Judaísmo e Cristianismo – 63: O Talmud

Por Philippe Haddad [1]
Tradução de Pe. Fernando Gross

63 – O Talmud

Aquilo que a Mishná realizou analisando sobre os textos da Bíblia, os rabinos posteriores fizeram o mesmo com a Mishná. Em geral, em linguagem breve, concisa, cheia de insinuações, a Mishná tinha necessidade de seu próprio comentário. As Academias da Palestina e da Babilônia assumiram a tarefa, a partir do século III, de procurar o sentido exato da obra dos tanaim. Era preciso encontrar a origem das palavras, procurar a ligação entre o texto escrito e a tradição oral, conciliar as diferenças ou as contradições, completar a Mishná apontando conclusões para os novos ou futuros casos, enfim decidir sobre a lei prática. Esse trabalho, começado pelos alunos de Rabi Judá, foi nomeado Guemará “Complemento” ou Talmud “Aquilo que foi estudado”, o segundo termo significa por extensão a tradição oral[2].

Talmud 2

A Bíblia é a pedra angular do Judaísmo, mas o Talmud é a coluna central, que reforçada sobre as fundações, sustenta o edifício intelectual e espiritual. Ele é a obra mais importante da cultura judaica[3].

Existem, na verdade dois Talmud: um de Jerusalém e outro da Babilônia. Os sábios que nele são mencionados trazem o título de amoraim “intérpretes”, título mais modesto que tanaim. De fato, se eles interpretaram a palavra dos anciãos, eles não podem contradizê-la, a não ser que tivessem a garantia de outro sábio da época anterior, um sábio da Mishná[4].

Esses dois Talmud foram escritos sucessivamente, o primeiro sob o domínio romano, o segundo sob o domínio dos Persas e dos Árabes. O Talmud de Jerusalém, que traz o nome da capital da Judéia por causa da fidelidade a sua centralidade religiosa, foi fundado por rabi Yohanan bar Nafa, encarregado por volta de 230 como chefe da Academia de Tiberíades e faleceu em 278. O último Patriarca palestino, rabi Gamaliel bem Yehouda promovido em 385 (segundo outros em 415) parece ter concluído o trabalho de seus antecessores.

E foi precisamente em torno do ano 400 que, perto das margens do rio Eufrates, começou a elaboração do Talmud da Babilônia (hoje Iraque). Quem impulsionou esse imenso trabalho foi rav[5] Achi ou Ache nomeado em 367 como chefe da importante Academia de Soura e falecido em 427. Entre os seus colaboradores citamos o seu filho Mar, seu sucessor imediato Meremar, e depois Ravina, o último dos amoraim, morto em torno do ano 500 foi quem concluiu o Talmud da Babilônia. Porém, muitas outras adições ou correções foram feitas pelos saboraim “polêmicos”, como discípulos que agiram no Iraque durante mais um século, depois vieram os gueonim “notáveis”, dentre eles é preciso citar rav Yehoudai e sua Escola, na primeira metade do século VIII.

Portanto, num intervalo de aproximadamente três séculos e meio, muitos rabinos trabalharam nessa imensa compilação que conquistou sobre o Talmud mais antigo, o da Palestina, um maior prestígio que ele até aos dias de hoje, mais profundo e extenso, também em vista do declínio do Judaísmo da Terra Santa. Será preciso a criação do Estado de Israel em 1948 para ver novamente florescer em todo o país as Academias de estudo do Talmud sobre o seu solo ancestral.


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[1] As publicações desta série sobre o Judaísmo são extraídas da obra do Rabino francês Philippe Haddad, no livro: Como explicar o judaísmo aos meus amigos. A tradução é de Pe. Fernando Gross. In: www.judaismoecristianismo.org
[2] Cf. Haddad, Philippe. Pour expliquer le judaïsme a mes amis. Paris: Éditions In Press, 2013. p. 115.
[3] Cf. Steinsaltz, Adin. Introduction au Talmud. Paris: Éditions Albin Michel, 2013, p.11.
[4] Tratado do Talmud – Misturas – Erouvim 50b – Porta Média – Baba Metsia 5a.
[5] Os rabinos da Palestina eram chamados com o título de “rabi” (meu mestre), os da Babilônia eram chamados de “rav” (mestre).

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