A Virgem Maria e os Santos na Caminhada Cristã

Por Hermes Fernandes

O carinho dos cristãos pelos santos e santas

A vida se constrói por relações. Estas habitam o afetivo, mais que ao racional. Assim nascem os santos católicos. Antes do processo de canonização, já o povo de Deus tem em seus corações o afeto e a admiração por seus referenciais na fé. São homens e mulheres; religiosos de vida consagrada, religiosos leigos, clérigos. Gente de Deus. Gente dos homens. Gente da gente. Pessoas que, por amor ao Reino de Deus, destacaram-se na vida cristã. Tornaram-se lembrados e, consequentemente, celebrados como exemplo e intercessores.

Desde às catedrais, até às pequenas comunidades das periferias do mundo; o povo de Deus atém-se a fazer memória da vida dos seus heróis da fé. Mártires, exemplos de caridade cristã, místicos. Não há santos maiores ou menores. Há santos necessários. Exemplos de seguimento e consagração a Jesus.

Todo cristão recebeu de Deus um chamado básico à santidade ou à perfeição, desde o batismo (cf Constituição Lumen Gentium, nº 40). Disto se segue que aqueles que chegam a esta meta, praticando as virtudes em grau heróico – como nos ensinam os Santos Padres – são os grandes e notáveis vultos de inspiração na História da Igreja. A estes nossos referenciais, chamamos santos.

Por estas observações, com base no Magistério da Igreja, explica-se a veneração (não adoração, note-se bem) prestada aos santos da Igreja. Assim como na sociedade temos a lembrança de personalidades notáveis, o cristão tem um carinho reverente por aqueles que conseguiram chegar ao auge da vocação cristã. Venerando-os, o cristão não deixa de prestar a devida adoração a Jesus, o Cristo, e a Deus Pai, na unidade do Espirito Santo; como bem nos lembra a doxologia. Todo santo é mero reflexo da Santidade de Cristo. É obra excelente da graça do Redentor; por isso, quem venera aos santos, venera-os em função de Cristo, louvando a Deus por quanto fez na vida dos eleitos. A veneração aos santos é, assim, relativa ao Pai. Hino de louvor à Graça Redentora, advinda do Pai, pela pessoa do Filho.

Com outras palavras: a santidade dos heróis da fé não é mais do que a participação na santidade de Cristo. Todas as graças que os homens recebem advindas da devoção aos santos, advêm da Pessoa de Jesus. São espelhos de sua graça.

O fato de que muitos seres humanos participam da santidade de Cristo, não pode deixar de estabelecer uma certa comunhão entre esses seres humanos: são irmãos. São, de algum modo, gêmeos entre si, na condição de peregrinos no caminho para a Vida Eterna. São iluminados e dirigidos pelo mesmo mestre, Jesus – Cabeça da Igreja. De onde provém e para onde tudo concorre no Mistério da Salvação. Nessa comunhão com o Cristo e com os irmãos, não pode faltar o amor. Este que se sintetiza no cuidado mútuo, na oração uns pelos outros, na mútua compaixão; enquanto peregrinos na Terra (cf Ef 6,19s; Rm 15, 30). O amor fraterno, a vida em comunidade, expressa-se em nível de santidade. Por muitas vezes, somos tentados a entender a santidade como algo sobre-humano. Em verdade, erramos em assim a conceber. Ser santos, nada mais se resume, do que crer de tal forma no Evangelho, que a vida é pautada a partir dele. Assim como os primeiros cristãos nos Atos dos Apóstolos. Assim como os Santos Padres, assim como todos homens e mulheres que viveram pelo Evangelho. Amor a Jesus, amor fraterno. Evangelho carne, em nossa própria carne.

Essa expressão do amor fraterno não pode ser extinta pela morte de alguém. “O amor é forte como a morte”, afirma o Cântico dos Cânticos (8,6); Isto quer dizer que o amor não é finito. É inexorável. De onde se segue que entre os peregrinos da Terra e os consumados no céu, continua a haver vínculos de solidariedade fraterna. Deus, que é autor desses vínculos ou dessa comunhão, encarrega-se de mantê-la viva. Ele faz com que os santos tomem conhecimento de nossas necessidades e nossas preces, a fim de que possam interceder por nós na Glória.

A intercessão dos santos na Glória em prol dos irmãos militantes na Terra, já era reconhecida pelo Povo de Deus do Primeiro Testamento, ou seja, trata-se de uma expressão de de fé pré-cristã (tenhamos em vista o texto de 2Mc 15,12-14).

O amor devocional à Maria de Nazaré: Mãe da Igreja e nossa Mãe

É no contexto do exposto acima que se coloca a devoção à Maria Santíssima. No conjunto dos santos, Maria ocupa um lugar único, pois foi chamada a ser a Mãe do Redentor e Mãe dos homens (cf Jo 19,25-27). Disto se segue que a veneração dedicada pelos cristãos à Maria difere da devoção aos demais santos. Prova disso é que existem verdades de fé (dogmas) concernentes à Maria, mas não os há em relação aos outros santos.

Verdade é que os três dogmas marianos não são mais do que o eco de dogmas cristológicos. Com efeito, o Filho de Deus quis fazer-se homem (a Maternidade Divina); para ser digno habitáculo da Divindade, Maria não esteve sujeita ao pecado (de onde vem o dogma da Imaculada Conceição) nem à consequência do pecado, que é o domínio da morte sobre o ser humano (daí a assunção gloriosa de Maria aos céus).

A iminência da veneração à Maria foi expressa no Concílio de Nicéia II, em 787 e.C, mediante o termo “hyperdulia” (superveneração), ao passo que os demais santos são celebrados em “dulia” (veneração). Consequentemente, devemos dizer que a devoção à Maria não é facultativa, ao passo que a devoção a um santo em particular, como São Francisco ou São Bento, o é.

A necessidade da veneração à Maria se deduz do próprio Cristocentrismo da piedade cristã. Sim, São Paulo afirma que “fomos predestinados a ser conformes à imagem do Filho, a fim de ser ele o Primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8,29). Assim, quanto mais o cristão se configura à imagem de Cristo, ou quanto mais se identifica com ele, tanto mais terá em seu íntimo os sentimentos de Cristo. Ora, Jesus era todo Filho do Pai (como Deus) e todo Filho de Maria (como homem). De onde se segue que, quanto mais centrado em Cristo for o cristão, tanto mais deverá sentir-se Filho de Maria. A devoção mariana, portanto, está na lógica mesma do “ser um outro Cristo”, programa de todo cristão. O cristão deve procurar tornar-se para Maria, um outro Jesus.

Diz, muito a propósito, o Pe E. Schillebeechx: “Para quem está verdadeiramente consciente do papel de Maria, é impossível passar sem Maria, uma vida que queira ser cristã, uma vida que não contrarie o apelo de Deus não derrogue a ordem cristã, não negligencie as delicadas atenções de Deus. Os pregadores e as testemunhas da fé devem, por isso, levar a peito a pregação do mistério mariano e valorizá-lo, porque esse mistério está na medula da religião cristã: (in: SCHILLEBEECKX, Edward. Maria, Madre Della Redenzione, San Paolo Edizioni: 1983, pág. 97).

O mesmo autor desenvolve o papel de Maria na atual história da Igreja e de cada um de nós: “Em nossa vida, Maria é o coração que dá. O Coração que compreende as nossas necessidade e que, maternalmente, as expõem ao Filho, o Deus que continua sendo seu Filho. Ela pode lhe dizer, como em Caná: ‘Eles não tem vinho’. Ah, se pudéssemos ouvir o colóquio de Jesus e Maria a nosso respeito, veríamos como estão sempre a par das nossas necessidades. tudo como em Caná. O ‘eles não tem vinho’ vem a ser para nossas vidas ‘falta-lhes dinheiro’, ‘estão na pior das misérias’, ‘seu pai está doente e a mãe tem oito crianças para educar’, ‘eles desejam conformar-se com as leis do matrimônio, mas…’. Não esqueçamos que a vida terrestre atual, de que se ocupam a gloriosa Mãe e o Filho glorificado, só será realmente abençoada se a relacionarmos com as palavras de Maria ao servidores de Caná: ‘fazei tudo o que meu Filho vos disser’. Degustareis então, o que ela vos der em nome do Divino Filho, e direis, como os convidados de Caná: ‘guardaram o melhor vinho para o fim!'” ( Op. cit. , pág. 121).

Concluindo

Como se compreende, pode haver expressões inadequadas da piedade mariana. Também há muitos históricos de fenômenos e aparições que fogem à realidade e, em conseguinte, nada se relacionam ao Magistério da Igreja. Mais inspiradas pelo sentimentalismo do que pelos reais propósitos divinos. Uma leitura Cristológica da devoção mariana deve antevir para o bem viver da fé. A esse propósito, escreveu o Concílio Vaticano II: “O Concílio exorta com todo o empenho aos teólogos e aos pregadores da Palavra Divina a que, na consideração da singular dignidade de Mãe de Deus, abstenham-se com diligência tanto de todo falso exagero, quanto da estreiteza de espírito (…) Com diligência afastem tudo o que, por palavras ou por fatos, possa induzir aos irmãos separados, ou quaisquer outros, em erro acerca da verdadeira doutrina da Igreja. Ademais, saibam os fiéis que a verdadeira devoção não consiste num estéril e transitório afeto, nem em uma certa vã credulidade, mas procede da fé verdadeira, pela qual, somos levados a reconhecer a excelência da Mãe de Deus, excitados a um amor filial para com nossa mãe e à imitação de suas virtudes” (Constituição Lumen Gentium, nº 67).

A devoção à Santíssima Virgem, assim como aos santos e santas, deve ser um exercício espiritual de imitação de seus exemplos no seguimento de Jesus. Um caminho Cristológico. Uma comunhão eclesial. Com Maria e com os santos e santas, somos Igreja que caminha. Parte aqui na Terra, parte no céu. Juntos, preparando o Reino Definitivo.

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