Judaísmo e Cristianismo – Parte 64: O Midrash

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

Como a Mishná ou o Talmud, o Midrash foi um trabalho coletivo. Da raiz darosh “procurar”, o Midrash é primeiro um “método de interpretação” antes de se tornar uma “busca” no plano ético, filosófico ou narrativo a partir da Escritura, a parte puramente de contos traz o nome de Hagadá ou “Narração”.

Consideramos como “método de interpretação”, este religar um ensinamento da tradição oral ao texto escrito. Uma fórmula sempre presente no Talmud é mená hanê milê? “De onde vêm estas palavras?”, em outras palavras: “Como podemos relacionar nosso rito cotidiano (que não está mencionado explicitamente no verso) à Torah?”[2].

Esse tipo de questão era fundamental pois os Saduceus se opunham à existência de uma tradição oral, e era preciso mostrar as relações imprescindíveis entre a tradição oral e a tradição escrita. Nesse sentido, o Midrash foi verdadeiramente o “drash”, foi a “pesquisa” analítica, com a finalidade de fundamentar o rito.

Midrash

O Midrash se tornou um ponto de partida, uma abertura de leitura, começando por uma expressão ou por uma palavra. A partir de então, pouco importa para o autor saber se a narrativa mencionada é verdadeira ou não, mas importa é a lição religiosa ou ética que ela revela. Quando o Talmud pergunta sobre as qualidades da análise, da lógica e da memória ele é obrigatoriamente elitista. Já o Midrash por seu caráter narrativo se dirige à grande massa dos fiéis e ao seu imaginário, e é por isso que este é bem acolhido pelos fiéis.

O Midrash sem dúvida nasceu no retorno do Exílio da Babilônia com Esdras. Alguns doutores foram famosos como rabi Simão ben Shetah, cunhado do rei Alexandre Janeu (Alexander Jané 106-79 a. J. C.), também Shemayá e Avtalion que receberam cada um os títulos de darshan “mestres da arte do drash”. Mas a idade de ouro do Midrash permanece sem dúvida, nos quatro primeiros séculos da nossa era, no momento quando se formavam a Mishná e o Talmud. Foi na Judéia que nasceram as primeiras obras (Século I): a Mekhilta (sobre o Êxodo) atribuída a rabi Ishmael, autor além disso de treze regras de interpretação que exercem um papel chave nas análises do Talmud; a Sifra (sobre o livro do Levítico), chamado também de “o Midrash do Levítico” atribuída a autoria a rabi Yehouda ben Elai e a obra Sifré (sobre os livros de Números e Deuteronômio) atribuída a autoria a rabi Simão bar Yohai. O conteúdo desses livros é metade ritual (halakha) e metade ético ou narrativo (hagada). No Midrash, nós podemos incluir algumas obras místicas como os Capítulos de rabi Eliezer ou as Cartas de rabi Akiba.

Paradoxalmente quando o Talmud da Palestina se fechava em torno do ano 400, o Midrash se desenvolveu no mesmo país. Como explicar essa contradição? Propomos uma resposta: os judeus palestinenses, depois da destruição de Jerusalém e debaixo de condições econômicas desastrosas em que estavam mergulhados, tinham uma forte necessidade de alimentar a sua fé e a sua coragem religiosa. Entre a aridez de uma análise do rito e a abertura de uma homilia narrativa (da hagada), eles escolheram o Midrash, como fez o mesmo no século XVIII Israel Baal Chem Tov que propôs a hassidout ao invés do Talmud aos judeus que estavam no gueto para lhes fazer esquecer a sua miséria terrestre.

Assim nasceram no século IV a Pessikta, o Midrash Tanhouma e sobretudo o Midrash Rabba sobre o Pentateuco e sobre os cinco rolos dos Hagiógrafos, dos Escritos.


[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Por exemplo no Tratado do Talmud – Bênçãos – Berachot 35a: “De onde aprendemos que é necessário recitar uma bênção antes de ingerir alimentos”?

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