Judaísmo e Cristianismo – Parte 70: Pessach, Shavuot e Sukot

Por Philippe Haddad [*]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Pessach, é a festa que exige a maior preparação. Por quase um mês, a casa é limpa de cima para baixo a fim de eliminar qualquer vestígio de pão, e de um modo geral os cinco cereais: trigo, cevada, aveia, centeio e espelta (trigo vermelho) – sob a forma sólida ou líquida – que poderiam fermentar numa casa. Essa grande limpeza de primavera faz referência à proibição não somente de comer, mas também de manter, tirar algum proveito daquilo que a Torah nomeia de hametz “material fermentado”.

Em nível do espírito, essa limpeza corresponde a uma introspecção interior. Aqui o hametz simboliza todos os defeitos humanos, sobretudo o orgulho, que é preciso eliminar para merecer sua própria saída do Egito. A imagem é utilizado quando se compara o pão cheio do ar da vaidade, ao pão ázimo que é plano representando o ser humano humilde.

Na tarde de Pessach termina a consagração de todos esses esforços. Toda a família – às vezes três ou quatro gerações – se encontra em volta da mesa para ler a Hagadá, a “Narração” da libertação do Egito. Essa coleção é constituída de versículos bíblicos, textos do Talmud e do Midrash, como um longo comentário, cujo centro da atenção é a criança. Para o Judaísmo, o lugar ideal da transmissão da memória afetiva é a mesa da família, a escola serve somente para aprofundar os conhecimentos. Poderia um pouco ser comparada essa experiência como aquelas grandes noites nas cabanas de palha onde os anciãos transmitiam às novas gerações todo o saber adquirido.

Essa noite começa com um convite lançado aos mais pobres e aos mais necessitados: “Quem tiver fome venha e coma, quem estiver em necessidade, venha celebrar a Páscoa. Este ano escravos, no ano próximo livres; este ano aqui, no ano que vem na terra de Israel“.

A experiência da libertação não deve se transformar numa aventura egoísta e individualista, mas se abrir ao serviço do outro, para ajudar naquilo que lhe falta, seja no plano material (quem tiver fome venha e coma), seja no plano religioso (quem está em necessidade venha celebrar a Páscoa). O judeu, mesmo vivendo a cidadania em seu país, não esquece que a Terra de Israel permanece sempre sendo o centro espiritual do projeto divino, e que o retorno a Sião demonstrará não somente a reunião de todos os exilados, mas também a paz universal anunciada pelos profetas. Em muitas comunidades esse convite se transformou numa grande refeição comum onde numerosas famílias, de estudantes e de pobres se encontram para viver juntos esse momento fundador da fé judaica.

A cerimônia continua com as quatro perguntas feitas pela mais jovem criança, que começa dizendo: “Por que essa noite é diferente das outras?“. Trata-se de um diálogo entre pais e filhos para expressar para as novas gerações aquilo que se recebeu um dia também dos seus próprios pais.

Sobre a mesa um grande prato contendo todo tipo de alimentos de valor simbólico: o pão ázimo em memória da saída às pressas do Egito; ervas amargas evocando a amargura da escravidão, uma compota feita à base de tâmaras, de maçãs e de vinho lembrando a argamassa com a qual os Hebreus construíram as pirâmides; água salgada como as lágrimas, um osso de cordeiro lembrando o cordeiro pascal que foi sacrificado substituindo o sacrifício específico realizado nas festas de peregrinação e símbolo do Templo destruído. Perguntas, respostas, cantos e comentários, comidas e preces, refeição e louvores, disso é feita essa noite diferente que se estenderá até depois da meia-noite.

Na sinagoga, o ofício é organizado durante toda a semana com uma liturgia própria. Durante essa festa o fiel não deve consumir nem pão, nem massa, nem cerveja e nada que seja considerado fermentado “hametz“. A partir da segunda noite de Páscoa, o fiel começa a contar os dias e as semanas que faltam para a festa de Shavuot. Esse período de contagem chama-se Omer, em memória da medida de cevada (o omer) que era oferecido no Templo na manhã seguinte do primeiro dia de Pessach. Mas isso indica também que a libertação física só alcançara seu sucesso mesmo pela aceitação da lei divina.

Shavuot é uma festa discreta se comparada com a da Páscoa ou com Sukot. Aqui não existe sinal algum diferente. Essa teofania grandiosa que marca o encontro de toda a humanidade com o Criador é marcada pela leitura dos Dez Mandamentos na sinagoga. Toda a Festa de Pentecostes esta lá nesse texto de 620 letras[1] cantado num tom mais solene do que o costume e que nos relembra que “Deus fala aos homens e mulheres”. Em numerosas comunidades, se permanece acordado durante toda a noite para estudar a Torah e se preparar deste modo para receber de manhã as Tábuas da Aliança.

Sukot relembra a travessia do deserto e a proteção divina aos Hebreus durante os quarenta anos de sua viagem. Essa alegre solenidade, que marca o final de um ciclo agrícola, é uma festa visível, sobretudo em Israel. Durante uma semana de fato, uma cabana toda feita de folhagens se torna “a morada fixa” da família que aí toma as refeições, alguns chegam até dormirem nela.

Deixar a sua habitação costumeira e se colocar debaixo de um teto frágil, traduz essa preocupação permanente da consciência hebraica de não se acomodar num conforto egoísta, de não fazer da religião um lugar de isolamento e de intolerância mas, pelo contrário, de tornar a religião um alegre convívio, na paz dos corações. A partir de então a sukah (a cabana) se torna prefiguração do encontro dos povos e da reconciliação anunciada pelos profetas. Não é por acaso que na época do Templo, Israel oferecia nessa ocasião 70 touros em sacrifício para as 70 nações da terra, que surgiram após o episódio da Torre de Babel.

Durante essa festa igualmente o fiel agita um ramo de quatro vegetais (palmeira, salgueiro, mirra e cidra) para pedir as chuvas de bênçãos para a terra inteira. Alguns viram nessas quatro espécies os fundadores da identidade de Israel: as três mirras correspondem aos três Patriarcas, a palmeira a José, os dois ramos de salgueiro a Moisés e a Aarão e a cidra a Davi. Uma maneira de religar o rito com a memória. Outros interpretaram os quatro tipos de pessoas na escala moral do mais justo (a cidra) ao mais pobre espiritualmente (o salgueiro), colocados juntos para se unirem e receberem a bênção divina. Essa bela imagem é muitas vezes lembrada em Israel quando nas comunidades as tensões entre leigos, ortodoxos e liberais se tornam mais fortes.


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[*] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[1] “620” que corresponde às 7 leis de Noé que se somam aos 613 preceitos de Israel, um modo de dizer que os Dez Mandamentos dizem respeito à humanidade inteira. Um midrash conta o mesmo sentido quando afirma que o número de comentários de um versículo se eleva a 70 como é o número de nações saídas de Babel.

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