (Mt 26,52). Aqui podemos verificar que o Messias desaprova a violência, mesmo que esta seja motivada por defender a própria vida, como ocorrido no Getsêmani. Cabe-nos, mais uma vez, perguntar: de onde vem a motivação para tanta intolerância, tanta violência, em nome do Cristo?

Ainda no século 17, mais precisamente no ano de 1685, o filósofo inglês John Locke escreveu sua “Carta sobre a tolerância”. Resultante de seus constantes diálogos e de trocas epistolares com seu amigo Phillip Van Limborch. Locke defendia, entre outras coisas, um apartamento radial entre política (encargo do rei) e religião (ofício dos sacerdotes) como solução para os morticínios causados pelos embates entre os cristãos. Assim, tanto a breve declaração de Helwis, quanto a carta de Locke – e o não menos importante “Tratado sobre a tolerância” (1763) de Voltaire -, são documentos importantes que introduziram de forma racional e estruturada o tema da tolerância religiosa no mundo do ocidente.

Pensadores como os sociólogos alemães Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e o filósofo italiano Norberto Bobbio (para citar os mais proeminentes), com seus contributos ao tema, ajudaram a solidificar no século 20 a discussão e o entendimento políticos de qual deve ser a postura das sociedades modernas na busca de convivência pacífica entre as diferentes crenças. Nas palavras de Habermas, é imperativo a tolerância religiosa, pois “é a arte da convivência entre diferentes”.

Nos últimos 400 anos, desde a reforma protestante, os debates acerca da tolerância religiosa amadureceram filosoficamente, se espraiando para o campo jurídico. Após o final da Segunda Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e de sua celebrada Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, recomendou-se aos Estados signatários promover a livre manifestação de fé como um direito universal, inalienável e indivisível de toda pessoa humana. A tolerância religiosa se tornou um programa político das democracias. No Brasil, quando da promulgação da Constituição Cidadã, em 1988, a liberdade religiosa tornou-se um direito fundamental consagrado pelo Estado, sendo a sua violação passível de crime. O art. 5º, inciso VI, do referido documento, afirma que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”.

Não obstante toda a construção de um pensamento pluralista e tolerante nos âmbitos da religião e da democracia, os crimes contra a liberdade religiosa vem aumentando nos últimos tempos – sobretudo nestes tempos de pandemia. Segundo relatório da ONG internacional Open Doors, em 2020, mais de 340 milhões de casos (contra 260 milhões em 2019), foram registrados no mundo.

Ora, tendo como referências a mensagem cristã e as iniciativas em defesa da tolerância pelo viés filosófico e legal; como se justifica e em que se fundamenta tanto desrespeito às liberdades de fé e vivência religiosa? Com que direito cristãos invadem Comunidades de Religiosidade de Matriz Africana, vandalizando seus terreiros, satanizando sua fé? Sob quais argumentos justificam ameaçar a vida da pastora e teóloga batista Odja Barros, por ter celebrado uma união homoafetiva, segundo sua fé? Qual teologia, filosofia ou lei; justifica as muitas agressões sofridas pelo Padre Júlio Lancelot, em consequência de sua opção pelos muitos marginalizados e marginalizadas em situação de rua? Qual o Cristo eles defendem quando perseguem, marginalizam, agridem aqueles que pensam diferente de sua fé? Sabemos – pelo exposto acima – que estas atitudes não se justificam pela mensagem cristã ou pela lei. Estes que se dizem agir em nome de Cristo, em verdade, atentam contra ele.

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